                        Casa de Penso
                        Aluzio Azevedo

                                I

            Desconfia de todo aquele que se arreceia da verdade.

Seriam onze horas da manh.
O Campos, segundo o costume, acabava de descer do almoo e,
a pena atrs da orelha, o leno por dentro do colarinho, dispunha-
se a prosseguir no trabalho interrompido pouco antes. Entrou no
seu escritrio e foi sentar-se  secretria.
Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se grandes
livros de escriturao mercantil. Ao lado, uma prensa de copiar,
um copo d gua, sujo de p, e um pincel chato; mais adiante,
sobre um mocho de madeira preta, muito alto, via-se o Dirio
deitado de costas e aberto de par em par.
Tratava-se de fazer a correspondncia para o Norte. Mal, porm,
dava comeo a uma nova carta, lanando cuidadosamente no
papel a sua bonita letra, desenhada e grande, quando foi
interrompido por um rapaz, que da porta do escritrio lhe
perguntou se podia falar com o Sr. Lus Batista de Campos.
- Tenha a bondade de entrar, disse este.
O rapaz aproximou-se das grades de cedro polido, que o
separavam do comerciante.
Era de vinte anos, tipo do Norte, franzino, amornado, pescoo
estreito, cabelos crespos e olhos vivos e penetrantes, se bem que
alterados por um leve estrabismo.
Vestia casimira clara, tinha um alfinete de esmeralda na camisa,
um brilhante na mo esquerda e um grossa cadeia de ouro sobre
o ventre. Ao ps, coagidos em apertados sapatinhos de verniz,
desapareciam-lhe casquilhamente nas amplas bainhas da cala.
- Que deseja o senhor, perguntou o Campos, metendo de novo a
pena atrs da orelha e pousando um pedao de papel mata-borro
sobre o trabalho.
O moo avanou dois passos, com ar muito acanhado; o chapu.
de plo seguro por ambas as mos; a bengala debaixo do brao.
- Desejo entregar esta carta, disse, cada vez mais atrapalhado
com o seu chapu e a sua bengala, sem conseguir tirar da
algibeira um grosso mao de papis que levava.
No havia onde pr o maldito chapu, e a bengala tinha-lhe j
cado no cho, quando o Campos foi em seu socorro.
- Cheguei hoje do Maranho, acrescentou o provinciano, sacando
as cartas finalmente.
As ltimas palavras do moo pareciam interessar deveras o
negociante, porque este, logo que as ouviu, passou a consider-lo
da cabea aos ps, e exclamou depois:
- Ora espere...O senhor  o Amncio !

O outro sorriu, e , entregando-lhe a carta, pediu-lhe com um gesto
que a lesse.
No foi preciso romper o sobrescrito, porque vinha aberta.
-  de meu pai...disse Amncio.
- Ah!  do velho Vasconcelos ?...Como vai ele ?
- Assim, assim...O que o atrapalha mais  o reumatismo. Agora
est em uso da Sala-e-caroba , do Holanda.
- Coitado! lamentou o Campos com um suspiro. - Ele sofre h
tanto tempo!...
E passou a ler a carta, depois de dar uma cadeira a Amncio, que
j estava para dentro das grades.
- Pois , sim, senhor ! disse ao terminar a leitura . - Est o meu
amigo na Corte, e homem ! Como corre o tempo !...
Amncio tornou a sorrir.
- Parece que ainda foi outro dia que o vi, deste tamanho, a brincar
no armazm do seu pai.
E mostrou com a mo aberta o tamanho de Amncio naquela
poca.
- Foi h seis anos, observou o moo, limpando o suor que lhe
corria abundantemente pelo rosto.
Fez-se uma pequena pausa e em seguida o Campos falou do
muito que devia ao falecido irmo e scio do velho Vasconcelos;
citou os obsquios que lhe merecera; disse que encontrara nele
"um segundo pai "e terminou perguntando quais eram as
intenes de Amncio na Corte. - Se vinha estudar ou empregar-
se.
- Estudar ! acudiu o provinciano.
Queria ver se era possvel matricular-se esse ano na Escola de
Medicina .No negava que se havia demorado um pouquito nos
preparatrios...mas seria dele a culpa ?... S com umas sezes
que apanhara na fazenda da av, perdera trs anos.
Campos escutava-o com ateno. Depois lhe perguntou, se j
havia almoado.
Amncio disse que sim, por cerimnia.
- Venha ento jantar conosco; precisamos conversar mais 
vontade .Quero apresent-lo  minha gente.
O rapaz concordou, mas ainda tinha que entregar vrias cartas e
varias encomendas que trouxera. O Campos talvez conhecesse os
destinatrios.
Mostrou-lhe as cartas ; eram quase todas de recomendao.
- O melhor  tomar um carro, aconselhou o negociante. - Olhe, vou
dar-lhe um moo, a de casa, para o guiar.
E, pelo acstico , que havia a um canto do escritrio, chamou um
caixeiro.
Da a pouco, Amncio saa, acompanhado por este, prometendo
voltar para o jantar.
A casa de Lus Campos era na Rua Direita. Um desses casares
do tempo antigo, quadrados e sem gosto, cujo ar severo e
recolhido est a dizer no seu silncio os rigores do velho comrcio
portugus.
Compunha-se do vasto armazm ao rs-do-cho, e mais dois
andares ; no primeiro dos quais estava o escritrio e  noite
aboletavam-se os caixeiros, e no segundo morava o negociante
com a mulher - D. Maria Hortnsia, e uma cunhada- D. Carlotinha.
A mesa era no andar de cima .Faziam-se duas : uma para o dono
da casa ,a famlia, o guarda-livros e hspedes, se os havia, o que
era freqente ;e a outra s para os caixeiros, que subiam ao
nmero de cinco ou seis.
Apesar de inteligente e de brasileiro, Campos nunca logrou
espantar de sua casa o ar triste que a ensombrecia.  mesa,
quando raramente se palestrava, era sempre com muita reserva
;no havia risadas expansivas, nem livres exclamaes de alegria.
Os hspedes, pobre gente de provncia, faziam uma cerimnia
espessa ; o guarda-livros poucas vezes arriscava a sua anedota e,
s se determinava a isso, tendo de antemo escolhido um assunto
discreto e conveniente.
Campos no apertava a bolsa em questes de comida :queria
mesa farta ;quatro pratos ao almoo, caf e leite  discrio ; ao
jantar seis , sopa e vinho .Os caixeiros falavam com orgulho dessa
generosidade e faziam em geral boa ausncia do patro, que,
entretanto, fora sempre de uma sobriedade rara :comia pouco,
bebia ainda menos e no conhecia os vcios seno de nome.
Aos domingos, e s vezes mesmo em dias de semana, aparecia
para o jantar um ou outro estudante comprovinciano do Campos
ou algum fregus do interior, que estivesse de passagem na Corte
e a quem lhe convinha agradar.
Lus Campos era homem ativo, caprichoso no servio de que ser
encarregava e extremamente suscetvel em pontos de honra ;
quer se tratasse de sua individualidade privada, que de sua
responsabilidade comercial.
No descia nunca ao armazm, ou simplesmente ao escritrio,
sem estar bem limpo e preparado. Caprichava no asseio do corpo
:as unhas, os cabelos e os dentes mereciam-lhe bons desvelos e
atenes.
Entre os companheiros, passava por homem de vistas largas e
esprito adiantado ; nos dias de descanso dava-se todo ao Figuier,
ao Flammarion e ao Jlio Verne, outras vezes, poucas, atirava-se
 literatura ; mas os verdadeiros mestres aborreciam-no e
entreturbavam-no com os rigorismos da forma.
-  um bom tipo ! diziam os estudantes  volta do jantar, e
seguinte domingo l estavam de novo. O "bom tipo" tratava-os
muito bem, levava-os com a famlia para a sala, oferecia-lhes
charutos, cerveja, e nunca exigia que lhe restitussem os livros que
lhes emprestava.
Quanto  sua vida comercial, pouco se tem a dizer. At aos
dezoito anos, Campos estivera no Maranho, para onde fora em
pequeno de sua provncia natal, o Cear. No Maranho fez os
primeiros estudos e deu os primeiros passos no comrcio, pela
mo de um velho negociante, amigo de seu pai.
Esse velho foi seu protetor e o seu guia ;s com a morte dele se
passou o Campos para o Rio de Janeiro, onde, graas ainda a
certas relaes da famlia de seu benfeitor, consegui arranjar-se
logo, como ajudante de guarda-livros, em uma casa de comisses.
Desta saiu para outra, melhorando sempre de fortuna, at que
afinal o admitiram, como gerente, no armazm de uns tais Garcia,
Costa & Cia.
O Garcia morreu, Campos passou a ser interessado na casa
;depois morreu o Costa, e Campos chamou um scio de fora, um
capitalista, e ficou sendo a principal figura da firma.
Por esse tempo encontrou D. Maria Hortnsia, menina de boa
famlia, sofrivelmente ajuizada e com dote. Pouco levou a pedi-la e
a casar-se.
Nunca se arrependera de semelhante passo. Hortnsia sara uma
excelente dona -de- casa, muito arranjadinha, muito amiga de
poupar, muito presa aos interesses de seu marido, e limpa, "limpa
,que fazia gosto!"
O segundo andar vivia, pois, num brinco ; nem um escarro seco no
cho. Os mveis luziam, como se tivessem chegado na vspera
da casa do marceneiro ;as roupas da cama eram de uma brancura
fresca e cheirosa ;no havia teias de aranha nos tetos ou nos
candeeiros e os globos de vidro no apresentavam sequer a
ndoa de uma mosca.
E Campos sentia-se bem no meio dessa ordem, desse mtodo.
Procurava todos os dias enriquecer os trens de sua casa, j
comprando umas jardineiras, que lhe chamaram a ateno em tal
rua ; j trazendo uma estatueta, um quadro, uma nova mquina de
fazer sorvetes , ou um sistema aperfeioado para esta ou aquela
utilidade domstica.
Gostava que em sua casa houvesse um pouco de tudo. No
aparecia por a qualquer novidade ,qualquer novo aparelho de
bater ovos, gelar vinho, regar plantas, que o Campos no fosse
um dos primeiros a experimentar.
A mulher, s vezes, j se ria, quando ele entrava da rua abraado
a um embrulho.
- Que foi que se inventou ?...perguntava com uma pontinha de
mofa.
O marido no fazia esperar a justificao do seu novo aparelho, e,
tal interesse punha em jogo ,que parecia tratar de uma obra
prpria, de cujo sucesso dependesse a sua felicidade. E, logo que
encontrasse algum amigo, no deixava de falar nisso ;gabava-se
da compra que fizera, encarecia a utilidade do objeto e
aconselhava a todos que comprassem um igual.
Campos, depois do casamento, principiou a prosperar de um
modo assombroso ;dentro de trs anos era, o que vimos, - rico,
muito acreditado e seguro na praa.
E, contudo, no tinha mais do que trinta e seis anos de idade.
-  um felizardo ! resmungavam os colegas, com olhar fito.
-  um felizardo !Quem o viu, como eu, h to pouco tempo !...
- Mas sempre teve boa cabea !...
- So fortunas, homem !Outros h por a , que fazem o dobro e
no conseguem a metade !
- No ! ele merece, coitado !  muito bom moo, muito expedito e
trabalhador !
- Homem! Todos ns somos bons !...O que lhe afiano  que
nunca em minha vida consegui pr de parte um bocado de
dinheiro !
E o caso era que o Campos ,ou devido  fortuna ou ao bom tino
para ao negcios, prosperava sempre.

                                ***

s quatro da tarde apareceu de novo Amncio.
Vinha esbaforido. O dia estava horrvel de calor. Campos foi
receb-lo com muito agrado.
- Ento ?disse-lhe. Est livre das cartas ?
- Qual ! respondeu o moo. - tenho ainda cinco para
entregar...Uma estafa ! No Maranho nunca senti tanto calor !...
- Falta de hbito ! observou o outro. Daqui a dias ver que isto 
muito mais fresco !

- Estou desta forma !...queixava-se Amncio, quase sem flego, a
mostrar o colarinho desfeito e os punhos encardidos.
- Suba, volveu o Campos, empurrando-o brandamente .- tome
qualquer coisa. V entrando sem cerimnia.
E, j na escada do segundo andar, perguntou de sbito :- 
verdade !e a sua bagagem ?...
- Est tudo na Coroa de Ouro. Hospedei-me l.
- Bem.
E subiram.
Amncio deixou-se ficar na sala de visita; o outro correu a prevenir
a mulher.
- Nenm !disse ele. Sabes ? hoje temos ao jantar um moo que
chegou do Norte, um estudante.  preciso oferecer-lhe a casa.
Hortnsia respondeu com um gesto de m vontade.
- No ! replicou o negociante.  uma questo de gratido !...Devo
muitos obsquios  famlia deste rapaz ! Lembras-te daquele
velho, de que te falei, aquele que foi que me deu a mo l no
Norte ?...Pois este  o sobrinho,  filho do Vasconcelos. No nos
ficaria bem receb-lo assim ,sem mais nem menos !...
- Mas, Lulu, isto de meter estudantes em casa  o diabo !Dizem
que  uma gente to esbodegada !
- Ora ,coitado !ele at me parece meio tolo ! Alm disso, no seria
o primeiro hspede!...
- Queres agora comparar um estudante com aqueles tipos de
Minas que se hospedam aqui !...
- Mas se estou dizendo que o rapaz at parece tolo...
- Manhas, homem ! Todos eles parecem muito inocentes, e
depois...Enfim, tu fars o que entenderes !... S te previno de que
esta gente  muito reparadeira !
- No h de ser tanto assim!...
E Campos voltou  sala.
Amncio soprava, estendido em uma cadeira de balano, a
abanar-se com o leno.
- Muito calor, hein? perguntou o Campos, entrando.
- Est horroroso, disse aquele.
E resfolegou com mais fora.
- Venha antes para este lado. Aqui para a sala de jantar  mais
fresco. Venha ! Eu vou dar-lhe um palet de brim.
Amncio esquivava-se, fazendo cerimnia ; mas o outro, com o
segredo da hospitalidade que em geral possui o cearense,
obrigou-o a entrar para um quarto e mudar de roupa.
O jantar, como sempre, correu frio e contrafeito. Amncio no
tinha apetite, porque pouco antes comera mes-bentas em um
caf ;Campos, porm, desfazia-se e empregava todos os meios de
lhe ser agradvel.
- V, mais uma fatia de pudim, insistia ele a tent-lo.
- No, no  possvel, respondia o hspede, limpando sempre o
rosto com o leno.
 sobremesa falou-se no velho Vasconcelos e mais no irmo. O
negociante lembrou ainda as obrigaes que devia  famlia de
Amncio, citou pormenores de sua vida no Maranho ; elogiou
muito a provncia ;disse que havia l mais sociabilidade que no Rio
de Janeiro , e acabou brindando a memria de seu benfeitor , de
seu segundo pai.
Maria Hortnsia parecia tomar parte no reconhecimento do marido
e, sempre que se dirigia ao estudante, tinha nos lbios um sorriso
de amabilidade.
Carlotinha no dera uma palavra durante o jantar. Comia vergada
sobre o seu prato e s ergueu a cabea na ocasio de deixar a
mesa.
Amncio, todavia, no a perdera de vista.
s sete horas da tarde, quando se despediu, estava j combinado
que no dia seguinte ele voltaria com as malas, para hospedar-se
em casa do Campos.
-  melhor...disse este -  muito melhor !Ali o senhor no pode
estar bem ;sempre  vida de hotel ! Venha para c ;faa de conta
que minha famlia  a sua.
Amncio prometeu, e saiu, reconsiderando pelo caminho todas as
impresses desse dia.
Mais tarde, deitado na cama do Coroa de Ouro, com o corpo
modo, o esprito saturado de sensaes, procurava recapitular o
que tinha a fazer no dia seguinte ; e, bocejando, via de olhos
fechados, o vulto amoroso de Hortnsia a sorrir para ele,
estendendo-lhe no ar os belos braos, palpitantes e carnudos .

                                 II

No dia seguinte mudava-se Amncio para a casa do Campos.
Seria por pouco tempo, - at que descobrisse um "cmodo
definitivo".
Deixou com algum pesar o hotel. Aquela vida bomia, com os
seus almoos em mesa-redonda, o seu quartinho, uma janela
sobre os telhados, e a plena liberdade de estar como bem
entendesse, tinha para ele um sedutor encanto de novidade.
Nunca sara do Maranho ;vira de longe a Corte atravs do prisma
fantasmagrico de seus sonhos. O Rio de Janeiro afigurava-se-lhe
um Paris de Alexandre Dumas ou de Paulo de Kock, um Paris
cheio de canes de amor, um Paris de estudantes e costureiras,
no qual podia ele  vontade correr as suas aventuras, sem fazer
escndalo como no diabo da provncia.
H muito tempo ardia de impacincia por tal viagem : pensara
nisso todos os dias; fizera clculos, imaginara futuras felicidades.
Queria teatros bufos, ceias ruidosas ao lado de francesas,
passeios fora de horas, a carro, pelos arrabaldes. Seu esprito,
excessivamente romntico, como o de todo maranhense nessas
condies, pedia uma grande cidade, velha, cheia ruas
tenebrosas, cheia de mistrios, de hotis, de casas de jogo, de
lugares suspeitos e de mulheres caprichosas :fidalgas
encantadoras e libertinas, capazes de tudo, por um momento de
gozo. E Amncio sentia necessidade de dar comeo quela
existncia que encontrara nas pginas de mil romances. Todo ele
reclamava amores perigosos, segredos de alcova e loucuras de
paixo.
Entretanto, o seu tipo franzino, meio imberbe, meio ingnuo, dizia
justamente o contrrio. Ningum, contemplando aquele
insignificante rosto moreno, um tanto chupado, aqueles pmulos
salientes, aqueles olhos negros, de uma vivacidade quase infantil,
aquela boca estreita, guarnecida de bons dentes, claros e
alinhados, ningum acreditaria que ali estivesse um sonhador , um
sensual um louco.
Sua pequena testa, curta e sem espinhas, margeada de cabelos
crespos, no denunciava o que naquela cabea havia de
voluptuoso e ruim. Seu todo acanhado, fraco e modesto no
deixava transparecer a brutalidade daquele temperamento clido e
desensofrido.
Amncio fora muito mal-educado pelo pai, portugus antigo e
austero, desses que confundem o respeito com o terror. Em
pequeno levou muita bordoada ; tinha um medo horroroso de
Vasconcelos; fugia dele como de um inimigo, e ficava todo frio e a
tremer quando lhe ouvia a voz ou lhe sentia os passos. Se acaso
algumas vezes se mostrava dcil e amoroso, era sempre por
convenincia : habituou-se a fingir desde esse tempo.
Sua me, D. ngela, uma santa de cabelos brancos e rosto de
moa, no raro se voltava contra o marido e apadrinhava o filho.
Amncio agarrava-se-lhe  saias, fora de si, sufocado de soluos.
Aos sete anos entrou para a escola. Que horror !
O mestre, um tal Antnio Pires, homem grosseiro, bruto, de cabelo
duro e olhos de touro, batia nas crianas por gosto, por um hbito
do ofcio. Na aula s falava a berrar, como se dirigisse uma
boiada. Tinha as mos grossas, a voz spera, a catadura
selvagem ; e quando metia para dentro um pouco mais de vinho,
ficava pior.
Amncio, j na Corte, s de pensar no bruto, ainda sentia os
calafrios dos outros tempos, e com eles vagos desejos de
vingana. Um malquerer doentio invadia-lhe o corao, sempre
que se lembrava do mestre e do pai. Envolvia-os no mesmo
ressentimento, no mesmo dio surdo e inconfessvel.
Todos os pequenos da aula tinham birra do Pires. Nele
enxergavam o carrasco, o tirano, o inimigo e no o mestre ; mas,
visto que qualquer manifestao de antipatia redundava
fatalmente em castigo, as pobres crianas fingiam-se satisfeitas
;riam muito quando o beberro dizia alguma chalaa e afinal,
coitadas ! iam-se habitualmente ao servilismo e  mentira.
Os pais ignorantes, viciados pelos costumes brbaros do Brasil,
atrofiados pelo hbito de lidar com escravos, entendiam que
aquele animal era o nico professor capaz de "endireitar os filhos".
Elogiavam-lhe a rispidez, recomendavam-lhe sempre que "no
passasse a mo" pela cabea dos rapazes e que, quando fosse
preciso, "dobrasse por conta dele a dose de bolos".
ngela, porm, no era dessa opinio :no podia admitir que seu
querido filho, aquela criaturinha fraca, delicada, um mimo de
inocncia e de graa, um anjinho, que ela afagara com tanta
ternura e com tanto amor, que ela podia dizer criada com os seus
beijos - fosse l apanhar palmatoadas de um brutalho daquela
ordem "Ora ! isso no tinha jeito ! "
Mas o Vasconcelos saltava-lhe logo em cima : Que deixasse l o
pequeno com o mestre!... Mais tarde ele havia de agradecer
aquelas palmatoadas !
Assim no sucedeu. Amncio alimentou sempre contra o Pires o
mesmo dio e a mesma repugnncia. Verdade  que tambm fora
sempre tido e havido pelo pior dos meninos da aula, pelo mais
atrevido e insubordinado. Adquiriu tal fama com o seguinte fato :

Havia na escola um rapazito, implicante e levado dos diabos, que
se assentava ao lado dele e com quem vivia sempre de turra.
Um dia pegaram-se mais seriamente .Amncio teria ento oito
anos. Estava a coisa ainda em palavras, quando entrou o
professor, e os dois contendores tomaram  pressa os seus
competentes lugares.
Fez-se respeito. Todos os meninos comearam a estudar em voz
alta, com afetao. Mas, de repente, ouviu-se o estalo de uma
bofetada.
Houve rumor. O Pires levantou-se, tocou uma campainha, que
usava para esses casos, e sindicou do fato.
Amncio foi o nico acusado.
- Sr. Vasconcelos !- gritou o mestre - porque espancou o senhor
aquele menino ?
Amncio respondera humildemente que o menino insultara sua
me .
-  mentira ! protestou o novo acusado.
Amncio repetiu o insulto que recebera. Toda a escola rebentou
em gargalhadas.
- Cale-se, atrevido !berrou o professor encolerizado, a tocar a
campainha.- Mariola! Dizer tal coisa em pleno recinto de aula !
E, puxando a pura fora o delinqente para junto de si, ferrou-lhe
meias dzia de palmatoadas. Amncio, logo que se viu livre, fez
um gesto de raiva.
- Ah ! ele  isso?! Exclamou o professor. - Tens gnio, tratante ?!
Ora espera ! isso tira-se !
E voltando-se para o rapazito que levou a bofetada, entregou-lhe a
frula e disse-lhe que aplicasse outras tantas palmatoadas em
Amncio.
Este declarou fortemente que se no submetia ao castigo. O
professor quis submet-lo  fora; Amncio no abriu as mos. Os
dedos pareciam colados contra a palma.
O professor, ento, desesperado com semelhante contrariedade,
muito nervoso, deixou escapar a mesma frase que pouco antes
provocara tudo aquilo.
Amncio recuou dois passos e soltou uma nova bofetada, mas
agora na cara do prprio mestre. Em seguida deitou a fugir,
correndo.
Um " Oh "formidvel encheu a sala . O Pires, rubro de clera,
ordenou que prendessem o atrevido. A aula ergueu-se em peso,
com grande desordem. Caram bancos e derramaram-se tinteiros.
Todos os meninos abraaram sem hesitar a causa do mestre, e
Amncio foi agarrado no corredor quando ia alcanar a rua.
Mas, quatro pontaps puseram em fugida os dois primeiros
rapazes que lhe lanaram os dedos. Dois outros acudiram logo e o
seguraram de novo, depois vieram mais trs, mais oito, vinte, at
que todos os quarenta ou cinqenta estudantes o levaram 
presena do Pires, alegres, vitoriosos, risonhos, como se
houvessem alcanado uma glria.
Amncio sofreu novo castigo ;serviu de escrnio aos seus
condiscpulos e, quando chegou  casa, o pai, informado do que
sucedera na escola, deu-lhe ainda uma boa sova e obrigou-o a
pedir perdo, de joelhos, ao professor e ao menino da bofetada
Desde esse instante, todo o sentimento de justia e de honra que
Amncio possua, transformou-se em dio sistemtico pelos seus
semelhantes. Ficou fazendo um triste juzo dos homens.
- Pois se at seu prprio pai, diretamente ofendido na questo,
abraara a causa do mais forte!....
S ngela, sua adorada, sua santa me,  noite, ao beij-lo antes
de dormir, depois de lhe perguntar se ficara muito magoado com o
castigo, segredara-lhe entre lgrimas que "ele fizera muito bem ..."
Como aquele ,outros fatos se deram na meninice de Amncio.
Todas as vezes que lhe aparecia um mpeto de coragem, sempre
que lhe assistia um assomo de dignidade, sempre que pretendia
repelir uma afronta ,castigar um insulto, o pai ou o professor caa-
lhe em cima, abafando-lhe os impulsos pundonorosos.
Ficou medroso e descarado.
No fim de algum tempo j podiam na escola , insultar a me
quantas vezes quisessem, que ele no se abalaria ;podiam lanar-
lhe em rosto as ofensas que entendessem porque ele se
conservaria impassvel. Temia as conseqncias de desafronta. "
Estava domesticado" ,segundo a frase do Pires.
Todavia, esses pequenos episdios da infncia, to insignificantes
na aparncia, decretaram a direo que devia tomar o carter de
Amncio. Desde logo habituou-se a fazer uma falsa idia dos seus
semelhantes ;julgou os homens por seu pai, seu professor e seus
condiscpulos. - E abominou-os. Principiou a aborrec-los
secretamente, por uma fatalidade do ressentimento; principiou a
desconfiar de todos, a prevenir-se contra tudo, a disfarar, a fingir
que era o que exigiam brutalmente que ele fosse.
Nunca lhe deram liberdade de espcie alguma :Se lhe vinha uma
idia prpria e desejava p-la em prtica, perguntavam-lhe "a
quem vira ele fazer semelhante asneira ?

Convenceram-no de que s devemos praticar aquilo que os outros
j praticaram. Opunham-lhe sempre o exemplo das pessoas mais
velhas ;exigiam que ele procedesse com o mesmo discernimento
de que dispunham seus pais.
E os rebentes da individualidade, e o que pudesse haver de
original no seu carter e na sua inteligncia , tudo se foi mirrando
e falecendo, como os renovos de uma planta, que regassem
diariamente com gua morna.
 mesa devia ter a sisudez de um homem. Se lhe apetecia rir,
cantar, conversar, gritavam-lhe logo : "Tenha modo, menino!
Esteja quieto ! comporte-se!"
E Amncio, com medo da bordoada, fazia-se grave, e cada vez ia-
se tornando mais hipcrita e reservado. Sabia afetar seriedade,
quando tinha vontade de rir; sabia mostrar-se alegre, quando
estava triste; calar-se, tendo alguma recriminao a fazer; e , na
igreja, ao lado da famlia, sabia fingir que rezava e sabia agentar
por mais de uma hora a mscara de um devoto.
Como o pai o queria inocente e dcil, ele afetava grande toleima,
fazia-se muito ingnuo, muito admirado das cosas mais simples.
-  uma menina!...dizia a me ,convicta - Amancinho tem j dez
anos e conserva a candura de um anjo !
Vasconcelos nunca o puxava para junto de si, nem conversava
com ele, nem o interrogava ;e, quando a infeliz criana, justamente
na idade em que a inteligncia se desabotoa, vida de
fecundao, fazia qualquer pergunta, respondiam-lhe com um
berro : " No seja bisbilhoteiro, menino!"
Amncio emudecia e abaixava os olhos, mas, logo que o perdiam
de vista, ia escutar e espreitar pelas portas.
Com semelhante esterco, no podia desabrochar e melhor no seu
temperamento o leite escravo, que lhe deu a mamar uma preta da
casa.
Diziam que era uma excelente escrava : tinha muito boas
maneiras ;no respingava aos brancos, no era respondona
:aturava o maior castigo, sem dizer uma palavra mais spera, sem
fazer um gesto mais desabrido. Enquanto o chicote lhe cantava
nas costas, ela gemia apenas e deixava que as lgrimas lhe
corressem silenciosamente pelas faces.
Alm disso - forte, rija para o trabalho. Poderia nesse tempo valer
bem um conto de ris.
Vasconcelos a comprara , todavia, muito em conta, " uma
verdadeira pechincha !" porque o demnio da negra estava ento
que no valia duas patacas ;mas o senhor a metera em casa,
dera-lhe algumas garrafadas de laranja-da-terra, e a preta em
breve comeou a deitar corpo e a indireitar, que era aquilo que se
podia ver !
O mdico, porm, no ia muito em que a deixassem amamentar o
pequeno.
- Esta mulher tem reuma no sangue ...dizia ele - e o menino pode
vir a sofrer no futuro.
Vasconcelos sacudiu os ombros e no quis outra ama.
- O doutor que se deixasse de partes !
A negra tomou muita afeio  cria. Desvelava por elas noites
consecutivas e, to carinhosa, to solcita se mostrou, que o
senhor, quando o filho deixou a mama, consentiu em passar-lhe a
carta de alforria por seiscentos mil-ris, que ela ajuntara durante
quinze anos. Mas a preta no abandonou a casa de seus brancos
e continuou a servir, como dantes ;menos ,est claro, no que dizia
respeito aos castigos, porque a desgraada, alm de forra ia j
caindo na idade.
Amncio dera-lhe bastante que fazer. Fora um menino levado da
breca ;s no chorava enquanto dormia e, quando se punha a
espernear, no havia meio de cont-lo.
Era muito feio em pequeno. Um nariz disforme, uma boca sem
lbios e dois rasges no lugar dos olhos. No tinha um fio de
cabelo e estava sempre a fazer caretas.
A princpio - muito achacado de feridas, coitadinho! Os ps frios, o
ventre duro constantemente.
Levou muito para andar e custou-lhe a balbuciar as primeiras
palavras :ngela adorava-o com entusiasmo do primeiro parto ;por
duas vezes sups v-lo morto e deu promessas aos santos da sua
devoo.
Conseguiram faz-lo viver, mas sempre fraquinho, anmico, muito
propenso aos ingurgitamentos escrofulosos.
Quando acabou as primeiras letras, no era, entretanto, dos
rapazes mais dbeis da aula do Pires. Para isso contriburam em
grande parte uns passeios que costumava dar, pelas frias ,
fazenda de sua av materna, em So Bento.
Esses passeios representavam para Amncio a melhor poca do
ano. A av, uma velha quase analfabeta, supersticiosa e devota,
permitia-lhe todas as vontades e babava-se de amores por ele. O
rapaz escondia-lhe o cachimbo, pisava-lhe os canteiros da horta,
divertia-se em quebrar a pedradas as lamparinas dos santos,
suspensas na capela, e,  vezes, quando no estava de boa mar,
atirava com os pratos nos escravos que serviam  mesa.

A av ralhava , mas no podia conter o riso .O netinho era o seu
encanto, o fraco de sua velhice; s um pedido daquele diabrete
faria suspender o castigo dos negros e desviar do servio da roas
algum dos moleques - para ir brincar com Nhozinho. Estava
sempre a dizer que se queixava ao genro e que o devolvia para a
cidade ;mas, no ano seguinte, se Amncio no aparecia logo no
comeo das frias, choviam os recados da velha em casa de
Vasconcelos, rogando que lhe mandassem o neto.
- Mande ! mande o pequeno !aconselhava o mdico.
E l ia Amncio.
S aos doze anos fez o seu exame de portugus na aula do Pires.
Houve muita formalidade. A congregao era presidida pelo
Sotero dos Reis ;havia vinte e tantos examinandos. Amncio
tremia naqueles apuros. No tinha em si a menor confiana.
Foi, contudo, " aprovado plenamente" .Mas no sabia nada, quase
que no sabia ler. Da gramtica apenas lhe ficaram de cor
algumas regras, sem que ele compreendesse patavina do que
elas definiam. O Pires nunca explicava :- se o pequeno tinha a
lio de memria, passava outra, e, se no tinha, dava-lhe
algumas palmatoadas e dizia-lhe que trouxesse a mesma para o
dia seguinte.
Mas, enfim, estava habilitado a entrar para o Liceu onde iria cursar
as aulas de francs e geografia.
O Liceu, que bom !- Oh ! A no havia castigos, no havia as
pequenas misrias aterradoras da escola !No poderia faltar s
aulas ,  certo ! mas, em todo o caso, estudaria quando bem
entendesse e, l uma vez por outra, havia de "fazer a sua parede".
E, s com pensar nisso, s com se lembrar de que j no estava
ao alcance das garras do maldito Pires, o corao lhe saltava por
dentro, tomado de uma alegria nervosa.
                                ***

O Vasconcelos quis festejar o exame do filho, com um jantar
oferecido aos senhores examinadores e aos velhos amigos da
famlia.
 noite houve dana. Amncio convidou os companheiros do ano
;compareceram somente os pobres, - os que no tinham em casa
tambm a sua festa.
O pai, por instncias de ngela, fizera-lhe presente de um relgio
com a competente cadeia tudo de ouro. A av, que se abalara da
fazenda pra assistir ao regozijo do seu querido mimalho , trouxera-
lhe um moleque , o Sabino.
Amncio, todo cheio de si, a rever-se na sua corrente e a consultar
as horas de vez em quando, foi nesse dia o alvo de mil
felicitaes, de mil brindes e de mil abraos.
Alguns amigo do pai profetizavam nele uma glria da ptria e
diziam que o Joo Lisboa, o Galvo e outros no tinham tido
melhor princpio.
Lembraram-se todas as partidas engraadas de Amncio, vieram
 baila os repentes felizes que o diabrete tivera at a. Na cozinha,
a me preta , a ama, contava s parceiras as travessuras do
menino e, com olhos embaciados de ternura, com uma espcie de
orgulho amoroso, referia sorrindo os trabalhos que lhe dera ele, as
noites que ela desvelara.
- J em pequeno, diziam - era muito sabido, muito esperto
!enganava os mais velhos ;tinha lbias, como ningum, para
conseguir as coisas, e sabia empregar mil artimanhas para obter o
que desejava! - No !definitivamente no havia outro !
ngela, a um canto da varanda, assentada entre as suas visitas,
seguia o filho com um olhar temperado de mgoa e doura.
- O que lhe estaria reservado?...o que o esperaria no futuro
?...cismava a boa senhora, meneando tristemente a cabea - Oh!
s vezes cria-se um filho com tanto amor, com tantas lgrima ,
para depois v-lo andar por a aos trambolhes, nesse mundo de
Cristo !...E a idia de que, talvez, nem sempre o teria perto de si,
que nem sempre o poderia obrigar a mudar a camisa, quando
estivesse suado ;obrig-lo a tomar o remdio, quando estivesse
doente ;obrig-lo a comer, a dormir com regularidade ;a evitar,
enfim tudo que pudesse-lhe prejudicar a sade ;oh ! a idia de
tudo isso lhe ent6rava no corao, como um sopro gelado, e fazia
tremer a pobre me.
- Ai ! ai ! disse ela.
- Que suspiros so esses, D. ngela? perguntou o Dr. Silveira,
que estava ao seu lado. Homem ntimo da casa e figura conhecida
na poltica da terra.
- Malucando c comigo,. respondeu a senhora .E como o outro
estranhasse a resposta:- Quem tem filho, tem cuidados ,senhor
doutor !...

- Oh ! Oh! Exclamou este, com um gesto autorizado, abrindo muito
a boca e os olhos. - A quem o diz, Sra. D. ngela, a quem o diz
!...S eu sei o que me custam esses quatro pecados que a
tenho!...
E para provar que dizia a verdade, teria falado nos seus cabelos
brancos, se no os pintasse.
- Quando ngela se afligia daquele modo, sendo rica ;quanto mais
ele- pobre jurisconsulto, com pequenos vencimentos e uma famlia
enorme !...
- Ah! Os tempos vo muito maus...
Puseram-se logo a falar na ruindade dos tempos. " Estava tudo
pela hora da morte! - Comia-se dinheiro ! "
Mas o Silveira voltara-se rapidamente, para dar ateno a
Amncio, que acabava de aproximar-se, em silncio, com ar
presumido de quem tinha conscincia de que toda aquela festa lhe
pertencia.
- Ento, meu estudante !- disse o jurisconsulto, empinando a
cabea - J escolheu a carreira que deseja seguir ?
- Marinha, respondeu Amncio secamente.
A farda seduzia-o. Nada conhecia " to bonito" como um oficial de
marinha.
A me riu-se com aquela resposta, e olhou em torno de si,
chamando a ateno dos mais para o desembarao do filho.
 meia-noite foram todos de novo para a mesa. O Vasconcelos
era muito rigoroso quando recebia gente em casa ;queria que
houvesse toda a fartura de vinhos e comida. Os brindes
reapareceram. Abriram-se as garrafas de Moscato d'Asti, Chateau
Yquem e Champagne.
Conversou-se a respeito dos vinhos de Vasconcelos. " O
Maranho era incontestavelmente uma das provncias onde
melhor se bebia !"
Do meio para o fim da ceia, Amncio sentiu-se outro.
Em uma ocasio, que o pai se afastara da mesa, ele pediu um
brinde e cumprimentou as "pessoas presentes".
Este fato causou delrios. O prprio pai no se pde conter e disse
entredentes, a rir :
- Ora o rapaz saiu-me vivo !
ngela abraou o filho, chorando de comovida.
- Que lhe disse eu ?...resmungou delicadamente o Silveira ao
ouvido dela - Este menino promete !Dem-lhe asas e ho de ver
...dem-lhe asas !...
Amncio foi coberto de ovaes. Batiam-lhe no copo, faziam-lhe
sades. Ele a todos respondia, rindo e bebendo.
Da a uma hora recolheram-no  cama da me, porque lhe
aparecera uma aflio na boca do estmago ;mas vomitou logo e
adormeceu depois , completamente aliviado.
Foi a sua primeira bebedeira.

                               ***

Aos quatorze anos prestou exame de francs e geografia e
matriculo-se nas aulas de gramtica geral e ingls.
J eram vlidos, felizmente, os exames do Liceu do Maranho, e
com as cartas que da houvesse, podia entrar nas academias da
Corte.
Amncio, de[pois da escola do Pires, nunca mais voltou a passar
frias na fazenda da av. Preferia ficar na cidade :tinha namoros,
gostava loucamente de danar, j fumava, e j fazia pndegas
grossas com os colegas do Liceu.
Como o pai no lhe dava liberdade , nem dinheiro, e como exigia
que ele s nove horas da noite se recolhesse a casa, Amncio
arranjava com a me os cobres que podia e, quando a famlia j
estava dormindo, evadia-se pelos fundos do quintal. Era Sabino
quem lhe abria e fechava o porto.
O moleque gostava muito dessas patuscadas. O senhor - moo
levava-o  vezes em sua companhia. Amigos esperavam por eles
l fora, reuniam-se ; tinham um farnel de sardinhas, po, queijo,
charutos e vinho. Era pagodear at pela madrugada !
Se havia chinfrim - entravam, ou ento iam tomar banho no
Apicum ou cear ao Caminho Grande. Em noites de luar faziam
serenatas ;aparecia sempre algum que tocasse violo ou flauta
ou soubesse cantar chulas e modinhas. Aos sbados o passeio
era maior; no dia seguinte Amncio estava a cair de cansao,
aborrecido, necessitando de repouso.
Mas no deixava de ir. - Era to bom passear pela rua , quando
toda a populao dormia; fumar, quando tinha certeza de que
nenhum dos amigos de seu pai o pilharia com o charuto no queixo
;era to bom beber pela

garrafa, comer ao relento e perseguir ima ou outra mulher, que
encontrassem desgarrada, a vagar pelos becos mal iluminados da
cidade !
Tudo isso lhe sorria por um prisma voluptuoso e romanesco.
s vezes entrava em casa ao amanhecer. No podia dormir logo
;vinha excitado, sacudido pelas impresses e pela bebedeira da
noite. Atirava-se  rede, com uma vertigem impotente de conceber
poesias byronianas, escrever coisas no gnero de lvares de
Azevedo, cantar orgias, extravagncias, delrios.
E afinal adormecia, lendo Mademoiselle de Maupuin, Olympia de
Clves ou Confession d'un enfant du sicle.
No penetrava bem na inteno deste ltimo livro, mas tinha-o em
grande conta e, visto conhecer a biografia de Musset, embriagava-
se com essa leitura; ficava a sonhar fantasias estranhas, amores
cticos, viagens misteriosas e paixes indefinidas.
As criadas da casa ou as mulatinhas da vizinhana j o enfaravam
:era preciso descobrir amores mais finos, mais dignos, que, nem
s lhe contentassem a carne, como igualmente lhe socorressem
as nsias da imaginao.
Por esse tempo leu a Graziella e o Raphael de Lamartine .Ficou
possudo de uma grande tristeza ;as lgrimas saltaram-lhe sobre
as pginas do livro. Sentiu necessidade de amar por aquele
processo, mergulhar na poesia ,esquecer-se de tudo o que o
cercava, para viver mentalmente nas praias de Npoles, ou nas
ilhas adorveis da Siclia, cujos nomes sonoros e musicais lhe
chegavam ao corao como o efeito de uma saudade ,amarga e
doce, de uma nostalgia inefvel, profunda, sem contornos, que o
atraa para outro mundo desconhecido, para uma existncia , que
lhe acenava de longe, a pux-lo com todos os tentculos de seu
mistrio e da sua irresistvel melancolia.
Uma ocasio, deitado ao p da janela de seu quarto, pensava em
"Graziella".
A tarde precipitava-se no crepsculo e enchia a natureza de tons
plangentes e doloridos. A um canto da rua um italiano tocava uma
pea no seu realejo. Era a Marselhesa.
Amncio conhecia algumas passagens da revoluo de Frana
:lera os Girondinos de Lamartine. E a reminiscncia do
sentimentalismo enftico dessa obra, coada pela retrica poderosa
da msica de Lisle , trouxe-lhe aos nervos um sobressalto muito
mais veemente que das outras vezes.
Julgou-se infeliz, sacrificado nas suas aspiraes, no seu ideal.
Precisava viver, gozar sem limites!...No ali, perto da famlia,
estudando miserveis lies do Liceu, mas alm, muito alm, onde
no fosse conhecido , onde tudo para ele apresentasse surpresas
de que sua imaginao mal podia delinear.
Por isto estimou deveras ter de seguir para o Rio de Janeiro. A
Corte era "um Paris", diziam na provncia, e ele, por conseguinte,
havia de l encontrar boas aventuras, cenas imprevistas,
impresses novas, e amores, - oh ! amores principalmente !
E, com efeito, desde que ps o p a bordo, principiou a gozar de
novidade, produzida no seu esprito pela viagem.
A circunstncia de achar-se em um paquete, sozinho, ouvindo o
ronrom montono da mquina e sentindo, como nos romances, as
vozes misteriosa dos elementos sussurrarem  volta de seus
ouvidos - encantava-o .Prestava muita ateno aos mais
pequeninos episdios de bordo :olhava interessado para a grossa
figura dos marinheiros que baldeavam pela manh o tombadilho, a
danar com a vassoura aos ps; estudava o tipo dos outros
passageiros, procurando descobrir em cada qual um personagem
de seus livros favoritos; ao abrir e fechar das portas dos
camarotes, espiava sempre, e s vezes lobrigava de relance, ao
fundo do beliche, uma figura plida , ofegante, toda descomposta
na imprudncia do enjo.
Ele  que nunca enjoava.  noite ia fumar para a tolda, estendido
sobre um banco, as pernas cruzadas, os olhos perdidos pelo
oceano.
Vinham-lhe ento as nostalgias da provncia; o corao dilatava-se
por um sentimento morno de saudade. Via defronte de si o vulto
carinhoso de sua me, a chorar, com o rosto escondido no leno,
o corpo sacudido pelos soluos.
Quanto no custou  pobre mulher separar-se do filho ?...Que
violncia no foi preciso para lho arrancarem dos braos !foi como
se pela Segunda vez lho tirassem a ferro das entranhas.
Antes mesmo da partida de Amncio, muito sofrera a msera com
a idia daquela separao. Pensava nisso a todo instante, sem se
poder capacitar de que ele devia ir, atirado a bordo de um vapor,
to sozinho, to em risco de perigos. "Oh ! era muito duro !Era
muito duro ! ..." Mas Vasconcelos opunha-lhe argumentos terrveis
: - O rapaz precisava fazer carreira, Ter uma posio ! No seria
agarrado s saias da me que iria pra diante !H muito mais
tempo devia Ter seguido - o filho de fulano fora aos quinze anos ;
o de beltrano com vinte e trs , e Amncio j tinha vinte. Ia tarde !
ngela que se deixasse de pieguices. Justamente por estim-lo 
que devia ser a

primeira a querer que ele fosse, que se instrusse, que se fizesse
homem ! Alm disso o rapaz a poderia visitar pelas frias, nem
sempre, mas de doeis em dois anos.
ngela parecia resignar-se com as palavras de Vasconcelos
;fazia-se forte :jurava que " no era egosta " que " no seria capaz
de cortar a carreira de seu filho" ; mal, porm o marido lhe dava as
costas, voltava-lhe a fraqueza :vinham-lhe as lgrimas, tornavam
as agonias. Por vezes, no meio do jantar, enquanto os outros riam
e conversavam, ela, que at a estivera a pensar, abria numa
exploso de soluos e retirava-se para o quarto, aflita,
envergonhada de no poder dominar aquele desespero. Outras
vezes acordava por alta noite, a gritar, a debater-se, a reclamar o
filho, a disput-lo contra os fantasmas do pesadelo.
No dia da viagem no se pde levantar da cama, tinha febre,
vertigens ; a cabea andava-lhe  roda. E no queria mais
ningum perto de si, alm do filho, s ele ! "No a privassem de
Amncio ao menos naquele dia ! "E tomava-o nos braos,
procurava agasalh-lo ao colo, como fazia dantes, quando ele era
pequenino. Afagava-lhe a cabea beijava-lhe de novo as mos, os
olhos, o pescoo, envolvia-o todo em mimos, como, se, na santa
loucura de seu amor, imaginasse que eles lhe preservariam o filho
contra os escolhos da jornada e contra os futuros perigos que o
ameaavam.
- Minha pobre me !...suspirava Amncio no tombadilho,
derramando o olhar lacrimoso pela inconstante plancie das guas.
- Minha pobre me!...
E vinham-lhe ento fundas saudades de sua terra, de sua casa e
de seus parentes. As palavras de ngela palpitavam-lhe em torno
da cabea, com uma expresso de beijos estalados. Lembrava-se
dos ltimos conselhos que ela lhe dera, das suas recomendaes,
das suas pequeninas previdncias; de tudo isso, porm, o que
mais lhe ficara grudado  memria foi o que lhe disse a boa velha
muito em particular, a respeito de dinheiro. "Se no te chegar a
mesada, ou se te vierem a faltar os recursos, escreve-me logo
duas linhas, que eu te mandarei o que precisares. Mas no
convm que teu pai saiba disso..."
Para as primeiras despesas na Corte e para os gastos nas
provncias, juntou ao que dera Vasconcelos ao filho, mais
quinhentos mil-ris ;no achava bom, entretanto, que Amncio
saltasse em todos os portos. " Era muito arriscado !Ele no se
deveria expor de semelhante forma !"
E a lembrana do dinheiro puxou logo outros consigo e
arremessou-o no frvolo terreno de seus devaneios tolos e
voluptuosos. Vieram as recordaes ;comeou a desenfiar
mentalmente o rosrio dos amores que acumulara dos quinze
anos at ali.
Era um rosrio extravagante ;havia contas de todos os matizes e
de todos os feitios.
Entre elas, porm, s trs se destacavam, trs belas contas de
marfim :- a filha mais velha do Costa Lobo, a mulher de um
comendador , amigo de seu pai, e uma viva de um oficial do
Exrcito.
E s. Todas as outras suas conquistas no valiam nada ;de
algumas tinha, contudo, bem boas recordaes: a Francisca de
Vila do Pao. Por exemplo, - uma caboclinha, que se apaixonou
por ele e vinha persegui-lo at a cidade ;uma espanhola, mulher
de um tipo barbado e calvo, que andava a mostrar figuras de cera
pelas provncias do Norte, uma senhora gorda, Amasiada com um
boticrio, da qual elogiavam muito as virtudes, mas que um dia
atirou-se brutalmente sobre Amncio , dizendo que o amava e
trincando-lhe os beios. E como estas, outras e outras
recordaes foram-se enfiando e desenfiando pelo esprito
sensual e mesquinho do vaidoso, at deix-lo mergulhado na
apatia dos entes sem ideais e sem aspiraes.
Mas, j no queria pensar nesses amores da provncia ;tudo isso
agora se lhe afigurava ridculo e acanhado. A Corte , sim!  que
lhe havia de proporcionar boas conquistas. " Ia principiar a vida!"
E, nessa disposio chegou ao Rio de Janeiro.

                                III

Estava hospedado h dois dias em casa do Campos; esse tempo
levara ele a entregar cartas e encomendas.  noite, fatigado e
entorpecido pelo calor, mal tinha nimo para dar uma vista de
olhos pelas ruas da cidade.
Entretanto, a vida externa o atraa de um modo desabrido;
estalava por cair no meio desse formigueiro, desse bulcio
vertiginoso, cuja vibrao lhe chegava aos ouvidos, como os ecos
longnquos de uma saturnal. Queria ver de perto o que vinha a ser
essa grande Corte, de que tanto lhe falavam ;ouvira contar
maravilhas a respeito das cortess cnicas e formosas, ceias pela
madrugada, passeios ao Jardim Botnico, em carros descobertos,
o champanha ao lado, o cocheiro bbado; - e tudo isso o atraa em
silncio, e tudo isso o fascinava, o visgava com o domnio secreto
de um vcio antigo.

- Mas, por onde havia de principiar ?...No tinha relaes, no
tinha amigos que o encaminhassem ! Alm disso, o Campos
estava sempre a lhe moer o juzo com as matrculas, com a
entrada na academia, com o inferno de obrigaes a cumprir, cada
qual mais pesada, mais antiptica, mais insuportvel !
- Olhe , seu Amncio, que o tempo no espicha - encolhe !...
bom ir cuidando disso!... Repetia-lhe negociante, fazendo ar srio
e comprometido. - Veja agora se vai perder o ano ! Veja se quer
arranjar por a um par de botas !...
Amncio fingia-se logo muito preocupado com os estudos e falava
calorosamente na matrcula.
Mexa-se ento, homem de Deus! Bradava o outro. - Os dias esto
correndo.
Afinal, graas aos esforos de Campos, consegui matricular-se na
academia, duas semanas depois de Ter chegado ao Rio de
Janeiro.
O medo s matemticas levara-o a desistir da Marinha e agarrar-
se  Medicina, como quem se agarra a uma tbua de salvao ;
pois o Direito, se bem que, para ele, fosse de todas a mais
risonha, no lhe servia igualmente, visto que Amncio no estava
disposto a deixar a Corte e ir ser estudante na provncia.
A medicina, contudo longe de seduzi-lo, causava-lhe um tdio
atroz. Seu temperamento aventuroso e frvolo no se conciliava
com as frias verdades da cirurgia e com as pacientes
investigaes da teraputica. Pressentia claramente que nunca
daria um bom mdico, que jamais teria amor s sua profisso.
Esteve a desistir logo nos primeiros dias de aula : o cheiro
nauseabundo do anfiteatro da escola, o aspecto nojento dos
cadveres, as maantes lies de Qumica, Fsica e Botnica, as
troas dos veteranos, a descrio minuciosa e fatigante da
osteologia, a cara insocivel dos explicadores; tudo isso o fazia
vacilar ;tudo isso lhe punha no corao um duro sentimento de m
vontade, uma antipatia angustiosa, um no querer doloroso e
taciturno.
s vezes, no entanto, pretendia reagir :atirava-se ao Baunis
Bouchard e ao Vale, disposto a ler durante horas consecutivas
,disposto a prestar ateno, a compreender ; mal, porm, ele se
entregava aos compndios, o pensamento, p ante p, ia-se
escapando da leitura, fugia sorrateiramente pela janela, ganhava a
rua, e prendia-se ao primeiro frufru da saia que encontrasse.
E Amncio continuava a ler a estranha tecnologia da cincia, a
repetir maquinalmente, de cor, os caracteres distintivos das
vrtebras, ou a cismar abstrato nas propriedades do cloro e do
bromo, sem todavia conseguir que patavina daquilo lhe ficasse na
cabea.
- No haver uma academia de Direito no Rio de Janeiro
!lamentava ele, bocejando, a olhar vagamente a sua enfiada de
vrtebras, que havia comprado no dia anterior.
Porque, no fim de contas, tudo que cheirasse a cincia de
observao o enfastiava : "Deixassem l , que a tal osteologia e a
tal Qumica nada ficavam a dever s matemticas !..."
Ah ! o Direito, o Direito  que , incontestavelmente, devia ser a sua
carreia. Preferia-o por ach-lo menos spero, mais tangvel, mais
dcil, que outra qualquer matria. E esse mesmo...Valha-me Deus
! tinha ainda contra si o diabo do latim, que era bastante para o
tornar difcil.
E lembrar-se Amncio de que havia por a criaturas to dotadas de
pacincia, to resignadas, to perseverantes, que se votavam de
corpo e alma ao cultivo das artes !...das artes, que, segundo vrias
opinies, exigiam ainda mais constncia e mais firmeza do que as
cincias !...Com efeito,! Era preciso Ter muita coragem, muito
herosmo, porque as tais belas-artes, no Brasil, nem sequer
ofereciam posio social, nem davam sequer um titulozinho de
doutor !
- Qual! No seria com ele !...Fosse gastando quem melhor
quisesse a existncia na concepo de um bom quadro, de uma
boa esttua, de uma pera genial ou de um bom livro de literatura,
que ele ficava c de fora - para apreciar. O mais que podia fazer,
era - aplaudir; aplaudir e pagar ! - E j no fazia pouco !...
Isso justamente ouviu, por mais de uma vez, da boca de seu pai
.O velho .Vasconcelos nunca tomou a srio os artistas "Uns
pedao-d'asnos!" qualificava ele, e, de uma feita em que o Franco
de S lhe comunicou os seus projetos de estudar pintura na
Europa, o negociante fez uma careta e exclamou, batendo-lhe no
ombro: "Homem, seu Sazinho !no seria eu que lhe aconselhasse
semelhante cabeada. .porque, meu amigo, isto de artes  uma
cadelagem! Procure meios de obter cobres, e o senhor ter  sua
disposio os artistas que quiser !"
- E nisto tinha o velho toda a razo, pensava Amncio. Acho
apenas que devia estender a sua teoria at o estudo de certas
cincias...como a Medicina...Sim ! porque , afinal, com o dinheiro
tambm obtemos os mdicos de que precisamos, e no vale a
pena, por conseguinte, gramar seis anos de academia e curtir as
maadas que estou suportando, sabe Deus como !
- Mas ,neste caso, a questo muda muito de figura !dizia-lhe em
resposta uma voz que vinha de dentro de seu prprio raciocnio
No se trata aqui de fazer um "mdico", trata-se de fazer um
"doutor", seja ele do que bem quiser !No se trata de ganhar uma
"profisso", trata-se de obter um "ttulo". Tu no precisas de meios
de vida, precisas  de uma posio na sociedade.

- Visto isso, porm, objetava Amncio, - quero crer que o mais
acertado seria comprar uma carta na Blgica ou na Alemanha ,e
mandar ao diabo, uma vez por todas, aquela peste de Medicina !
Ora, Medicina, Medicina servia para algum moo pobre que
precisasse viver da clnica; ele no estava nessa circunstncias.
Era rico ! s com o que lhe tocava por parte materna, podia passar
o resto da vida sem se fatigar !...Por que, pois, sofrer aquelas
apoquentaes do estudo ? Por que razo havia de ficar preso
aos livros, entre quatro paredes, quando dispunha de todos os
elementos para estar l fora , em liberdade, a se divertir e a gozar
?!...
Mais uma idia sustinha-lhe o vo do pensamento ;o vulto
anglico de sua me vinha colocar-se defronte dele, abrindo os
braos, como se o quisesse proteger de um abismo.
Ah! quanto empenho no fazia a pobre velha em v-lo formado s
direitas, numa faculdade do Brasil ! ... V-lo doutor !...
- Doutor, hein?! repetia Amncio, meio animado com o prestgio
que ao nome lhe daria o ttulo.
E ligava-os mentalmente, para ver o efeito que juntos produziam :
- Doutor Amncio ! Doutor Amncio de Vasconcelos ! No fica mal
! no fica !A me tinha razo : - Era preciso ser doutor !...
E quanto ao gosto, que prazer, no sentiria nisso a querida velha
!...Oh ! ele agora pensava em ngela com muito mais ternura ;nela
resumia toda a famlia e tudo que houvesse de bom no seu
passado. S com a ausncia pde avaliar o muito que a
respeitava e o muito que a estremecia. Ele, que no chorara ao
despedir-se da me; ele, que, algumas vezes chegou at a se
aborrecer de seus desvelos e da insistncia de seus carinhos -
agora no a podia ter na memria, sem ficar com corao opresso
e os olhos relentados de pranto. Pungia-lhe a conscincia uma
espcie de remorso por no se ter mostrado mais afetuoso e mais
amigo, enquanto a possuiu perto de si, por no ter melhor
aproveitado essa ocasio para deixar bem patente que sabia ser
"bom filho".
E punha-se ento a mentalizar planos de melhor conduta para
quando voltasse ao lado de ngela; considerava os mimos que
teria com ela, os afagos que lhe havia de dispensar, os beijos que
lhe havia de pedir.
- Ah ! Se naquele momento ele a tivesse ali , o que no lhe diria !
E, por uma necessidade urgente de expanso, levantou-se da
cadeira em que estava e correu  secretria , disposto a escrever
uma carta, longa, a sua me. Precisava queixar-se do isolamento
em que vivia, contar-lhe as suas tristezas; as suas contrariedades,
justamente com o fazia dantes, em pequeno, ao voltar da aula do
Pires. Sua alma tornava atrs , fazia-se infantil, muito criana,
muito ingnua e carecida de amparo.
A me, enquanto esteve ao lado dele, foi sempre um corao
aberto para lhe receber as lgrimas e os queixumes.
Tambm , s elas, s as mes, podem servir a to delicado mister.
O que se lana ao peito da amante desde logo arde e se evapora,
porque a o fogo  por demais intenso; o que se atira ao de um
estranho gela-se de pronto na indiferena e na aridez; mas, tudo
aquilo que um filho semeia no corao materno - brota, floreja e
produz consolaes. Neste no h chama que devore, nem, frio
que enregele, mas um doce amornecer, suave e fecundo, como a
trepidez de um seio intumescido e ressumbrante de leite.
E escreveu : "Mame "
Hesitou logo. Aquele modo de tratar no lhe pareceu conveniente;
queria uma carta de efeito, com estilo, uma carta a primor, que
desse idia de seu talento e ao mesmo tempo de sua afeio :
"Minha querida me.
Eis-me na grande Corte, que alis me parece estpida e acanhada
por achar-me longe de vossemec..."
Vinham, em seguida, muitos protestos de amor filial e depois uma
extensa descrio da cidade, a qual ocupava duas laudas da carta
. Na terceira escreveu o seguinte:
" Desde que vim da, o Sabino s me tem dado maadas; a bordo
vivia a brigar com os outros criados; aqui nunca me aparece; sai
pela manh e j faz muito quando volta  noite. Pilhou-se sem
castigo e abusa desse modo. Ainda no lhe consegui arranjar a
matrcula no Tesouro e nem sei como isso se obtm; o Campos 
que h de ver.
" Como sabe, h ms e meio que me acho hospedado em cada
deste. Aqui nada me falta,  certo, mas igualmente nada me
satisfaz, porque estou muito isolado e aborrecido. A famlia 
atenciosa o quanto pode ser comigo; eu, porm , apesar disso ,
no deixo de ser para eles um estranho e , como tal, apenas
recebo cortesias e hospitalidade. D. Maria Hortnsia  amvel,
mas por uma simples questo de delicadeza; da irm, D.
Carlotinha, nem  bom falar !Esta, se j me dispensou duas
palavras, foi o mximo, parece at que tem medo de olhar para
mim ;talvez com receio de desagradar ao guarda-livros, que, pelos
modos,  l o seu namorado. Do que no resta dvida  que o tal
guarda-livros  de todos o mais antiptico e difcil de suportar. Um
hipcrita !Est sempre com a carinha n' gua e j, por vrias
vezes, se tem querido meter a espirituoso c para o meu lado. -
So ditinhos,

indiretas de instante a instante. Eu, qualquer dia destes, o chamo
 ordem! Ainda no h uma semana, veja isto! fui a um espetculo
dramtico no So Pedro de Alcntara e  volta, quando cheguei 
casa, quis acender a vela para estudar. Quem disse?...o fogo no
se comunicava ao pavio. Verifico :- no lugar da torcida haviam
posto um prego ;fiquei com os dedos queimados. E esta graa no
foi de outro seno o tal cara de mono !
" J me lembrou mudar-me ;o Campos, porm, acha que o no
devo fazer enquanto no descobrir por a um bom cmodo, em
alguma casa de penso."
E no mesmo teor ia por diante , at encher duas folhas de papel
marca pequena. Amncio narrava  me todos os seus passos e
todos os seus desgostos, sem lhe confessar, todavia, que o
principal motivo daquele descontentamento estavas em no poder
recolher de noite s horas que entendesse; em Ter por nico
companheiro de passeios o Lus Campos, cuja sobriedade nos
gestos e costumes, discrio nos termos, cujo aspecto repreensivo
e pedaggico, de mentor, faziam-no j perfeitamente insuportvel
aos olhos do estudante.
- Ora adeus !considerava este, deveras enfiado. - No foi para a
me fazer santo, que vim ao Rio de Janeiro !
Boas !Podia l estar disposto a sofrer aquele ele maante do
Campos !...Mas tambm no seria muito divertido andar sozinho
pela cidade, a trocar pernas, sem um companheiro, sem um
amigo. Alm disso temia do seu provincialismo, receava "fazer
figura triste"; ainda no conhecia o preo das coisa e o nome das
ruas. No Maranho falavam com tanto assombro dos gatunos da
Corte! _os tais capoeiras! E Amncio sobressaltava-se pensando
num encontro desagradvel, em que lhe cambiassem o dinheiro e
as jias por uma navalhada.
Seu maior desejo era Ter ali um dos amigos da provncia, a quem
confiasse as impresses recebidas e com quem pudesse
conversar livremente,  franca , sem medir palavras, nem tomar as
enfadonhas reservas e composturas, que lhe impunha a censria
presena do negociante.
Por isso, numa ocasio , em que atravessava pela manh o Beco
do Cotovelo, sentiu grande alegria ao dar cara a cara com o Paiva
Rocha. O Paiva era seu comprovinciano e fora seu condiscpulo;
pertenceram  mesma turma de exames na aula do Pires e
matricularam-se juntos no Liceu. Mas, enquanto o filho do
Vasconcelos estudou as trs primeiras matrias, o outro fez todos
os preparatrios.
Abraaram-se. Houve exclamaes de parte a parte.
- Ora o Paiva !disse Amncio afinal, encarando o amigo com um
olhar muito satisfeito. - No te fazia aqui na Corte !
- Estou na Politcnica.
- Ah! exclamou Amncio ,com interesse. - Que ano ?
- Terceiro.
- Bom. Ests quase livre !-
- Qual! resmungou o Paiva, mascando o cigarro. - tenho ainda
muito que aturar!
E passaram ento a falar de estudos. Amncio fazia
recriminaes: "S encontrara dificuldades". Disse a sua antipatia
pelas cincias prticas ;queixou-se de alguns veteranos, que por
serem mais antigos na escola, se julgavam com direito de
maltratar os outros. "Era estpido! simplesmente estpido!"
- Tradies ! respondeu o Paiva, com a indiferena de quem no
preocupam tais bagatelas. - Isso h de acabar...A natureza no d
saltos !
Amncio, como qualquer provinciano que ainda no tivesse
ocasio de apreciar o Rio de Janeiro,, julgava-se to desiludido a
respeito dele, quanto a respeito de estudos.
- Sempre imaginei que fosse outra coisa !...disse. - A tal Rua do
Ouvidor, por exemplo!...
Paiva j no o ouvia, era todo ateno para um cartaz de teatro,
que um sujeito pregava na parede defronte.
Amncio prosseguiu, declarando que, at ali, nada encontrara de
extraordinrio na Corte.
- Com franqueza - _antes o Maranho ! Com franqueza que antes
! No achas?...perguntou.
-  ! respondeu o outro, distrado.
Mas Amncio precisava desabafar e no se contentou com aquela
resposta. Insistiu na pergunta; chamou a ateno do Paiva,
agarrando-se-lhe  gola esgarada do fraque.
- No, filho, deixa-te disso, retorquiu o interrogado. - A Corte
sempre  Corte!...
- Ora qual !
-  porque ainda no ests acostumado, ainda no conheces o
Rio! Hs de ver depois !...
Amncio duvidava.
- Vers ! repetia o Paiva.- Daqui a um ou dois anos  que te quero
ouvir.
E passaram de novo a falar de estudos, matrcula e de exames.
Paiva bocejou; o outro estava "caceteando'' .Quis safar-se.
- Espera ! implorou Amncio, apoderando-se-lhe de novo da gola
do fraque - Espera!

Onde vais tu ?... Conversa mais um pouco! suplicava ele com a
voz infeliz de quem pede uma esmola. No te vs ainda ! Que
pressa !
Paiva tinha de ir almoar com um amigo. Estava muito ocupado!
"Naquele dia no dispunha de um momento seu" Depois ,depois
se encontrariam !
- No! Vem c! Espera!
O Paiva levantou as sobrancelhas, impacientando-se.
- Mas, vem c, dize-me uma coisa: o que  que tanto tens hoje a
fazer?...inquiriu o outro.
- Filho, questes de interesse! respondeu aquele, procurando
abreviar explicaes. Veio-lhe, porm, um mpeto de raiva e
comeou a falar alto sobre dinheiro; havia brigado na vspera com
o seu correspondente.
- Um burro! exclamava,- um vinagre! Imagina tu que o malvado
sabe perfeitamente que no tenho ningum por mim aqui no Rio, e
pe-se com dvidas para me dar a mesada! ...Como se aquele
dinheiro lhe sasse do bolso! Diabo da peste!
- Ele ento no te quis dar a mesada ?...perguntou Amncio muito
espantado.
-  o costume aqui !retrucou o Paiva desabridamente.- Eles julgam
que nos fazem grande obsquio em dar-nos aquilo que nos
pertence!
E, olhando para Amncio com os olhos apertados:
- Mas tambm, filho, disse-lhe meia dzia de desaforos, como ele
nunca ouviu em sua vida! Co!
E exps a descompostura por inteiro, na qual as palavras galego
,ladro, cachorro entravam repetidas vezes.
- De sorte que, terminou o estudante mais tranqilo, como se
houvesse despejado um peso nas costas,- no tenho l ido !
Questo de capricho, sabes ? olha, estou assim !
E bateu nas algibeiras.
- Isso arranja-se ...disse Amncio timidamente, receoso de
humilhar o colega. E depois, com um vislumbre: Vamos almoar a
um hotel ?!
O Paiva concordou, sacudindo os ombros. E, como Amncio
perguntasse onde deviam ir, comeou a citar os melhores hotis;
j sem deixar transparecer o menor indcio de pressa.
Fazia-se grande conhecedor da Corte, muito carioca, saboreando
muito voluptuosamente o efeito de pasmaceira, que a sua
superioridade causava no amigo. Deu-se logo ares de cicerone ;
mostrou-se habituadssimo com tudo aquilo que pudesse causar
admirao a um provinciano recm-chegado; fingiu desdm por
umas tantas coisas, que  primeira vista pareciam boas e falou de
outras, menos conhecidas, com entusiasmo, com interesse
pessoal e com orgulho.
Amncio escutava-o em recolhido silncio, mas, como estivesse a
cair de apetite, voltou logo  idia do almoo: lembrou que
poderiam ir ao Coroa de Ouro.
Paiva fitou-o espantado, e espocou depois uma risada falsa:
- Aquela era mesma de quem vinha do Norte! Almoar no Coroa
de Ouro Vade retro !
Amncio no teve nimo de defender a sua proposta, e seguiu o
companheiro que pusera a andar com mpeto.
Entram na Rua do Carmo, atravessaram a de So Jos e, ao
carem na da Assemblia, Paiva, que ia a pensar, voltou-se de
sbito para Amncio e perguntou-lhe decisivamente :
- Tu queres almoar bem ?!
E feriu a ltima palavra.
-  ! respondeu o outro.
- Pois ento vamos ao Hotel dos Prncipes !
E seguiram pela Rua Sete de Setembro at o Rocio.
                                ***

Ao penetrarem no largo, uma menina italiana, de alguns dez anos
de idade, toda vestida de luto, morena, o ar suplicantemente
risonho e cheio de misria ,abraou-se s pernas de Amncio,
pedindo-lhe dinheiro - para levar  me que estava em casa
morrendo de fome.
- Sai ! gritou-lhe o Paiva, procurando arred-la.
Mas a pequena ajoelhou-se, sem largar as pernas do calouro, de
uma de cujas mos j se tinha apoderado e cobria de beijos
- Ento, papai! papaizinho bonito ! uma esmolinha, sim?...dizia ela,
voltando para o moo seus belos olhos de crianas, rindo com uns
dentes muito brancos que se lhe destacavam vivamente da cor
morena do rosto.

- Coitadinha ! lamentou Amncio, fazendo-lhe uma festa no queixo
e procurando dinheiro na algibeira das calas..
Puxou um mao grosso de cdulas.
- No sejas tolo! gritou-lhe o companheiro. - Isto  especulao de
algum vadio! Vestem por a essas bichinhas de luto e mandam-
nas perseguir a humanidade!  uma esperteza, no sejas tolo !
A pequena lanou ao Paiva um gesto de raiva e sorriu para
Amncio, suplicando.
- Em todo o caso faz d, coitada! murmurou este, dando-lhe uma
cdula de dois mil-ris.
A italianinha agarrou-se ao dinheiro e olhou surpresa para o
calouro. Depois beijou-lhe novamente as mos, e fugiu, atirando-
lhe beijos.
- Coitada ! repetiu ele.
- Ainda est muito peludo! resmungou o Paiva.- Olha que isto por
c no  o Maranho!
E ps-se logo a falar nas especulaes do Rio de Janeiro. Contou
fatos horrorosos de cinismo e gatunagem. "Amncio que se
acautelasse: no caminho em que ia, lhe haviam de arrancar at os
olhos.- Ali, a cincia de cada um consistia em fazer com que o
dinheiro passasse das algibeiras dos outros para as prprias
algibeiras". Estava indignado ! "No podia, a sangue -frio, ver
assim se atirar  rua - dois mil-ris !Ah! se o outro soubesse
quanto o dinheiro custava a ganhar, no teria as mos to rotas !"
E mostrava-se extremamente empenhado nos interesses do
colega : dava-lhe conselhos ;
havia de abrir-lhe os olhos, indicar-lhe o verdadeiro caminho a
segui. " No !Que ele no era desses, que s querem desfrutar !...
Quando simpatizava com um rapaz, sabia ser amigo !
Amncio o veria no futuro!...
- Olha ! segredou-lhe ,passando-lhe um brao nas costas, - Hs
de encontrar por a muito artista !Acautela-te, filho !acautela-te,
que os cabras sabem levar gua ao seu moinho !Digo-te isto,
porque te estimo, porque sou teu amigo, percebes ?
Amncio percebia e jurava ser muito grato quela dedicao.
Tiveram . porm, de interromper o dilogo :dois outros estudantes
acabavam de parar defronte deles.
Eram amigos do Paiva. Houve logo novas exclamaes e
cumprimentos rasgados.
- Meus senhores, exclamou aquele. apresentando Amncio. O
nosso colega, Amncio de Vasconcelos, estudante de medicina.
Escuso dizer que  muito talentoso e um carter excelente.
Os dois apertaram a mo de Amncio com solenidade, e
afianaram que tinham imenso gosto em conhec-lo.
- Joo Coqueiro e Salustiano Simes !nomeou o Paiva, indicando
os dois. - So ambos da Politcnica E acrescentou em voz baixa,
ao ouvido de Amncio, mas de modo que fosse ouvido por todos:
- Muito distintos !...
O Coqueiro observava em silncio o novo colega ;enquanto o
Paiva e o Salustiano reatavam um velho colquio, interrompido 
ltima vez que estiveram juntos; saiu do seu recolhimento para
indagar de que provncia era Amncio, como ia-se dando nos
estudos e onde estava hospedado. Entretanto, o Simes
afrouxava lentamente na conversa com o outro e caa aos poucos
na sua habitual concentrao; j respondia apenas por
monosslabos e s despregava o cigarro dos dentes para bocejar.
Afinal, sem conter a impacincia, quis dissolver o grupo; mas
Amncio tolheu-lhe a idia perguntando-lhe e mais ao Coqueiro se
j tinham almoado e, visto que no, pediu-lhes que lhe fizessem
companhia.
Aceitaram, depois de alguma resistncia por parte do ltimo; e os
quatro rapazes seguiram imediatamente caminho do hotel, a rir e
dar de lngua, como se fossem todos amigos de muito tempo.
Paiva Rocha pediu um gabinete particular e a se instalou com os
outros.
Amncio estava maravilhado. O aspecto daquelas salas
afestoadas, cheias de espelhos, de cortinas e douraduras , no
gnero pretensioso dos hotis, ar parisiense dos criados, vestidos
de preto e avental branco; a cor estridente do gabinete; o perfume
das flores que guarneciam jarras de propores luxuosas; o
alvoroo palavroso e alegre dos que faziam a sobremesa; o
crepitar do riso das mulheres, cujos penteadores branquejavam
sobre o escuro dos tapetes; a reverberao dos cristais; a
expectativa de um bom almoo, que seria devorado com apetite, e
finalmente a circunstncia de que Amncio, havia muito no
gozava uma pndega; tudo isso lhe refrescava o humor e o fazia
feliz naquele momento
- Garon! Gritou o Paiva, entrando no gabinete com um ar sem -
cerimnia.- La carte !
O criado disparou.
- Tu falas francs ?...inquiriu Amncio, j com admirao na voz.

- Ora ! respondeu o Paiva, levantando os ombros. Aqui na Corte
ser difcil encontrar algum que no fale francs!...
- Pois eu ainda no sei...disse aquele tristemente..
- Questo de prtica! observou o outro.
Coqueiro, que acabava nesse momento de entrar no gabinete,
conversando com Simes, props que se despissem os palets.
Principiaram a comer.
O Paiva encarregara-se do menu. Estava radiante; parecia
empenhado na direo do almoo, como se tratasse de um
trabalho difcil e glorioso. Escolhia pratos esquisitos e determinava
os vinhos que os deviam acompanhar.
- Este Paiva  terrvel para um menu! observou o Simes em ar de
troas.
- No! disse aquele. - No admito que ningum dirija um almoo
melhor do que eu!
- Sim, considerou o Coqueiro - mas vais ver por que preo sai tudo
isso !...
- No faz mal !...apressou-se Amncio a declarar.- Sinto-me to
bem entre os senhores...h tanto tempo no tinha um momento
livre, que...
- Bem, de acordo, respondeu Coqueiro - mas  preciso deixar
esse tratamento de "senhor".
Entre rapazes no deve haver cerimnias, mal-entendidos; somos
colegas, temos de ser amigos, por conseguinte tratemo-nos desde
j por "tu "! No s da mesma opinio,  Paiva ?
- In totum! respondeu este, abraando Amncio pela cintura. - Ns
c somos camaradas velhos! vem de longe!
E parecia querer provar que seus direitos sobre o comprovinciano
eram muito mais legtimos que os dos outros dois; que Amncio
lhe pertencia quase exclusivamente, como um tesouro, como uma
fortuna que se traz do bero. E, para deixar isso bem patente,
fazia-se muito ntimo com ele: batia-lhe nas pernas; evocava
recordaes; lembrava-lhes as correrias das provncia:
- Ah ! Ns ramos muito camaradas ! Lembras-te Amncio
daquele passeio que fizemos ao Portinho ?...
- Em que o Malheiros tomou uma bebedeira de charuto, perguntou
o interrogado a rir. - Naquele dia do barulho no Liceu; quando o
Chico moleque foi expulso !...
-  verdade! que fim levou esse rapaz! Quis saber o Paiva. - Era
um bom tipo. Inteligente!
- Morreu, coitado! de bexigas. Ultimamente estava no comrcio.
- E aquele pequeno, o ...
- Qual ?
- Aquele bonito, de cabelos grandes ...ora, como se chamava ele?
... o ...
- Ah ! exclamou Amncio, soltando uma risada - o Dominguinhos ?
- Isso ! isso! Dominguinhos justamente ! Que fim levou ?
- No sei, no! Creio que seguiu para Manaus com a famlia. Um
bobo ! Lembras-te da troa que lhe fizemos no convento?...
E os dois riram-se muito com a mesma idia.
Simes, que at ali parecia pouco disposto  pndega, foi-se
animando na proporo das garrafas que se enxugavam. O
almoo aquecia. Joo Coqueiro props um brinde a Amncio e
declarou, depois de lhe fazer muitos elogios, que folgaria imenso
com ser recebido no rol de seus amigos.
Amncio abraou-o e prometeu que o iria visitar no primeiro
Domingo.
- V feito ! sustentou o Coqueiro. Ali no h cerimnia, minha
famlia  muito despida dessa coisas.
- Ah ! mora com a famlia ? interrogou o provinciano.
- Sou casado, respondeu o outro.- Isso, porm ,nada quer dizer.
Aparea.
Ficou decidido que Amncio iria sem falta no prximo Domingo.
Simes principiou ento a falar sobre o casamento ;da passou s
mulheres: descreveu a sua indiferena por elas. S lhes conhecia
dois gneros : "a mulher cnica e a mulher hipcrita".
Paiva Rocha protestava: - Havia muita mulher honesta,
verdadeiros anjos de virtude ! E que deixassem de falar ! em
certas ocasies uma boa rapariga tinha o seu cabimento ! Sim
!Quem no gostava da esttica ?...
Amncio era da mesma opinio, e queixou-se de sua infelicidade
no Rio a esse respeito.
- Ainda  cedo ! elucidou o Salustiano .- Quando te comearem as
aventuras, hs de ver o quer vai por essa sociedade !
- No  tanto assim! ops o Coqueiro.- Vocs so todos homens
dos extremos!
E voltando-se confidencialmente para Amncio :

- O doutor, decerto, encontrar uma mulher perigosa, de quem
deve fugir como o diabo da
cruz; mas ter tambm ocasio de ver algumas raparigas bem
educadas, honestas e inteligentes. No as v procurar na alta
sociedade, no ,que a se escondem as piores! mas indague-as
por baixo, na mediocracia, que as h de descobrir. E olhe, se quer
aceitar um conselho de amigo, case-se! No h melhor vidinha!
Estou casado h trs anos e ainda no tive um segundo de
arrependimento !...Ao menos conserva-se a sade, desenvolve-se
o esprito e trabalha-se mais ...O mtodo, homem ! o mtodo  o
segredo da existncia !
E, puxando a cadeira par mais perto de Amncio, falou-lhe em voz
baixa. Que no Rio de Janeiro era preciso ter um amigo sincero,
no que "primasse nos menus ", mas que fosse capaz, que tivesse
imputabilidade moral ! - Amncio estava defronte de duas
estradas; uma que conduzia  verdadeira felicidade e outra que
conduzia  desordem, ao vcio e  completa desmoralizao! Que
se no deixasse levar pelos pndegos !... (E olhava  esconsa os
dois outros companheiros. ) Aquilo era gente sem nada a perder!...
Amncio, enfim, que aparecesse no Domingo e teriam ocasio de
falar mais de espao. No deixasse de ir: havia muito que dizer e
conversar.
Amncio prometeu de novo.
O almoo chegara ao ponto em que todos os comensais falam
todos ao mesmo tempo e em voz alta. Havia agitao;
afogueavam-se as faces ao reflexo vermelho das paredes do
gabinete. Simes discutia com o Paiva a incompetncia dos
professores da Politcnica.
- Uma scia ! uma cambada ! sintetizava ele. - Se fosse preciso
despedir dali os que no prestam, no ficaria nenhum!
O outro protestava, gritando e batendo punhadas sobre a mesa.
Havia j dois copos quebrados.
O criado trouxera a sobremesa, - uma salada russa.
Paiva pediu gelados e quis que lhe dessem uma omelette au
rhum. "No podia passar sem isso ao almoo!"
Suavam.
Amncio tornava-se expansivo: falou de seus amores na
provncia; contou as suas intenes a respeito da mulher do
Campos.
- Ela parece que o que tem  medo. dizia.- Mas eu sou
perseverante ! Espero !
- Menino, segredou-lhe o Paiva. - Vai aproveitando, porque  isso
o que se leva deste mundo!
- E o mais so histrias !...concluiu o filho de Vasconcelos.
E fazia-se muito fino, perigoso, e continuava a parolar com
embfia, loquaz um pouco sacudido pelo almoo.
Coqueiro estudava-o de socapa, a seguir-lhe os gestos, a fariscar-
lhe as intenes. Dos quatro era o nico que no estava tonto:
seus olhos, pequenos e de cor duvidosa, conservavam a mesma
penetrao e a mesma fixidez incisiva de ave de rapina; sua boca
estreita, bem guarnecida e quase sem lbios, tinha o mesmo riso
arqueado, mal seguro e frio, de quem escuta e observa.
Era de altura regular, compleio tica, rosto comprido, de um
moreno embaciado, pouca barba, pescoo magro , nariz agudo,
mos plidas e secas, voz doce e cabelo muito crespo, de colorido
incerto, entre castanho e fulvo. Tinha vinte e sete anos, mas
aparentava, quando muito, vinte e dois.
O Paiva erguera-se para fazer um bestialgico, e soltava de
enfiada frases sonoras e ocas de sentido: ouvia-se falar em
"gazofilceos, camelos da Patagnia e constelaes hbridas do
mapa-mndi". Simes, o macambzio, derreara a cadeira contra a
parede e jazia a palitar a boca, estendido para trs, em uma
posio de homem farto: barriga ao vento, braos moles e um
olhar muito pando, que se lhe entornava por todo o rosto em
sorrisos de preguia. Amncio reatava a sua conversa com o
Coqueiro
-  como lhe digo, recapitulava este. - Aquilo no  um hotel, 
uma - casa de famlia !No temos hspedes, temos amigos! Minha
mulher  quem toma conta de tudo!...E dando  voz um tom grave
:- Ela  muito asseada, muito exigente em questes de comida!
Voc no imagina !...Ao almoo temos trs pratos, a escolher,
leite, ch ou caf, e vinho ;pelo almoo pode calcular o que no
ser o jantar !- E depois  preciso observar a qualidade dos
gneros !...enfim, s mesmo voc indo ver !
Amncio reprometia.
- Fica-se muito melhor em uma casa de famlia, continuava o
outro. A vida em hotel ou a vida em repblica  o diabo: estraga-se
tudo, - o estmago, o carter, a bolsa ;ao passo que ali voc tem o
seu banho frio pela manh, torradas  noite e, se cair doente ( o
que lhe no desejo ), h quem o trate, quem lhe prepare um
remdio, um caldo, um suadouro, um escalda-ps...Olhe ! at, se
voc quiser eu...
Mas a porta abriu-se com violento empuxo , e uma mulher loura,
gorda, vestida de seda amarela, precipitou-se no gabinete,
espavorida, a soltar gritos. Vinha-lhe no encalo um sujeito idoso,
cheio de corpo, o chapu a r, o olhar desvairado e convulso.

- Podes ir para onde quiseres, que eu no te deixo ! berrava ele
em fria, a dardejar o guarda-chuva sobre as costas da
perseguida; esta corria de um lado para outro, procurando
escapar-lhe, mas o sujeito agarrou-a pelos cabelos e consegui
traz-la contra si, levando os dois aos trambolhes tudo o que
encontravam no caminho.
Em menos de um segundo era completa a desordem no gabinete.
Caram cadeiras; a mesa estremeceu com um encontro, e a
saleira e duas garrafas perderam o equilbrio e tombaram,
varrendo copos e esmagando pratos. O tal guarda -chuva havia
num dos golpes espatifado os globos do candeeiro, e um dos
fragmentos do vidro fora de encontro ao espelho e o fizera em
pedaos.
- Isto no tem jeito !Gritou o Paiva ao homem. - O senhor faz mal
em invadir desta forma um gabinete ocupado!
Mas o invasor j no ouvia coisa alguma e acabava de sair aos
pescoes com a sujeita.
Paiva atirou-se-lhe  pista, armado de uma garrafa. O gerente do
hotel apareceu, porm, cortando-lhe o passo e pedindo-lhe, por
amor de Deus que no fizesse caso, que deixasse l os dois se
esbordoarem  vontade !
- Era o costume ! Acabariam por entender-se perfeitamente!.
- O senhor ento acha que isto  razovel ?! perguntou o Paiva
furioso.
- No, decerto !
E o gerente dava aos rapazes toda a razo: Deviam estar
maados, mas que tivessem pacincia! que desculpassem! No
fora possvel evitar to grande sensaboria: O Brs, em questes
de mulheres, perdia sempre a cabeas! E ele no sabia que diabo
de rabicho tinha o basbaque pelo demnio da Rita Baiana, que, de
vez em quando, era aquilo !
- Pois que se v enrabichar para o diabo que o carregue !
- Decerto, decerto ! apoiava o gerente , procurando acalmar o
estudante.
- Ajuste as contas onde quiser, menos nos gabinetes ocupados
pelos outros ! Arre !
-  exato ! Os senhores tm todo o direito, mas por quem so, no
faam caso ! No faam caso.
- E esta ! insistia o Paiva.- Pois se a gente paga muito mais para
ficar em liberdade, como diabo h de se admitir isto ?!...
- Tem toda a razo !Tem toda a razo !...repetia o gerente,
erguendo as cadeiras e apanhando do tapete os cacos de vidro.
S ento intervieram os outros rapazes. Amncio, at a, parecia
colado  cadeira .Estava lvido e as pernas tremiam-lhe.
O gerente ia responder a todos, quando a porta se tornou a abrir,
e o Brs, ainda transformado pela comoo da briga, ofegante e
plido, quase sem poder falar, entrou, dizendo, - que ia pedir
desculpa da grosseria por ele praticada h pouco.
- Mas estava possesso! justificava-se ele. - Aquela no-sei-que-
diga lhe fazia perder as estribeiras ! Que o desculpassem, porque
um homem em certas ocasies nem se podia conter! Uma mulher,
com quem j havia gasto para mais de dez contos de
ris!...exclamava ele fora de si. Uma mulher que erguera da lama
podia assim dizer! Uma desgraada que antes de o conhecer, no
podia ir a parte alguma por no Ter um vestido capaz!...Uma
miservel, que dantes, para matar a fome, precisava aviar
encomendas de costura e se andar alugando na casa de
modistas!...Era duro! Pois no achavam ?!
Os estudantes meneavam a cabea ,afirmativamente.
- Ah ! continuou o Brs.- Aquelas contas tinham-se de ajustar na
primeira ocasio em que ele a encontrasse com o tal troca-tintas !
Ah ! J no podia ! Era demais ! U !
E passeava no gabinete, a empurrar com o p os cacos
esquecidos no cho, e a sorver o ar em grandes haustos,
consoladamente, como se acabasse de alijar um peso da
conscincias.
As palavras do Brs tranqilizaram os rapazes, cuja embriaguez
parecia ter fugido com o susto. O Simes chegou mesmo a rir do
fato, jactando-se mais uma vez da sua eterna indiferena pelas
mulheres. - Com ele  que nunca haveria de suceder semelhante
coisa!...afirmava.
Amncio convidou o Brs a beber, e vazou-lhe vinho num copo.
- Aquela descarada! resmungava o ciumento, examinando uma
arranhadura que vinha de descobrir na mo direita. - Ela, porm,
comigo est iludida !- ou me anda muito direitinha ou h de me
ficar debaixo dos ps ! Pedao de uma ingrata !
E, voltando-se para o gerente que acabava de entrar;
- O sujeitinho foi-se, hein ?
- Ora !...respondeu aquele com um riso servil. - Ganhou logo a rua
e...por aqui  o caminho! Ela  que pelos modos, ficou bem
convidada! Meteu-se no quarto a chorar.
- Pois que chore na cama que  lugar quente! No fosse ordinria!
Faa l o que bem entender, mas, com os diabos! no enquanto
estiver comigo! V divertir-se com o boi ! Sebo!

E passado logo em seguida pra um tom de voz calma e amiga.
disse baixo ao gerente :
- Veja de quanto foi o prejuzo e faa uma conta a parte.
Pediu ainda uma vez desculpa aos rapazes, afianou que eles
tinham um criado na Ladeira da Glria, nmero tantos, e saiu,
sempre s voltas com a sua arranhadura da mo direita.
Amncio quis condenar o fato, mas o Paiva observou-lhe que
aquilo se dava todos os dias no Rio de Janeiro.
- Eu j no estranho ! disse. - Falta de educao !...
- Bem, meus senhores, so horas de eu me ir tambm chegando,
advertiu Coqueiro, erguendo-se enfiando o palet.
O Simes fez igual movimento e declarou que o acompanhava.
- Ento, que  isto j? Exclamou Amncio, querendo det-los.
- . Est se fazendo tarde, respondeu Coqueiro, a consultar o
relgio. - Trs horas.
- Impossvel !negou Amncio.
- Era exato.
E Coqueiro, j de chapu na cabea e guarda-chuva debaixo do
brao, apertou-lhe a mo com as duas, dizendo que folgava em
extremo haver travado relaes com ele e que o esperava, sem
falta, no Domingo. Simes fez igualmente as suas despedidas, e
os dois saram a conversar sobre o quanto poderia custar a
Amncio aquele almoo.
- Tambm, que diabo, ficamos ns fazendo aqui? lembrou o Paiva,
quando se viu a ss com o amigo. - Paga isso e vamo-nos
embora. Queres tu ir at l a casa ?...
- Mas eu j estou a tanto tempo na rua ...considerou Amncio.
- E o que tem isso ?!...Deves contas de ti a algum ?!Ora essa !
-  que o Campos pode reparar !...
- Pois que repare! Manda plantar batatas ao tal de Campos! Tu
no s nenhum caixeiro dele...Eu, no teu caso, nem ficava ali mais
um dia !Que necessidade tens agora de passar s sopas de um
negociante, e sujeitares-te a regulamentos comerciais ?  de mau
gosto estar hospedado em casa de negcio! Olha! Se quiseres,
muda-te l para a repblica. Sempre  outra coisa morar com
rapazes! Aprende-se!
O criado, a quem j tinham pedido a conta, entrou com uma
pequena salva na mo e foi, instintivamente, dep-la em frente de
Amncio.
- Espere, disse este, tirando dinheiro do bolso. E entregou-lhe uma
nota de cem mil -ris.
O moo saiu correndo.
- Quanto foi ? desejou saber o Paiva.
Oitenta e cinco mil-ris, respondeu o outro.
- Oitenta e cinco mil-ris ! Oh! Que grande ladroeira !
E logo que o criado voltou com o troco:
- Homem, faa o favor de dizer em que se gastou aqui oitenta e
cinco mil-ris !...Salvo se vossemecs metem tambm na conta o
que quebrou o Brs !
- No senhor! Eu s cobrei os copos, que j estavam partidos
antes do rolo.
- Que enorme ladroeira ! insistia o Paiva, a sacudir a cabea.
- Deixa l ! aconselhou Amncio, puxando-o para fora.
Precisava andar e tomar fresco . Aquele gabinete era um forno -
sentia-se mal.
-  que no posso ver extorquir desta forma o dinheiro a ningum!
disse o Paiva indignado.
E principiou a fazer as contas pelo que se lembrava de ter vindo 
mesa.
Amncio o puxou de novo :
- Deixa l isso ,homem !
- Nada ! Pelo menos hei de vingar-me aqui em alguma coisa !
O criado havia sado. Paiva Rocha principiou a derramar o resto
das garrafas no aucareiro, a emporcalhar o damasco da cortina e
a cuspir dentro das chvenas.
Amncio ria-se formalmente, mas, no ntimo aborrecido:
- Agora podemos ir ! disse afinal o outro. - Ao menos deixo-lhe um
prejuzo !
E ainda meteu no bolso um paliteiro e duas colheres.
- L na repblica, precisava-se daqueles objetos ! acrescentou
rindo. J na rua, Amncio reparou que a cabea lhe estava muito
pesada e queixou-se de suores frios. Paiva chamou um carro , e,
uma vez dentro com o colega, mandou tocar par a Rua de Mata-
Cavalos.

- Esqueceste aquilo de que falamos? perguntou em viagem ao
companheiro.
Amncio j no se lembrava.
Paiva respondeu, fazendo um sinal com os dedos .
- Ah ! Quanto Queres ?
- D c uns cinqenta ou sessenta...depois tos pagarei.
- Pois no! gaguejou Amncio, passando-lhe trs notas de vinte
mil-ris.

                                IV

Amncio chegou  repblica muito indisposto.
Quase que no dava conta dos quatro lances de escada, que a
precediam.
Tambm foi s chegar e atirar-se  primeira cama, gemendo e
resbunando ao peso de uma grande aflio. Estava mais branco
do que a cal da parede; o suor escorria-lhe por todo o corpo;
respirava com dificuldade; a abrir a boca e a retorcer os olhos.
- Ento! disse o Paiva, batendo-lhe no ombro.
- Mal! respondeu Amncio , sem levantar a cabea, que deixara
cair sobre o peito. E com um gesto pediu gua.
- Isso passa! afianou o colega, entregando-lhe o pcaro cheio.
Ests  com um formidvel pifo.
E riu-se.
- Eu quero vomitar ! exclamou Vasconcelos, apressado pela
agonia, e mal teve tempo de erguer o rosto.
- s um fracalho! Ponderou o companheiro, amparando-o pela
testa. - Que diabo! Quem no pode com o tempo no inventa
modas!
- Amncio no respondia: Os engulhos vinham-lhe uns sobre os
outros.
- Ai! ai! gemia oprimido .
- Ora que tipo! disse o Paiva , atirando-o sobre os travesseiros.-
V se consegues dormir! Isto no  nada!
E narrou um caso idntico, que experimentara.
Amncio sentia-se um pouco mais aliviado, continuava, porm, a
suar frio; tinha a cabea completamente ensopada e no dispunha
de foras para coisa alguma. Os olhos fechavam-se-lhe com um
entorpecimento pesado de sono. Pediu mais gua. E, depois de a
tomar , deu a entender que era preciso que o despissem e
descalassem .
Paiva entrou a tirar-lhe a roupa, safou-lhe com dificuldade as
botinas , porque as meias estavam suadas.
Amncio, muito prostrado, mole, a virar-se de uma para outra
banda, aiava sempre. A final sossegou, parecia adormecido; mas,
ergueu-se logo, com mpeto, e comeou a vomitar de novo, sem
dizer palavras.
- Que pifo! reconsiderava o colega, encarando-o com as mos
cruzadas atrs.
- Homem! V -se lhe ds um pouco de amnia! lembrou do fundo
do quarto uma voz arrastada e um pouco fanhosa.
S ento Amncio percebeu que ali, a seis ou sete passos
distante dele, estava um rapaz magro , muito amarelo, em
ceroulas e corpo nu, estendido numa cama, a ler, todo
preocupado, um grosso volume que tinha sobre o estmago.
Parecia deveras ferrado no seu estudo, porque at a no dera f
do que se lhe passava em derredor.
- Olha! disse ao Paiva.- Creio que est acol , sobre a banca, por
detrs do Comte.  um frasquinho quadrado, com rolha de vidro.
Dito isto, recolheu-se de novo  leitura, como se nada houvesse
sucedido.
Amncio serenou de todo com algumas gotas de amonaco em um
copo d'gua , e afinal pegou no sono profundamente.
S acordou no dia seguinte, quando o sol j entrava pela nica
janela do quarto.
Sentia a boca amarga e o corpo modo. Assentou-se na cama e
circunvagou em torno os olhos assombrados, com a estranheza
de um doido ao recuperar o entendimento.
O sujeito magro da vspera l estava no mesmo stio; agora ,
porm dormia, amortalhado a custo num insuficiente pedao de
chita vermelha.
Do lado oposto, no cho, sobre um lenol encardido e cheio de
ndoas, a cabea pousada num jogo de dicionrios latinos, jazia o
Paiva, a sono solto, apenas resguardado por um colete de flanela.
Mais adiante, em uma cama estreita de lona, viam-se dois moos,
ressonando de costas um para o outro, com as nucas unidas, a
disputarem silenciosamente o mesmo travesseiro.
O quarto respirava todo um ar triste de desmazelo e bomia. Fazia
m impresso estar ali: o vmito de Amncio secava-se no cho,
azedando a ambiente; a loua, que servira ao ltimo jantar, ainda
coberta de gordura

coalhada, aparecia dentro de uma lata abominvel, cheia de
contuses e comida de ferrugem. Uma banquinha , encostada 
parede, dizia com o seu frio aspecto desarranjado que algum
estivera a a trabalhar durante a noite, at que se extinguira a vela,
cujas ltimas gotas de estearina se derramavam
melancolicamente pelas bordas de um frasco vazio de xarope
Larose, que lhe fizera as vezes de castial. Num dos cantos
amontoava-se roupa suja; em outro repousava uma mquina de
fazer caf, ao lado de uma garrafa de esprito de vinho. Nas
cabeceiras das trs camas e ao comprido das paredes, sobre
jornais velhos e desbotados, dependuravam-se calas e fraques
de casimira: em uma das ombreiras da janela havia umas lunetas
de ouro, cuidadosamente suspensas de um prego. Por aqui e por
ali pontas esmagadas de cigarro e cuspalhadas ressequidas. No
meio do soalho, com o gargalo decepado, luzia uma garrafa.
A luz franca e penetrante da manh dava a tudo isso um relevo
ainda mais duro e repulsivo: o corao de Amncio ficou vexado e
corrido, como se todos os ngulos daquela imundcie o
espetassem a um s tempo. Ergueu -se cautelosamente, para no
acordar os outros, e foi  janela. O vasto panorama l de fora
estremulhou-lhe os sentidos com o seu aspecto.
A repblica era muito no alto, sobre trs andares, dominando uma
grande extenso. Viam-se de cima as casa acavaladas uma pelas
outras, formando ruas, contornando praas. As chamins
principiavam a fumar; deslizavam as carrocinhas multicores dos
padeiros; as vacas de leite caminhavam com o seu passo
vagaroso, parando  porta dos fregueses, tilintando o chocalho ;
os quiosques vendiam caf a homens de jaqueta e chapu
desabado; cruzavam-se na rua os libertinos retardios com os
operrios que se levantavam para a obrigao; ouvia-se o rudo
estalado dos carros d'gua, o rodar montono dos bondes. Mais
para alm pressentiam-se cordilheiras, graduando planos
esfumados de neblina. O horizonte rasgava-se  luz do sol, num
deslumbramento de cores siderais. E l muito ao longe, quase a
perder de vista , reverbava a baa, laminando as guas na praia.
Embaixo, na rea da casa, uma ilhoa, de braos nus, a cabea
embrulhada em um leno de ramagens, lavava a um tanque de
cimento romano; um homem, em mangas de camisa, varria as
pedras do cho, cantarolando com os dentes cerrados, para no
deixar cair a ponta do cigarro. Numa janela, um sujeito, de culos
azuis, areava os dentes e com a boca atirava duchas sobre um
papagaio, cuja gaiola pousava no balco. Dentro de um cercado
cacarejavam galinhas, mariscando na terra; e o homem do lixo
entrava e saia, familiarmente, com o seu gigo s costas.
Um relgio da vizinhana bateu seis horas.
Amncio reparou que estava com muita sede, mas no descobria
a talha d'gua. Afinal encontrou-a, num sto que havia ao lado do
quarto e onde s se entrava vergando o corpo.
Bebeu at  saciedade.
Depois lavou o rosto e a boca. E, com a idia de sair antes que os
mais acordassem, vestiu-se apressado, contou o dinheiro que lhe
restava, lamentando interiormente o que na vspera esbanjara; viu
no cho uma escova de fato, apanhou-a, escovou a roupa, e, todo
cautela e ponta de p, abriu a porta e ganhou a escada.
Entre o primeiro e o segundo andar encontrou uma rapariguita de
alguns dezesseis anos, que subia com dois copos de leite, um em
cada mo, fazendo mil esforos para no os entornar. Ao ver
Amncio ela emperrou, cosendo -se  parede, a fim de lhe dar
passagem, e olhou-o de esguelha, com medo de afastar a vista
dos copos.
Era bonitinha, corada, os cabelos castanhos apanhados na nuca.
Parecia portuguesa.
Amncio ao passar por ela, estacou tambm,  fit-la. De repente
lanou-lhe as mos.
A pequena, muito contrariada fez uma cara de raiva e gritou- que a
soltasse! que no fosse atrevido!
E desviava o corpo, querendo defender-se mas sem se descuidar
dos copos.
- Mau ! mau ! siga o seu caminho e deixe os outros em paz!
Amncio no fez caso e conseguiu beij-la  pura fora.
Derramaram-se algumas gotas de leite.
- Maus raios te partam! clamou a rapariga, assim que o viu pelas
costas.- Peste ruim de um estudante!

                               ***

A peste ruim do estudante saiu, e s interrompeu a caminhada
para entrar num botequim, onde pediu caf. Ento, defronte do
espelho, pde admirar o belo estado em que se achava.
- Como diabo havia de apresentar-se naquele gosto em casa do
Campos?... Tambm que triste idia a sua - de se enterrar numa
casa comercial? No! Com certeza estava mal hospedado... nem
lhe convinha permanecer ali ! - Oh ! Bastava j de ser governado,
de ser vigiado a todo instante ! - J era tempo de gozar um pouco
de liberdade.
E, enquanto sorvia compassadamente o caf, recapitulava na
memria todo o seu passado de terror e submisso: - Antes de
entrar para a escola de primeiras letras, nunca lhe deixaram
transpor a porta da rua ou a porta do quintal; os outros meninos de
sua idade tinham licena para empinar papagaios, brincar entrudo,

queimar fogos pelo tempo de So Pedro; - ele no! depois caiu
nas garras do professor, - aquela fera! Nunca saia de casa, sem
levar atrs de si um escravo para o vigiar, para impedi-lo de fazer
travessuras e obrig-lo a caminhar com modo, direito, srio como
homem. Afinal escapou ao professor, sim! mas continuou sob a
dura vigilncia do pai, do tio e das tias; todos rondavam; todos o
traziam "num cortado". S na fazenda da av conseguia desfrutar
alguma liberdade, mas essa mesma no era completa e, ai!
durava to pouco tempo!...
Agora compreendia a razo pela qual, no ms de frias que
passava a, se tornava to maligno, -  que naturalmente queria
desforrar o resto do ano, que levava coagido em casado pai. De
sua infncia eram aqueles meses privilegiados a coisa nica que
lhe merecia verdadeira saudade; ao mais estrangulavam tristes
reminiscncias de castigos, de sustos, apoquentaes de todo o
gnero.
A prpria idias de sua me nunca lhe vinha s; havia sempre ao
lado da venerada imagem alguma recordao enfadonha e
constrangedora.- As poucas vezes em que estavam juntos, o pai
chegava no melhor da intimidade e ngela se retraa, cortando em
meio as carcias do filho, como se as recebera de um amante, em
plena ilegalidade do adultrio.
E a memria desses beijos a furto e medrosos, a memria desses
carinhos cheios de sobressalto, relembravam-lhe as vezes que ele
em pequeno se metia no quarto dos engomados, de
camaradagem com as mulatas da casa que a trabalhavam
conjuntamente.
Era quase sempre pelo intervalo das aulas, ao meio-dia, quando o
calor quebrava o corpo e punha nos sentidos uma pasmaceira
voluptuosa.
Em casa do velho Vasconcelos havia, segundo o costume da
provncia, grande nmero de criadas; s no "quarto da goma",
como l se diz, reuniam-se quatro ou cinco. Umas costuravam;
outras faziam renda, assentadas no cho, defronte da almofadas
de bilros; outras, vergadas sobre a "tbua de engomar", passavam
roupa a ferro.
Amncio ,quando criana, gostava de se meter com elas,
participar de suas conversas picadas de brejeirice, e deixar correr
o tempo, deitado sobre saias, amolentando-se ao calor penetrante
das raparigas, a ouvir, num xtase mofino, o que elas entre si
cochichavam com risadinhas estaladas  socapa. Por outro lado,
as mulatas folgavam em t-lo perto de si, achavam-no vivo e
atilado, provocavam-lhe ditos de graa, mexiam com ele, faziam-
lhe perguntas maliciosas, s para " ver o que o demnio do
menino respondia" .E, logo que Amncio dava a rplica, piscando
os olhos e mostrando a ponta da lngua, caam todas num ataque
de riso , a olharem umas para as outras com inteno.
De resto, ningum melhor do que ele para subtrair da despensa
um punhado de acar ou de farinha, sem que ngela desse por
isso.
- O demoninho era levado!
E assim se foi tornando mulherengo, fraldeiro, amigo de saias.
A me, quando ouvia da varanda as risadas da criadagem, gritava
jogo pelo filho.
- J vou mame ! respondia Amncio.
L estava o diabrete do menino s voltas com as raparigas no
quarto da goma! Oh! que birra tinha ela disso!...
Mas Amncio no se corrigia.  que ali ao menos no chegaria o
pai.
As vezes ,quando ia passear  casa de alguma famlia conhecida,
arranjava-se com as moas, gostava de acompanha-las por toda
parte, fazendo-se muito dcil e amigo de servir. Como era ainda
perfeitamente criana e bonitinho, elas lhe faziam festa e davam-
lhe doces, figurinos de papel recortado e caixinhas vazias.
Algumas lhe perguntavam brincando se ele as queria para mulher,
se queria "ser seu noivo". Amncio respondia que sim com um
arrepio. E da a pouco ficavam as moas muito surpreendidas
quando o demnio do menino lhes saltava ao colo e principiava a
beijar-lhes sofregamente o pescoo e os cabelos ou a meter-lhes
a lngua pelos ouvidos.
- Credo ! disse uma delas em situao idntica..- Que menino ! V
para longe com as suas brincadeiras. !
Outras, porm, lhe achavam muita graa e eram as primeira s a
puxar por ele.
De todos os brinquedos o que Amncio mais estimava era o de
"fazer casa". A casa fazia-se sempre debaixo de uma mesa, com
um lenol em volta, figurando as paredes. Uma de suas primas,
filha do protetor de Campos, ou alguma menina que estivesse
passando o dia com ele, representava de mulher; Amncio de
marido. A menina ficava debaixo da mesa, enquanto ele andava
por fora, "a ganhar a vida " at que se recolhia tambm a casa,
levando compras e preparos para o almoo. Amarravam um leno
em duas pernas da mesa, fingindo rede, e a metiam uma boneca,
que era o filho.
Gostava infinitamente dessa brincadeira. Mas um belo dia veio
abaixo o lenol que servia de parede, e desde ento ngela no
consentiu que o filho se divertisse a fazer casa.

Muitos anos depois, aos quinze anos, notou-se incomodado por
um padecimento estranho. No disse nada  famlia e procurou
um homem que havia na provncia com grande habilidade para
curar molstias, viessem elas at do mau-olhado e do feitio.
Santo homem ! O mal do nosso estudante desapareceu como por
milagre; o que, alis, no impediu que tivesse da a pouco de
voltar  cama, debaixo de um novo e mais formidvel
carregamento que o ia varrendo ao cemitrio.. Foram esses trs
anos de sezes a que se referia, quando pela primeira vez falou
ao Campos.
E Amncio ,quanto mais rememorava tudo isso, quanto mais
remexia no cinzeiro do passado, tanto mais impacientes lhe
rosnavam os sentidos e tanto mais desabrida lhe vinha a
necessidade de gozar, de viver em liberdade, de recuperar o
tempo que levou sopeado e preso.
- Enfim ! concluiu ele, erguendo-se distrado e abandonando o
caf - a casa do Campos no me convm ! no me convm de
forma alguma!
Mas a idia de Hortnsia, que, para se apresentar, s esperava o
termo daquelas consideraes, invadiu-lhe o esprito e foi a pouco
e pouco se estendendo e se esticando por todo ele, at ocup-lo
inteiramente com a sua imagem branca e palpitante, como uma
bela mulher que desperta e, entre voluptuosos espreguiamentos ,
alonga pela cama os seus membros entorpecidos de sono.
E ele, quando deu por si, estava a fazer conjeturas sobre o amor
de Hortnsia :
- Seria ardente ou calmo? Meigo ou arrebatado? Que atitude
tomaria a bela mulher nos momentos supremos de ventura? Quais
seriam as suas palavras, as frases do seu delrio?...
E, aguilhoado pelos sentidos, perdia-se em clculos infames, em
degradantes suposies; tentando, embalde, adivinhar-lhe os
pensamentos, penetrar-lhe nos escaninhos do corao e
devassar-lhe todos os segredos do corpo.
- Oh! Como seria ?...
E seu desejo vil comeava a despi-la, pea por pea, at deix-la
completamente nua.
- Mas no! no havia possibilidade! contrapunha-lhe a razo.-
Tudo aquilo era loucura, simples loucura! Hortnsia no podia ser
mais sria, mais amiga do marido! Qual fora a palavra, o gesto,
que lhe dera a ele o direito de pensar em semelhante coisa?...
Sim! que fizera a pobre senhora para autoriz-lo a tanto ?... Onde
estava o fundamento daqueles sonhos, pelos quais queria trocar a
sua liberdade, os seus prazeres, tudo, e ficar encurralado em uma
casa comercial, com obrigao de entrar s tantas, comer s
tantas e guardar todas as convenincias ao lado de uma gente
impossvel ?!...Ora ! que se deixasse de asneiras! No fosse tolo!
Hortnsia Campos aparecia-lhe ento como em verdade o era:
carinhosa e altiva, afvel para todos igualmente, sem dar a
nenhum o direito de supor uma preferncia. Amncio j no a
tinha descompostas defronte dos olhos mas respeitosamente
restituda ao seu vestidinho de chita,  suas botinas de duraque,
quase sem salto, e s tranas honestamente penteadas.
- Mudava-se !Que dvida !Sim !Uma vez que Hortnsia nada mais
era do que uma senhora virtuosa, que diabo ficava ele fazendo ali
?...No seria decerto pelos bonitos olhos do Campos !

                                ***

As oito horas, quando entrou em casa tinha j resolvido no ficar
ali nem mais um dia. - Era fazer as malas e bater quanto antes a
bela plumagem !
Mas tambm, se por um lado no lhe convinha ficar em
companhia do Campos: por outro , a idia de se meter na
repblica do Paiva no o seduzia absolutamente. Aquela misria e
aquela desordem lhe causavam repugnncia. Queria liberdade, a
bomia ,a pndega- sim senhor ! tudo isso, porm, com um certo
ar , com uma certa distino aristocrtica. No admitia uma cama
sem travesseiros, um almoo sem talheres e uma alcova sem
espelhos. Desejava a bela crpula,- por Deus que desejava !mas
no bebendo pela garrafa e dormindo pelo cho de guas -
furtadas ! - Que diabo !- no podia ser to difcil conciliar as duas
coisas!...
Pensando deste modo, subiu ao quarto. Sobre a cmoda estava
uma carta que lhe era dirigida; abriu-a logo :
"Querido Amncio.
Desculpe trat-lo com esta liberdade; como, porm, j sou seu
amigo, no encontro jeito de lhe falar doutro modo. Ontem,
quando combinamos no Hotel dos Prncipes a sua visita para
Domingo, no me passava pela cabea que hoje era dia santo e
fazamos melhor em aproveit-lo; por conseguinte, se o amigo no
tem compromisso, venha passar a tarde conosco, que nos dar
com isso grande prazer. Minha famlia, depois que lhe falei a seu
respeito, est impaciente para conhec-lo e desde j fica  sua
espera."
Assinava "Joo Coqueiro" e havia o seguinte post-scriptum : "Se
no puder vir, previna-mo por duas palavrinhas; mas venha.
Resende n..."

Amncio hesitou em se devia ir ou no. O Coqueiro ,com a sua
figurinha de tsico, o seu rosto chupado e quase verde, os seus
olhos pequenos e penetrantes, de uma mobilidade de olho de
pssaro, com a sua boca fria, o seu nariz agudo, o seu todo seco
egosta, desenganado da vida, no era das coisa que, mais o
atrassem. No entanto, bem podia ser que ali estivesse o que ele
procurava, - um cmodo limpo, confortvel, um pouquinho de luxo,
e plena liberdade. Talvez aceitasse o convite.
- Esta gente onde est ?perguntou ,indicando o andar de cima a
um caixeiro que lhe apareceu no corredor, com a sua cala
domingueira, cor de alecrim, o charuto ao canto da boca.
- Foram passear ao Jardim Botnico, respondeu aquele, descendo
as escadas.
- Todos? Ainda interrogou Amncio.
- Sim, disse o outro entre os dentes, sem voltar o rosto. E saiu. -
Est resolvido !pensou o estudante. - Vou  casa do Coqueiro. Ao
menos estarei entretido durante esse tempo !
E voltando ao quarto :
- No!  que tudo ali em casa do Campos j lhe cheirava mal
!..Olhassem para o ar impertinente com que aquele galeguinho lhe
havia falado !...Em tudo o mais era pelo mesmo teor. - Uma scia
d' asnos !
Comeou a vestir-se de mau humor, arremessando a roupa,
atirando com as gavetas. O jarro vazio causou-lhe febre, sentiu
venetas de arroj-lo pela janela ;ao tomar uma toalha do cabide,
porque ela se no desprendesse logo, deu-lhe tal empuxo que a
fez em tiras.
- Um horror! Resmungava, a vestir-se furioso, sem saber de qu.
- Um horror !
E ,quando passou pela porta da rua, teve mpetos de esbordoar o
caixeiro, que nesse dia estava de planto.

                                V

Joo Coqueiro era fluminense e fluminense da gema. Nascera na
Rua do Parto em uma das casas de seus pais, quando estes eram
ricos.
Que o foram. Viera-lhes a fortuna do av materno, um portugus
ambicioso e econmico, que a conquistara no trfico dos negros
africanos; ao morrer legou  filha, ainda criana, para cima de
quinhentos contos de ris. Esta, mais tarde, foi solicitada em
casamento pelo homem a que pertenceu para sempre, - Loureno
Coqueiro, os maiores bigodes que nesse tempo negrejavam na
Corte do Imprio.
Loureno, todavia, era j um destroo quando casou. Do que fora
e do que possura, apenas lhe restava, alm do bigode, o hbito
de no fazer coisa alguma; nos melhores grupos citava-se,
entretanto, o seu ar distinto de fidalgo e falava-se Dom boa
vontade de seus dotes pessoais e do seu belo esprito
eternamente galhofeiro.
O casamento representou para ele uma tbua de salvao. A
mulher adorava-o; tinha-o na conta de um ente superior; jamais
vira homem to lindo de rosto, to insinuante no falar, to delicado
de maneiras.
Mas, pouco depois de casado, Loureno comeou a desgost-la:
era um nunca terminar de festas; a casa vivia num rebulio
constante; os intervalos das pndegas no davam sequer para a
trazer arrumada e limpa. Quando no fossem bailes, eram
passeios, piqueniques , manhs no campo, dias passados na
Tijuca ou no Jardim Botnico. Loureno, s vezes, voltava brio, a
cachimbar no fundo do carro, e a fazer carcias piegas  mulher,
que, ao lado, chorava silenciosamente. Ela, coitada! Tinha muito
medo sempre que o via nesse gosto, porque o demnio do homem
dava ento para brigar, mexia com quem passava, metia a
bengala nos cocheiros e quebrava com os ps tudo que
encontrasse no caminho.
Tiveram o primeiro filho - Janjo. Criancinha feia, dessangrada,
cheia de asma. At aos cinco anos parecia idiota; passava os dias
a babar-se debaixo da mesa de jantar, ao p de um moleque
encarregado de vigi-lo.
A mo desfazia-se em mil cuidadozinhos com a criana; era esta o
seu enlevo, a sua vida. Mas o pai no estava por isso: - temia que
o rapaz lhe sasse um maricas. Desejava-o - forte, decidido!
E, com enormes sobressaltos da mulher, tomava-o pelas
perninhas magras e suspendia-o no ar.
- Os homens assim  que se fazem, minha filha! Dizia ele a rolar o
pequeno entre as mos.
E no admitia igualmente que o menino tivesse outra cama que
no fosse um enxergo. No o queria calado, nem vestido e, em
vez de estar ali a babar-se defronte do moleque, seria muito
melhor que fosse correr para a chcara.
- Ele pode se machucar, Loureno , cair! Observava a esposa
timidamente.
- Pois deixa-o cair! Deixa-o machucar-se! Quanto mais
trambolhes levar em pequeno, melhor depois se agentar nas
pernas !
- Mas ele  to fraquito, coitadinho!

- Por isso mesmo! Por isso mesmo precisamos torn-lo forte! E
previno-te de que j  mais que tempo de acabar com esse
insuportvel tratamento de "Janjo"! Aqui no h janjes! Meu filho
chama-se - Joo! Tem o nome do av, um heri, um fidalgo! No
desses que hoje se fazem a a trs por dois, mas dos legtimos,
dos bons! Entendes tu? - dos bons!
E inflamava-se, como sempre que se referia  sua procedncia.
Vinha, com efeito, de fidalgos: era sobrinho bastardo de um conde
portugus.
 mesa exigia que o filho lhe ficasse ao lado e obrigava-o a comer
bifes sangrentos e tomar vinho sem gua.
Um dias a esposa revoltou-se:
- Pois tu vais dar conhaque ao menino, Loureno? ! exclamou ela
escandalizada.
- Deixa-o c comigo , senhora! Eu sei o que fao!
- Olha que isso pode sufoc-lo, homem de Deus !
- Qual sufocar o qu ! Por essas e outras  que, para os
estrangeiros, no passamos de "uns macacos"!
A mulher que se desse ao trabalho de saber como se fazia na
Europa a educao fsica das crianas ! Queria que ela visse a
criao que tiveram D. Pedro e D. Miguel ! E eram prncipes ! -
Entendia ? - eram prncipes legtimos !
E voltando-se para o filho, gritou, arregalando os olhos e soprando
os bigodes, que j ento se faziam cinzentos:
- Tu no queres ser um homem forte, Joo ? ! Queres ser um
descendente degenerado de teus avs ?!
Janjo olhou o pai com medo, e abriu a chorar.
- A tens o que procuravas ! disse a mulher, correndo para junto do
filho. - Assustar desse modo a pobre criana !
Janjo chorava mais.
- Isso ! Isso  que o h de pr pra diante! Berrou Loureno
encolerizando-se. Beba j esse conhaque, menino!
- Deixa a criana ! ...suplicava a me. - Olha como treme o
pobrezinho!... o corao parece que lhe quer saltar! ...
- E tomou-o no colo.
-  melhor mesmo que leves da esse mono ! Rira-mo dos olhos !
J estou vendo a boa lesma que isso h de dar!
- Mes ignorantes !..
Quando Janjo principiou a crescer, o pai levava-o a toda a parte,
dava-lhe charutos, obrigava-o a tomar cerveja nos cafs. Foi,
porm, uma campanha conseguir uma vez que o pequeno se
assentasse por dois minutos na dela de um cavalo em que
Loureno havia chegado do seu passeio favorito a Botafogo.
Janjo, trmulo da cabea aos ps, agarrava-se com ambas as
mos nas crinas do animal e berrava pela me com toda a fora
de que era capaz. Tiveram de desmont-lo para no o verem
rebentar ali mesmo .
- Ora, como diabo me havia de sair este mono! Lamentava o pai
desesperado. - Ningum acreditaria que aquele choramingas era
seu filho !
No foram mais felizes com as primeiras tentativas de natao ou
as primeiras experincias de atirar ao alvo: Janjo , s com a vista
do mar ou a presena de um revlver , desatava a soluar e a
berrar pela me.
- No ! Isso agora hs de Ter pacincia! resmungava Loureno.
- Tu ao menos ficars sabendo dar um tiro ! Sou eu quem to
assegura!
E, com muita sutileza, comprou para o filho uma bela pistolinha de
brinquedo, que estalava fulminantes, e depois uma outra, mais
sria, que admitia carga de plvora.
Janjo era, porm, cada vez mais refratrio a tudo isso. Preferia
ficar a um canto da sala, entretido a vestir os seus bonecos ou a
fazer de cozinheiro. A me por esse tempo dava-lhe uma
irmzinha, que se ficou chamada Amlia, e desde a o maior
encanto do menino era tomar conta do caixo em que estava a
pequerrucha toda envolvida em panos, e no consentir que as
moscas lhe pousassem na moleira.
Um dia, o pai, descendo ao quintal, encontrou-o muito empenhado
com o moleque a armar um oratrio. Iam fazer procisso: o andor
e o santo estavam prontos; uma sombrinha, enfeitada de franjas,
faria as vezes de plio.
Loureno ficou desesperado, e com dois pontaps reduziu tudo
aquilo a frangalhos.
- Era o que lhe faltava ! - que o basbaque do filho, alm de tudo,
lhe sasse carola!
E, quando subiu, disse terminantemente  mulher que no admitia
que o filho corrompesse o esprito com patacoadas daquela
ordem.

- Se me constar, bradou ele ao pequeno,- que me tornas a fazer
igrejinhas, racho-te de meio a meio, pedao de uma lesma! Ora
vamos a ver! Cai noutra, e ters uma sapeca que te deixe a
paninhos de sal! Experimenta e vers!
Ele queria l filhos devotos! Era s o que lhe faltava! Era s!
Aquele menino parecia o seu castigo! Parecia a sua maldio!
Aos doze anos Janjo entrou para o internato de Pedro II. A
princpio custou-lhe bastante compreender as lies, mas, como
era muito estudioso e muito paciente, os professores em breve o
elogiavam. Tinham - no em boa estima pelo seu esprito catlico,
pela docilidade de seu gnio e pelo irrepreensvel de sua conduta.
Joo Coqueiro, de fato, fora sempre um menino sossegado,
metido consigo, respeitador dos mestres e dos preceitos
estabelecidos, devoto e extremamente cuidadoso de seus livros e
de suas obrigaes. Ningum lhe ouvia palavra mais spera ou
gesto menos conveniente, e s vezes entrava pela hora do recreio
grudado aos livros sem os querer deixar.
O pai via-o ento com orgulho. Profetizava j que ali estivesse um
sbio.
Tirou distino nos primeiros exames. A me quase morre de
alegria. Loureno quis solenizar o acontecimento com um
banquete correlativo; mas as suas condies de fortuna j no
eram as mesmas; o dinheiro ia minguando de um modo
assustador. Se lhe viesse a falhar uma especulao, em que se
havia lanado ultimamente, como recurso extremo - Adeus! estaria
tudo perdido! A runa seria inevitvel!
Fez-se a festa, no obstante, e o menino voltou aos estudos.
Mas Loureno principiava a sofrer gravemente de uma leso
cardaca. Tinha ataques nervosos, sufocaes, e caa de vez em
quando em fundas melancolias, durante as quais se enterrava no
quarto, sem poder suportar a presena de ningum, muito
frentico, cheio de apreenses, com grande medo de morrer.
A mulher assustava-se: o marido no lhe parecia o mesmo
homem. Estava acabado; crescera-lhe o ventre, o nariz tomara
uma vermelhido gordurosa, o cabelo encanecera totalmente, a
cabea despira-se, a pele do rosto fizera-se opada e suja.
Comprazia-se, agora, a ir  noite pelas igrejas, embrulhado na sua
sobrecasaca russa, apoiando-se  grossa bengala de cana da
ndia, os ps  vontade em sapatos rasos. Ajoelhava-se a um
canto da nave, em cima das pedras, e a permanecia longamente,
a ouvir os sons lamentosos do rgo, com o rosto descansado
sobre as mos que se cruzavam no casto da bengala.
s vezes chorava.
Seu estmago irritado j no queria os alimentos ; era preciso
engan-lo de instante a instante com um pouco de noz-vmica ou
carbonato de magnsia. No se lhe podia suportar o hlito.
Quando recebeu a notcia de que a sua especulao falhara,
estava no quarto, no conseguiu sair do lugar em que se achava.
Uma onda vermelha subira-lhe  cabea :os objetos principiaram a
danar-lhe em torno dos olhos; o cho fugia-lhe debaixo dos ps.
Tentou ainda dar alguns passos, mas cambaleou e caiu afinal
sobre as pernas embambecidas, - como uma trouxa.
Morreu no dia seguinte.

                               ***

A famlia ficou pobre. Foi preciso vender o melhor de dois prdios
que restavam, para saldar as dvidas do defunto.
A viva principiou ento a tomar encomendas de costura e de
engomagem.
Isso, porm no bastava; era necessrio, a todo o transe, que o
menino continuasse nos estudos. Em tal aperto, lembrou-se a
pobre me de admitir hspedes; a casa que ficou tinha bastante
cmodos e prestava-se admiravelmente para a coisa.
Vieram os primeiros inquilinos; arranjaram-se fregueses para o
almoo e o jantar, e o rfo prosseguiu nas sua aulas.
Dentro de pouco tempo, o sobrado da viva de Loureno era a
mais estimada e popular casa de penso do Rio de Janeiro.
Foi nela que Janjo se fez homem. A o viram bacharelar-se e a
se matriculou na Escola Central. A irmo respeitava-o como a um
pai.
Amlia, por conseguinte, cresceu em uma casa de penso.
Cresceu no meio da egostica indiferena de vrios hspedes,
vendo e ouvindo todos os dias novas caras e novas opinies,
absorvendo o que apanhava da conversa de caixeiros e
estudantes irresponsveis; afeita a comer em mesa-redonda, a
sentir perto de si , ao seu lado, na intimidade domstica, - homens
estranhos, que se no preocupavam com lhe aparecer em mangas
de camisa, chinelas e peito nu.

Ainda assim deram-lhe mestres. Aprendera a ler e a escrever,
tocava j o seu bocado de piano e, - se Deus no mandasse o
contrrio- havia de ir muito mais longe.
Um novo desastre veio, porm, alterar todos esses planos: a viva
de Loureno, depois de dois meses de cama , sucumbiu a uma
pneumonia.
Joo Coqueiro estava ento no segundo ano da Politcnica;
Amlia a fazer-se mulher por um daqueles dias; parentes - no os
tinham ... capitais - ainda menos...Como pois sustentar a casa de
penso? ...Oh! Era preciso despedir os hspedes, alugar o prdio,
abandonar estudos e obter um emprego.
Arranjou-o de fato - na estrada de ferro de Pedro II. Coqueiro
dissolveu logo a casa de penso e foi mais a irm residir em
companhia de uma francesa, muito antiga no Brasil e que durante
longo tempo se mostrou amiga ntima da defunta.
Chamava-se Mme. Brizard.
Era mulher de cinqenta anos, viva de um afamado hoteleiro,
que lhe deixara muitas saudades e dzia e meia de aplices da
dvida publica.

                               ***

Estava ainda bem disposta, apesar da idade. Gorda, mas elegante
e com uns vestgios assaz pronunciados de antigas formosura,
.Tinha os olhos azuis e os cabelos pretos, no tipo peculiar ao
meio-dia da Frana. Carne opulenta e quadril vigoroso.
Notava-se-lhe a boca, com um desses lbios superiores que
formam como que duas camadas; o que alis no obstava a que
Mme. Brizard tivesse um sorriso gracioso, e ainda tirasse partido
da brancura privilegiada de seus dentes. Mas a sua riqueza e a
sua vaidade era o pescoo, um grande pescoo plido, cheio de
ondulaes macias e fartas.
Nascera em Marselha.
Depois de certa idade tornara-se muito cada para o romantismo;
desde ento apreciava uma noite de luar; dava-se  leitura
prolongada de poetas tristes; fazia-se mais infeliz do que era de
fato, e contava a todos a sua histria. - _Um romance!
"Aos quinze anos sara da famlia pelo brao de um diplomata
russo, que a idolatrava;- ia casada. O russo tresandava a genebra
e rescendia a sarro de cachimbo; ela abominou-o logo, abominou-
o entre uma enorme corte de adoradores fascinados por sua
beleza e sequiosos por um de seus sorrisos; era, porm, honesta:
- conservou-se pura e fiel ao marido."
Mme. Brizard, quando chegava a este ponto do romance,
abaixava os olhos, levando lentamente o leque  boca para
disfarar um suspiro.
"Enviuvou aos vinte anos; o russo no lhe deixara filhos;- voltou 
famlia. A lhe apareceu ento Mr. Brizard, homem de talento,
poltico e escritor, grande republicano. A subida de Lus Felipe ao
trono atirou com ele ao Brasil, onde se fez hoteleiro.
Tiveram aqui trs filhos: duas mulheres e um homem. Este era o
ltimo e muito se distanciava das irms em idade; quando lhe
faltou o pai tinha apenas sete anos.
A filha mais velha representava a glria da famlia: unira-se a um
ministro plenipotencirio; a outra, coitada, no casou mal, porm
com a morte do marido, e de um filhinho que lhe ficara,
tornou-se muito nervosa, histrica, e at, meio pateta; agora vivia
e mais o irmo em companhia da me"
                               ***

Nessas condies, a proposta de Joo Coqueiro pareceu
vantajosa a Mme. Brizard. - Ele que trouxesse a irm a bela
Amelita, e tudo se arranjaria prelo melhor.
Juntaram-se Mme. Brizard revelou pronto interesse pelos dois
hspedes, principalmente pelo "Coqueirinho" como lhe chamavam
em famlia. Fazia-se mito carinhosa com ele, queria ser a sua
"segunda me", apreciava-lhe o talento, e andava a mostrar os
versos do rapaz a todas as pessoas que apareciam  noite, para
as torradas.
Reuniam-se em volta da mesa de jantar; iam buscar o loto e
jogavam. Coqueiro lia a um canto, ou ficava no quarto, a
cachimbar soturnamente, olhando o fumo e cismando na vida.

Mme. Brizard fazia perfeitamente as honras da casa; dava-se por
mulher de muito esprito e de uma educao peregrina. Se havia
ento algum que a visitasse pela primeira vez - a coisa ia mais
longe. Desenfiava os seus melhores ditos, contava como por
incidente, as suas anedotas de mais efeito, falava gravemente de
sua filha casada com o ministro e exibia todos os seus
conhecimentos literrios.
Que os tina, inegavelmente. Lamartine l estava no quarto dela
,sobre o velador, encadernado com esmero. Mas no desdenhava
os poetas brasileiros e lia Cames. Uma sua amiga, muito
chegada, dizia que lhe ouvira pginas inditas de um livro sobre o
Brasil, - livro para fazer "sensao"!
Mme. Brizard confirmava este boato, sorrindo com modstia.
Joo Coqueiro, esse, no sorria,. Ao contrrio, parecia cada vez
mais triste; passava tempos sem aparecer a ningum, depois que
largava o trabalho. Por mais de uma vez houver que lhe visse
lgrimas nos olhos.
A francesa, que se achava ento no seu perodo mais agudo de
sentimentalismo, respeitava muito as melancolias do pobre moo,
falava a respeito dele com a voz baixa, cheia de um acatamento
religioso. S lhe passava pelo quarto na pontinha dos ps, e,
quando o triste hspede saa para o emprego, ela corria a lhe
arrumar a mesa, com desvelo, ordenando os livros, reunindo os
papis esparsos, lendo, sobre a pasta, os versos comeados na
vspera.
Uma tarde, acharam-se os dois um defronte do outro, assentados
sozinhos na varanda da sala de jantar, que dava para um lugar
plantado de bananeiras. O sol descia lentamente no horizonte por
uma escadaria de fogo; as cigarras estridulavam no fundo da
chcara; a noite ia emanando.
Coqueiro olhava  toa para isso, absorto e mudo; depois suspirou
e escondeu o rosto nas mos. Mme. Brizard passou-lhe um brao
no ombro.
- Coqueirinho! que  isso?...
Queria saber o motivos daquelas tristezas. Comeou a interrog-
lo, com a voz untuosa, cheia de amor.
Ele ento falou abertamente de suas aspiraes, de seus estudos
interrompidos, de sua incompatibilidade com o emprego que
exercia.
- Sou muito caipora! Exclamava. - Sou muito caipora!
E chorava.
Mme. Brizard procurou consol-lo, falou do futuro,, lembrou a
idade de coqueiro e aconselhou-o a que no desanimasse.
Foi da que lhes veio a idia de casamento.
Mme. Brizard era muito mais velha do que ele, mas, talvez, por
isso mesmo, fosse a esposa que melhor lhe convinha.
- Ah! ela estava no caso de faz-lo feliz, porque o amava! Oh! Se o
amava! Seria talvez uma loucura; talvez viessem a censur-la; -
ela mesma no sabia explicar o que aquilo era, como aquilo
acontecera! Mas, dava a sua palavra de honra, jurava pela
memria de seu pai- em como nunca sentira por ningum o que
ento sentia por Coqueiro! Ah! sabia perfeitamente que bem
poucos compreenderiam a sua paixo! Sabia que muitos haveriam
de ridiculariz-la, haveriam de escarnece-la; ela prpria, at ali,
nunca imaginara que se pudesse amar tanto!... Durante a sua vida
, nunca se sentiu possuda por uma idia , to escrava, to
vencida, como naquele instante! Contudo, se desejava o
casamento no era decerto pelo fato de possuir um homem. - _
Oh, no !- deixava isso para as almas grosseiras... e Coqueiro
bem sabia o quanto seu corao tinha de espiritual e de puro!...
Desejava aquele enlace para licitamente [pode aplicar todo o seu
esforo, toda a sua coragem, todas as sua diligncias, na
conquista de um bom futuro para o esposo. Queria casar-se,
porque entendia que isso se tornava necessrio  felicidade de
Coqueiro. Toda a sua vida, todos os seus recursos dela, seriam
empregados para o mesmo fim: - facultar ao marido os meios de
estudar, os meios de crescer, desenvolver-se, luzir. Alcanasse
ele um nome, uma posio brilhante, uma atitude gloriosa, e tudo
o mais lhe seria indiferente. Que lhe importava o resto?... Se ela,
porventura, fosse esquecida, fosse desprezada, se viesse mesmo
a falecer da a pouco tempo - que valia tudo isso, se o objeto de
seus extremos era ditoso e vivia cercado de admirao e
aplauso?...
E Mme. Brizard , depois de lhe falar na posteridade e depois de
convencer ao Coqueiro de que aquele casamento era um dever
sagrado, pois que no realiz-lo eqivalia a privar o Brasil de uma
de suas glrias futuras e ao sculo um de seus vultos talvez mais
grandiosos, Mme. Brizard, depois disso, entrou nos pormenores
de seu plano.
- Uma vez casados, ressuscitariam a antiga casa de penso. Ela
dispunha de algum dinheiro; o outro dispunha de um prdio: - era
restaur-lo e dar comeo  vida! Coqueiro abandonaria o emprego
e voltava de novo aos estudos;" ela encarregava-se da gerncia
da casa e, nesse ponto, deitando de parte a modstia, supunha-se
mais habilitada que ningum.
At j tinha projetos, j tinha asa suas idias sobre a instalao da
casa!...Sentia-se de disposta a trabalhar por vinte!...Coqueiro
havia de ver! Seu estabelecimento seria uma casa de penso
modelo! Coisa para dar "uma

fortuna e render  Amelinha um bom casamento._ Um
casamento!" Ah! Ela , a francesa, sabia perfeitamente como tudo
isso se arranjava no Brasil.
E concluiu , jurando inda uma vez, que- para si no queria nada!
Que s desejava a felicidade do Coqueiro e de sua irm dele.
Era assim que entendia o amor!
Trs meses depois estavam casados.
Boquejou-se alegremente sobre isso na Escola Politcnica . Os
amigos do Coqueiro acharam ocasio de rir, e a tal mulher do
ministro plenipotencirio, a gloria da famlia, escreveu  me uma
carta carregada de recriminaes, declarando que nunca lhe
perdoaria semelhante loucura.- Loucura , de que para o futuro
haveria Mme. Brizard de se arrepender muito seriamente.
Os recm-casados fecharem , porm ,ouvidos a tais palavras e
cuidaram de ir pondo em prtica os seus novos planos de vida
Meteram mos  obra. Coqueiro deixou o emprego, contratou um
empreiteiro para restaurar o seu velho prdio da Rua do Resende,
e a casa de penso de Mme. Brizard ( como teimosamente
insistiam em lhe chamar a mulher ) surgiu ameaadora,
escancarando para a populao do Rio de Janeiro a sua boca de
monstro.

                                 VI

Foi justamente trs anos depois disso que Amncio chegou ao Rio
de Janeiro.
A casa de Mme. Brizard estava ento no seu apogeu; de todos os
lados choviam hspedes, entre os quais se notavam pessoas de
importncia. Pelo tempo das cmaras reuniam-se ali alguns
deputados da provncia, homens srios, em geral gordos, o ar
discreto, um sorriso infantil  superfcie dos lbios e um fraseado
imaginoso, cheio de poesia. Fazia-se poltica no salo, depois da
comida, em chinelas de tapete, ao remansado soprar do fumo da
Bahia.
A dona da casa gozava para eles de muita considerao; s um
ou outro, mais atirado  pilhria, ousava atribuir a algum dos seus
"nobres colegas "os sorrisos de Mme. Brizard.
Outros entusiasmavam-se por ela.
- No! diziam. - Aquela mulher devia ter sido um pancado no seu
tempo! Tudo que era pescoo e ombros ainda se podia ver! Quem
dera a muitas novas um colo daqueles!
De uma feita , um deputado de Minas, criatura baixa, socada,
rosto curto, poucas palavras e muita barba, empalmou-lhe a
cintura, quando a pilhou sozinha na sala de jantar.
A francesa abaixou os olhos, afastou-se dignamente e foi logo
dizer ao marido que era necessrio pr aquele homem na rua.
- O Moura! Por qu ?
- No te posso dizer por que...mas afiano que o Moura no nos
convm!...
- Fez-te alguma?
- Faltou-me ao respeito!
- Hein?!
- Agarrou-me a cintura e ter-me-ia beijado o pescoo ,se eu lho
permitisse.
Esta ltima parte da queixa fazia mais honra ao esprito inventivo
de Mme. Brizard do que ao seu esprito de verdade; ela, porm,
no resistia ao gostinho de falar no seu rico pescoo, sempre que
se oferecia a ocasio.
E o Moura teria posto os ossos na rua, se a prpria Mme. Brizard
no intercedesse por ele no dia seguinte, alegando que o pobre
homem havia na vspera carregado um pouco mais no virgem.
Tambm foi s. Nunca mais, que constasse palpitou ali sombra de
escndalo, e a famosa casa de penso continuava a sustentar a
melhor aparncia deste mundo. At se dizia  boca cheia que, por
mais de uma vez, j se hospedaram verdadeiras celebridades, e
eram todos de acordo que no Rio de Janeiro ningum fazia
espetadas de camaro to saborosas como as da simptica
irmzinha do Joo Coqueiro, a Amelita. Uma verdadeira
especialidade. Constava at que vinha gente de longe ao cheiro
daqueles camares.
A casa tinha dois andares e uma boa chcara no fundo. O salo
de visitas era no primeiro.
- Moblia antiga, um tanto mesclada; ao centro, grande lustre de
cristal, coberto de fil amarelo; trs largas janelas de sacada,
guarnecida de cortinas brancas, davam para a rua; do lado oposto,
um enorme espelho de moldura dourada e gasta inclinava-se
pomposamente sobre um sof de molas; em uma das paredes
laterais, um detestvel retrato em leo de Mme. Brizard, vinte anos
mais moa, olhava sorrindo para um velho piano, que lhe ficava
fronteiro; por cima dos consolos vasos bonitos de loua da ndia,
cheios de areia at  boca.
Imediato  sala, com uma janela igual quelas outras, havia uma
gabinete, comprido e muito estreito, onde Coqueiro tinha a sua
biblioteca e a sua banca de estudo. Via-se a uma pasta cheia de
papis, um tinteiro e

um depsito de fumo, representando o busto de um barbadinho;
ao fundo, uma conversadeira de palhinha, encostada  parede,
por debaixo de um pequeno caixilho de madeira com o retrato de
Victor Hugo em gravura.
Seguia-se o aposento de Mme. Brizard e mais do marido, onde
tambm dormia o menino Csar, que teria ento doze anos; logo
depois estava o quarto de Amelinha e da tal viva histrica,
Leonie, a quem a famlia s tratava por "Nini".
Vinha depois a grande sala de jantar, forrada de papel alegre; nas
paredes distanciavam-se pequenos cromos amarelados,
representando marujos de chapu- de- palha, tomando genebra, e
assuntos de conventos, - frades muito ndios e vermelhos
refestelados  mesa ou a brincarem com mulheres suspeitas. Um
guarda-loua expunha, por detrs das vidraas, os aparelhos de
porcelana e os cristais; defronte - um aparador cheio de garrafas,
ao lado de outro em que estavam os moringues.
Ainda havia um corredor, a despensa, a cozinha, uma escada que
conduzia 'a chcara, outra ao segundo andar, e mais trs alcovas
para hspedes, todas do mesmo tamanho e numeradas.
A numerao dos quartos principiava a nesses trs par continuar
em cima. Em cima  que estava o grande recurso da casa, porque
Mme. Brizard dividira todo o segundo pavimento em oito cubculos
iguais; ficando quatro de cada lado e o corredor no centro. Os da
frente davam janelas para a rua e os do fundo para a chcara. As
paredes divisrias eram de madeira e forradas de papel nacional.

                               ***

Joo Coqueiro, quando saiu do Hotel dos Prncipes na manh do
almoo, ia preocupado; o Simes, que caminhava  sua esquerda
um pouco sacudido pelos vinhos, em vo tentou, repetidas vezes,
pux-lo  palestra; o outro respondia apenas por monosslabos e,
na primeira esquina, despediu-se e correu logo para casa.
Ao chegar foi direito  mulher, dizendo-lhe em voz baixa, antes de
mais nada:
- Olha c, Lol...
E encaminhou-se para o quarto. Mme. Brizard largou o que tinha
entre as mos e segui-o atentamente.
- Sabes? Disse ele, sem transio, assentando-se ao rebordo da
cama. -  preciso arranjarmos cmodo para um rapaz que h de
vir por a Domingo.
- Um rapaz! Mas tu sabes perfeitamente que os quartos acham-se
todos ocupados. Se tivesses prevenido... o n 2 ainda ontem
estava vazio...Mas quem ?
- H de se arranjar, seja l como for! Disse o Coqueiro.
- Mas quem ?...insistiu Mme. Brizard.
-  um achado precioso! Ainda no h dois meses que chegou do
Norte, anda s apalpadelas! Estivemos a conversar por muito
tempo: -  filho nico e tem a herdar uma fortuna! Ah! No
imaginas: s pela morte da av, que  muito velha, creio que a
coisa vai para alm de quatrocentos contos!...
Mme. Brizard escutava, sem despregar os olhos de um ponto, os
ps cruzados e com uma das mos apoiando-se no espaldar da
cama.
- Ora , continuou o outro gravemente. - Ns temos de pensar no
futuro de Amelinha... ela entrou j nos vinte e trs !... se no
abrirmos os olhos... adeus casamento!
- Mas da ... perguntou a mulher, fugindo a participar da confiana
que o marido revelava naquele plano.
- Da -  que tenho c um palpite! explicou ele. - No conheces o
Amncio!... A gente leva-o para onde quiser!... Um simplrio , mas
o que se pode chamar um simplrio!
Mme Brizard fez um gesto de dvida.
- Afiano-te , volveu Coqueiro, - que , se o metermos em casa e se
conduzirmos o negcio com um certo jeito, no lhe dou trs meses
de solteiro!

                               ***

Nessa mesma tarde Mme Brizard entendeu-se com a cunhada.
Falou-lhe sutilmente no "futuro", disse-lhe que "uma menina pobre,
fosse quanto fosse bonita, s com muita habilidade e alguma
esperteza poderia apanhar um marido rico".
E tocando lhe intencionalmente no queixo:
- Anda l , minha sonsa, que sabes disso to bem como eu!...
Amlia riu, concentrou-se um instante e prometeu fazer o que
estivesse no seu alcance, para agradar ao tal sujeitinho.
Ardia, com efeito por achar marido, por se tornar dona de casa. A
posio subordinada de menina solteira no se compadecia com a
sua idade e com as desenvolturas do seu esprito. Graas ao meio
em que se desenvolveu, sabia perfeitamente o que era po e o
que era queijo; por conseguinte as precaues e as reservas, que
o irmo tomava para com ela, faziam-na sorrir.
s vezes tinha vontade de acabar com isso. "Que diabo
significavam tais cautelas?...Se a supunham uma toleirona,
enganavam-se - ela era muito capaz de os enfiar a todos pelo
ouvido de uma agulha!"
- Agora, por exemplo, neste caso do tal Amncio, que custava ao
Coqueiro explicar-se com ela francamente?...Por que razo, se ele
precisava de seu auxlio, no a procurou e no lhe disse s claras:
"Fulana, Domingo vem aqui um rapaz, nestas e nestas condies;
v se o cativas, porque ali est o noivo que te convm!" Mas, no
senhor! - meteu-se nas encolhas e entregou tudo nas mos da
mulher!
- Ora! Disse consigo a rapariga. - Isto at nem sei que me parece!
Ou bem que somos, ou bem que no somos!...Se Janjo queria
alguma coisa de mim, era falar com franqueza e deixar-se de
recadinhos por detrs da cortina!
E Amlia, quanto mais refletia no caso, tanto mais se revoltava
contra a reserva do irmo:
- Ele j a devia conhecer melhor! Pelo menos j devia saber que
aquela que ali estava era incapaz de cair em qualquer asneira;
aquela no "dava ponto sem n ".Outra que fosse, quanto mais -
ela, que conhecia os homens, como quem conhece a palma das
prprias mos ! - Ela, que viu de perto, com os seus olhos de
virgem, toda a sorte de tipos!- ela, que lhes conhecia as manhas,
que sabia das lbias empregadas pelos velhacos para obter o que
desejavam e o modo pelo qual ser portam depois de servidos!_
Ela! tinha graa!
- Ela, que at ali dera as melhores provas de sagacidade e de
esperteza; j "convencendo" tal fregus remisso que no queria
pagar, nem a mo de Deus Padre, o aluguel do quarto pelo preo
cobrado; j respondendo a tal credor, que, em tal poca, veio
receber tal conta; j sofismando tal compromisso; j resolvendo tal
aperto, uma vez em que nem a prpria Mme. Brizard sabia que
fazer! E ainda a suporiam criana?...ainda teriam medo de
qualquer asneira sua parte?...Pois ento que se lembrassem da
questo do Pereirinha!
O Pereirinha foi um dos primeiros hspedes do Coqueiro. Rapaz
bonito, perfumado, muito prosa. Amlia representava para ele a
mesma inocncia em pessoa, s lhe falava de olhos baixos, voz
sumida, o ar todo candura e vexame. Pereirinha jurava-lhe uma
paixo sem bordas, fazia-lhe versos, tocava-lhe nos ps por baixo
da mesa, e, depois do jantar, quando os mais se alheavam no
egosmo da saciedade, ele a fitava tristemente, pedindo, com os
olhos fosse l o que fosse. Pois bem, ela a tudo isso correspondia
com muito agrado, submetia-se resignadamente a todos esses
requisitos do namoro vulgar, mas...um belo dia em que o pedao
de asno do Pereirinha quis ir adiante, Amlia aconselhou-o
sorrindo a que primeiro a fosse pedir em casamento ao irmo.
E, quando se convenceu de que o tipo no queria casar, disse-lhe
abertamente: " Ora, meu amigo, outro ofcio!"
E Coqueiro sabia de tudo isso, to bem como a prpria Amlia -
para que pois aqueles escrpulos ridculos e amoladores?.

                               ***

S  noite,,  acostumada palestra em torno da mesa de jantar,
lembraram-se de que o dia seguinte era de grande gala.
-  diabo! considerou Coqueiro.- E eu que podia Ter dito ao
Amncio para vir amanh! Escusvamos de esperar at domingo.
- Ora, senhores! Onde diabo tinha a cabea!...
- Queres saber de uma coisa? Disse, tomando a mulher de parte. -
Vai tu e mais Amelinha arranjar o gabinete, que eu escrevo uma
carta ao nosso homem; pode ser que amanh mesmo o tenhamos
por c. Anda, vai! O segredo das grandes coisas est s vezes
nesta pequenas deliberaes!
E, enquanto Mme. Brizard aprontava com Amlia o gabinete,
escreveu ele a carta que Amncio encontrou sobre a cmoda.
No descansaram mais um instante. Desde pela manh do dia
seguinte andava a casa em grande alvoroo. Foi preciso varrer,
escovar, remover do gabinete os mveis que o atravancavam.
Preparou-se uma bela caminha, coberta de lenis claros e
cheirosos; estendeu-se um tapete no cho; colocou-se a um canto
o lavatrio, encheu-se o jarro que ficou dentro da bacia, ao lado
das toalha. E feito isto, puseram-se todos  espera de Amncio.
Ele, at aquelas horas, no havia declarado por escrito se iria ou
no, logo - era provvel que fosse.

E com efeito, pela volta do meio-dia, um tlburi parou  porta, e
Amncio, muito intrigado com a numerao das casa, entrou no
corredor, a olhar para todos os lados.
Um moleque, que ficara de alcatia  espera dele, correu logo ao
primeiro andar, gritando que "o moo j estava a"
- Cala a boca, diabo! Respondeu Mme. Brizard em voz abafada e
discreta.
Coqueiro ergueu-se prontamente do lugar onde se achava e
atirou-se com espalhafato para o corredor, alegre e expansivo,
como se recebera, depois de longa ausncia, um velho amigo da
infncia.
- Bravo! Exclamava, sacudindo os braos e correndo ao encontro
de Amncio. - Bravo! Assim  que entendo os amigos! No te
perdoaria se faltasses!
E com muita festa ,a apress-lo:
- Vem entrando para a sala de jantar! Ests em tua casa! Entra!
Entra!
Amncio deixava-se conduzir, em silncio. J no tinha o mesmo
tipo mal ajeitado com que se apresentara ao Campos; agora, um
terno de casimira cinzenta, comprado nessa mesma manh a um
alfaiate da Rua do Ouvidor. Dava-lhe ares domingueiros de
janotismo. Vinha de barba feita, as unhas limpas, os dentes
cintilantes, o cabelo dividido ao meio, formando sobre a testa duas
grandes pastas lustrosas e do feitio de uma borboleta de asas
abertas. Os olhos no denunciavam os incmodos da vspera, e
de todo ele respirava um cheiro ativo de sndalo
- Estimei bem que me escrevesses... disse atravessando o
corredor, ao lado do Coqueiro. No tinha para onde ir hoje. O
Campos est de passeio com a famlia l para o tal Jardim
Botnico..
- Pois eu estimei ainda mais que viesses. Entra!
Penetraram na sala de jantar. Estava tudo bem arrumado e muito
limpo; no se podia desejar melhor aspecto de felicidade caseira;
em tudo - a mesma aparncia austera e calma de uma velha paz
inquebrantvel e honesta. Mme. Brizard, assentada  cabeceira da
mesa, parecia ler atentamente um livro que tinha aberto defronte
dos olhos; mais adiante trabalhava Amelinha em uma mquina de
costura, a cabea vergada, os olhos baixos, numa expresso
tranqila de inocncia.
Logo que Amncio apareceu na varanda, Mme. Brizard desviou os
olhos do livro, deixou cair as lunetas do nariz e foi receb-lo
solicitamente; a outra limitou-se a cumpriment-lo com um
modesto e gracioso movimento de cabea.
- O Dr. Amncio de Vasconcelos! Gritou o Coqueiro, empurrando o
colega para junto das senhoras. E acrescentou, designando-as: -
Minha mulher e minha irm...O amigo j sabe que so duas
criadas que aqui tem s suas ordens!
Amncio agradecia, desfazendo-se em reverncias e apertando as
mos de ambas, todo vergado para a frente, as faces incendiadas
pela comoo daquela primeira visita.
- Pe-te  vontade, filho! Disse-lhe o Coqueiro, em ar quase de
censura. - Olha uma cadeira. Senta-te!
E tirando-lhe a bengala e o chapu : - Aqui ests em tua casa!
Minha gente no  de cerimnias!
Entretanto Mme. Brizard o tomava a si com perguntas: - H quanto
tempo havia chegado; de que provncia era filho; se tinha
saudades da famlia; se gostava do Rio de Janeiro; que tal achava
as fluminenses, e se j estava embeiado por alguma.
E vinham os risos exagerados e sem pretexto, de quando se
deseja agradar as visitas.
O provinciano respondia a tudo, inclinando a cabea, procurando
armar bem a frase e fazendo esforos para se mostrar de boa
educao. Ia-lhe j fugindo o primitivo acanhamento e as palavras
acudiam-lhe  ponta da lngua, sonoras e fceis.
- No tenho desgostado da Corte, dizia a brincar com a sua
medalha da corrente, - mas, confesso, esperava melhor...L de
fora, sabe V. Ex. a coisa parece outra! Fala-se tanto do
Rio!...Pintam-no to grande, to bonito, que o pobre provinciano,
ao chegar aqui, logo sofre uma terrvel decepo!...Pelo menos
comigo foi assim!
- O Sr. Vasconcelos j visitou os arrabaldes?...perguntou Mme.
Brizard muito delicadamente.
- Ainda no, minha senhora. Apenas fui a Botafogo, de passagem,
para entregar uma carta; mas tenciono percorr-los todos, na
primeira ocasio.
E Amncio olhava a espaos para Amlia, que parecia muito
preocupada com o trabalho.
Pois suspenda esse juzo a respeito do Rio, at que conhea os
arrabaldes, acrescentou a dona da casa.- S por eles se poder
julgar do quanto  bela e grandiosa esta cidade! Oh! A natureza do
Brasil! No h coisa nenhuma que se lhe possa comparar!...
E fitando-o, depois de um gesto de entusiasmo: - Para um esprito
contemplativo e apaixonado, essa esplndida natureza vale por
todas as maravilhas da Europa!
- V. Ex. parece gostar muito do Brasil...

- Habituei-me a isso com o meu segundo marido...ele era louco
por este pas! Quantas vezes, depois que caiu doente e que os
mdicos lhe recomendaram que viajasse, quantas vezes no o
aconselhei a que liquidasse aqui os seus negcios e fssemos
viver para a Europa...J no havia sombra de perseguio poltica,
(porque foi uma perseguio poltica que o atirou ao Brasil ), no
havia razes por conseguinte para no voltar  ptria, no havia
razes para se deixar morrer aqui, como morreu!...Pois bem; sabe
o senhor o que ele me respondia sempre? Dizia-me: "Beb".(era
assim que me tratava.) "Beb, compreendes um homem
apaixonado por uma mulher, a ponto de no a poder deixar um s
instante? Compreendes um escravo, um co?... assim sou eu por
esta natureza. No a posso abandonar! - estou apaixonado,
louco!" Entretanto,- veja o Dr.! - Hiplito, aqui, nunca foi
devidamente apreciado e compreendido; nunca recebeu a mais
insignificante prova de gratido do governo deste Pas, que ele
idolatrava daquele modo! Trabalhou muito para o Brasil, e de
graa! Esto a as empresas, os jornais, as sociedade que fundou!
Pois o governo, - nem uma palavra, nem uma considerao, nem
um "muito obrigado!" Se o pobre homem no tivesse posto de
parte algum dinheiro, ficava eu na misria, perfeitamente na
misria!
Amncio principiava a desconfiar que aquela francesa era nada
menos que um formidvel "cacete".
- Uma verdadeira paixo!...insistiu ela. - Uma paixo que o prendia
aqui! Porque, senhores, Hiplito, se quisesse, podia representar
um invejvel papel na Europa! Tinha l o seu lugar seguro, e...Foi
interrompida pelo Csar que entrara de carreira, mas estacara de
repente ao dar com Amncio. Coqueiro havia se afastado para
mandar servir alguma coisa.
- Este  o meu Csar, meu ltimo filho, elucidou Mme. Brizard. E
gritou logo: - Vem c, Csar! Vem falar com este moo!
Csar aproximou-se, vagarosamente, com o silncio de quem
observa um estranho. - Lindo menino! Considerou Amncio,
puxando-o para junto de si.
- E no calcula o senhor que talento ! afirmou a me, em voz baixa
e grave, estendendo a cabea para o lado da visita :Uma coisa
extraordinria!
- J fez uma poesia ! acrescentou Joo Coqueiro, que, nessa
ocasio, junto ao aparador, enchia copos de cerveja.
- Mas, coitado! prossegui Mme. Brizard - no se pode puxar por
ele; sofre muito do peito ! O mdico recomendou que no o
fatigassem por ora;  preciso esperar que ele se desenvolva mais
um pouco.
-  pena ! disse Amncio com tristeza, afagando a cabea de
Csar.
- Nunca vi uma criatura para aprender as coisas com tanta
facilidade ! Nada v , nada ouve, que no decore logo ! que no
repita - tintim por tintim !
- Sim?... perguntou Amncio , com um gesto cerimonioso de
pasmo.
- E ento para a msica?...Aprendeu a escala em um dia! E j toca
variaes de piano...tudo de ouvido!
-  admirvel! Repetia Amncio, para dizer alguma coisa. Deve
estar muito adiantado nos estudos!...- Ah! estaria decerto, se
pudesse estudar, mas, coitado, ainda no sabe ler!
- Ah! fez Amncio, sem achar uma palavra.
- Mas, tambm, quando principiar...
- Ir longe ! concluiu Amncio, satisfeito por ter enfim uma frase. -
Deve ir muito longe!
E afianava que, pela fisionomia de Csar, logo se lhe adivinhava
a inteligncia.
- Esta fonte no engana ! Dizia a suspender-lhe o cabelo da testa.
- E  travesso?...
Mme. Brizard soltou uma exclamao: - No lhe falassem nisso!
S ela sabia o capetinha que ali estava!
Csar abaixou o rosto com uma risada, e Amncio declarou que "
a travessura era prpria daquela idade!"
E, porque o moleque se aproximava com uma bandeja na mo,
cheia de copos, ergueu-se para oferecer um a Mme. Brizard e
outro a Amlia..
- Muito agradecida, disse esta, sorrindo. - Sou um pouco nervosa;
a cerveja faz-me mal.
- Ah! V.Ex.  nervosa?
- Um pouco. E quem neste mundo no sofre mais ou menos dos
nervos?...
E riu de todo, mostrando a sua dentadura provocadora.
Amncio considerou intimamente que a achava deliciosa. - Um
mimo!
E, de fato, Amlia nesse dia estava encantadora. Vestia fusto
branco, sarapintado de pequeninas flores cor -de- rosa. O cabelo ,
denso e castanho, prendia-se-lhe no toutio por um lao de seda
azul, formando um grande molho flutuante, que lhe caa
elegantemente sobre as costas O vestido curto, muito cosido ao
corpo, enluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar esperto de
menina que volta do colgio a passar frias com a famlia.
Era muito bem feita de quadris e de ombros. Espartilhada, como
estava naquele momento, a voltas enrgica da cintura e a suave
protuberncia dos seios produziam nos sentidos de quem a
contemplava de perto uma deliciosa impresso artstica.

Sentia-se-lhe dentro das mangas do vestido a trmula carnadura
dos braos; e os pulsos apareciam nus muito brancos,
chamalotados de veiazinhas sutis, que se prolongavam
serpeando. Tinha as mos finas e bem tratadas, os dedos longos
e rolios, a palma cor- de - rosa e s a unhas curvas como um bico
de papagaio.
Sem ser verdadeiramente bonita de rosto, era muito simptica e
graciosa. Tez macia de uma palidez fresca de camlia ; olhos
escuros, um pouco preguiosos, bem guarnecidos e penetrantes;
nariz curto, um nadinha arrebitado, beios polpudos e viosos, 
maneira de uma fruta que provoca o apetite e d vontade de
morder,. Usava o cabelo cofiado em franjas sobre a testa, e,
quando queria ver ao longe, tinha de costume apertar as
plpebras e abrir ligeiramente a boca.
Amncio, bebendo aos goles distrados a sua cerveja nacional, via
e sentia tudo isso, e, sem perceber, deixava-se tomar das graas
de Amlia. J lhe preava a carne o mordente calor daquele corpo;
j o invadiam o perfume sombroso daquele cabelo e a luz
embriagadora daqueles olhos; j o enleava e cingia a doce
sensibilidade elstica daquela voz , quebrada, curva, cheia de
ondulaes, como a cauda crespa de uma cobra.
E, enquanto palavreava abstrado com Mme. Brizard e com o
Coqueiro, percebia que alguma coisa se apoderava dele, que
alguma coisa lhe penetrava familiarmente pelos sentidos e a se
derramava e distendia,  semelhana de um polvo que alonga
sensualmente os seus langorosos tentculos. E, sempre dominado
pelos encantos da rapariga, alheava-se de tudo o que no fosse
ela; queria ouvir o que lhe diziam os outros, prestar-lhes ateno,
mas o pensamento libertava-se  fora e corria a lanar-se aos
ps de Amlia, procurando enroscar-se por ela,  feio do tnue
vapor do incenso, quando vai subindo e espiralando, abraado a
uma coluna de mrmore.
Coqueiro fazia no dar por isso e, ao topar com os olhos da
mulher, entre eles corria um raio de satisfao, mais ligeiro que
um telegrama.
Amncio, entretanto, quase nada conversou com Amlia; apenas
trocaram palavras frias de assuntos sem interesse. Mas seus
olhares tambm se encontravam no ar, e logo se entrelaavam,
prendiam-se e confundiam-se no calor do mesmo desejo.
Naquela mulher havia incontestavelmente o que quer que fosse,
difcil de determinar, que, no obstante, se entranhava pela gente
e, uma vez dentro, crescia e alastrava. O seu modo de falar, as
reticncias de seus sorrisos, o langor pudico e ao mesmo tempo
voluptuoso de seus olhos que espiavam, inquietos, atravs do
franjado das pestanas; a doura dos seus movimentos ofdios e
preguiosos, o cheiro de seu corpo; tudo que vinha dela zumbia
em torno dos sentidos, como uma revoada das cantridas.
Os instintos mal-educados de Amncio latejavam.
Vinham-lhe preocupaes. Comeava a imaginar como seria a
sua existncia naquela casa, se ele, porventura, resolvesse a
mudana; calculava situaes: encont4ros inesperados com
Amlia nos corredores desertos; manhs frias de chuva, em que
fosse preciso gazear as aulas e deixar-se ficar ali a "prosar"
naquela varanda, ao lado dela, a encher o tempo, a dizer "tolices".
- Que tal seria tudo isso?...Seria to bom que valeria a pena
suportar as caceteaes de Mme. Brizard e sofrer a convivncia
do tal Coqueiro?...Seria to bom que mereceria a renncia de sua
liberdade, to sacrificada ali quanto em casa do Campos? No!
no valia a pena!... Mas... Amlia?...
quem sabe l o que daria de si aquele ladrozinho?...
E, pensando deste modo, ergueu-se disposto a acompanhar
Coqueiro, que insistia em lhe mostrar a casa.
Principiaram pela chcara.
- Olha. Isto aqui  como vs!... dizia o proprietrio. - Boa sombra,
caramanches de maracuj, flores, sossego!...Bom lugar para
estudo! E vai at o fundo. Vem ver!
Amncio obedecia calado.
- Parece que se est na roa!... acrescentou o outro. - De manh 
um chilrear de passarinhos, que at aborrece! Quando aqui no
houver fresco, no o encontrars em parte alguma! C est o
terrao- Sobe!
Subiram trs degraus de pedra e cal.
- Vs?!... exclamou Coqueiro, parando em meio do pequeno
quadrado de velhos tijolos. E, depois, com as pernas abertas e um
brao estendido:
- Creio que no se pode desejar melhor!
Desceram, em seguida, para visitar o banheiro, o tanque, o repuxo
e outras comodidades que havia no quintal, e a cada uma dessas
coisas - novas exclamaes e novos elogios.
Subiram outra vez ao primeiro andar , pela cozinha. Um preto, de
avental e bon de linho branco,  moda dos cozinheiros franceses,
trabalhava ao fogo. Coqueiro exigiu que o amigo olhasse para
aquele asseio; atentasse para a nitidez das caarolas de metal
areado , para a limpeza das panelas, para a fartura de gua na
pia.
- A Madame, dizia ele a rir-se, com ar interessado de que deseja
convencer, - a Madame traz isto num brinco! Pode-se comer no
cho!
E continuaram a revista da casa. Amncio, porm, ia distrado,
tinha a cabea cheia de Amlia.

- Que dentes! Pensavas, - e que cintura !, que olhos!...
-  excelente! Segredou-lhe o Coqueiro, pondo mistrio na voz. -
Um servio admirvel!
- Hein?! Exclamou o provinciano, voltando-se rapidamente para o
colega.
- Cozinheiros daquela ordem encontram-se poucos no Rio!
Respondeu este ainda em segredo.
- Ah! o cozinheiro...disse Amncio. - Divino! Acrescentou o outro.
E mudando logo o tom :
- C est a despensa. Compramos tudo em poro, do mais caro,
mas tambm podes ver a fazenda! Tudo de primeira! Ah! Eu c
sou assim, - um monstro! Meus hspedes no se podem queixar!
E destapava vivamente a lata das farinhas e dos feijes, mostrava
o vinho engarrafado em casa, as mantas de carne-seca
ressumbrando sal , o arroz ,o caf, e o resto.
Tudo de primeira! - repetia com entonaes mercantis, a passar
ao colega um punhado de feijes. - Tudo de primeira!
-  exato, resmungou Amncio, sem ver.
Isto agora so quartos de hspedes, enunciou Coqueiro seguindo
adiante. - Aqui embaixo s temos trs. Neste, disse mostrando o
n 1, est o Dr. Tavares, um advogado de mo-cheia; carter
muito srio!
No segundo declarou que morava o Fontes:
- No era mau sujeito, coitado! Fora infeliz nos negcios: quebrara
havia dos anos e ainda no tinha conseguido levantar a cabea.
E abafando a voz:
- Dizem que ficou arranjado...no sei!...Paga pontualmente as
suas despesas, mas  um "unha-de-fome", regateia muito, chora-
vintm por vintm- o dinheiro que lhe sai das mos! Est sempre
com uma cara muito agoniada, sempre se queixando. E agora,
vo ver : furo como ele s; especula com tudo; tem o quarto
cheio de fazendas, fitas e tetias de armarinho; vende essas
miudezas pelas casas particulares, e dizem que faz negcio. A
mulher, uma francesa coxa,  empregada na Notre Dame e s
vem a casa para dormir.
E, indicando o n 3 :
- Aqui  o Piloto.
- Que Piloto? Perguntou logo Amncio.
- O Piloto, homem! Aquele reprter da Gazeta !
Amncio no conhecia.
- Ora quem no conhece o Piloto! Um rapaz to popular. Um que
anda sempre ligeiro, olhando para os lados, como um calango.
No conheces?!
Amncio disse que sabia quem era, - para acabar com aquilo.
- Bom hospede! Acrescentou o outro. - Tambm s aparece 
noite; no incomoda pessoa alguma.
- Bem.... disse Amncio com bocejo. So horas de ir-me
chegando.
- Que?! Bradou Coqueiro.- Tu jantas conosco! Minha gente conta
contigo... no te dispensamos! E , demais, quero mostrar-te o
resto da casa. Vem c ao segundo andar.
O provinciano lembrou timidamente que isso podia ficar para outra
ocasio; mas o Coqueiro respondeu puxando-o pelo brao na
direo da escada:
- Venha para c ! No seja preguioso!
Depois de subir, acharam-se em um corredor estreito e oprimido
pelo teto. Ao fundo uma janela de grades verdes coava tristemente
a luz que vinha de fora. Lia-se nas portas em algarismos azuis,
pintados sobre um pequeno crculo branco, os nmeros de 4 e 11.
- Aquilo tinha aspectos de casa de sade... pensou Amncio, com
tdio.- No devia ser muito agradvel morar ali. Todos os quartos,
entretanto, estavam tomados.
Coqueiro principiou logo, em voz soturna, a denunciar os
competentes moradores:- N4 - O Campelo, um esquisito, porm
bom sujeito, do comrcio; no comia na casa seno aos domingos
e isso mesmo s de manh. N. 5 - o Paula Mendes e a mulher;
casal de artistas, davam lies e concertos de piano e rabeca;
muito conhecidos na Corte. N. 6- Um guarda-livros; bom moo,
tinha o quarto sempre asseadinho e  noite, quando voltava do
trabalho, estudava clarinete. O N. 7 era de um pobre rapaz
portugus; doente: vivia embrulhado em uma manta de l, por
cima do sobretudo, e saa todas as manhs a passeio para as
bandas da Tijuca.
A porta do N. 8 estava aberta e Amncio viu de relance, a cauda
de uma saia que fugia para o interior do quarto. E logo uma voz
aflautada, de mulher, gritou:
- Cora! Fecha essa porta.
-  uma tal Lcia Pereira... segredou o Coqueiro- mora ai com o
marido, um tipo!
Estavam na casa h muito pouco tempo. Coqueiro no podia dizer
ainda que tais seriam, porque s formava o seu juzo depois de
paga a primeira conta.

O N 9 era do Melinho - uma prola! Empregado na Caixa de
Amortizao; no comia em casa; mas, as vezes, trazia frutas
cristalizadas para Mme. Brizard e Amelinha. Belo moo!
Coqueiro no se lembrava como era ao certo o nome do sujeito
que ocupava o N 10 : "Lamentosa ou Latembrosa, uma coisa por
ai assim!" ele tinha o nome escrito l embaixo.- Mas que homem
fino! Delicadssimo! Um verdadeiro gentleman! E tocava violo
com muito talento.
.
O n. 11,que ficava justamente encostado  janela do corredor,
pertencia a um excelente mdico, o Dr. Correia; estava, porm
,quase sempre fechado, visto que o doutor s se utilizava do
quarto para certos trabalhos e certos estudos, que, por causa das
crianas, no podia fazer em casa da famlia. Vinha s vezes com
freqncia e s vezes no aparecia durante um ms inteiro; mas
pagava sempre e bem.
Esse quarto, como o outro que ficava na extremidade oposta do
corredor, tinha sada para a chcara.
Amncio props ao Coqueiro que descessem por a.
- De sorte que, foi-lhe dizendo este pela escada,-  mesa s temos
diariamente os seguintes: Dr. Tavares, o Paula Mendes e a
mulher, a Lcia e o marido, e o tal sujeito de nome esquisito. S!
Aos domingos, ento, fica-se em completa liberdade, porque
jantam fora quase todos. - Vs, pois, que em parte alguma
estarias melhor do que aqui!...
- Mas, filho, observou Amncio - teus quartos esto todos
ocupados!...
O outro respondeu com um risinho. E, depois de ligeiro silncio,
passando-lhe um brao nas costas::
- Tu, aqui, no quero que sejas um hspede, mas um amigo, um
colega, um filho da famlia, uma espcie de meu irmo,
compreendes? So dessas coisas que se no explicam - questo
de simpatia! Conhecemo-nos de ontem e  como se tivssemos
sido criados juntos; em mim podes contar com um amigo para a
vida e para a morte!
E, estacando defronte de Amncio, olhou para ele muito srio,
dizendo em tom grave:
- E acredita que isto em mim  raro! Pergunta a aos meus colegas
se sou de muitas amizades; todos eles te diro que ningum h
mais concentrado e metido consigo. Mas, quando simpatizo
deveras com uma pessoa  assim, como vs, trago-a para o seio
de minha famlia e trato-a como irmo!
E, descaindo no tom primitivo da conversa:
- Se ficares aqui, como espero, vers com o tempo as sinceridade
do que te estou dizendo!  que gostei de ti, acabou-se.
Amncio jurava corresponder quela amizade, mas, no ntimo, ria-
se do Coqueiro, que agora lhe parecia tolo, e cujo casamento com
a francesa velhusca o tornava, a seus olhos, cada vez mais
ridculo.
Ao passarem pelo salo concordaram que aquilo era um excelente
lugar para uma "boa prosa".
Amncio teria tudo isso s suas ordens; podia
dispor!...acrescentou o outro. E, abrindo cuidadosamente a porta
do gabinete que ficava ao lado, disse, com a entonao de um
guarda de museu que vai mostra uma raridade:
- Eis o ninho que te destino!  o lugar mais catita de toda a casa:
isto, porm, no quer dizer que os outros cmodos no estejam 
tua disposio!...Se, mais tarde, te apetecer trocar de quarto...
E, logo que entraram, foi-lhe mostrando a caminha cheirosa, o
pequeno lavatrio de pedra-mrmore; f-lo notar o bom estado da
cmoda, a elegncia do velador, o artstico das escarradeiras.
- E, ali, o grande mestre! Clamou com nfase, apontando para a
gravura da parede.
- "Victor Hugo" , leu Amncio debaixo do retrato- Bom poeta!
Acrescentou.
- Creio que no ficars mal , hein ?...disse o outro.
- Ah! no! respondeu o provinciano, assentado-se fatigado em
uma cadeira. E o preo?
- Ah! Isso depois ...minha mulher  quem sabe dessas coisas, mas
no havemos de brigar!...
E riu.
- Ficas aqui muito bem! Sers tratado como um filho; quando
precisares de qualquer cuidado, numa molstia, numa dor de
cabea, hs de ver que te no faltar nada! Alm disso- podes
entrar e sair  vontade, livremente, s horas que entenderes; se
gostas de teu chazinho  noite, com torradas, hs de encontr-lo,
abafado,  tua espera sobre aquela mesa...De manh, se quiseres
o caf na cama, tambm ters o teu caf e quando estiveres
aborrecido do quarto, tens o salo, tens a sala de jantar, a
chcara, o jardim; finalmente tens tudo s tuas ordens!
- Agora, quanto a certas visitas...concluiu Joo Coqueiro, fazendo-
se muito sisudo e abaixando a voz, - isso, filho, tem pacincia...L
fora o que quiseres, mas daquela porta para dentro...
- Decerto! Apressou-se a declarar o outro, com escrpulo.
- Sim! Sabes que isto  uma casa de famlia e, para a boa moral...
- Mas certamente, certamente! Repetiu Amncio.
E acendeu um cigarro.

                                VII

Dos hspedes de cama e mesa s trs compareceram ao jantar, -
Lcia, o marido e o tal gentleman de nome difcil. Paula Mendes
estava de passeio com a mulher em casa de um artista.
Amncio foi apresentado queles trs pelo Joo Coqueiro.
Trocaram-se bonitas palavras de etiqueta; fizeram-se os
mentirosos protestos da cortesia e cada um tomou  mesa o seu
lugar competente. Mme. Brizard, como era de costume, ocupou a
cabeceira, defronte de uma pilha enorme de pratos fundos, os
quais ia enchendo de sopa , um a um, paulatinamente, depois de
rodar a concha trs vezes no fundo da terrina; e,  proporo que
os enchia, passava-os ao marido que nesse dia lhe ficara 
esquerda, visto que a direita, seu lugar favorito, cedera-a ele ao
novo hspede.
Na ocasio de conferir-lhe semelhante honra, bateu-lhe
carinhosamente no ombro e disse-lhe baixinho:- Ficas bem! Ficas
junto a Lol!
Mme. Brizard, que ouvira estas palavras, acrescentou sorrindo:
- O Sr. Vasconcelos preferia talvez ficar entre as moas...
-  minha senhora!... balbuciou Amncio, vergando-se para o lado
da francesa.- Estou muito bem aqui; no podia desejar melhor
vizinhana!...
E voltou o olhar a sua direita, onde Lcia acabava de tomar
assento.
Examinou-a logo,  primeira vista, sem o dar a conhecer, e a
impresso recebida no foi das melhores. Achou-a esquisita, um
tanto feia, um ar pretensioso, de doutora.
Era de estatura regular, tinha as costas arqueadas e os ombros
levemente contrados, braos moles, cintura pouco abaixo dos
seios, desenhando muito a barriga. Q quando andava,
principalmente em ocasies de cerimnia, sacudia o corpo na
cadncia dos passos e bamboleava a cabea com um movimento
de afetada languidez. Muito plida, olhos grandes e bonitos,
repuxados para os cantos exteriores, em um feitio acentuado de
folhas de roseira; lbios descorados e cheios mas graciosos.
Nunca se despregava das lunetas, e a forte miopia dava-lhe aos
olhos uma expresso mida de choro.
Em seguida via-se o marido. Um homenzinho gordo, de barba por
fazer e pequeno bigode castanho, em parte lourejado pelo fumo. A
fronte abria-lhe para o crnio em dois semicrculos constitudos na
ausncia do cabelo. Fisionomia inaltervel, de uma tranqilidade
irracional e covarde.. Fechava de vez em quando os olhos, por um
sestro antigo, e ento parecia dormir profundamente.
Percebia-se que ele e a mulher estiveram, antes de vir para a
mesa, empenhados em alguma discusso desagradvel, porque,
mal se furtaram s apresentaes e aos cumprimentos da
chegada, Lcia ps-se a falar-lhe em voz baixa, com azedume
disfarado. Ele, porm, no dava resposta, e, quando a mulher
insistia, cerrava os olhos como se fugira para dentro de si mesmo.
Csar, ao lado, acompanhava-lhe os movimentos com
persistncia to grosseira que a outro qualquer constrangeria.
Defronte perfilava-se o gentleman. Teso, o pescoo imobilizado no
rigor de uns grandes colarinhos; as sobrancelhas franzidas
diplomaticamente; o olhar grave, de que medita coisa de alta
importncias; a boca engolida por um farto bigode grisalho; o
queixo escanhoado, formando largas pregas, sempre que
Lambertosa voltava o rosto com amabilidade para responder ao
que lhe diziam da direita ou da esquerda. Bonita figura, bem
apessoado, fronte espaosa, cabelo branco , puxado de trs sobre
as orelhas.
Entre ele e o Coqueiro, Amelinha, cheia de piscos de olhos e de
gestozinhos passarinheiros, recebia do irmo os pratos de sopa e
passava-os adiante.
- E Nini?...perguntou Mme. Brizard com interesse.
E, como Amncio a fitasse, quando lhe ouviu aquela pergunta, ela
explicou que Nini era uma filha sua, "muito doente, coitadinha...!"
E contou logo toda a histria da pobre menina - a viuvez, a
dolorosa morte do filhinho "que lhe havia ficado como extrema
consolao", e, afinal, falou daquela "maldita molstia que
sobreviera a tantas calamidades e que parecia disposta a no
abandonar mais a infeliz".
- No d idia do que foi! Disse aps um suspiro. - Era uma beleza
e tinha o gnio mais alegre deste mundo! Ah! Est muito mudada!
Muito mudada! Impressiona-se com tudo, tem exigncias pueris,
caprichos, coisas de uma verdadeira criana! E ningum a
contraria, que aparecem as crises, os ataques! Uma campanha! -
Ainda outro dia, porque no lhe deixaram ver um desenho que
meu marido achou na chcara...
E, voltando-se rapidamente para Amncio:
- O Sr. Vasconcelos no se serve de vinho?...- Um desenho
indecente; pois ficou prostrada e eu tive srios receios de a ver
perdida para sempre! Desde ento est nervosa que se lhe no
pode dizer nada!  preciso no insistir com ela em coisa alguma:
se a chamam duas vezes para a mesa, comea a chorar e no
vem; se a querem

constranger a pr um vestido melhor, um penteado mais decente,
so gritos, soluos, repeles, e agarra-se  cama, que no h
meio de tir-la! Eu j no sei que faa!...
- Por que, Madame, no experimenta os banhos de mar?
Perguntou o gentleman, limpando energicamente o seu grosso
bigode no guardanapo que atara ao pescoo.
- Qual! No produzem efeito nenhum! Ela j tomou quarenta
seguidos. Acho at que ficou pior.
 estranho!... volveu o gentleman, franzindo o sobrolho e
passando a Lcia a corbelha de farinha. -  estranho porque ,
segundo Durand Fardel, no h enfermidades nervosas que
resistam a um bom regime de banhos martimos; mas aconselha
tambm o uso interno de gua salada, e prova que a
mineralizao desta  muito mais rica em cloreto de sdio do que
a das guas minerais da fonte.
- No sei Sr. Lamber...
Mme. Brizard no se lembrava do nome dele.
- Lambertosa, Mme., Lambertosa!
- No sei, Sr. Lambertosa, no sei...O caso  Nini no consegue
melhorar. Temos experimentado de tudo, tudo!
E, mudando de tom, bateu no brao de Amncio, segredando-lhe
com um sorriso:
- No se esquea de provar daqueles camares. So
especiais!...E descreveu uma olhadela entre ele e Amlia.
- O casamento talvez a restabelecesse!...observou o provinciano,
servindo-se dos afamados camares. - Dizem que h muitos
exemplos de ...
Amlia afetou um sobressaltozinho, e olhou para ele, procurando
disfarar o mau efeito de sua proposio, citou Le Bom.
- O doutor acha ento que o histerismo se pode curar com o
casamento?...perguntou Lcia da direita.
- Parece, minha senhora, a dar crdito aos fisiologistas...
A sonoridade desta palavra consolou-o
- E  exato...confirmou o Pereira, marido de Lcia.
- Tu mesmo entendes disto!...respondeu-lhe a mulher
desdenhosamente.
O Pereira fechou os olhos e no deu mais palavra.
Lambertosa havia j limpado o bigode para emitir a sua
conceituosa opinio, mas teve de renunciar a essa idia, porque
Nini acabava de assomar  porta do quarto, arrastando-se
dificilmente ao peso de suas inchaes.
Vestia uma bata de l parda, enxovalhada e se cinta. A gordura
balofa e anmica tirava-lhe o feitio do corpo; as suas costas
formavam-se de uma s curva e os quadris pareciam duas
grandes almofadas.
Contudo ainda se lhe reconhecia a mocidade e ainda se
alcanavam os vestgios desbotados dos encantos, que a molstia
foi pouco a pouco devastando
S de pois de assentada, Nini desmanchou o ar aflito que fazia,
pelo esforo de andar..
- Ah! respirou, quase sem flego. E coreu os olhos em torno de si,
abstratamente, como se despertasse de um desmaio. Ao dar com
Amncio, ficou a encar-lo com insistncia de criana; depois,
contraiu os msculos do rosto e espalhou a vista, vagarosamente,
a tomar longos sorvos de ar.
Um silncio formou-se em torno de sua chegada; percebia-se que
pensavam nela.
- Queres sopa, Nini? Perguntou afinal Mme. Brizard, com ternura.
E, como as filha fizesse um movimento afirmativo de cabea,
passou-lhe um prato cheio.
Nini sorveu-o todo, a colheradas seguidas, e pediu mais
A me aconselhou-a a que comesse antes outra qualquer coisa.
Nini largou a colher no prato, sem dizer palavra, e ps-se de novo
a encarar para Amncio, com um olhar to dolorido e to
persistente, que o rapaz ficou impressionado.
E no lhe tirou mais a vista de cima. O estudante remexia-se na
cadeira, importunado por aqueles dois olhos grandes, rasos, de
um azul duvidoso, que se fixavam sobre ele, imveis e
esquecidos.
Disfarava, procurava no dar por isso, nada, porm, conseguia.
Os dois importunos l estavam, sempre assentados sobre ele, a
lhe queimar a pacincia, como se fossem dois vidros de aumento
colocados contra o sol.
- Que embirrncia! Dizia consigo o provinciano.
Entretanto o jantar esquentava. A conversa explodia j de vrios
pontos da mesa com mais freqncia; ouviam-se tinir os garfos de
encontro  loua, e os copos esvaziavam-se e de novo se
enchiam, sem ningum dar por isso.
Mme. Brizard no se descuidava um segundo de Amncio.
Apontava-lhe os pratos preferveis, puxava as garrafas para junto
dele, sempre a falar da salubridade da casa, do bem que se ficava
ali, da simpatia que toda a famlia parecia lhe dedicar, desde o
primeiro momento em que o viu.
- Pois se at a pobre Nini no se fartava de olhar para o Sr.
Vasconcelos!...

Amncio sorriu.
O Lambertosa atirou-lhe diretamente a palavra sobre o Maranho.
Tratou com respeito dessa "judiciosa provncia, a qual merecia de
justia o honroso ttulo que lhe fora conferido de - Atenas
Brasileira!" E, depois de citar nomes ilustres, disps-se a contar as
faanhas de um tal Maranhense, clebre pelas suas espertezas.
- Perdo! Acudiu Amncio.- Esse cavalheiro de indstria, alm do
nome, nada tem de comum com a minha provncia!
- Ah! fez o gentleman - Pois eu o julgava filho de l...
- Felizmente no , respondeu o outro, ferido no seu bairrismo.
- E ainda que fosse!...observou Lcia - que mal havia nisso?
- Certamente , confirmou Coqueiro a encher o prato.
- Pois meu amigo, volveu o Lambertosa, dirigindo-se a Amncio, -
eu o felicito! E levou o copo  boca. Eu o felicito, porque,
francamente, considero um padro de glria ver a luz do dia em
uma provncia to...
Faltou-lhe o termo.
- To, to gigantesca! Estude, caminhe, caminhe, que tem uma
grande estrada aberta defronte de si!
E engrossando a voz:
- Assiste-lhe uma responsabilidade enorme!  caminhar e
caminhar firme! Ah! terminou ele com um gesto lamentoso. -
Quem me dera a sua idade, meu amigo! Quem me dera a sua
idade!
Continuou a falar sobre o Maranho. Lcia quis informaes;
Amncio voltou-se logo para ela, solicitamente, e na febre de falar
de sua terra, comeou, sem reparar que mentia, a pintar coisas
extraordinrias. O Maranho segundo ele dizia, era um viveiro de
talentos; os grmios e os jornais literrios brotavam ali de toda a
parte; cada indivduo representava um gramtico de pulso; as
senhoras ilustradssimas; os homens - poos de instruo; as
crianas saam da escola bons poetas e prosadores.
Coqueiro afetava acompanh-lo naquele entusiasmo, mas ria-se
por dentro. O outro lhe parecia cada vez mais tolo.
Lcia perguntou se Amncio tinha algumas produes dos seus
comprovincianos, que lhe pudesse emprestar. Ele prometeu que
traria as que tivesse em casa. E recomendou Entre o Cu e a
Terra de Flvio Reymar.
- H em sua provncia um poeta que eu adoro, disse ela, cortando
em pedacinhos os uma fatia de carne assada que tinha no prato.
O Franco de S perguntou o maranhense.
- No, refiro-me ao Dias Carneiro.
Amncio sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Nunca em sua
vidas ouvira falar de semelhante nome.
- , disse entretanto, -  um grande poeta!
Enorme! Corrigiu Lcia, levando  boca uma garfada. - Enorme!
Conhece aquela poesia
dele, o...
Novo calafrio, desta vez, porm , acompanhado de suores. E no
lhe acudia um ttulo para apresentar, um ttulo qualquer, ainda que
no fosse verdadeiro.- Ora, como  mesmo? Insistia a senhora. -
Tenho o nome debaixo da lngua!
E, voltando-se com superioridade para o marido:- Como se chama
aquela poesia, que est no lbum de capa escura, escrita a tinta
azul?
O Pereira abriu os olhos e disse lentamente:
- O Cntico do Calvrio.
s um idiota !respondeu a mulher.
A resposta do Pereira provocou hilaridade. Amncio consultou
logo a opinio de Lcia sobre o Varela. Mme. Brizard falou ento
dos versos do marido, prometeu que os mostraria depois do jantar.
Amncio soltou uma exclamao de espanto:
- Ignorava que o Coqueiro tambm fizesse versos!
- Fao-os, confirmou este - mas s para mim, publiquei j alguns
com pseudnimo. Receio a convivncia dos literatos que formigam
por a, esfarrapados e bbados. No me quero misturar com eles!
Fao versos,  verdade, mas tenho a presuno de escrev-los
como devem ser e no acumulando extravagncias e disparates
para armar ao efeito! Fao versos, mas no tomo parte nessas
panelinhas de elogio mtuo e nesses grupos de imbecis
escrevinhadores!
E, com muito azedume, com durezas de inveja, principiou a dizer
mal dos rapazes que no Rio de Janeiro se tornavam mais
conhecidos pelas letras.

- Pedantes! Resmungava. - Scia de idiotas! Hoje, todos querem
ser escritores; sujeitinhos que no sabem ligar duas idias,
arrogam-se, da noite para o dia, os foros de literatos! Uma
cambada!
E ria-se com um gesto amargo de desgosto.
Lcia e Lambertosa defendiam timidamente alguns nomes.- Ora o
qu, senhores! Replicava Coqueiro furioso e plido. - Qual  a o
tipo da tal "gerao moderna" que se possa aproveitar?...No me
apontam nenhum! So todos umas bestas!
- Coqueiro!...repreendeu Mme. Brizard em voz baixa.
- So todos umas nulidades, uns zeros!...
Era a primeira vez que Amncio via o colega sair de si. No o
supunha capaz daquelas exploses.
Mme. Brizard compreendeu o pensamento do provinciano e
apressou-se a dizer-lhe ao ouvido:
- Tambm  s o que o faz sair do srio...a literatura!
Amlia indagou se Amncio tambm, escrevia.. Ele disse que sim,
a sorrir, a desculpar-se com os outros.
- Quem neste mundo no rabiscava mais ou menos?...
Ela mostrou logo empenho em lhe conhecer as produes.
- No vale a pena! Disse o moo. - No vale a pena!
- Ai, ai! suspirou Nini, que parecia adormecida com olhos abertos.
Mme. Brizard que j conhecia o alcance daquele suspiro,
perguntou  filha o que desejava. Nini apontou melancolicamente
para uma prato, onde fatias transparentes de abacaxi nadavam
em calda de vinho.
- No senhora, volveu a me, - isso no pode ser, faz-te mal.
Nini suspirou de novo e ficou a olhar para Amncio,
resignadamente, o semblante muito pesaroso, a cabea vergada
para o lado.
- Serve-te antes de doce, aconselhou Mme. Brizard.
O Lambertosa apressou-se a passar a Nini a compoteira.
- Pouco, Sr. Lambertosa, d-lhe pouco!

                               ***
Veio o caf. Csar levantou-se da mesa e foi brincar a um canto
da sala. Mme. Brizard queria saber se estavam todos satisfeitos;
ela, quanto a si, - jantara perfeitamente, confessava.
E, com um aspecto regalado, deixava-se ficar prostrada na
cadeira, entorpecida no bem-estar do seu estmago.
O copeiro, um preto alto de pernas compridas, levantou a toalha,
acendeu o gs e trouxe curaau e conhaque. Amlia bebericou o
seu clice de licor e levantou-se logo para ir  janela. Afastaram-
se as cadeiras da mesa, e a conversa reapareceu com mais fora.
O Lambertosa, Mme. Brizard e Coqueiro formaram grupo, a
discutir o preo excessivo e a falsificao dos gneros
alimentcios.. O gentleman reclamava uma junta de higiene,
rigorosa, que mandasse lanar  praia todos os gneros
deteriorados que encontrasse. "Era assim que se fazia na
Europa!"
Lcia, do outro lado da mesa, continuava a falar com Amncio
sobre literatura. J estavam em Thephile Gautier, Theodore de
Banville e Baudelaire, depois de haverem tocado de passagem em
alguns escritores de Portugal. Agora sentia-se mais eloqente o
provinciano; acudiam-lhe opinies e juzos perfeitamente armados;
percebia que as suas palavras causavam bom efeito; ia bem.
Pereira e Nini conservavam-se um defronte do outro, igualmente
concentrados e mudos; ela, porm com os olhos muitos abertos
sobre Amncio. O outro, afinal ergueu-se, atravessou, lentamente,
como um sonmbulo, a sala de jantar, e foi e foi estender-se em
uma preguiosa que ficava junto  janela
Vibrou ento o piano no salo de visitas.
-  melhor irmos todos para l, alvitrou a dona da casa.
O marido e o Lambertosa aceitaram logo a idia, e Amncio, sem
interromper a sua conversa com a mulher do Pereira, a esta deu o
brao e segui o exemplo daqueles.
Lcia caminhava toda reclinada sobre ele, falando-lhe em tom mui
vagaroso, com acentuaes finas de boa educao.
A sala iluminada tinha um carter imponente. O gentleman
encaminhou a conversa geral para a msica, aconselhou a
Amncio que solicitasse da Sr. D. Lcia um pouco do Guarani,
que ela tocava admiravelmente.

Lcia queixou-se de que ultimamente sofria de certa fraqueza nos
dedos e no tocava com a mesma expresso , mas sempre foi
pelo brao de Lambertosa tomar ao piano o lugar que Amlia
deixara nesse instante. E logo as primeiras notas da introduo do
Guarani encheram a sala com a sua corajosa e dominadora
solenidade.
Fizeram silncio.
Ela tocava bem, com muita energia e destreza. Amncio
encostara-se sozinho ao canto de uma janela e sentia-se ir a
pouco e pouco arrastando pela irresistvel corrente daquelas
frases musicais Seu estmago, perfeitamente confortado, dava-lhe
ao corpo um bem-estar beatfico e predispunha-lhe o esprito para
as vagas concentraes e para os msticos arrebatamentos da
fantasia. Um profundo langor, muito voluptuoso, apoderava-se de
todo ele, e os vapores duvidosos de um princpio de embriaguez,
acamavam-se em torno de sua cabea, anuviando-lhe os objetos
exteriores.
E ali, da janela suspenso ainda pelas novas impresses que lhe
deparavam os novos aspectos de sua existncia, abstrato e
perdido em cismas indefinidas, enxergava, por entre as nvoas do
seu enlevo, o vulto melanclico de Lcia, assentada defronte do
piano, a picar o teclado com os dedos, num frenesi delicioso.
Depois da msica principiou a simpatizar com ela; j gostava de a
ver, misteriosa e plida, arrastando a vida com a languidez de uma
convalescente.
Estava todo embevecido a pensar nesta simpatia, quando voltou
por acaso o rosto e deu com os olhos de Nini, que o fitavam sem
pestanejar. -  birra, no tem que ver! Pensou ele aborrecido..

                               ***

Duas horas depois tornavam  sala de jantar. Serviam-se as
torradas. Pereira, com o Csar adormecido sobre as pernas,
ressonava profundamente na mesma preguiosa em que o tinham
deixado.
Mme. Brizard chamou o copeiro e ordenou-lhe que recolhesse o
menino. Pereira espreguiou-se, abriu vagarosamente os olhos ,
mas tornou a fech-los, bocejando.
J estavam  mesa, quando os hspedes principiaram a chegar.
Veio o Paula Mendes e mais a mulher. Ele de pequena estatura,
grosso, os movimentos acanhados, a voz branda e a fisionomia
triste; ela muito alta, cheia de corpo, despejada de maneiras e com
feies de homem.
Chamava-se Catarina, estava sempre a implicar com as coisas e
tinha muita fora de gnio. Entrou como uma fria; o marido atrs.
Cumprimentou a todos com um - "boas-noites" terrvel, e, atirando-
se a uma cadeira, declarou , a bater com a mo na mesa, que
vinha desesperada! - Pois, se em vez de piano, lhe haviam dado
um tacho, um verdadeiro tacho, para executar um noturno de
Chopin! Dificlimo!
- Pouca vergonha! Exclamava ela, rangendo os dentes. -
canalhas!
E voltando-se para o marido com um furor crescente: - Mas o
culpado foste tu, lesma de uma figa!- j devias conhecer melhor
aquela scia!
- Mas... ia responder o marido.
Cale-se, berrou ela. - No me d uma palavra, que no estou
disposta a lhe ouvir a voz! Diabo do basbaque
Fez uma pausa, estava arquejante, mas continuou logo:
- Tambm ali, acabou-se! Cruz na porta! Nunca mais! Nunca mais!
Nem admito que me falem na rua! Corja!
E, levantando-se com mpeto, cumprimentou a todos com um
arremesso, e subiu para o segundo andar, levando o marido na
frente, aos empurres
Safa, disse Amncio consigo.
O Dr. Tavares  que vinha satisfeito. Estivera em casa de um
amigo, pessoa de muita considerao, onde se reunia a mais fina
sociedade.
E, necessitado de expandir o seu bom humor, entabulou conversa
com Amncio. Falou-lhe a um s tempo de mil coisas diferentes;
tratou muito de si; das suas pretenses na Corte que apenas
conhecia de alguns meses; das suas esperanas de obter o que
desejava; do que lhe dissera tal ministro; do que prometera tal
conselheiro ,e, afinal , da sua profisso de advogado, profisso
que ele exercia com entusiasmo, com delrio, porque, desde
pequeno, toda a sua queda fora sempre para falar em pblico,
para dominar as massas.
E, esquentando-se ao calor de suas prprias palavras, discursava,
como se j estivesse no tribunal. Armava posies; recorria aos
efeitos da tribuna, vergava para trs. a cabea, ameaando
espetar o auditrio com a ponta de sua barba triangular.
Sentia-se radiante por ver que todos os mais no abriam a boca,
enquanto ele estivesse com a palavra.

Seu tipo indeciso, de cearense do interior, uma dessas fisionomias
confusas e duvidosas, nas quais o fulvo castanho dos cabelos
quase que no se distingue do moreno da pele e do pardo
verdoengo dos olhos, seu tipo transformava-se na febre da
eloqncia e parecia acentuar-se por instantes.
E, j de p, com uma das mos apoiada nas costas da cadeira,
jogava freneticamente com a outra, ora espalmando-a em cheio
sobre o peito, ora apontando terrvel para o teto , ora indicando o
cho , horrorizado, como se ai estivesse um abismo, ora dando
com o indicador ligeiras e repetidas facadinhas no ar; ao passo
que a voz, pelo contrrio, se lhe arrastava em trmulos
prolongados, como as notas graves de um harmonium.
Enquanto ele parolava, outros hspedes se recolhiam aos
competentes quartos, atravessando a varanda pelo fundo na ponta
dos ps, com medo da "caceteao".
Aquele homem era o terror da casa. s vezes,, depois do jantar,
quando ele abria as torneiras da loquacidade,, iam todos, um por
um, fugindo sorrateiramente, at deix-lo a ss com o Pereira que,
afinal, adormecia.
Amncio principiava a sentir cansao. Quis retirar-se; no lho
consentiram.
- Passava j de meia-noite; a casa do Campos devia estar fechada
quela hora.- O melhor seria ficar, observou a francesa.
- Que diabo, acudiu Coqueiro. - Fica, no incomodars
ningum...Ests tudo providenciado; a cama feita...Alm disso,
olha! E mostrando o cu pela janela:- Vamos ter chuva!
Com efeito sopravam os ventos do sul. Amncio ainda ops
algumas razes, mas finalmente cedeu.

                               ***

Era mais de uma hora quando se dispersou a roda e cada um,
depois de novos protestos e oferecimentos se recolheu 
competente alcova.
Mme. Brizard recomendou muito a Amncio que ficasse 
vontade; que no tivesse escrpulos em reclamar qualquer coisa
de eu sentisse falta. Supunha, porm , no haver ocasio disso,
porque fora ela prpria e mais a Amelinha quem lhe arranjara o
quarto.
Coqueiro acompanhou-o at a cama, examinou rapidamente se
estava tudo no seu lugar e depois, dando mais luz aso bico de
gs, e tirando um folheto da algibeira disse-lhe com um sorriso:
Sempre te vou mostrar os versos...
Amncio, j meio despido, estremeceu, mas no ops a menor
considerao, e meteu-se debaixo dos lenis.
O outro em p ao lado da cama, folheava amorosamente o seu
caderno de versos,  procura do que deveria ler em, primeiro lugar
Descobriu afinal e, com a voz clara e sonora , principiou:
" Estamos em plena Roma. Os Csares devassos..."

                               VIII

Amncio sentiu um grande alvio, quando se achou afinal
inteiramente s; a porta do quarto bem fechada e a luz do bico de
gs quase extinta.
Estava morto de fadiga.
As enfadonhas conversas de Coqueiro e Mme. Brizard, o jugo
inquisitorial das cerimnias, a pndega da vspera, tudo isso dava
quela caminha fresca, de lenis limpos, um encanto superior ao
que houvesse de melhor no mundo. Seu corpo quebrado de
impresses diversas e na maior parte consumidoras e lascivas,
bebia aquele repouso por todos os poros, voluptuosamente, como
um sequioso que se metesse dentro da gua..
Aninhou-se , encolheu-se, abraado aos travesseiros, ouvindo
com uma certa delcia esfuziar o vento nas portas e, l fora,
desencadear-se o temporal, arremessando gua aos punhados
contra telhas e paredes.
E deixava-se arrebatar pelo sono, como se deslizasse por uma
ladeira interminvel de algodo em rama.
Os acontecimentos d dia comearam a desfilar em torno de sua
cabea, em procisses fantsticas de sombras duvidosas e
fugitivas. Dentre estas, era o vulto de Lcia o que melhor se
destacava, com o seu andar quebrado e voluptuoso, a remexer os
quadris, atirando a barriga para frente. Chegava a distinguir-lhe
perfeitamente os grandes olhos amortecidos e a sentir-lhe o
perfume que ela trazia essa tarde no leno e nos cabelos. Em
seguida, vinha a outra, a Amelinha, mas no com a lucidez da
primeira. E logo depois Mme. Brizard, com o seu todo pretensioso;
Nini, a fit-lo, muito aflita, as mos inchadas e sem tato, o cabelo
escorrido sobre a

cabea, cheirando a pomada alvssima, bata el, escura e sinistra
como um burel. E, depois, numa confuso vertiginosa, - o
Coqueiro a berrar versos, danando no ar e a sacudir em uma das
mos um punhado de feijes pretos; e o Paula Mendes a jogar os
murros com a mulher; e o Dr. Tavares a discursar com os braos
erguidos para ao ar; e o Csar, o menino prodgio, a
esgarafunchar o nariz freneticamente; e o Pereira, de olhos
fechados, a andar como sonmbulo; e o ...
Mas os vultos de todos se confundiam e desfibravam, como
nuvens que o vento enxota. Amncio j os no distinguia.
Acordou s oito horas do dia seguinte, meio inconsciente do lugar
onde se achava. Logo, porm, que caiu em si, levantou-se de um
pulo e abriu a janela de par em par. Um jato de luz dourada
invadiu-lhe a alcova.
Olhou a ,manh, que estava de uma transparncia admirvel. A
chuva da vspera limpara a atmosfera; corria fresco. Os bondes
passavam cheios de empregados pblicos; viam-se amas-de-leite
acompanhando os bebs; senhoras que voltavam do banho de
mar, o cabelo solto, uma toalha no ombro.
Aquele movimento era comunicativo. Amncio sentiu vontade de
sair e andar  toa pelas ruas. Todo ele reclamava longos passeios
ao campo, por debaixo de rvores, em companhia de amigos.
Foi para o lavatrio cantarolando; o sono completo da noite fazia-o
bem disposto e animado.
Mal acabara de se preparar quando bateram de leve na porta. Era
uma mucamazinha, que j na vspera lhe chamara por vrias
vezes a ateno durante o jantar.
Teria quinze anos, forte, cheia de corpo, um sorriso alvar
mostrando dentes largos e curtos, de uma brancura sem brilho.
Vinha saber se o Dr. Amncio queria o caf antes ou depois do
banho.
Amncio, em vez de responder, agarrou-lhe o brao com um
agrado violento e grosseiro.
Ela ps-se a rir aparvalhadamente.

                               ***

s dez horas, ao terminar o almoo, estava j resolvido que o
rapaz, naquele mesmo dia, se mudava definitivamente para a casa
de penso.
Com efeito, pouco depois, no escritrio do Campos, dizia a este,
cheio de maneiras de pessoa ajuizada, "que afinal descobrira em
casa da famlia de um amigo o cmodo que procurava".
Agradeceu muito os obsquios recebidos das mos do
negociante, desculpou-se pelas maadas que causara
naturalmente e pediu licena para despedir-se de D. Maria
Hortnsia.
O Campos, logo que soube qual era a casa de penso de que se
tratava, aprovou a escolha, citou pessoas distintas que l
estiveram morando por muito tempo, e recomendou ao estudante -
que lhe aparecesse de vez em quando; que no se acanhasse de
bater quela porta nas ocasies de apuro, porque seria atendido,
e, afinal, perguntou se Amncio queria receber a mesada, j ou
mais tarde.
- Como quiser... respondeu o provinciano, sem ter alis a menor
necessidade de dinheiro. E foi embolsando a quantia.
D. Maria Hortnsia recebeu-o com muito agrado. A irm no
estava em casa.
Conversaram.
Ela sentia que Amncio se retirasse assim to depressa; - mas,
quem sabe? Talvez no se desse bem ali; no fosse tratado como
merecia...
O estudante protestava, jurando que no podia ambicionar melhor
tratamento do que lhe dispensaram; reconhecia, porm, que j
causava muito incmodo, e por conseguinte devia retirar-se. No
queria abusar.
Hortnsia afianava e repetia que ele no dera incmodo de
espcie alguma.- Tudo aquilo era feito com muito gosto!
Agora parecia mais familiarizada com o provinciano. Chegou a
dirigir-lhe gracejos; disse, com um sorriso de inteno, que "sabia
perfeitamente o que aquilo era!... O que eram rapazes! - No se
queriam sujeitar a certo regime; s lhes servia pagodear  solta !
Enfim!...tinham l a sua razo... Se ela fosse rapaz faria o mesmo,
naturalmente!"
Amncio estranhou que tais palavras viessem de quem vinham, e,
no querendo perder a vaza, retorquiu com febre: "Que Hortnsia
estava enganada a respeito dele, que no o conhecia! Se, 
primeira vista ele parecia um pndego ou um sujeito mau, no o
era todavia no fundo! Ningum amava tanto a famlia; ningum
desejava o lar com tanto ardor e com tanto desespero! Oh! Que
inveja no tinha do Campos!...que inveja no tinha de todo
homem, a cujo lado enxergava uma esposa bonita e carinhosa!..."
Hortnsia agradeceu com um sorriso.
- Oh! Quanto fora injusta!...prosseguiu Amncio, como rosto
esfogueado de comoo. - Quanto fora injusta! O seu ideal, dele,
era justamente o casamento; era possuir uma mulherzinha,
cheirosa e meiga, com quem

passasse a existncia, ditosos e obscuros no seu canto, vivendo
um para o outro, ignorados, egostas, no cedendo nenhum dos
dois, a mais ningum a menor particularzinha de si,- um sorriso
que fosse, um olhar amigo, um aperto de mo!
- Que rigor! Exclamou Hortnsia, tomando certo interesse pelo que
dizia o estudante.- Que rigor! No o supunha assim, seu
Amncio!...
- Oh! Era assim que ele entendia o verdadeiro amor!...
E, cada vez mais quente:
- Era assim que ele amaria! Era assim que ele cercaria de beijos o
anjo estremecido que o quisesse recolher  tepidez consoladora
de suas asas! Era assim que sonhava a existncia de duas almas
gmeas, soltas no azul, gozando a voluptuosidade do mesmo
vo!...
- Pois  casar-se, meu amigo... aconselhou a mulher do Campos,
pasmada de ouvir Amncio falar daquele modo.- No o fazia to
prosa!...
E, como era preciso dizer qualquer coisa, acrescentou muito
amvel:
- Quem sabe se alguma fluminense j no lhe voltou o miolo!...
Ele confessou que sim, sacudindo tristemente a cabea . E, de tal
modo exprimiu o seu amor por "essa fluminense", to ardente e
to apaixonado se mostrou, que Hortnsia instintivamente se
ergueu, a olhar para os lados, sobressaltada como se tivesse
cometido uma falta.
No quis saber de quem se tratava.
Deu uma volta pela sala, foi ao aparador, tomou alguns goles de
gua e, procurando mudar de conversa, falou do baile que havia
essa noite em casa do Melo. - Devia ser muito bom, constava que
havia quinze dias se preparavam para a festa. Era em Botafogo. O
Campos, logo que recebeu o convite, lembrou-se de levar
Amncio consigo, este, porm, to raramente aparecia em casa, e
agora, com esta mudana...
- No. O Campos falou-me, disse o estudante.
- Ah! sempre chegou a lhe falar?
- H trs ou quatro dias; mas eu no tencionava ir...
- Por qu? O senhor  moo, deve divertir-se.
- A senhora vai?
- Sim, vou.
- Nesse caso irei tambm.
E Amncio ligou to expressiva entonao quelas palavras, que
Hortnsia abaixou os olhos, j impaciente, sem mais vontade de
conversar.
- Seria possvel, pensava ela - que aquele estudante lhe quisesse
fazer a corte?... No! no seria capaz disso, e, se fosse , ela
saberia desengan-lo! Ah! com certeza que o desenganava!
Campos subiu da a um instante, e Amncio, depois de combinar
com ele que voltaria  noite para irem juntos  casa do Melo,
entregou as suas malas a um carregador e saiu.
Sentia-se alegre; a nova atitude de Hortnsia dava-lhe um vago
antegosto de prazeres; previa com delcia os bons momentos que
o esperavam.
- E agora  que vou deixar a casa!...pensava ele j na rua .- Que
tolo fui! Abandonar a empresa, justamente quando me sorri a
primeira esperana! "Mas pedao de asno, argumentava com seus
botes - no calculaste logo que aquela mulher mais dia menos
dia, havia de escorregar? Porque diabo ento no esperaste um
pouco?..."Ora! mas que caiporismo o meu! Sair nesta ocasio!
Perder uma conquista to boa! Agora tambm que remdio lhe ei
de dar? O que est feito, est feito! A este momento minhas malas
talvez j tenham chegado  casa do Coqueiro! E com este nome
assaltaram-lhe logo o esprito as imagens de Lcia e Amelinha.
Bem me dizia o Simes, pensou ele. - Bem me dizia o Simes:
"Quando te comearem as aventuras, hs de ver o que vai por
esta sociedade!"
E Amncio, que no conseguia reter na cabea as palavras dos
seus professores, Amncio, que era incapaz de guardar na
memria um fato, um algarismo, uma frmula cientfica,
conservava, entretanto, com toda a inteireza aquela frase banal,
pronunciada por um pndego em um almoo de hotel, depois de
meia dzia de garrafas de vinho.
- O Simes tinha toda a razo... principiavam as aventuras! Diabo
era aquela asneira de abandonar to intempestivamente a casa do
Campos! Fora uma triste idias, que dvida! Mas, ele tambm no
podias adivinhar quais seriam as intenes de Hortnsia!... O
melhor por conseguinte era no se apoquentar - o que lhe
estivesse destinado havia de chegar-lhe s mos!...
E j nem pensava nisso quando subiu as escadas da casa de
penso. Sorrisos amveis de Amelinha e Mme.Brizard o
receberam desde a entrada. Coqueiro estava na rua.

Veio a conversa do baile dessa noite. Amncio, pela primeira vez,
ia conhecer uma sala da Corte. As duas senhoras profetizavam
que ele voltaria cativo por alguma carioca.
- Duvido! Respondeu o estudante, a rir.
- ! Disse a francesa - vocs do Norte so todos uns santinhos! Eu
j os conheo! Nunca vi gente to assanhada.
Amelinha abaixou os olhos, depois de lanar  outra um gesto
repreensivo.
Mme. Brizard no fez caso e acrescentou:
- Os demnios no podem ver um rabo-de-saia!
- Lol! Censurou Amelinha em voz baixa.
- Tambm no  tanto assim!...contradisse o provinciano.
Mme. Brizard citou logo os exemplos de casa, at ali entre todos
os seus hspedes, s os nortistas davam sorte em questo de
amor. - Um deles, um tal Benfica Duarte, chegara a raptar com
escndalo uma crioula, e crioula feia!
Amelinha, bem contra a vontade, soltou uma risada, que lhe
desfez por instantes o ar inocente da fisionomia; mas recuperou-o
logo, e lembrou  cunhada "que no deviam estar ali a roubar o
tempo a seu Amncio. Ele tinha que cuidar das malas que j o
esperavam no quarto!"
- Ns podemos ajud-lo nesse trabalho, acudiu a velha.- Certas
coisas s ficam bem feitas por mo de mulher!
O estudante aceitou oferecimento, e os trs seguiram para o
gabinete, sempre a rir e a conversar.
Amelinha, enquanto Amncio estrava no quarto, observou, em voz
baixa a Mme. Brizard, que no achava conveniente que esta
arriscasse em sua presena pilhrias como as de ainda h pouco.
- O rapaz, por muito ingnuo que fosse, podia desconfiar com
aquilo e persuadir-se de que ela, Amelinha, no daria uma noiva
bastante sria e digna dele! Que, s vezes, por estas e outras
indiscries, desmanchavam-se casamentos!
- Como te enganas! Respondeu a velha- j compreendi bem esse
sujeito: a sua corda sensvel so as mulheres! Gosta que lhe falem
nisso! Tu, do que precisas,  opor-lhe dificuldades, sem que o
desenganes por uma vez; nega, mas promete, que obters a
vitria. Quando ele te pedir um beijo, d-lhe um sorriso; e, quando
quiser muito mais, d-lhe ento o beijo, contando que te mostres
logo arrependida, envergonhada, chorosa, inconsolvel, disposta a
no lhe ceder mais nada, e disposta a nunca lhe pertenceres, a
nunca lhe perdoares aquele atrevimento. E, se ele insistir, repele-
o, insulta-o, jura que o desprezas e f-lo acreditar que amas a
outro. -  dessa forma que o hs de agarrar, percebes? L quando
s minhas chalaas de ainda h pouco, descansa que por a no
ir o gato s filhoses.
Nesse momento, o rapaz acabava de abrir as malas. As duas
senhoras apareceram no quarto.
Ele tinha muita roupa branca, e tudo bom. Camisas finas de linho,
ricas toalhas de renda marcadas cuidadosamente por sua me,
fronhas bordadas, mostrando o seu nome entre labirintos e
desenhos caprichosos.
Sentia-se o amor, o desvelo, com que tudo aquilo fora arrumado;
cada objeto parecia conservar ainda a marca da mo carinhosa
que o acondicionara a um canto da arca. Alguns denunciavam o
trabalho paciente de longos tempos, traziam  idia calmos seres
 luz do candeeiro. Adivinhava-se, pelo completo daquele enxoval,
a providncia de um corao materno; nada faltava.
 proporo que se iam tirando as peas de roupa, uma tepidez
embalsamada respirava dentre elas; parecia que um perfume ideal
de beijos se exalava ao desdobrar dos brancos lenis de linhos ;
percebia-se que muita lgrima e muito soluo ficaram abafados no
fundo daquelas arcas.
Vieram ao provinciano novas e mais vivas saudades de ngela.
Uma vaga tristeza apoderou-se dele, ficou distrado, a olhar
silenciosamente para as roupas que as duas mulheres empilhava
no cho e sobre a cama. Sentiu, compreendeu, que ele prprio, 
semelhana daquelas arcas, havia tambm de ir perdendo, pouco
a pouco, todas as iluses, todos os perfumes, com que sara
impregnado dos braos de sua me.
E afastou-se do quarto para limpar as lgrimas. As lgrimas, sim,
que o fato de sua primeira viagem, as impresses da Corte, a
saudade, as aventuras amorosas, as ceatas pelos hotis, davam-
lhe ultimamente uma sensibilidade muito nervosa e feminil. Elas
acudiam-lhe agora com extrema facilidade; chorava sempre que
se comovia. s vezes no teatro, assistindo  representao
De qualquer drama de efeitos, ficava envergonhado por no poder
impedir que os olhos se lhe enchessem de gua; a simples
descrio de uma desgraa perturbava-o todo; a msica italiana o
entristecia; a idia de um feito ertico ou de um rasgo de
perversidade era o bastante para lhe agitar a circulao do sangue
e formar-lhe godilhes na garganta.
Quando voltou ao quarto, j os bas estavam despejados.

Mme. Brizard no se fartava de elogiar a boa qualidade das
fazendas, o bem cosido das roupas, a pachorra e asseio com que
tudo fora feiro. Apreciava o trabalho das marcas; chamava a
teno de Amlia para os bordados, para os labirintos e para as
rendas.
- Olha! Disse-lhe, mostrando um pano de croch, - o desenho 
justamente como aquele da toalha do oratrio. S faltam aqui as
duas borboletas do canto.
E arrumava tudo, com muito cuidado, nas gavetas da cmoda.
Tomava religiosamente sobre os braos os pesados lenis, os
maos de ceroulas em folha, os pacotes intactos de meias
listradas, os de lenos barrados de seda, os colarinhos de todos
os feitios, as gravatas de todas as cores. E no acondicionava
uma pea sem afag-la, sem lhe passar por cima as mos
abertas.
- O rapaz estava provido de tudo! Disse em voz baixa. E, depois
acrescentou alto, rindo: - Podia at se casar se quisesse!
- Falta o principal... respondeu ele.
- Que ? Acudiu logo Amlia.
- A noiva! Explicou o moo, olhando intencionalmente para a
rapariga.
- Deve estar  sua espera no Maranho... volveu ela.
E abaixou os olhos com um movimento de inocncia, muito bem
feito.
- No v! Exclamou a velha. - Ento um rapaz desta ordem
deixava as meninas da Corte para amarrar-se a uma
provinciana?... Seria de mau gosto!
- No sei por que, retorquiu Amncio, ligeiramente escandalizado.
- Na provncia h senhoras bem educadas, muito chiques!
- Sei, sei, perfeitamente, disse Mme. Brizard, evitando contrari-lo.
Sei que as h ... mas  que o Sr. Vasconcelos tem elementos para
desejar muito melhor! Seria pena que um rapaz to perfeito no
escolhesse uma noivinha comme il faut.- Bonita, instruda, que
soubesse entrar e sair numa sala, conversar, fazer msica, recitar,
servir um almoo, dirigir uma soire. Alm de que, meu caro
senhor, as provincianas, em geral, saem muito mais exigentes do
que as filhas da Corte.
E, como Amncio fizesse um ar de espanto:
- Sim, porque a fluminense, habituada como est na capital e
familiarizada com os bailes, com os espetculos do lrico, com os
passeios, j se no se preocupa com essas coisas e, uma vez
casada, dedica-se exclusivamente ao lar, ao marido e aos
filhinhos; ao passo que com as outras, as provincianas, sucede
justamente o contrrio, visto que ainda no conhecem aqueles
gozos e s desejam o casamento para conhec-los. Da as suas
exigncias; nada as satisfaz, porque tudo fica muito aqum dos
seus sonhos da provncia; o que para as outras  tudo, para elas
no  nada. Bailes e teatros toda a noite, carruagens, lacaios,
vestidos de seda, dez ou vinte criados, nada as contenta, nada
corresponde ao que elas ambicionam. E o marido, o pobre marido
de semelhante gente, depois de arruinado e depois de passar uma
existncia sem amor e sem aconchegos de famlia, ainda ter de
suportar as queixas e os ressentimentos de uma mulher desiludida
e blas.
- Perdo! Replicou o estudante. - Isso prova simplesmente que
toda a mulher, seja da provncia ou da Corte, apresenta sempre
certa dose de ambies. Com a diferena, porm, de que a
provinciana, por isso mesmo que o Rio de Janeiro  o seu ideal, 
o seu sonho dourado, contenta-se com ele; enquanto que a outra,
visto que o supradito Rio de Janeiro para ela nada mais  que o
comum, estende naturalmente a sua ambio - e quer Paris. O
Passeio Pblico j no a satisfaz,  preciso dar-lhe Bois de
Boulogne; j no lhe chegam carruagens, criados e teatros; quer
tudo isso e mais um ttulo, de baronesa pelo menos!
E, encantado com a clareza do seu argumento, continuou a
discutir, chegando  concluso de que seria loucura desejar uma
mulher isenta de ambies e caprichos, e que ele j se daria por
muito satisfeito se encontrasse alguma, cujo ideal no fosse alm
do Rio de Janeiro.
Amlia era precisamente dessa opinio, mas entendia que,
mesmo na Corte, se encontravam meninas bem educadas e alis
muito modestas.
Amncio declarou que no argumentava com excees.- Sabia
perfeitamente que nem todas as fluminenses calavam pela
mesma forma, e no tinha a pretenso de dizer "desta gua no
beberei, deste po no comerei!" apenas no admitia aquela
razo, que apresentava Mme. Brizard, para provar que as
provincianas eram mais dispendiosas do que as filhas da Corte.
Isso no! que o desculpassem, mas no podia admitir!
Sempre queria v-lo casado com uma provinciana!... observou a
francesa, tomando a roupa que lhe passava a outra. - Ento sim!
Aposto que no teria a mesma opinio!
Amncio no respondeu logo, porque estava muito ocupado a
apanhar do cho uma grande pilha de camisas engomadas, que
Amelinha deixara cair. Mme. Brizard acudiu tambm a ajud-los,
e, na precipitao com que todos trs, agachados um defronte dos
outros, queriam ao mesmo tempo recolher a roupa espalhada no
soalho, as mos do estudante encontraram-se com umas
mozinhas finas que no eram certamente as de Mme. Brizard.

Mas todas as vezes que ele tentou ret-las entre as suas, as tais
mozinhas fugiam to ligeiras, como se lhes houvessem chegado
uma brasa.

                                IX

O baile em casa do Melo esteve bom. Este, muito magro, de
suas negras, olhos fundos e movimentos rpidos, no
descansava um instante; to depressa o viam conduzindo
senhoras pela escada, como a receber apresentaes na sala de
jantar, como a formar quadrilhas; voltando-se para todos os lados
e atendendo a todas as pessoas.
O Melo tinha boas relaes e alguns bens adquiridos no comrcio;
nunca se envolveu diretamente com a poltica, mas prezava o
monarca e esperava , com resignao, um hbito que h dez anos
lhe haviam prometido pingar sobre a lapela da casaca. A mulher,
que j no era criana, ainda metia muita vista e passava por
bonita; homens, que envelheceram com ela, citavam-na como um
tipo de formosura.
Amncio foi recebido com especial agrado, graas a Lus Campos
que era ntimo do dono da casa.
A circunstncia de que ali se achava s, no meio de tanta gente
estranha, como que apertava o crculo de suas relaes com a
famlia do correspondente. Fazia-se muito deles, muito
aparentado; no dispunha de mais ningum para desabafar as
suas impresses e para conversar um pouco mais  vontade.
Assim, quando saltamos num porto pela primeira vez, sentimos
estreitarem-se de repente nossas relaes com os companheiros
de bordo, ainda mesmo que os conheamos de poucos dias.
At Carlotinha parecia mais expansiva, principalmente depois que
Amncio se revelou insigne danador de valsa. Ela era louca pela
dana. Maria Hortnsia notara igualmente que o provinciano tinha
um certo talento coreogrfico muito peculiar, e no ficou isolada
nesse juzo, porque vrias senhoras se declararam a mesma
opinio.
No tardou muito a que semelhante julgamento se estendesse
pelas outras salas ,. E em breve estavam todas as damas de
acordo em que Amncio era o melhor par daquela noite.
Com efeito, se ele em outra qualquer coisas no conseguiu a
perfeio , na dana ao menos nada se lhe tinha a desejar;
danava admiravelmente, por vocao, por ndole, por um jeito
especial do corpo, e com um amaneirado gracioso que sabia dar
aos braos,  cabea e s pernas. Pode-se dizer que na valsa
dispunha de um estilo prprio, original.
Quando, sacudido pela msica, os olhos meio cerrados, a boca
meio aberta, arremessava-se com a dama no turbilho da sala,
tinha alguma coisa de pssaro que desprende o vo. Ficava at
mais bonito; os cabelos crespos tremiam-lhe romanticamente
sobre a testa; o cansao dava ao moreno de suas faces uma
palidez misteriosa e doce. E, com o brao direito engranzado 
cintura do par, o esquerdo repuxando nervosamente a mo que a
dama estendia sobre a sua, ele empertigava-se todo com delcia,
a fechar os olhos e a rodar extasiado, embevecido como se fora
arrebatado por entre nuvens de arminho.
No seu temperamento, excessivamente lascivo, gozava com sentir
ligado ao corpo precioso de uma mulher de estimao; comprazia-
se em beber-lhe o hlito acelerado pela dana, embebedava-se
com respirar-lhe os perfumes agudos do cabelo e o infiltrante
cheiro animal da carne.
Afinal, depois de uma valsa, estonteado e ofegante, atirou-se ao
canto do div em que estava Hortnsia.
Confessava-se prostrado, a limpar o suor do pescoo e da fronte.
Fora imensa a valsa e ele cansara trs pares, que se abateram
inteis, como as espadas de Ney na batalha de Waterloo.
- Apre! Disse.
As senhoras olhavam-no j com respeito, acompanhavam-lhe os
menores movimentos com enorme interesse.
- Muito bem! Muito bem! Cochichou-lhe a mulher do Campos. -
Ignorava que o senhor fosse to forte na valsa!
E comearam a conversar sobre o mal que se danava
ultimamente. Ela declarou que uma das coisas que mais apreciava
era uma boa valsa. Isso desde criana; no colgio, s vezes, as
meninas passavam a hora do recreio danando umas com as
outras.
- Ningum o diria...considerou Amncio, fazendo-se muito seu
camarada.- A senhora hoje s tem querido danar quadrilhas.
Ela respondeu com um risinho significativo.
- Quer uma valsa comigo?.. perguntou o rapaz, em segredo,
requebrando os olhos.
No posso! Disse ela, quase com um suspiro. - Aceitaria de bom
grado, mas no posso...
- Valha-me Deus! Por qu?
Porque...
Hortnsia sorriu de novo, sem nimo de confessar a verdade. - o
marido no gostava de a ver valsar. Tambm no se podia
desculpar, dizendo que no sabia, porque ainda h pouco dissera
justamente o contrrio; afinal sem fazer empenho de ser
acreditada acrescentou gracejando.
- Porque... porque me faz mal...
Amncio prometeu que a conduziria devagar e que no danaria
longo tempo seguido; aceitava todas as condies, contanto que
desfrutasse a suprema ventura de lhe merecer uma valsa.
Hortnsia no respondeu; tinha o olhar esquecido sobre um
grande quadro que lhe ficava defronte suspenso da parede. E
abanava-se, lentamente, como seguindo o vo de um vago
pensamento voluptuoso.
O quadro representava uma cena de Fausto e Margarida, no
jardim ( um longo beijo apaixonado que parecia soluar entre a
folhagem do painel. O encantado filsofo tomava nas mos
brancas a loura cabea de sua amante, e sorvia-lhe alma pelos
lbios. O sol morria ao longe, dourando a paisagem, e um casal de
pombos arrulhava  sombra azulada de uma planta).
Hortnsia olhava para isso, enquanto, ao gemer das rabecas,
cruzavam-se na sala os pares, marcando contradanas. O aroma
das flores, que se fanavam em grandes vasos japoneses,
misturava-se ao cheiro das mulheres, e penetrava a carne com a
sutilidade de um veneno lento e delicioso como o fumo do charuto.
Os ombros lcteos das senhoras, expunha-se nus  grande
claridade artificial do gs; as jias faiscavam; os olhos
desfaleciam, e um calor gostoso ia infirmando os sentidos e
entorpecendo a alma.
- Ento?...pediu Amncio, pondo doura na voz,- dance comigo,
sim?...Faa-me a vontade. Eu sentiria nisso tanto gosto...
E todo ele suplicava aquele obsquio, com o empenho apaixonado
de que pede uma concesso de amor.
Ela dizia que no, meneando a cabea; mas, um sorriso que se
lhe escapava dos lbios, dizia o contrrio.
- Ento!...sim?...sim? um bocadinho s! Insistia o estudante, a
devor-la com os olhos.
Estava ainda cansado; a voz no lhe vinha inteira, mas quebrada,
como por um espasmo; os olhos dele arqueavam-se
luxuriosamente; as pernas principiavam-lhe a tremer
- O que lhe custa  senhora danar um pouquinho comigo?
E, vendo que ela no respondia, balbuciou em tom magoado, de
criana ressentida:
- Bem, bem, no lhe peo mais nada, no a importunarei de hoje
em diante. Desculpe!
Hortnsia voltou-se para ele, ia talvez desengan-lo; mas a
orquestra, que havia emudecido depois da quadrilha, deu sinal par
a "valsa". Era o Danbio de Strauss.
O rapaz ergueu-se como um soldado que ouvisse tocar a rebate.
Ela no resistiu, levantou-se de um salto e entregou-lhe a cintura.
Danaram. A princpio vagarosamente: depois, como a msica se
acelerasse, Amncio arrebatou-a. Ela deixou-se levar, a cabea
descansada nos ombros dele, as mos frias, a respirao doida.
A msica redobrou de carreira.
Foi ento um rodar convulso, frentico: a casa, os mveis, as
paredes, tudo girava em torno deles.
Hortnsia danava to bem como o rapaz. Os dois pareciam no
tocar no cho; os passos casavam-se como por encanto; as
pernas gravitavam em volta uma das outras com preciso
mecnica.
Encheu-se a sala de pares. Amncio fugiu com Hortnsia, sem
interromper a valsa; pareciam empenhados numa conjuntura
amorosa. Ela arfava sacudindo o colo com a respirao; os seus
braos nus tinham uma frescura mida; os olhos amorteciam-se
defronte dos dele; no podia fechar a boca, e seu hlito misturava-
se ao hlito fogoso do estudante.
De repente, Amncio parou exausto. Ouvia-se-lhe de longe as
respirao.
- No! no! balbuciava ela, quase sem poder falar. - Ainda! Mais
um pouco!
E abraaram-se e novo, freneticamente.
Quando parou a msica Hortnsia caiu sobre um div pelos
braos de Amncio.
No podia dar uma palavra; no podia abrir os olhos. Sua
respirao parecia longos suspiros contnuos e estalados.
Vrios cavalheiros se aproximaram.
- Ficou muito fatigada?...Perguntou Amncio, inclinando-se sobre
ela, a mo apoiada nas costas do div.
Hortnsia no respondeu. Cobriu o rosto com o leno de rendas e
continuou recostada. Foi a voz do marido que a despertou.
- Que loucura e esta, Nenm?...Perguntou ele sorrindo com o seu
bom ar de homem honesto.
Ela sorriu tambm, e pediu desculpas com o olhar.
- Sabes que te faz mal, para que valsas?...
Hortnsia soltou uma risadinha de inteno e disse baixo: - No 
o mal que me faz que te d cuidado...
- Como assim?...

- Ora,  que tu no gostas muito de me ver valsar...
- Porque te faz mal, filha!...
-  s por isso? Afianas que no tens outro motivo?
Campos respondeu com um movimento de ombros.
- Olha l!...ameaou a bonita senhora, sacudindo um dedinho da
mo direita..- Olha que sou capaz de ,hoje em diante, no perder
uma s valsa!...
Ele repetiu o movimento de ombros, e acrescentou:
- Isto  l contigo, filha; a sade  tua, faze o que entenderes, ora
essa!
Algumas pessoas perceberam o seu mal humor e riram com
disfarce.
Nessa ocasio, Amncio encostado ao bufete, pedia que lhe
servissem um grogue  americana

                                 ***

- Est retemperando a fibra? Perguntou-lhe um sujeito magrinho,
elegante, meio calvo, a bater-lhe amigavelmente no ombro.
O estudante voltou-se apressado e, logo que viu o outro,
exclamou:
- Oh! O Dr. Freitas? Como passou? No sabia que estava tambm
por c!
Freitas respondeu com a sua voz gasta- que chegara havia pouco;
no lhe fora possvel vir antes; tivera que acompanhar o enterro de
um parente.- Coitado! cacete at depois de morto, trs necrolgios
de hora e meia cada um!...Ah! os parentes! Os parentes eram uma
desgraada inveno, principalmente se no deixavam alguma
coisa!
E, depois de retesar o peito e puxar a gola da casaca:- Mas ento
como ia o Sr. Amncio de Vasconcelos?...Pela fisionomia jurava-
se que tinha sade para dar e vender, e, pelos atos, no parecia
menos disposto, porque o Freitas presenciara a conversa do
amigo com Hortnsia.
E rindo: - Homem, faz voc muito bem! Aproveite enquanto est
no tempo! Se eu tivesse a sua idade, com a experincia de que
disponho hoje, no havia de proceder como procedi! Oh! Aquele
aforismo tem muito fundo! "Si Jeunesse savait..."
E a olhar para os ps, com um gesto cheio de tdio:- Gostei de o
ver na valsa, gostei seriamente! Ah! Eu  que j no sou homem
para estas coisas! Aceito tudo, menos o que me obrigue  fadiga!..
Amncio fez-se modesto; negava que danasse bem; mas o outro,
em vez de insistir nos elogios, como esperava ele, perguntou-lhe
muito descansadamente por que razo no lhe apareceu depois
da primeira visita?
O estudante desculpou-se com a falta de empo e o excesso de
estudo. Havia ,porm, de aparecer, mais tarde.
As suas relaes com o Dr. Freitas procediam de uma carta de
recomendao, que um amigo do velho Vasconcelos lhe arranjara.
Freitas era uma excelente amizade para qualquer estudante pouco
escrupuloso; dispunha de timas relaes, que podiam servir de
empenho nas pocas apertadas de exame.
Tinha alguma coisas, gostava de ir  Europa de vez em quando, e
o seus quarenta no espantavam a ningum; ao contrrio, ainda
havia muito olho esperto de mulher que se arregalava para o ver.
Isso sem falar nas senhoras que se foram aposentando, enquanto
ele parecia eternamente empalhado nos seus fraques
irrepreensveis, nos seus chapus  moda e nos seus enormes
sapatos  inglesa, de um elegantismo feroz. Em conscincia,
ningum o poderia qualificar seno de rapaz. As mulheres eram o
seu fraco, o seu vcio mais acentuado; vrias anedotas suas,
inspiradas neste assunto, corriam de boca em bocas h vinte
anos.
Amncio ficou muito seu camarada, desde a primeira visita. Em
menos de uma horas de conversao, falavam j sobre as cocotes
mais conhecidas na Corte; e , alguns dias depois, quando se
encontraram na Fnix, o Freitas apresentou-lhe uma espanholona
de buo louro, a qual nessa ocasio passava pelo corpo mais
bonito do mundo equvoco.
- Pois voc j est um fluminense acabado! Disse o elegante, a
medir Amncio de alto a baixo. - No imaginei que andasse to
depressa...
E, porque voltasse  conversa sobre mulheres, continuou o que
dizia h pouco: - Infelizmente s chegamos a conhec-las quando
vamos caindo na idade; de sorte que  preciso aproveitar o
espao que medeia dos trinta aos quarenta anos; antes disso -
no sabemos, depois- no podemos. Ah! se aos vinte j se
conhecesse a mulher... se ento j se soubesse quais so os seus
gostos e suas preferncias...se tal acontecesse, nem uma s se
conservaria virtuosa!...Mas, nesse perodo doas sonhos e das
iluses, no perodo em que est o senhor, meu amigo,

ningum  capaz de ma audcia! Para chegar a fazer qualquer
coisa  preciso ser provocado, mas muito provocado!
Amncio protestava com um sorriso pretensioso.
- Oh! Oh! Exclamou o outro, cheio de experincia, a calcar o
monculo sobre o olho. - J tive a sua idade, meu amigo, j tive a
sua idade Pensava ento que , para agradar mulheres , era
indispensvel fazer-me bonito, meigo, romntico, atencioso, que
sei eu!...Engano! puro engano! Elas aborrecem tudo isso, e s
exigem trs coisas num homem: A primeira - muita audcia; a
Segunda - um pouco de inteligncia; a terceira - algumas relaes
na boa sociedade! E... ainda temos uma de que me esquecia e
que entretanto  a base de todas as outras: - No ser seu
marido!...Com estas quatro habilidades, desde que se tenha
mocidade e boa disposio, no h mulher que resista! Quanto 
beleza, boas maneiras e bom carter - histrias, homem! histrias!
Elas, ao contrrio, detestam os tipos afeminados e no morrem de
amores pelos sujeitos rigorosamente honestos, e bem
comportados. Qual! Querem o seu bocado de vcio; o belo do
deboche de vez em quando, para variar!...
E, metendo as mos nos bolsos da cala, e jogando o corpo com
ar canalha:
L para a seriedade basta-lhe o marido!  boa!
Amncio ria-se, abarrotado de intenes. O Freitinhas foi nesse
momento apreendido pelo dono da casa: "As damas reclamavam
as sua presena, dele, nas salas! Era preciso no se meter pelos
cantos!"
O Dr. Freitas deixou-se levar, sempre muito enfastiado; mas, antes
de ir, bateu no ombro de Amncio e segredou-lhe com a sua voz
de tuberculoso:
Aproveita, menino, aproveita! No mandes nada ao bispo!

                               ***

Iam j desaparecendo os convidados. Os pais de famlia
toscanejavam encostados s ombreiras das portas, esperando,
com os braos carregados de capas e mantas, que as mulheres e
as filhas se resolvessem a seguir para casa. Havia um vago tom
de cansao nas fisionomias; entretanto, alguns cavalheiros
jogavam ainda, em um quarto prximo,  luz trmula das velas de
estearina. O melo conduzia senhoras pelo brao  porta da rua,
agradecendo-lhes muito o obsquio de aceitarem o seu convite.
Foi Amncio que ajudou Hortnsia a entrar na carruagem. O
Campos parecia contrariado com a demora. - h duas horas que
desejava se retirar.
Encurtaram-se as despedidas. O horizonte principiava a franjar-se
com os gales prateados da aurora, e , do lado das montanhas
desciam tons matutinos da natureza que desperta.
Hortnsia, muito embrulhada na sua capa de casimira branca e
guarnecida de arminhos, atirou-se com impacincia sobre as
almofadas do carro, levantando um luxuoso farfalhar de sedas que
se amarrotam. Logo, porm, que o cocheiro sacudiu as rdeas, ela
chegou o rosto  portinhola, e gritou para fora:
- Aparece Domingo! V jantar conosco. Adeus!
Amncio, perfilado na calada, o chapu suspenso na mo direita,
em atitude de quem faz um cumprimento respeitoso, disse,
agitando o brao:- Adeus , minha senhora. Hei de ir.
O carro do Campos tomou a direo da Praia de Botafogo; o rapaz
ainda o acompanhou com a vista; depois, levantando os ombros e
abotoando melhor o sobretudo, meteu-se num tlburi que se
aproximava lentamente e mandou tocar para a casa de penso.
O animal disparou, sacudindo as crinas ao vento fresco da manh.

                               ***

Amncio acendeu um charuto e, com os olhos meio cerrados,
derreou-se para p fundo do tlburi.
Naquele momento fazia gosto em se fazer muito farto, muito
cansado de amores. Sua ltimas impresses enchiam-lhe o
crebro de uma espcie da vapor azotado, que asfixiava todos os
outros pensamentos.
- A continuarem as coisas daquele modo, dizia ele consigo,
chupando o charuto aos solavancos do carro, - em breve o tempo
ser pouco para tratar s dos namoros!
A cada passo que dera na sua intil existncia, rasgara com o p
uma pgina do livro das iluses. Mas, a presena deste raciocnio,
longe de afligi-lo, dava-lhe  vaidade um certo prazer doentio e
picante.
- Como poderia acreditar agora nas tais virtudes femininas?...Pois
se at falhara a prpria mulher do Campos!...

Quando poderia ele imaginar que Hortnsia, to severa e to
grave ainda h pouco, uma criatura por quem todos " metiam a
mo no fogo", fosse assim leviana e fcil, com as outras?...
E Amncio saboreava esta convico, porque, a despeito do que
dissera aos amigos no Hotel dos Prncipes , sua conscincia, por
conta prpria, tomara sempre a defesa de Hortnsia e insistia em
mostr-la cercada de um grande prestgio venerando e
respeitvel.
- A conscincia agora que falasse!
E refocilava-se todo com o seu triunfo. - Agora  que ele queria
saber quem tinha razo; sim, porque enquanto procurava se
convencer de que deveria esperar de Hortnsia aquilo mesmo, a
rezingueira da conscincia saltava-lhe em cima com um nunca
terminar de razes e apresentava-lhe a "excelente senhora" cada
vez mais pura e menos acessvel! E eis que , de supeto, quando
menos se esperava, os fatos se erguiam brutalmente para
desmentir a impostura.
E ele sorria ,vendo as asas do anjo baquearem a seus ps,
murchas e retradas , como os galhos de uma rvore arrancados
pelo nordeste.
- Bem dizia o Simes: "Quando te comearem as aventuras..."E
melhor ainda o Dr. Freitas: "Para conquistar as mulheres so
apenas quatro coisas necessrias: audcia, boas relaes, um
pouco de inteligncia e no ser seu marido!"
E os fatos, como disciplinados por estas palavras, formavam ala e
comeavam a cantar as vitrias do estudante.. Na sua lgica
indiscutvel afirmavam eles que Hortnsia, o tal modelo de
severidade e pureza, morria de amores por Amncio, que o
desejava ardentemente, que se entregaria na primeira ocasio,
fazendo loucuras, dando escndalos, que nem uma herona de
romance!
- Est segura! Exclamou o rapaz, sacudido por estas idias. O
sangue saltava-lhe no corpo; aquela aventura se lhe afigurava a
melhor de sua vida; seu orgulho pueril, de namorador vulgar,
espinoteava qual potro que se pilha s soltas no prado verdejante
e proibido. As outras conquistas vinham logo chamadas por
aquela, e todas as vtimas de sua sensualidade, ou as cmplices
de seu temperamento e da sua m educao, enfileiravam-se
defronte dele, como um submisso batalho de prisioneiros.
Chegou a casa ao amanhecer e no dormiu logo. Os
pensamentos revoavam-lhe no crebro com o frenesi de folhas
secas, redemoinhadas pelo vento.

                                X

Dormiu mal ; os sonhos no o deixaram em paz. A princpio,
todavia, foram agradveis: ternos episdios de amores fceis que
se encadeavam confusamente, e nos quais a sensaes vinham e
fugiam de um modo incerto e deleitoso; depois chegavam os
sonhos maus, os pesadelos.
Neste, as mulheres entravam por incidente, sempre duvidosas;
vultos sinistros, e cabelos desgrenhados, rostos lvidos, surgiam
em torno dele e iam-se aproximando, at lhe ficarem cara a cara,
num contato frio e incmodo de carne morta.. Depois sonhava-se
em casa da famlia, voltando, porm , justamente do bile do Melo;
tinha muita necessidade de repouso, queria continuar a dormir,
mas a voz rspida do pai berrava por ele da porta do quarto: "Anda
da, mandrio!, Basta de cama! V se queres que eu te v buscar!"
E aquela voz terrvel dava-lhe a todo o corpo tremor de medo, e,
ao estrondo que ela fazia, vultos cor- de -rosa, de cabelos louros,
fugiam espavoridos, como rs que se atiram n'gua , assustadas
pela presena de um boi.
Amncio queria tambm fugir, mas suas pernas pareciam troncos
de rvores seguros ao cho; queria gritar, mas a lngua inchava-
lhe na boca.
Acordou muito fatigado e aborrecido s duas horas da tarde.
Logo que apareceu na sala de jantar, Mme. Brizard fez-lhe entrega
de um belo ramilhete, que lhe haviam remetido, a ele, com um
carto. Amncio apressou-se a ler. O escrito dizia simplesmente:
"Ao Dr. Vasconcelos - uma sua amiga".
Cruzaram-se os penetrantes risos adequados ao fato. O rapaz,
intimamente lisonjeado, fingiu no se impressionar com aquela
manifestao; leu, porm, o bilhete mais duas, trs, quatro vezes.
Era letra de mulher, de Hortnsia sem dvida. Estava ali a sua
alma, o fogo de seus olhos. Ele cheirou o pequeno pedao de
papel, e pensou sentir o mesmo perfume que, na vspera, durante
a valsa, o tinha penetrado at  medula.
Achavam-se presentes o Dr. Tavares, o Pereira, o gentleman e
Lcia. Disseram alguma coisa sobre aquelas flores, menos a
ltima, que, junto  janela, parecia preocupada com um livro da
capa roxa. O gentleman falou de Botnica a propsito de uma
dlia vermelha que havia no ramo. Afianou que esta flor possua
em si tantas outras flores quantas eram as ptalas de que
constava.
- Flores perfeitas, com todos os rgos, Sr. Amncio - estames,
clice, tudo!

Amncio, enquanto o Lambertosa discorria sobre a dlia, leu ainda
uma vez o carto, e, ao levantara vista, reparou que Nini o fixava,
cada vez mais insistente.
Amlia dera-se por incomodada e no vira  mesa.
O jantar correu, pois, muito frio e constrangido ao princpio; pouco
se conversava e quase ningum tinha vontade de rir. Dir-se-ia que
s Amncio a todos comunicava o seu fastio e o seu cansao.
S pela sobremesa o Dr. Tavares narrou, como de costume,
algumas anedotas jurdicas que presenciara na provncia. Uma
delas tinha referncia a ma certa velha que fora aos tribunais por
haver desancado as costelas do genro.
Mme. Brizard tomou a defesa das sogras, e aproveitou a ocasio
para falar no marido de sua filha mais velha.
Vai muito da educao e tambm um pouco do costume em que a
gente os pe!...acrescentou ela autoritariamente. - Mas, genro,
no queria que houvesse outro como o defunto marido de Nini.. -
Era um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara
fechada, nem lhe surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele s
a chamava, a ela, de "mezinha"; sempre lhe trazia guloseimas da
rua, e, aos domingos, pela manh, dava-lhe um beijo na testa ,
impreterivelmente! - Ah! Era uma santa criatura!
Nini suspirou e ps-se a chorar em silncio.
- Agora temos choro!...pensou Amncio com tdio.
Nini, como se adivinhara tal pensamento, olhou para ele e pediu
perdo com um sorriso, ainda mais triste que o choro
- Eu sou aqui da opinio do Ser. Amncio de Vasconcelos...disse
o gentleman a Mme. Brizard, em tom discreto.
Mme. Brizard no sabia, porm, do que tratava o Lambertosa.
- Ah! volveu este. - Refiro-me ao que avanou anteontem o nosso
ilustre companheiro, e indicou Amncio com um gesto, _que
avanou a respeito da vantagem que um novo casamento traria,
sem dvida , senhora sua filha.
- Ah! fez Mme. Brizard j no me lembrava disso. O Sr....
- Lambertosa, minha senhora, Lambertosa...
O Sr. Lambertosa  ento de opinio que o casamento convm s
enfermidades nervosas?...
O gentleman concentrou a fisionomia, limpou o bigode ao
guardanapo, ergueu uma faca, e principiou a emitir o seu judicioso
e meditado parecer.
Surgiram logo as contendas. Lcia marcou a pgina do livro de
capa roxa e olhou muito sria para os outros, pronta a dar a sua
rplica. Mme. Brizard, enquanto os mais discutiam, tamborilava
com os dedos sobre a mesa, afitar um queijo de Minas, com um
gesto profundo e repassado de filosofismo. O Pereira comia
consecutivos pedaos de po, sem abrir os olhos, e Amncio
procurava uma evasiva para se escafeder.
Afinal, o Coqueiro, que havia j formado um grupo  parte com o
Dr. Tavares, quis fechar a discusso; mas o advogado ergueu-se
de sbito, segurou as costas da cadeira, arregalou os olhos, e
desencadeou a sua eloqncia .
Em pouco, s ele falava, esquecido, como de costume, do lugar e
da situao. Imaginava-se j num tribunal, em pleno exerccio de
suas funes.
Pintou floreadamente o lamentvel estado de Nini. Qualificou-a de
"vtima inocente dos impenetrveis caprichos de Deus"; descreveu
a dolorosa expresso do semblante da "'infeliz moa"; disse que
os olhos dela falavam a misteriosa linguagem do amor, e, quando
se dispunha a dar afinal a sua esperada opinio sobre o
casamento, a pobre enferma, muito vendida com o que vociferava
o tagarela a seu respeito, abriu a soluar estrepitosamente.
A francesa ergueu-se, de mau humor, para pedir ao Dr. Tavares
que se deixasse daquilo, "por amor de Deus!" Doutro lado o
Coqueiro tambm lhe suplicava que se calasse.
Mas o demnio do homem j se no podia conter. As palavras
borbotavam-lhe da lngua, como o sangue de uma facada. Fez
imagens poticas sobre o casamento , citou nomes histricos, e
jurou,  f de suas convices,, "que aquela desventurada criatura
precisava de um esposo, mais do que as flores carecem do
orvalho, mais do que as aves carecem do ar; mais do que os
crebros carecem de luz!"
E, erguendo as mos trmulas, recuou dos passos e foi dar de
encontro ao copeiro que, por detrs dele, embasbacado, o
escutava atentamente, com a bandeja do caf nos braos, 
espera de uma ocasio para apresentar as xcaras.
Mme. Brizard assustou-se , o gentleman deu um salto para no
sujar as calas; rolou ao cho uma garrafa, e Csar, o menino
sublime, vendo que os mais velhos faziam tanta bulha, tambm se
ps a berrar.
Coqueiro gritava que se acomodassem por piedade.

- Aquilo no tinha jeito! Parecia haver ali uma scia de doidos! Oh!
A mucama acudiu da cozinha, e Amlia, com um leno amarrado
na cabea, apareceu na porta de seu quarto, muito intrigada com
o motim. S o Pereira continuava, inalteravelmente, a comer
pedaos de po;  verdade que abriu os olhos duas vezes. Mas
tornou logo a fech-los e, segundo todas as probabilidades,
adormeceu.
Amncio tratou de aproveitar a confuso para fugir da varanda.
- Que espcie de gente to esquisita!... dizia ele em caminho do
quarto. - Nada! Aqui ainda estou pior do que na casa do Campos!
Antes de chegar ao gabinete, percebeu que algum o seguia com
dificuldade. A sala de visitas estava j totalmente s escuras.
Voltou-se, e, sem ter tempo de dizer palavra, sentiu cair sobre ele
um corpo gordo e mole.
Era Nini.
Amncio, surpreso e contrariado, quis arred-la, mas a histrica
passou-lhe os braos em volta do pescoo e desatou a chorar,
com o rosto escondido no seu colo.
- Hein?! Disse Amncio. - Que histria  esta?!
Mas lembrou-se logo das recomendaes de Mme. Brizard:
"qualquer contrariedade poderia provocar  infeliz rapariga uma
crise perigosa!"
- Ora esta!... pensou ele aborrecido.- Ora esta!...
e procurou afastar Nini, brandamente. E, como a teimosa no
quisesse obedecer e continuasse a chorar, ele disse-lhe palavras
amigas, pediu-lhe, quase com ternura, que voltasse  varanda;
lembrou que no era prudente ficarem ali, sozinhos e no escuro. -
Podiam ser surpreendidos! Esta idias o aterrava mais pelo
ridculo do que pela responsabilidade daquela situao.
Nini, entretanto, parecia no ouvir coisa alguma e continuava a
abraa-lo freneticamente, com mpetos nervosos.
Amncio perdeu de todo a pacincia e arrancou-se violentamente
dos braos dela.
- Deixe-me! Gritou, e correu para o quarto.
Nini acompanhou-o chorando, e conseguiu agarr-lo de novo, pelo
palet.
Estava muito nervosa e dispunha agora de uma fora
extraordinria.
- Isto no ser um inferno?!... exclamou o rapaz, puxando a roupa
das mos de Nini. E, vendo que ela no o largava: - Solte-me, com
a breca! Ora essa! Que diabo quer a senhora de mim?! Solte-me!
Arre!
A enferma no fez caso e apertou-lhe os pulsos; seus dedos
pareciam tenazes. Amncio debatia-se brutalmente, ouvindo-a
bufar, muito agoniada, e sentindo-lhe de vez em quando o suor do
pescoo e do rosto.
Na sala de jantar serenara a discusso; s a voz do Tavares ainda
se destacava. De repente puseram-se todos a chamar por Nini.
- Olhe, disse-lhe Amncio. - L dentro a esto chamando! V! V!
Ela, nem assim.
- Ora plulas! Resmungou o estudante, desprendendo-se com um
empurro. E ganhou o quarto, puxando a porta sobre si.
Ouviu-se ento o baque surdo do corpo pesado de Nini, que foi
por terra; em seguida gritos muito agudos.
Correram todos par a sala de visitas; acenderam-se os
candeeiros. Nini escabujava no cho, a gritar, esfrangalhando as
roupas e mordendo os punhos.
Coqueiro e Mme. Brizard apoderaram-se logo da infeliz. Amncio
apareceu com o seu frasquinho de vinagre; o Lambertosa receitou
uma dose homeoptica e correu ao quarto em busca da botica (a
homeopatia era uma de suas paixes); Lcia voltou para a
varanda. "Que a desculpassem, mas no podia assistir, a sangue-
frio, cenas daquela ordem... No estava mais em suas mos!"

                              ***

O Pereira j se havia levantado da mesa e ressonava na
costumada preguiosa.
Lcia, ao passar por ele, atirou-lhe um olhar de tdio e disse
consigo:
- Olha que estafermo!...
ela s vezes tomava-lhe grande nojo, no o podia ver com aquele
ar mole, de mulher grvida, com aquelas plpebras descadas, a
comerem-lhe os olhos, com aquele sorriso apalermado, aquela
voz derramada pelos cantos da boca , que nem um caldo frio e
seboso.
De quando em quando sofria de insnias, e, justamente nessas
ocasies, nas horas compridas da noite em claro,  que mais
detestava o Pereira. Punha-se a contempl-lo longamente, com
asco, fartando-se de olhar para aquele "pamonha", aquele "coisa
intil", que ali, ao seu lado, dormia todo encolhido, com as mos
entre as coxas. Vinham-lhe frenesis de ench-lo de pescoes. J
lhe no podia suportar o cheiro doentio do corpo; no lhe podia
sentir a umidade pegajosa do suor e a morna fedentina do hlito.
A sua ligao quele mono era uma histria muito triste e muito
sensaborona. Poucos, bem poucos a sabiam, porque Lcia se
esforava quanto lhe era possvel por escond-la, como quem
esconde uma chaga vergonhosa.
Ela "a msera senhora", vinha, entretanto, de gente honesta e bem
conceituada, se bem que muito pouco escrupulosa em pontos de
educao. deram-lhe professores de francs, de msica, de
desenho; entregaram-lhe enfiadas de romances banais e livros de
maus versos; e, todavia, no lhe deram moral, nem trataram de
lhe formar o carter. A desgraada percorreu bailes desde
pequena; ouviu o primeiro galanteio aos dez anos de idade; teve a
primeira paixo aos doze; aos quinze julgava-se desiludida e
sonhava com o tmulo; aos vinte, como  natural, sucumbiu ao
palavreado de um primo em segundo grau e bacharel pelo Pedro
II.
O primo, assim que a viu pejada, azulou para o Rio Grande do Sul,
onde tinha a famlia, e nunca mais lhe deu sinal de si.
Foi ento que surgiu em Lcia a idias de utilizar-se do Pereira.
Entre as pessoas que freqentavam a casa de seus pais, era ele o
nico aproveitvel para casamento. Nesse tempo vivia o
dorminhoco s sopas de um tio suspeito de riqueza aferrolhada, e
de quem mais tarde, diziam, havia de herdar o dinheiro. Lcia
meteu as mos  obra, mas, por pouco que no desanimou;
Pereira no dava de si coisa alguma, parecia no compreender as
provocaes. Era quase impossvel tirar algum partido daquele
animalejo! Ela, porm, no se quis dar como vencida, e lutou.
Lutou, empregando os meios mais ardilosos, para injetar nos
nervos daquele sonmbulo uma fasca magntica de amor.
Trabalho intil! Afinal, vendo que o pedao de asno era incapaz de
qualquer ao ou reao, tomou ela a parte agressiva; e a coisa
resolveu-se no mesmo instante.
Depois, como no havia tempo a perder e porque j conhecia bem
a pachorra do seu homem, foi pessoalmente ao encontro dele,
meteu-se-lhe em casa e protestou que faria um escndalo dos
diabos, se o "sedutor" no tratasse, quanto antes, de tomar uma
resoluo muito sria a respeito de casamento.
Pereira no tratou de tomar coisa alguma desta vida e nem se
abalou com a presena de Lcia. Aceitou-a, como aceitaria outra
qualquer imposio, porque ele era dos tais que, s maadas da
cura, preferem os incmodos da molstia. S no fim de quatro dias
de lua-de-mel, como Lcia insistisse nas suas idias matrimoniais,
o pachorrento declarou, com toda a calma, que lhe no podia fazer
a vontade nesse ponto, em virtude de que, desde os dezoito anos,
o haviam casado com uma velha, um fria, que o Pereira no
sabia, nem queria saber, por onde andava.
Lcia perdeu os sentidos; esteve  morte. Os pais, envergonhados
com o procedimento indigno da filha, tinham-se ido refugiar na
cidade de Campos. Foi o tio do Pereira, o tal das riquezas
aferrolhadas, que a salvou; era um velho ainda bem forte e muito
mais esperto que o sobrinho. Deu -lhe casa, comida, roupa e
dinheiro.
Uma irm dele, senhora de inveterado amor a crianas, solteirona,
de quarenta a cinqenta anos e que, com o olho no testamento,
desejava a todo o transe ser agradvel ao mano, encarregou-se
do filho do bacharel.
Correram quatro anos. Lcia no viu mais a famlia, apenas
visitava o filho, de quando em quando.
O Pereira continuava s sopas do tio, indiferentemente, como se
tudo aquilo no lhe dissesse respeito. Acordava, quer dizer.
Levantava-se s dez horas, tomava no quarto o seu banho morno,
depois um copo de leite fervido, almoava s onze, fazia as
digesto estendido no sof da sala; s duas horas dormia, depois
passeava pela chcara  espera do jantar, cujo quilo era de rigor
ser feito a sono solto em uma rede que ele tinha no quarto.
 noite, quando conseguia levantar-se, jogava o gamo com o tio.
Cochilavam ambos, at que se servia o ch , e cada um se
retirava para a cama.
- A noite fez-se para dormir! Sentenciava um deles.
- E o dia para se descansar, resmungava o outro espreguiando-
se.
E recolhiam-se.
O velho morreu de repente; uma congesto que lhe sobreveio ao
encontrar Lcia no fundo do jardim s voltas com um estudante da
vizinhana.
- Bom! Dissera Lcia, alijada afinal daquela obrigao que j lhe ia
pesando demais. E fariscou o testamento. Mas o velhaco apenas
deixava algumas dvidas  praa e dois terrenos hipotecados ao
Banco Predial. A coisa nica que ela aproveitou foi Cora,
mulatinha de criao, cuja matrcula e cuja escritura de compra
estavam em seu nome.
Era preciso, pois, deixar a casa; os credores reclamavam tudo que
pudesse dar dinheiro. Pereira sacudia os ombros; dir-se-ia que
no houvera a menor alterao na sua vida. Continuava a dormir
tranqilamente, como se as sopas do tio ainda o fossem procurar
s horas da refeio.
Lcia compreendeu que no devia contar com ele, e tratou em
pessoa em cmodo para os dois, num hotel de arrabalde,. Sentia-
se resoluta e forte; era ela agora o cabea do casal; tinha belos
projetos de trabalho: daria lies de piano, de desenho e de
francs, at que aparecesse um homem para substituir o
estafermo do Pereira.
O homem, porm, no aparecia, como no apareciam os
discpulos.
Principiou ento para eles um viver perfeitamente de bomios.
Sem trates, nem dinheiro, nem futuro, nem relaes constitudas,
andavam aquelas duas almas perdidas e mais a Cora, que andava
a senhora, a percorrer as casa de penso: sempre sobressaltados,
sempre perseguidos pelos credores que iam deixando atrs de si.
Em cada lugar se demoravam o maior tempo que podiam, dois,
trs, quando muito quatro meses; at que lhe suspendiam o
crdito e dos dois levantavam novamente o vo, deixando a dvida
em aberto e o dono da casa lvido, colrico, sem saber ao menos
que direo tomavam os vagabundos.
Nesse peregrinar, Lcia teve uma contrariedade mais profunda -
achou-se grvida de novo. Cora deu-lhe conselho, trouxe-lhe
remdios para fazer abortar; nada, entretanto, produziu efeito. O
demnio da criana parecia disputar o seu quinho de vida com
uma persistncia desesperadora.
Nasceu afinal, no quarto de um portugus na Fbrica de Chitas,
entre os cuidados mercenrios do locandeiro e o obsquio de
alguns amigos, que Lcia fora conquistando com as simpatias de
seu talento musical,.
O diabinho pouco durou, felizmente. Desapareceu uns trinta dias
depois de ter vindo ao mundo. Morreu mesmo na rua, quando os
pais, dentro de um carro de aluguel, fugiam aflitos da Fbrica de
Chitas para uma casa de penso na Rua do Catete.
Cora encarregou-se de atir-lo ao mar. Ningum viu. Seriam duas
horas da madrugada e as brisas marinhas pulverizavam no ar um
chuvisco mido, de fevereiro.
O menino fora muito franzino e muito mole; sara ao pai, o Pereira.
Durante o seu pobre ms de vida s abriu os olhos uma vez, ao
expirar.
A casa de penso era a Sexta que Lcia percorria com o suposto
marido. Apresentavam-se sempre como casados; ele muito
tranqilo de sua vida, feliz; ela inquieta, sfrega pelo tal sujeito,
que com tanto empenho procurava.
Quando constou a Lcia que Amncio era rico e atoleimado, uma
nova esperana radiou-lhe no corao.
-  agora!... disse.
E preparou-se para o combate.

                                ***

Foi por isso que o estudante recebeu , no dia seguinte ao baile do
Melo, aquele ramilhete, to falsamente atribudo a Hortnsia., e
porque, uma semana depois, outro ramo, bastante parecido com o
primeiro, se achava s onze horas da noite no do rapaz, sobre a
cmoda.
- Ol!, disse ele.
E, satisfeito com a intriga, principiou a fazer conjeturas.
- De quem viriam aquelas flores!...Ah! exclamou, descobrindo um
bilhetinho, escondido entre duas rosas.
E leu:
"No saibam nunca espritos indiferentes, nem mesmo tu, adorado
fantasista, quem te envia essas pobres flores. No o procures
descobrir; deixa que o meu segredo viceje e cresa na tepidez do
mistrio, 'semelhana das plantas melanclicas que reverdecem
nas sombras ignoradas dos rochedos. Eu te amo!"
- Seria de Amlia, seria de Lcia, ou seria de Hortnsia? De Nini 
que no poderia ser, porque a desgraada, com certeza, no
sabia escrever coisas daquela ordem!
No dormiu essa noite; as palavras do ramilhete voejavam-lhe
dentro da cabea, como um bando de mariposas.
- De quem seria?...De Amlia no, no era de supor; pois que a
bonita menina, longe de o provocar, fugia sempre que ele tentava
se abrir com ela em questes de amor; de Hortnsia tambm no,
no era natural que fosse, porque, em tal caso, Mme. Brizard, ou
qualquer outra pessoa de casa, teria visto o portador. Alm disso,
a mulher do Campos no seria capaz daquilo; estava caidinha - 
certo! Mas no levaria a leviandade ao ponto de lhe

escrever e enviar semelhante declarao. O que , porm, no
sofria dvida  que os ramos tinham a mesma procedncia.
E Lcia?... verdade! E Lcia? Com certeza no era de outra!
Sim! Tudo estava a dizer que o tal bilhetinho sara de suas
mos!...aquelas frases poticas, aquele mistrio, aquela franqueza
de confessar o seu amor em duas palavras...No tinha que ver!
Era da mulher do Pereira!
E um palpite brutal, inadivel, substituiu logo a calma simpatia que
lhe inspirara Lcia.
Desde que se capacitou de que eram dela os ramilhetes, desejou-
a com urgncia; queria que ela surgisse ali, naquele mesmo
instante, na silenciosa escurido daquele quarto.
E voltava-se de um para outro lado da cama, sem conseguir pegar
no sono.
Esperar at o dia seguinte o momento de estar com ela afigurava-
se-lhe um sacrifcio enorme, quase invencvel. Como podia l
descansar, dormir, com semelhante preocupao a remexer-se-
lhe por dentro, como um feto doido que lhe mordesse as
entranhas?
Definitivamente no conseguia adormecer. Levantou-se, acendeu
um cigarro, abriu a janela, e ps-se a olhar para a lua que estava
boa essa noite. Vieram-lhe logo as conjeturas sobre o como seria
a situao, no caso que Lcia aparecesse ali, naquele instante
"Que sucederia?...Que fariam eles?..."
Duas horas bateram na sala de jantar.
- Diabo! Resmungou Amncio, sentindo arrepios por todo o corpo.
- Desta forma perco a noite inteira, e amanh estou impossibilitado
de ir  academia!...
A idia do estudo apresentava-se-lhe sempre com um sabor muito
amargo de sacrifcio. Lembrou-se, todavia, de aproveitar a insnia
para correr uma vista de olhos pela lio; acendeu a vela,
corajosamente, assentou-se  mesinha que havia no quarto e
abriu um compndio. Mas no conseguia prestar ateno  leitura;
percorreu distrado duas ou trs pginas e ficou a olhar a chama
trmula da vela, cada vez mais abstrato e mais febril.
Sentiu vontade de beber.- Se no estava enganado - a garrafa de
conhaque ficara sobre o aparador, na varanda.
Ergueu-se, enfiou o sobretudo e saiu da alcova.
O sangue no lhe queria ficar quieto. A continuar daquele modo, o
remdio que tinha era pr-se ao fresco e vagar pelas ruas, at
encontrar sossego.
O conhaque no estava no aparador. Amncio, contrariado,
desceu  chcara, e foi assentar-se a um banco de pedra. -
Naquele momento comeria alguma coisa, se houvesse, pensou
ele, resolvido a organizar no dia seguinte um bufete no seu prprio
quarto.
A lua escondia-se agora entre nuvens; as rvores rumorejavam;
tudo parecia concentrado e adormecido.
Debaixo viam-se as janelas dos quatro cmodos do segundo
andar, que davam para a chcara. L estava o n. 8, o 9 o 10 e o
11. Comeou a pensar nos hspedes daqueles quartos: o 11 era
do tal Correia o mdico que s aparecia ali de quando em quando,
"para fazer uns trabalhos que os filhos no lhe permitiam em casa
da famlia"; o 10 era do gentleman - Bom maante! Amncio
lembrou-se de que lhe prometera acompanh-lo uma qualquer
noite ao Passeio Pblico. - Havia de ir, disseram-lhe que s vezes
se encontravam a bem boas coisas!...
O 9  que ele no se lembrava a quem pertencia...Ah! era do tal
Melinho, " a prola", como o qualificava Joo Coqueiro
constantemente.
E o 8 de Lcia! da misteriosa Lcia!
Ela estava ali!... fazendo o qu?...pensando nele talvez...talvez
dormindo...talvez at nem dela fossem o bilhetinho amoroso e os
dois ramilhetes!...Quem sabia l!...
E esta dvida o apoquentava.
- Ora adeus! disse. - A ocasio havia de chegar!...
Veio-lhe, porm uma tentao aguda de subir ao n. 8
_Que mal podia vir da?...O marido com certeza estava
dormindo!...Que poderia acontecer?...
Levantou-se resolvido; mas as vidraas do quarto do tal mdico,
que s aparecia de quando em quando, acabavam de se iluminar.
- Ol !... considerou Amncio, detendo-se.  o n. 11!
Por detrs dos vidros havia cortinas de cassa; nada se podia ver
para dentro, apenas duas sombras difusas projetavam-se na
cambraia, ora aumentando, ora diminuindo. Amncio deixou-se
ficar onde estava , mordido j de curiosidade.
Da a uns dez minutos, pela escadinha do fundo, desciam
cautelosamente, um sujeito alto, todo de escuro, e mais uma
mulher gorda, de enorme chapu, cujas abas lhe caam sobre os
olhos, ensombrando-lhe o rosto.
Vinha um atrs do outro, porque a escada era estreita.
Atravessaram a chcara, falando em voz baixa, e entraram no
corredor.

Amncio acompanhou-os, de longe, e tripetrepe.
A porta da rua estava aberta, como de costume; um carro
esperava pelos dois l fora; o cocheiro dormia na bolia. O sujeito
do n. 11 deu a mo  mulher das grandes abas, ajudou-a a entrar
na carruagem e, seguida, entrou tambm. O cocheiro fechou
sobre eles a portinhola, sem lhes dar palavra, depois saltou para o
se posto e tocou os animais.
- E que tal?...interrogou Amncio de si para si, quando os viu
partir.
Lembrou-se ento do que lhe dissera o velhaco do Coqueiro por
ocasio de mostrar-lhe a casa: "Quanto a certas visitas...isso tem
pacincia... l fora o que quiseres, mas, daquela porta para
dentro..."
- Hipcritas! pluralizou o estudante.
E encaminhou-se para o segundo andar.

                                ***

Subiu pela escadinha do fundo, no a do mdico, mas pela outra
do lado oposto; porque havia duas.
O primeiro andar continuava em completo silncio; no segundo
apenas se ouvia, de espao a espao, um tossir seco e agoniado,
que vinha naturalmente do n. 7 onde morava o tal moo doente.
O pobre-diabo piorava  falta absoluta de meios.
Amncio entrou s apalpadelas no corredor que dividia os oito
quartos. O luar filtrava-se a custo pelas venezianas e pelas
vidraas da janela e sarapintava o cho de pequeninos pontos
brancos.
O n.  5, onde residia o Paula Mendes com a mulher, era o nico
que tinha luz; uma forte claridade rebentava por cima da porta
fechada e ia projetar-se na parede do n.10 que lhe ficava
fronteiro. Mas ainda assim o corredor estava bem escuro.
Amncio parou defronte do n. 8 .- Era ali!
Encostou o ouvido  fechadura; nem sinal de vida - Lcia com
certeza dormia profundamente.
- Dormia! Pensou o estudante. - Dormia , sem preocupaes nem
cuidados; ao passo que ele, por no encontrar descanso, errava
pelos corredores desertos, como uma alma penada!. - Para que
ento se lembrara aquela mulher de ir mexer com ele?!... Se a sua
inteno era dormir, para que o foi provocar? Para que lhe foi bulir
com o sangue? Oh! Aquele silncio do n. 8 o irritava! Aquela
indiferena afigurava-se-lhe uma afronta ao seu amor-prprio, um
atentado contra o seu orgulho
E, quanto mais se convencia da impossibilidade de falar essa noite
a Lcia, mais e mais osd seus sentidos se assanhavam! Afinal, j
no fazia grande questo de ser com ela prpria; aceitaria
qualquer outra que o arrancasse daquela ansiedade em que se via
entalado, como se estivesse dentro de uma armadura em brasa.
- Que inferno! Dizia ele consigo, rangendo os dentes.- Que inferno!
E, sem nimo de ir embora, permanecia encostado  porta do n.
8, deixando -se comer aos bocadinhos pela febre do seu desejo;
ao passo que o corpo inteiro arfava com o resfolegar aflitivo dos
pulmes.
- Todavia, pensou ele - quantas mulheres no o desejariam Ter
junto de si naquele momento?...Donzelas at, quantas, naquele
instante, no se estorceriam no leito e no morderiam os
travesseiros, desvairadas pela isolao?
E saborosas lembranas de amores extintos, que o tempo e a
ausncia tornavam, mais perfeitos e mais desejveis, acudiam-lhe
simultaneamente ao esprito, para lhe aumentar as torturas da
carne. As suas amantes do passado eram agora ainda mais
atraentes e formosas; em todas elas no havia um lbio sem
sorriso, um olhar sem fogo; era tudo opulento de graas e de
meiguices, era tudo encantador e completo
Ps-se a arranhar devagarinho a porta, dizendo quase em
segredo o nome de Lcia. Nada, porm respondia; o mesmo
silncio compacto enchia as trevas do corredor.
Seu desejo, estimulado e tonto, evocava ento todos os meios de
saciar-se; descobria hipteses absurdas, inventava possibilidades
que no existiam. Amncio chegou a pensar em Amlia, em Mme.
Brizard, na mucama, e at, que horror! Em Nini!.
- Ai , meu Deus, gemeu nesse instante o doente do n.  7.
O estudante deixou a porta de Lcia e segui em ponta de ps pelo
corredor. Ao passar defronte do quarto do Paula Mendes,
suspendeu o passo; a luz continuava com a mesma intensidade; o
curioso no resistiu a uma tentao e espiou pela fechadura.
O pobre homem trabalhava, vergado sobre ma mesinha estreita e
todas coberta de papis de msica. Ao lado, pelas cadeiras e
sobre um sof de couro negro encostado a um biombo havia
folhas esparsas e cadernetas empilhadas.

Recebera nessa tarde a encomenda de organizar uma sinfonia,
que tinha de ser executada da a quatro dias em uma festa fora da
cidade. O Imperador prometeu que iria.
Mendes estava ainda organizando as partes cavadas. Ouviam-se
o ranger da pena no papel grosso de Holanda, o tique-taque de
um despertador de metal branco, pousado sobre a cmoda, e o
grosso ressonar da mulher, que dormia por detrs do biombo. O
rabequista parecia menos triste naquela ocasio do que nas
outras em que o vira Amncio.
-  porque a mulher est dormindo, calculou este, lembrando-se
do mal gnio de Catarina. E considerou sobre a existncia
ordinria que levariam ali, encurraladas no mesmo cubculo,
aquelas criaturas to opostas.
O Mendes, sem desprender a pena do papel, comeou a solfejar
em voz baixa o que escrevia; mas, como l dentro cessaram os
roncos da mulher e esta remexeu na cama, resmungando, ele
incontinenti calou a boca e prosseguiu em silncio no seu trabalho
- Ainda ests com isto?! Perguntou ela, afinal, depois de uma
pausa.
O marido respondeu afirmativamente.
- Pois, homem, v se acabas com essa porcaria! Bem sabes que,
enquanto houver luz no quarto, no posso pregar olho!
E, fazendo ranger as tbuas da cama, virou-se de um lado para
outro; acrescentando com a sua voz de homem:
- Deixa isso! Anda! E apaga o diabo dessa luz!
- No , filha, respondeu o artista brandamente. -  preciso que
este servio fique pronto amanh...
E, depois de um muxoxo da mulher:
- Sabes o quanto precisamos deste dinheiro...A diretora do colgio
ainda ontem protestou que despediria a pequena, se seu no lhe
arranjasse alguma coisas por conta do que devemos; o Joozinho,
coitado, h quase dois meses pediu-me que lhe levasse um
sobretudo, porque l no trapiche onde ele agora est trabalhando,
faz pela manh um frio de rachar; Mme Brizard, voc no ignora,
tem-nos apoquentado e...
-  isto! interrompeu a mulher. -  sempre a mesma cantiga!- De
tudo voc se lembra, menos do que eu preciso!
- Ah! se me lembro , filha! Mas  que nem sempre a gente pode
fazer o que deseja...Descansa, porm, que as coisa ho de
endireitar e tu possuirs de novo o teu piano de cauda! Tem um
pouco de pacincia...
- J me tardava essa msica! J me tardava a "pacincia"! A
pacincia inventou-se para consolar os tolos! Farte-se voc com
ela! De conselhos estou cheia, meu amigo! Quero obras e no
palavras!
Mendes no respondeu e continuou a trabalhar meneando a
cabea resignadamente. Catarina remexeu-se com mais agitao
e rangidos da cama e, da a pouco levantou-se de um salto,
gritando:
- Arre, com os diabos! Que nem se pode dormir!
- Olha os vizinhos, filha!...arriscou o marido. - Lembra-te de que
so trs horas da madrugada...
- Os vizinhos que se fomentem! Berrou ela, embrulhando-se na
colcha e fazendo tremer o soalho com seus passos de granadeiro.
- No como em casa deles, no preciso deles para nada!
E, depois de ir beber um copo d'gua ao fundo do quarto:
- Tinha graa! Que eu, alm de tudo, no pudesse falar  minha
vontade! Melhor seria, nesse caso, que me amarrassem uma bala
aos ps e mandassem, atirar comigo ao mar!
- Ests de mau humor, filha! V se descansas.
- No  de espantar, levando a vida que eu levo! Sempre numas
porcarias de quartos! Se se precisa de qualquer coisa,  um "ai
Jesus" Nunca h dinheiro! O almoo  aquilo que se sabe; o jantar
pior um pouco! Se fico doente, se tenho uma debilidade, no h
quem me traga um caldo! no h quem me d um remdio!
Arrenego de tal vidas, diabo!
-  Catarina!...disse o Mendes ressentindo-se - Pois eu no estou
aqui?...Algum dia j me afastei de teu lado, ao te sentires
incomodada?
- E antes se afastasse, creia! Porque j me custa a suport-lo
quando estou de sade, quanto mais doente! Casca! - atirar-me
em roto uns miserveis servios que qualquer um faria!...Pois no
os faa!, que at  favor! Passo muito melhor sem eles!
- Est bom, senhora, est bom! No precisa se arreliar! Veja se
descansa, que eu agora tenho que fazer!
- Descansada queria voc me ver, mas era no Caju, por uma vez,
seu malvado! Pensa que encontraria o demnio de alguma tola
que casse na asneira em que eu ca de se amarrar a um homem
de sua laia? Um pingas! Que anda sempre com a sela na barriga!
E, avanando para o marido de olhos arregalados e um punho no
ar:
- Mas, podes perder as esperanas, que eu no morro antes de ti,
Man Boc! Primeiro hs de ir tu, entendeste?! - Ah! Supunhas
que eu levaria a roer uma vida de chifre e depois rebentava pra a,
enquanto ficavas

por c a te lamberes de contente! - Um sebo! Hei de ir, sim, mas
depois de te haver feito amargar tambm um bocado, meu burro
velho!
-  mulher! cala essa boca do diabo! Gritou, afinal, o Mendes,
arrojando a pena e empurrando os papis que tinha defronte de si.
- Arre!  muito! Arre!
O moo do n. 7 expectorou com mais fora e ps-se a gemer.
Ora, com um milho de demnios! Gritou o guarda-livros, morava
no n. 6 - No  possvel sossegar neste inferno! Quando no  a
tosse e o gemido da direita,  a rezinga e a briga da esquerda!
Apre! Antes morar num hospital de doidos!
Mendes levantou-se ,segurando a cabea com uma das mos, e
comeou a passear agitado pelo quarto .
Catarina continuava a serrazinar, atirando com os ps o que
topava no meio das casa. O marido parou de sbito, sacudiu a
cabea, depois foi-se chegando para a mulher e correu-lhe a mo
pela espdua nua e lustrosa, timidamente, como se afagasse anca
de uma gua bravia
- Ento, filha?...disse com ternura.- Vai deitar, vai!...Estamos aqui
a incomodar os outros... Anda, vai!
- Os incomodados so os que se mudam! gritou ela.
- E  o que vou tratar de fazer amanh mesmo! Berrou o guarda-
livros. - Estou farto! Quem trabalha durante o dia, precisa da noite
para descansar! Arre!
- No faa caso, senhor!...Disse o Mendes, e encaminhou-se para
a porta.
Amncio, assim que o sentiu aproximar-se, fugiu p ante p, com
ligeireza.
Nesse momento, o Campelo, o tal esquisito do n. 4, que at a
no dera sinal de si, levantou-se tranqilamente, tomou o seu
clarinete, e comeou por acinte, a tirar do instrumento as notas
mais estranhas e atormentadoras que se podem imaginar. O
guarda -livros respondeu-lhe batendo com a bengala nas paredes
de tabique e berrando, como um doido, o Z Pereira.
- Ai, meu Deus!, ai, meu Deus!, continuava a gemer
arrastadamente o pobre sujeito do n. 7.
J pelas escadas, Amncio ouviu as vozes do gentleman , do
Melinho e de Lcia, que acordaram espantados, e em gritos
reclamavam contra semelhante abuso. No andar de baixo, o
Piloto, o Dr. Tavares, o Fontes, e a mulher, abriam as portas dos
competentes quartos, para indagar que diabo queria aquilo dizer.
S o dorminhoco do Pereira no se deu por achado.
Amncio j estava enter os lenis, quando o Coqueiro percorreu
toda a casa, de robe-de-chambre e um castial na mo.

                                XI

O guarda-livros, no dia seguinte pela manh, declarou a Mme.
Brizard que se retirava da casa de penso.
- Oh! Disse. - No estava disposto a suportar por mais tempo
aquele zungu! Os seus vizinhos eram uma gente impossvel! - No
se passava uma noite em que no houvesse chinfrinada!...No!
definitivamente no podia ficar! De mais - O tsico do n. 7 no lhe
dava um momento de descanso com o diabo de uma tosse, que
parecia aumentar todos os dias! Nada! Antes tomar um quarto no
inferno!
Mme. Brizard e o marido procuravam dissuadi-lo de tal resoluo.
No lhes convinha perder um hspede to bom.
O guarda-livros, com efeito, era muito pontual nos pagamentos e
no incomodava pessoa alguma, porque s queria o quarto para
dormir; verdade  que no fazia o gasto da comida, mas em
compensao estava sempre a encomendar ceiatas e jantares
que deixavam bem bom lucro.
A Ter por conseguinte, de sair algum, antes fosse o tal
rabequista, o tal Paula Mendes, que, sobre possuir uma mulher
insuportvel, achava-se j atrasado nas suas contas, e os donos
da casa no viam muito certo o recebimento.
Catarina, assim que soube de semelhantes consideraes, desceu
em trs pulos ao primeiro andar e, atravessando-se defronte do
Coqueiro, com as mos nas ilhargas, gritou-lhe, refilando as
presas:
- Repita voc o que teve o atrevimento de dizer a meu respeito e a
respeito de meu marido! Repita a, se for capaz, que lhe mostro j
para quanto presto, seu cara de fome!
Joo Coqueiro, muito plido e com o lbio superior a tremer,
exclamou que "sua casa no era Praia do Peixe"; que ele no
estava habituado "queles banzs"! Quem quisesse dar
escndalos que fosse l para o meio da rua, que se fosse
entender com as regateiras!
- Regateiras e regateiros so vocs, corja de gatunos! Replicou a
outra.
Mme. Brizard, que por essa ocasio, ainda no quarto, enfiava as
botinas, acudiu logo, um p calado e outro no, e, com tal fria
avanou contra a mulher do Paula Mendes, que Amlia, o
Coqueiro e Nini no a puderam conter

As duas atracaram-se.
Os hspedes, que estavam em casa, acudiram todos igualmente.
Houve bordoada, gritos, palavres. Nini teve um ataque de nervos.
O ilustre Lambertosa teve vrios empurres e caiu contra uma
cesta de ovos, que o copeiro acabava de pousar no cho, para
socorrer as senhoras
E, no meio de toda esta desordem, destacava-se a voz sibilante
do advogado Tavares.
- Calma, senhores! Calma! Bradava ele. - Calma por quem sois!
Esquecei-vos de que a nica arma do homem civilizado deve ser a
palavra, escrita ou falada, a idia, enfim?! Esquecei-vos de que
cada um de vs possui um crebro, onde reside uma partcula da
sabedoria divina, e que s com esse cabedal podeis cruzar as
vossa opinies, sem que seja necessrio vos agatanhardes como
animais selvagens ferozes?!...Virglio, meus senhores, o imortal
Virglio, o verdadeiro fundador da eloqncia, diz muito
acertadamente na sua Eneida, Livro IV, com referncia 
desditosa Dido - Pendet que iteram narrantis ab ore ! Se podemos,
pois, convencer com palavras, para que havemos de recorrer aos
murros?!.
E , loco do costumado . entusiasmo, dava punhadas frenticas na
mesa e perguntava em torno com os olhos enviesados e as
cordoveias intumescidas:
- E o que dizia Salomo?! E o que dizia Salomo, na sua
inquebrantvel sabedoria?! Salomo, meus senhores...
Mas o orador foi interrompido violentamente pelo Coqueiro, que
desejava saber se ele podia dispensar o seu quarto ao guarda -
livros e mudar-se para o n. 6 do segundo andar.
Haviam combinado essa mudana enquanto o tagarela
discursava.
- Salomo! Sr. Dr. Coqueiro, Salomo foi um prodgio!
- Pois bem, j sabemos disso, e agora o que nos convm saber 
se V. S.a cede ou no cede o seu quarto...
Mas no foi necessrio tal assentimento, porque Amncio, depois
de um sinal de Lcia, declarou que cederia o seu gabinete por
qualquer um dos quartos do segundo andar.
Coqueiro espantou-se. - Querer trocar o gabinete por um quarto
do segundo andar!...Ora, seu Amncio!
- Faz-me conta, respondeu secamente o provinciano. E,
chegando-se para o locandeiro, acrescentou-lhe ao ouvido: - Logo
mais te direi a razo por que...
Ficou resolvido que o guarda -livros passaria a ocupar o gabinete
de Amncio; este iria para o n. 6, e o Paula Mendes e mais
mulher deixariam de comer  mesa de Mme. Brizard, continuando,
porm no n. 5, at que liquidassem as suas contas.

                              ***

Na tarde desse mesmo dia, como fizesse bom tempo, as senhoras
combinaram em tomar o caf na chcara. Mme. Brizard, Amelinha,
Lcia e Nini, mal acabaram de jantar, desceram ao terrao.
Coqueiro e Amncio j iriam tambm para o cavaco. - Tinham
primeiro que dar dois dedos de conversa.
Os dois rapazes meteram-se no vo de uma janela da sala de
visitas, e Amncio, com acentuaes de quem detesta
imoralidades, disse ao outro , sem transio:
- Coqueiro, estou aqui h pouco tempo, mas estimo tua famlia,
como se fosse a minha prpria, e, por conseguinte, entendo que 
do meu dever me abrir contigo, sempre que nesta casa descobrir
qualquer coisa que possa Ter conseqncias graves...
- Mas que h? Perguntou o outro a fit-lo, com muito empenho.
- Trata-se de Nini, disse o provinciano em voz soturna.
Coqueiro remexeu-se no canto da janela.
- Sabes, continuou aquele, - que a pobre menina sofre
horrivelmente dos nervos, e creio at que tem qualquer desarranjo
na cabea...
- Sim, por qu?
-  uma enferma, que, e no tivermos muito cuidado com ela,
pode vir a dar srios desgostos a ti e tua famlia...
Mas, desembucha, o que  que houve?...
-  que ela, naturalmente em conseqncia da molstia, coitada,
s vezes faz certas coisas que...para mim ou qualquer outro rapaz
de bons princpios no valem nada, mas que, se carem nas mos
de um desalmado...sim! Tu sabes que hs homens para tudo
neste mundo!...
E, Amncio, inflamado pelos princpios morais que ele s cultivava
teoricamente, parecia mais que ningum preocupado com a
pureza dos costumes.

- Mas, afinal, que fez ela? Perguntou o Coqueiro, impacientando-
se.
- Ora, disse o colega , desgostosamente, - tem feito o
diabo...Ainda ontem, quando me levantei da mesa , segui-me at 
sala e...
- E...
- Principiou a fazer tolices. A pobrezinha estava como no
calculas!...Tive que recorrer  violncia para cont-la; o resultado
foi aquele ataque!...
E, vendo o ar de espanto que fazia o Coqueiro::
- Digo-te isto, porque me parece que tenho obrigao de to dizer
se, porm fao mal, desculpa!...
- Mal? Ao contrrio! Decerto que ao contrrio! Fico-te muito grato!
E abraando-o:
- Acabas de provar que s um homem de bem! A tua ao  de
um verdadeiro amigo: no imaginas o quanto eu a aprecio.
- Cumpri com o meu dever...observou o provinciano
modestamente.
- Obrigado! Muito obrigado! Fico prevenido. De hoje em diante no
acontecer outra!
- E agora, compreendes por que no me convinha ficar embaixo,
no gabinete?...concluiu Amncio.
- Oh!...Isso , porm, no era motivo para que deixasses o teu
gabinetezinho... Eu daria as providncias necessrias!...
- No, filho, nesta questes de famlia sou muito rigoroso. E agora,
o que est feito, est feito! Vou para o segundo andar;  at mais
fresco!... E, depois de algumas ligeiras consideraes sobre o
mesmo assunto, os dois rapazes trocaram comovidos um enrgico
aperto de mo e desceram juntos  chcara, onde, debaixo das
latadas de maracuj, os esperavam as senhoras, palestrando em
familiar camaradagem.

                                ***

Dias depois, quando Amncio j estava transferido para o n. 6 do
segundo andar, chegaram-lhe s mos duas cartas; uma de sua
me, outra de seu pai.
Era a primeira vez que o velho Vasconcelos se dirigia ao filho em
carta especial.
Abriu logo a de ngela, sofregamente, e a imagem da santa, que
as ltimas agitaes da vida do rapaz haviam nublado por
instantes, como nuvens que escondem uma estrela guiadora, mal
comeou a leitura, ressurgiu inteira e lcida  memria dele.
A boa me queixava-se de que o filho, ultimamente, j lhe no
escrevia com a mesma assiduidade e com a mesma expanso:
"Que significava semelhante mudana? Donde vinha aquela
reserva? Por que aqueles bilhetes to apressados, quase
telegrficos?..."perguntava ela com a sua letra redonda e um
pouco trmula. "Por que no me escreves mais amide e mais
extensamente?" insistia a carta, "por que, meu querido filho, no
me contas toda a tua vida; no me dizes como passas, e em que
te ocupas? Desejo saber se o Campos continua a ser teu amigo,
se na casa dele continuas tratado como dantes. Quero que me
relates tudo, que te diga respeito, meu Amncio. Se soubesses a
falta que tu me fazes, os cuidados que me d a tua ausncia, com
certeza serias melhor para tua me."
E, sempre a mesma, sempre extremosa, sempre com o filho na
idia, enviava-lhe conselhos, recomendava-lhe certas
precauezinhas; as medidas que devia tomar contra tais e tais
perigos; o modo pelo qual devia proceder em tais e tais perigos; o
modo pelo qual devia proceder em tais e tais situaes.
Amncio releu vrias vezes o que lhe dizia ngela, e respirou
largamente, como quem sai de um quarto apertado para um
grande ar livre. Mas, se a carta materna o impressionou, a outra o
surpreendeu, porque, de to afvel e condescendente, no
parecia derivar daquele terrvel Vasconcelos, que at em sonhos o
aterrava, e sim das mos amigas de um velho camarada dos bons
tempos da infncia.
Estranhou-o logo, desde as primeiras palavras.
"Meu filho".
At ento, nunca recebera de seu pai esse carinhoso tratamento.
O Vasconcelos nem ao menos o tratara por tu; nunca lhe dera a
beijar a mo ou a face, nunca lhe abrira, enfim o corao, quando
este se achava ainda brando e malevel, para depor a as
sementes de ternura, que desabrochariam mais tarde produzindo
os bons sedimentos do homem..
Como exigir de Amncio que tivesse agora as virtudes que, em
estao propcia, lhe no plantaram na alma? Como exigir-lhe
dedicao, herosmo, coragem, energia, entusiasmo e honra, se
de nenhuma dessas coisas lhe inocularam em tempo o germe
necessrio?

Ele, coitado, havia fatalmente de ser mau, covarde, e traioeiro.
Na ramificao de seu carter a sensualidade era o galho nico
desenvolvido e enfolhado, porque de todos s esse podia crescer
e medrar sem auxlios exteriores.
Vasconcelos, por conseguinte, chegou tarde; encontrou j enrijado
e duro o corao do filho.
E, no entanto, toda a sus carta, fazia o que, por inpcia nunca
fizera de perto, - dirigia-se amorosamente ao rapaz. Contava-lhe
novidades da provncia, comentava certos fatos escandalosos,
falava sem reservas de umas tantas coisas, das quais at a
nunca se permitira tratar na presena de Amncio.
O tpico seguinte levou o provinciano ao cmulo da admirao:
"No digo que te faas um santo, mas tambm no te afogues no
torvelinho dos prazeres. Goza, meu filho, por isso que s moo,
goza, porm, com prudncia e com juzo; diverte-te, mas evitando
sempre tudo aquilo que te possa prejudicar. Lembra-te de que
sade s tens uma, e molstias h muitas. O mundo no se
acaba! Adeus. Nunca deixes de me escrever e, quando te vires a
em qualquer apuro, fala-me com franqueza."
Tudo isso vinha tarde. Muita coisa,  semelhana do leite materno,
s nos aproveitam at certa poca. Depois, em vez de fazerem
bem, fazem mal.
As palavras de Vasconcelos que, aplicadas no tempo competente,
dariam timos resultados em benefcio do filho, eram agora para
este um simples pretexto de galhofa. Amncio sorriu da aparente
transformao de seu pai.
- Ora para que havia de dar o velho!...
No obstante, um vago sentimento, ao mesmo tempo amargo e
agradvel, apoderou-se dele. Desfrutava um certo gosto em
merecer aquela intimidade paterna; mas, por outro lado, doa-lhe a
conscincia por no Ter sido melhor filho; como se o pobre rapaz
de qualquer forma contribura para semelhante falta.
E, ento, acudiu-lhe  memria uma circunstncia de que jamais
se havia lembrado, - a despedida do pai. Vasconcelos estava
bastante comovido nesse momento e abraava-o chorando.
Amncio nunca lhe tinha visto o rosto com aquela simptica
expresso de sofrimento; mas, bem pouco se impressionou na
ocasio; os olhos conservavam-se-lhe enxutos e o corao quase
alegre com a idia da liberdade que ia principiar
S agora, depois da carta, depois que soube que era amado pelo
velho, uma grande tristeza invadiu-o todo, e as lgrimas
rebentaram-lhe com exploso.
Assim sucede sempre aos filhos educados  portuguesa, cujos
pais como que sentem vexame de lhes patentear o seu amor.
Pobres pais! Quantas vezes no estaro morrendo por afagar o
filho e, todavia, em vez de lhe darem um sorriso carinhoso, um
beijo, uma palavra de doura, fingem-se indiferentes e afastam-se
para que o pequeno no lhes perceba a comoo.
Nscios! Julgam que com isso estabelecem uma corrente de
respeito entre eles e os filhos; julgam que isso  indispensvel
para o bom xito da educao; quando toda essa anomalia s
pode servir para lhes roubar a confiana e a estima dos entes
predestinados a dedicar-lhes todas as primcias de sua ternura.
Os pais dessa espcie levam a tal exagero a sua convencional
rispidez, que, se acham graa em alguma coisa feita pelo filho,
sufocam o riso, medrosos de que qualquer expanso acarrete uma
quebra ao respeito filial.
Foi tudo isso, ao justo, que se deu com Vasconcelos a respeito de
Amncio. Amou-o, mas com disfarce; fingiu-se diretor inflexvel,
quando era simplesmente um pai como qualquer outro. Muita vez
chorou de ternura, mas sempre s escondidas; muita vez sentiu o
corao saltar para o filho, mas sempre se conteve, receoso de
cair no ridculo.
E no se lembrava, o imprudente, de que o amor de pai  bem
contrrio ao amor de filho; no se lembrava de que aquele nasce e
subsiste por si e que este precisa ser criado; que aquele  um
princpio e que este  uma conseqncia; que um vem de dentro
para fora e que o outro vem de fora para dentro. No se lembrava,
o infeliz, de que o primeiro existir fatalmente, por uma lei
indefectvel da natureza; ao passo que o segundo s aparecer se
lhe derem elementos da vida.
Foi desses elementos que Amncio nunca disps para poder amar
o pai

                                ***

O fato  que , depois da leitura da carta, o estudante sentiu, pela
primeira vez, algum desejo de dar notcias suas a Vasconcelos;
at a s o fazia por honra da firma.
Campos, que lhe apareceu em seguida, veio transformar esse
desejo em vontade, falando-lhe da correspondncia extraordinria
que, pelo mesmo paquete, recebera do Maranho. O velho
Vasconcelos tambm

lhe havia escrito, e, com tanto interesse lhe falara de Amncio, to
inconsolvel se mostrara e to saudoso pelo filho, e com tal
insistncia pedira ao negociante para olhar pelo rapaz, que o bom
homem no hesitou em correr logo  casa de penso de Mme.
Brizard.
O estudante carregou com ele para o quarto. - A conversariam
mais  vontade.
- Pois, meu nobre amigo, disse o marido de Hortnsia,
assentando-se defronte de Amncio , e batendo-lhe uma palmada
na coxa, - seu pai no se cansa de falar a seu respeito. So as
saudades, coitado!
E tirando uma carta do bolso para entregar ao outro:
- Leia, leia e veja como est triste o pobre velho! Ah! meu amigo,
acredite que - possuir um pai  a maior fortuna que se pode
ambicionar neste mundo!
Amncio, entre outras coisas, leu o seguinte:
"No imagina o Sr. Campos os cuidados em que eu e a minha boa
ngela nos temos visto por c com a ausncia do rapaz. Nunca
pensei que nos fizesse tanta falta. Ela, coitada, leva a chorar
desde que amanhece, e  noite  aquela certeza dos sonhos ruins
a mais no ser! Acho-a muito magra e abatida de tempos a esta
parte. Ento quando no recebe cartas do filho, o que j se
observa h trs vapores consecutivos, fica prostrada de tal modo
que se no pode levantar da cama.
"Veja, por conseguinte, se alcana que o nosso estudante nunca
nos deixe de escrever; duas palavras que sejam , dizendo como
est de sade e que vai bem nos seus estudos. Isso, que a ele
no custar muito, poupa todavia c por casa muitas horas de
sofrimento e de desgosto.
"At j me lembrou providenciar no sentido de faz-lo vir no fim do
ano passar as frias conosco, no sei, porm, se tal coisa ser
conveniente ainda to no princpio da carreira. O amigo dispensar-
me- o obsquio de escrever a esse respeito.
"Em todo o caso, a idia de que o senhor est a, perto dele, e que
, pelo que tem mostrado,  deveras nosso amigo, tranqiliza-nos
em grande parte. Conto, pois , que olhar sempre por Amncio.
Tenha pacincia, sei que o importuno com estas coisas , mas que
hei de fazer? Dizem tanto dessa Corte; falam de tal forma do clima
e dos mil perigos a que a esta sujeita a mocidade, que, s a
lembrana de uma tsica galopante ou de um desses desvios, uma
dessas loucuras que s vezes acometem aos rapazes e inutiliza-
os para o resto da vida; uma dessas desgraas, Sr. Campos, que
lhes sucedem facilmente, quando eles no dispem de um bom
amigo que os encaminhe e aconselhe; s a lembrana de tudo
isso, meu caro senhor,  o bastante para me tirar o sossego do
esprito.
"Tenha a bondade, sempre que falar ao meu rapaz, de lembrar-lhe
as obrigaes e dizer-lhe com franqueza a responsabilidade que
agora lhe assiste. Ele est se fazendo homem e precisa prepara
futuro. Sirva-lhe de pai; acompanhe-o e proteja-o com o mesmo
desvelo de que usou meu irmo para guiar a sua mocidade."
- V, disse o Campos, abalado com as palavras do irmo de seu
protetor.- So estes os desejos de seu pai; ao senhor compete
agora, como bom filho, fazer-lhe o gosto, e dar-lhe a felicidade de
que ele precisa para o resto da vida. O que estiver em minhas
foras est  sua disposio mas o senhor tambm deve fazer por
si, j no  to criana para no ver o que lhe fica bem e o que lhe
fica mal! Enfim, tenho toda a confiana no senhor, seu Amncio, e
estou convencido de que no me desmentir!
Amncio, que at a ouvia o Campos em silncio e com os olhos
presos a um ponto, agradeceu-lhe muito aquele interesse e jurou
que todo o seu empenho era corresponder  expectativa de seus
pais e ser agradvel o mais possvel aos verdadeiros amigos de
sua famlia.
E a conversa, tomando novas direes, ,descaiu em assuntos
menos circunspectos. Veio ento  bulha o baile do Melo, e
Campos se queixou de que Amncio, depois disso, nunca mais lhe
aparecera em casa.
- J tinha a inteno de l ir domingo.
- No, contradisse o negociante.- V antes sbado, amanh, que 
aniversrio de meu casamento. No h festa, mas renem-se
alguns camaradas e toca-se um bocado de piano. Adeus. No
deixe de ir. Olhe, se quiser pode levar seus amigos. Adeusinho.
Amncio acompanhou-o at a porta da rua e voltou ao quarto.
Estava preocupado; no mais com as cartas da famlia, mas com
a deliciosa inteno de reatar no dia seguinte o namoro de
Hortnsia. S uma pequena circunstncia lhe mareava o antegozo
desses sonhados momento s de ventura: era a idia dos seus
compromissos como estudante; sentia-os agravados perante a
confiana que lhe depositavam, e agora, mais que nunca, a
conscincia do seu relaxamento, a lembrana da haver faltado s
aulas tantas vezes e de no Ter aberto livro durante a ltima
semana, agonizavam-no desabridamente.
- Oh! Os estudos! Os estudos eram o ponto negro de sua vida, o
seu desgosto, o terrvel espectro de todos os seus sonhos! As
regalias que da viessem mais tarde, fossem elas quais fossem,
nunca poderiam compensar aquela profunda tristeza, aquele
aborrecimento invencvel, que o devoravam.

Semelhante preocupao tirava-lhe o gosto para tudo, azedava-
lhe todos os melhores instantes de sua vida. Cada minuto, que se
escoava na ociosidade, era mais uma gota de remorso cada no
sombrio plago de seu tdio.
E, contudo, os minutos, os dias e as semanas iam escapando,
sem que Amncio lograsse vencer a sua antipatia pelo trabalho.
Olhava com repugnncia para os melanclicos compndios da
faculdade, e, quando teimavam muito em os conservar abertos
defronte dos olhos, quase sempre adormecia.
Um verdadeiro tormento!

                               ***

Amncio obteve de Joo Coqueiro que o acompanhasse  soire
do Campos.
Foi uma noite cheia para ambos; se bem que Hortnsia ,de to
preocupada com os arranjos da casa, muito pouco se dera s
visitas.
Carlotinha, sim, mostrava-se alegre e comunicativa que nem
parecia a mesma. Chegou-se muito para Amncio, meteu-se com
ele de palestra,, a fazer pilhria, a criticar das outras senhoras,
com visagens disfaradas e pequeninos risos estalados por detrs
do leque.
O estudante ficou pasmo, quando descobriu que toda essa
intimidade procedia do namoro dele com Hortnsia.  primeira
indireta da rapariga, o rapaz corou e respondeu titubeando.
Carlotinha, porm, o tranqilizou, dando a entender que era
discreta e interessada nos segredos da irm.
E, j sem indcios de gracejo, aconselhou-o a que freqentasse a
casa com mais assiduidade; um Domingo sim, outro no, para
jantar. Seria muito bem recebido, algum fazia questo dessas
visitas...
Amncio, no seu papel de inocente, quis saber quem era esse
algum , mas a rapariga negou os esclarecimentos e pediu-lhe em
segredo que se calasse, piscando o olho para o lado esquerdo,
onde acabava de se assentar um sujeito gordo, de barba toda
raspada.
-  o Costa ! Nada lhe escapa!... soprou ao estudante por debaixo
do leque. E depois em voz alta, disfarando:
- Pois o baile do Melo esteve muito bom!...
- _Muito...confirmou Amncio. - H longo tempo no me divirto
assim!...Mas, para a senhora creio que ainda seria melhor, as l
estivesse certa pessoa!...
- Quem? O guarda-livros?...Ora!...
E, com ar desdenhoso, declarou que h quinze dias ficara tudo
acabado.
- Seriamente? perguntou o estudante.
- Srio! E no me sinto com isso, at estimo! No fim de contas
aquilo  um tipo impossvel; to depressa est para o norte como
para o sul!
- Mas a senhora parecia gostar dele tanto...
- Pensei que fosse outra coisa...respondeu Carlotinha, franzindo
os lbios. - Quando, porm descobri o que ali estava, dei tudo por
acabado! Foi muito bom; antes assim do que depois do
casamento!...
E, para mostrar a sinceridade daquela indiferena, ria com
exagero e dava a sua palavra de honra em como no tinha paixo
por homem nenhum deste mundo. Havia de casar sim, porque
isso era necessrio, mas no que preferisse este ou aquele.
Todos eles eram a mesma coisas _uns tipos!
Amncio defendia o seu sexo, experimentando j pela rapariga
uma nascente repugnncia instintiva.
Quando, s trs horas da madrugada, os dois estudantes se
despediram, Campos, entre muitos oferecimentos, pediu ao "Sr.
Dr. Joo Coqueiro" que voltasse qualquer dia, mas com a famlia.
Ele tinha nisso muito bom gosto.
Coqueiro prometeu fazer-lhe a vontade e retirou-se com o amigo.

                               ***

Quase nada conversaram pelo caminho. Amncio parecia aflito
por se meter na cama; uma vez, porm , recolhido ao seu novo
quartinho do segundo andar, no sentia as menor disposio para
dormir.
A circunstncia de saber que Lcia estava ali to perto, a quatro
ou cinco passos, mas inteiramente fora do seu alcance, o
indispunha como se fosse uma pirraa levantada com o fim nico
de o afligir.
No resistiu ao desejo de ir, como da outra vez, espreitar pela
fechadura do quarto em que ela morava, e encaminhou-se
sorrateiramente para o n. 8. Nesta tentativa, porm, foi ainda
mais infeliz do que da primeira, porque a janela do corredor ficara
aberta, e Amncio principiou a espirrar , constipado.

O doente do n. 7 tossicava, de vez em quando.
Amncio voltou ao quarto, muito aborrecido. Abriu um livro, mas
repeliu-o logo, com tdio. Lembrou-se de fazer caf. (Na vspera
comprara uma maquinazinha e os apetrechos necessrios para
isso.)- O melhor, porm, seria melhor tomar o caf depois de um
banho Deu lume  mquina e desceu ao primeiro andar, j
despido e rebuado no lenol.
Queria passar pelo quarto da mucama, que ele agora sabia ao
certo onde era; mas, na ocasio em que entrara na sala de jantar,
deteve-se cautelosamente com a presena de um vulto que
acabava de aparecer do lado oposto. A custo reconheceu
Coqueiro; do lugar onde se achava podia observar sem ser visto.
O dono da casa atravessou a p a varanda e, encaminhando-se
para o fundo do corredor, sumiu-se no tal stio, por onde
justamente queria passar o outro.
- Ser possvel?...considerou Amncio, que se adiantara
precatamente para certificar-se do que vira.
- Que grande velhaco!
E era aquele tipo que, "por moralidade no admitia em casa certas
visitas!..."
- Ah!, meu pulha! Pensou o estudante.
- Como podia agora tomar a srio a casa de Mme. Brizard?...Que
juzo devia fazer de toda aquela gente? E Amelinha ? o que vinha
a ser aquela Amelinha?...
Dois espirros cortaram-lhe a teia dos raciocnios, e em seguida um
calafrio muito penetrante lhe percorreu o lombo. Sentiu-se
indisposto; no obstante, desceu ao banheiro. - Aquilo
desapareceria com um pouco d'gua pela cabea.
Mas, quando voltou ao quarto, j lhe doa o corpo e tinha as
pernas entorpecidas levemente.
Tomou uma chvena de caf, bebeu um gole de conhaque, e
meteu-se na cama, tiritando.
No se pde erguer no dia seguinte. Coqueiro apresentou-se-lhe
no quarto, logo pela manh, muito sobressaltado com os
incmodos do querido hspede. Estava mais inquieto do que se
tratasse de salvar a vida de um parente insubstituvel.
Perguntou se Amncio queria mdico; se precisava de alguma
coisa. - Que diabo! Dispusesse com franqueza. Ele estava ali s
suas ordens!...
O doente apenas desejava que o amigo desse um pulo  agncia
dos vapores e trouxesse o constante de um conhecimento , que
lhe pediu para procurar nas algibeiras do fraque.
Coqueiro obedeceu prontamente.
Era um pacote de doces que lhe enviava a me. Havia frasco de
bacuris em calda. Muricis, cajus cristalizados e buritis em massa
para refresco. Amncio , logo que o colega voltou com o presente,
fez acondicionar tudo sobre a mesa, defronte de sua cama.
Nesse instante, Mme. Brizard e Amelinha invadiam-lhe o quarto,
vidas de informaes.
- Que tinha o Sr. Vasconcelos? - Que sentia? Como lhe aparecera
febre?
E a francesa, depois de consultar o pulso ao rapaz, afianou que
aquilo no valia nada. Ele que tomasse um suadouro, que se
deixasse ficar na cama e havia dever que no dia seguinte estava
pronto.
Lambertosa, chegando logo em seguida, pediu ao doente que
aceitasse uma dose de acnito e deixasse o resto por sua conta.
Mas a febre recrudesceu depois do almoo. Amncio queixava-se
de dores na cabea, na espinha e nos quadris.
- Tudo isto  ar! Afirmou o gentleman autoritariamente. - Acnito!
D-lhe com o acnito!
Foi Amelinha a encarregada de ministrar ao doente, de hora em
hora , uma colher do remdio.
Mme. Brizard falou muito da inconstncia do clima do Rio de
Janeiro, das precaues que se deviam tomar contra as
umidades; do risco que havia em comer certas frutas e, afinal,
retirou-se, tendo apalpado ainda uma vez o pulso e a testa do
hspede.
Amelinha revelava-se extremamente solcita. Andava no bico dos
ps, a borboletear pelo quarto, arrumando os livros sobre a mesa,
apanhando a roupa espalhada pelo cho, acudindo a qualquer
movimento do estudante, que dormia entanguecido de baixo dos
lenis. Ele, coitado, parecia cada vez pior. Ardiam-lhe os olhos
desabridamente; o hlito queimava; no podia suportar o cheiro do
fumo e queixava-se de muita sede e comicho pelo corpo.
Amelinha, sempre irrequieta e passarinheira, preparava-lhe copos
d'gua com acar. Agachava-se  borda da cama, mexia e
remexia com a colher o sacarfero calmante e, depois de o provar
com a pontinha da lngua, passava-o s mos de Amncio. Este,
porm, mal bebia, voltava-se de novo para a parede, gemendo de
olhos fechados.
Pelas duas horas da tarde, Lcia pediu licena para lhe fazer uma
visita. Entrou cheia de cerimnia, e assentou-se gravemente em
uma cadeira,  cabeceira do leito.

O doente voltou-se logo e agradeceu aquela fineza com um olhar
muito triste e injetado de sangue.
Ela mostrava-se interessada; pedia informaes a respeito da
molstia. Amncio respostava com dificuldade. Parecia
moribundo.
Mas, quando Amlia saiu e desceu ao primeiro andar, ele tomou
rapidamente as mos da outra e cobriu-as de beijos que a febre
tornava mais ardentes e mais queimosos.
- Eu te amo! Eu te amo! dizia ele.
- Bem, mas fique quieto! Isso lhe pode fazer mal! Retrucava a
suposta mulher do Pereira. - Nada de tolices! Deite-se! Deite-se!
Amncio libertou os braos do cobertor, apoderou-se da cabea
de Lcia , e comeou a beijar-lhe os olhos, a boca e os cabelos,
numa sofreguido irracional.
As lunetas da "ilustrada senhora" haviam cado, e ela encarava o
rapaz , sem dizer palavra, a lhe cravar os seus grandes olhos de
mope, alterados pelo abuso do vidro de graduao.
Tiveram de disfarar, porque algum se aproximava.
O enfermo voltou logo aos lenis e ps-se novamente a gemer.
Era o Coqueiro quem vinha. Desde a entrada mostrou-se
contrariado com a presena de Lcia. Transpareciam-lhe no rosto
os sintomas da desconfiana. Dir-se-ia um ciumento a penetrar de
chofre nas recmaras da amante.
- Aquela mulher no podia estar ali com boas intenes!...
E foi de mau humor que o Coqueiro respondeu a uma pergunta
dirigida por ela a respeito da molstia.
Lcia, tambm no deu mais palavra e, logo depois saiu muito
enfiada.

                               ***

 noite apresentou-se o Campos, a quem o Coqueiro , de
passagem, prevenira dos incmodos de Amncio; trazia consigo
um mdico.
Este declarou incontinenti que o rapaz tinha bexigas; mas antes
que fizessem espalhafato, afianou que eram benignas. "Bexigas
dodas, cataporas, como vulgarmente chamavam por a. Ficassem
tranqilos , que o caso no era grave; convinha , porm, ter algum
cuidado com o doente: - evitar a ao do vento e muita limpeza
com a roupa da cama."
Receitou e saiu, prometendo voltar no dia seguinte. Campos
seguiu-o at  escada do e tornou ao segundo andar.
A mulher do Paula Mendes, que abrira a porta do quarto para
escutar o que dizia o mdico, rompeu logo a falar dobre o abuso
de consentirem ali "um bexigoso!"
Daquela forma, em breve a casa se transformava num hospital! J
l tinham um tsico, que  noite no a deixava dormir com o gogo;
agora era um bexiguento; amanh seria a febre amarela e depois
a lepra! - Arre! Em chegando o marido havia de mostrar o que
faria!
Lambertosa, a pretexto de que sentia muito calor, empacotou o
que tinha no quarto e l se foi moscando  francesa.
- Nada! segredou ele embaixo ao Fontes, que jogava o domin
com a mulher na sala de jantar. - Tenho medo disto que me plo;
em pequeno vi morrer trs sujeitos de pancada com as tais
cataporas! Vou para a chcara de um amigo nas Laranjeiras! E, se
a madame no tratar de pr fora o doente, eu tambm aqui no
porei mais os ps!
E, vendo que o Fontes parecia impressionado com as suas
palavras:
- Pois no acha o amigo que no tenho razo?...Pode-se l admitir
um varioloso dentro de uma casa como esta, cheia de
hspedes?...
- 'St claro! Disse a mulher do Fontes, empurrando as pedras do
domin. - Eu tambm aqui no fico! Ou o doente se mudas ou
ento mudo-me eu! E logo o qu! - bexigas! Deus nos defenda!
At parece que j sinto um formigueiro por todo o corpo...Credo!
- Sim, disse o marido, - mas no acredito que Mme. Brizard esteja
disposta a ficar com ele dentro de casa!
O gentleman havia desaparecido, como se levasse uma fera atrs
de si; os dois outros ergueram-se conversavam assustados sobre
o grande fato; enquanto Nini, que, desde s cinco horas jazia
estendida em uma cadeira ao canto da varanda, com um leno
amarrado na cabea, escutava-os silenciosamente, os olhos
pendurados no vago

Depois daquela cena violenta com Amncio, a pobre criatura se
quedara mais apreensiva e mais triste. Eram suspiros sobre
suspiros e nem uma palavra durante o dia inteiro; s vezes dava-
lhe para chorar e no havia meio de a conter.
Em cima o Campos tomou o chapu e o guarda-chuva, mas, antes
de sair, consultou a opinio do Coqueiro e de Mme. Brizard sobre
o que melhor convinha fazer a respeito do varioloso. "Talvez fosse
mais acertado lev-lo para uma boa casa de sade!... - Eles que
se no constrangessem: se era inconveniente ficar ali o rapaz,
falassem com franqueza, porque tudo se podia arranjar
perfeitamente.
Mas os locandeiros protestaram logo, com energia: - Longe de
ficarem constrangidos, tinham muito gosto em ser teis ao Dr.
Amncio.- Que o j estimavam tanto, que no teriam nimo de o
desamparar, justamente quando o pobre moo, longe da famlia,
mais precisava de cuidados!
- Verdade  que as bexigas no so das ms...considerou o
negociante, alisando o plo de seu chapu alto. - Mas os outros
hspedes talvez no pensem como a senhora e seu marido...E
da, quem sabe?...queiram deixar a casa e...
Mme. Brizard declarou que por esse lado estava sossegada. "Os
bons hspedes no desertariam por to pouco, e quanto aos
maus, se fossem no fariam falta."
Campos agradeceu pelo recomendado aquela boa vontade; tornou
a dizer que no poupassem despesas com a molstia e, quando
porventura houvesse alguma dvida ou alguma dificuldade, era
mandar imediatamente um recadinho  Rua Direita, que ele l
estava sempre s ordens.
E ainda voltou ao quarto do rapaz para lhe rogar mis uma vez que
no tivesse receio de importun-lo em qualquer ocasio e,
outrossim, para saber se, por enquanto, ele no precisava de mais
alguma coisa.
Amncio desejava unicamente que o amigo procurasse por onde
andava o Sabino, que agora lhe fazia falta; e, caso o encontrasse,
tivesse a bondade de remeter-lho; pois seria um grande favor.
Veio  questo o quanto madraceavam os escravos ultimamente.
Mme. Brizard jurou que no havia melhor vida do que a deles;
disse que Amncio fizera mal; em consentir que um negro de sua
propriedade andasse por a tanto tempo, sem lhe prestar contas;
quando, alugado, lhe podia dar de rendimento pelo menos
quarenta mil-ris mensais. E, de sua parte recomendou de
Campos que fizesse diligncias para descobrir o tratante e o
deixasse ali, que ela mostraria se punha ou no a bom caminho.
O negociante retirou-se afinal, entre novos protestos e novos
oferecimentos.
Mme. Brizard, o Coqueiro e Amelinha no abandonaram o quarto
do doente at mais de meia-noite; ora um, ora outro,
acompanhavam-no sempre. Lcia tambm aparecia de quando
em quando; ao passo que o marido, sem jamais acordar
completamente, nem dera pelo rebolio em que ia a casa.
Por toda a parte sentia-se j o cheiro de alfazema queimada. O
esquisito do n. 4, muito comprido no seu poncho de brim pardo,
que lhe batia desairosamente nas tbias mal compostas,
espaceava no corredor, cantarolando , em voz soturna o De
Profundis .
Olha que agouro! Resmungou a mulher do Paula Mendes ao v-lo
passar e, j encolerizada pela demora do marido, fechou a porta
do quarto com um pontap. - Logo aquela noite  que o diabo do
homem entendia de se demorara mais tempo na rua! Raios o
partissem, diabo!
O Melinho, a prola do n. 9 , tambm aparecera; e o Piloto, a
saber ,ainda na porta da rua, que havia um bexigoso no segundo
andar, fez uma careta, benzeu-se comicamente, desgalgou pelo
mesmo caminho que trazia, afetando trejeitos exagerado de medo.
O guarda-livros  que bem pouco se incomodou com a notcia,
tinha l o seu gabinete ao lado da sala de visitas, e a com certeza
no chegariam os miasmas.
Estava em cima o Coqueiro a discutir com a famlia sobre quem
devia acompanhar o enfermo durante o resto das noite, quando
entro o Paula Mendes, estranhamente alegre, a cantar em voz
alta. O dono da casa correu logo ao seu encontro e lhe pediu que
no fizesse bulha. - O hspede do n. 6 estava de cama!
Mendes respondeu com descostumada grosseria, arrastando a
voz. Catarina ao v-lo naquele estado, fechou bruscamente a
porta do quarto, que nesse mesmo instante havia aberto, e gritou-
lhe de dentro "Que fosse cozinhar para longe a bebedeira! Que
voltasse para onde se tinha emborrachado! Era s tambm o que
faltava! - que, alm de tudo, tivesse de aturar bbados! Estavam
bem servidos!"
E, todos, com grande espanto , se convenceram de que
efetivamente o Paula Mendes vinha brio, logo que o viram
principiar a bater, como um possesso, na porta do quarto,
berrando pela mulher, sem se poder agentar nas pernas.
- Pois senhores, disse Mme. Brizard, que acudira com o barulho, -
estou pasma! Desde que o rabequista mora aqui  a primeira vez
que o vejo assim!...
- Naturalmente isto foi coisa que lhe fizeram... opinou Coqueiro. -
Ele, coitado,  at homem de bons costumes!...

Todos concordaram nesse ponto, e o hoteleiro, uma vez
capacitado de que a peste da Catarina no abria a porta ao
marido, carregou com este para o quarto que o Lambertosa
acabava de despejar.
- Diabo! Resmungou, deixando-o cair sobre a cama. - Hspedes
que s do de lucro estas maadas!
Resolveu-se que seria o copeiro quem acompanharia o enfermo
durante o resto da noite. O mdico recomendara que dessem o
remdio de trs em trs horas. Lcia lamentou que, justamente
nessa ocasio, a sua Cora estivesse em Cascadura ajudando a
uma amiga a morrer, porque ao contrrio Amncio no teria outra
enfermeira. "Ah! no havia como aquela mulata para tratar de um
doente!..."
Mas o copeiro assumiu o posto que lhe designaram, e cada um se
recolheu ao competente dormitrio. Catarina ainda rabujou
sozinha por algum tempo; o Paula Mendes caiu num sono de
chumbo, e a casa foi a pouco e pouco se atufando nas brumas
silenciosas da noite.
S ento , de to fracos que eram , ouviam-se os bufidos
cavernosos do tsico que, no triste abandono de sua misria,
continuava a gemer, sufocado pela dispnia.
O desgraado j no tinha foras par sair  rua. A sua molstia
entrara no segundo perodo; cresciam-lhe as dores do peito e
apareciam-lhe agora, pela madrugada, acessos febris,
acompanhados de suores frios e gordurosos.
A magreza desnudara-lhe os ossos, e o alimentos faziam-lhe
repugnncia. Como era muito pobre, ningum se interessava por
ele; os criados serviam-no mal e a ms horas. Traziam-lhe a
comida e depunham-na sobre o velador." bodega l que se
arranjasse!"
Mme. Brizard, por mais de uma vez dissera:
- Tambm aquele estafermo no ata nem desata!...
                              ***

Por volta das quatro da madrugada, Amncio sentiu passarem-lhe
brandamente a mo pela testa, e despertou estremunhado.
Um candeeiro de azeite derramava no quarto a sua meia claridade
trmula e duvidosa. Era tudo silncio e quietao.
- Lcia! disse ele, reconhecendo-a e tentando passar-lhe o brao
na cintura.
- Psiu! Fez a ilustrada senhora com um dedo nos lbios.- Tenha
modo! O copeiro est dormindo e, como o mdico recomendou
que no deixassem de lhe dar de hora em hora uma colherada do
remdio, eu ...
- Meu amor!
- Nada de bulha! Tome o remdio e trate de dormir, que voc est
doente.
Amncio bebeu a tisana e com um gemido arrastado pousou de
novo a cabea nos travesseiros.
- Como se acha ensopada esta camisa! Observou Lcia,
apalpando-lhe as costas solicitamente. E perguntou logo onde
estava a roupa branca.
O rapaz apontou com dificuldade para a gaveta inferior da
cmoda, e acrescentou careteando:
- No fundo, ao esquerdo.
Ela foi abrir o gaveto, muito de mansinho, para no acordar o
copeiro que dormia a sono solto sobre um enxergo no soalho, e
reveio, toda desvelos, com uma camisa aberta nos braos.
- Vamos ! mude essa roupa. O remdio est produzindo efeito. 
preciso no resfriar.
O estudante despiu a camisa suada e vestiu a outra.
- Agora, sente-se melhor? Perguntou a mulher do Pereira.
Estava assim, assim... Ainda lhe doa o corpo, e a comicho no
tinha diminudo. Parecia que lhe passeavam formigas pelas
pernas.
- Trate de repousar. Adeus. Eu voltarei de manh, para lhe dar
outra dose do remdio. At logo.
Amncio pediu-lhe que se demorasse mais um pouco, que se
assentasse um instante ao seu lado; ela, porm, muito senhora de
si, negou-se formalmente, dizendo com a cabea que no e
recomendando-lhe com um gesto que se acomodasse.
- Ao menos um beijinho... pediu ele.
A outra no respondeu e saiu na ponta dos ps.
Voltou pela manh, como prometera, mas o copeiro j havia dado
o remdio ao doente.
- Ento! Como passou? Perguntou ela, indo apertar-lhe a mo.
- Ora, mais incomodado com a sua ausncia do que com a minha
molstia... respondeu o moo, fazendo um ar infeliz.

- Impresses de momento... retorquiu Lcia, sorrindo. - Daqui a
pouco no se lembrar mais de mim...
E logo, que viu sair o preto:
- Para s pensar na Amelinha...
Amncio fez um gesto de repugnncia.
- Tem toda a razo!... prosseguiu ela - toda! Amelinha  moa, 
bonita, e pode casar!
- Comigo, nunca!... afirmou o rapaz.
- No poria a mo no fogo... insistiu Lcia. - Agora eu, sim, j sou
papel queimado, e estou velha...
- Velha? D-me ento a sua bno...
Lcia sorriu e estendeu-lhe a mo, que ele beijou avidamente,
ficando depois a examin-la, como se contemplasse uma obra de
arte.
-  feia... disse a senhora -  comprida demais e magra.
-  adorvel! Desmentiu o estudante. E tornou a beijar, com
exagerado transporte, a mozinha que conservava entre as suas.
- Est bom. Chega! Para bno j basta! E ela puxou o brao. -
Deve estar a surgir o batalho de seus enfermeiros! Adeus.
- Eu os trocaria a todos por ti, minha santa!
- Isso  o que havemos de ver! Replicou ela intencionalmente. E
saiu do quarto.
O Coqueiro, que chegou logo depois, percebeu que Lcia acabava
de estar ali, mas no deixou transparecer a sua contrariedade.
- Ento?! perguntou.
O doente fez uma careta de desnimo.
- Tiveste alguma novidade durante a noite?
- Nenhuma, respondeu Amncio.
- O remdio, tomaste-o?
- Tomei.
Coqueiro deu uma volta pelo quarto, para demorar um pouco mais
a visita, e disse frouxamente:
- Bem, tenho que ir pras aulas. At j! - Lol e Amelinha no
tardam por a.
E retirou-se, a gritar desde cima pela mucama: - Que viesse
arrumar o quarto do Sr. Dr. Amncio!
Mme. Brizard e Amelinha , com efeito, no tardaram a aparecer,
falando muito sobre o terror que a molstia de Amncio produzia
nos outros hspedes, confessando as maadas que tiveram as
duas na vspera; e, por fim, a mais velha desceu para cuidar da
casa e a menina ficou para tratar do enfermo.
                               ***

Joo Coqueiro,  volta da academia, chamou a mulher ao quarto e
perguntou-lhe, cruzando os braos e sacudindo a cabea:
- E o que me dizes tu da Sr. D. Lcia?...
Mme. Brizard respondeu com um movimento de ombros.
- Bem desconfiava eu!...Ajuntou o especulador, depois de uma
pausa. Acredita, Lol, que desde a chegada do Amncio, tive c
um palpite de que aquela mulher seria um estorvo para os nossos
projetos!
A francesa fez um esgar de dvida. E o esposo acrescentou com
raiva:
- Pois se ela no o larga um s instante! Leva a escor-lo, o
demnio!
- No credites que Amelinha se deixe codilhar assim s
!...observou a esperta locandeira.
- Ora qual! Volveu o outro zangado. - Ningum me tira da cabea
que esta mudana do rapaz para o segundo andar, foi coisa
arranjada por aquela sirigaita!
E, tendo percorrido trs vezes o quarto, parou de repente, muito
agitado:
- Mas comigo, bradou - Est enganada! Tenho a faca e o queijo na
mo! Posso despach-los, quando bem entender, a ela mais o
bolas do tal marido! E nem preciso inventar pretextos para os pr
na rua, porque eles j devem a perto de dois meses!
- Pois ns havemos de perder esse dinheiro?! Interrogou Mme.
Brizard assustando-se.
- Sim, mas  que eu no os deixo ir, sem ficar garantido! E se
quiserem fazer de espertos, confisco-lhes a mulatinha! No! Aqui
para o meu lado  que no se arranjam!
E, recaindo nos projetos a respeito de Amncio:
- Uma ocasio to boa para a Amelinha o cativar, se o diabo da
intrusa no se metesse entre eles no melhor da coisa! Ah! peste!

Mme. Brizard, que se havia assentado, meditava de cabea baixa.
- Eu at o acho agora mais reservado e mais frio! ... prosseguiu o
hoteleiro-estudante. - J no me consulta quando quer dar algum
passo ... j no se abre comigo!
E aproximando-se da mulher, exemplificou em voz de mistrio:
- Sabes, aquele doce que ele recebeu do Maranho? Foi quase
todo para ela! A mim deu unicamente um frasco do tal bacuri (por
sinal que no lhe acho graa); para si, creio que guardou uma
latinha de geleia, e tudo mais lambeu a gata arrepiada!
- Que! Pois ele lhe fez presente de todo o doce que recebeu do
Norte?...
- Ora! Se te estou a dizer!
- No! exclamou a Brizard escandalizada.- Isso agora no lhe
perdo! A gente aqui a se matar, a desfazer-se em carinhos, e ele
a socar no bandulho daquela bicha os mimos que recebe da
famlia! No! Isto no se faz!
- Pois fez! Sustentou Coqueiro. - E, se no abrirmos os olhos, ela
 capaz de arrancar-lhe at a ltima camisa!
- Dar todo o doce quela criatura!... repisava a francesa. - 
quanto pose ser!...
- Pois deu!
- Sempre o supunha outra espcie de gente!...
- No  pelo doce, explanou o marido - mas sim pelo alcance do
fato! Ns, o que devemos fazer e, quanto antes, tomar medida
muito seria a respeito de tudo isto!
E, fitando a mulher com resoluo:
- Vamos a saber! Achas que os devemos pr no olho da rua ?!
- Mas, filho, sem pagarem?! ...
- Ainda que no paguem, ora essa! Dos males o menor! Lembra-te
de que o Amncio no inventou a plvora e pode, muito bem, ser
visgado por aquela lambisgia!... A cabra no tem nada de tola!...
Que achas tu?!
- Sim, mas tambm par deix-los ir com o nosso cobre...
- Fica-se com um documento selado e podemos persegu-los a
todo o tempo!
- Isso  asneiras!
- Asneiras  perdermos o futuro de Amelinha por causa de alguns
mil-ris
Mme. Brizard ainda hesitou.
- Ento? insistiu Coqueiro. - A termos de tomar esta resoluo,
deve ser j e j, que a oportunidade  magnfica; talvez at nunca
mais pilhemos um ensejo to favorvel! - Minha filha, nem sempre
h cataporas!...
A outra, afinal, consentiu, e ficou deliberado que o Pereira e Lcia
seriam postos na rua, se no saldassem imediatamente as suas
contas.
- Esto ali, esto fora!... profetizou o locandeiro, esfregando as
mos.

                                ***

Algumas horas depois, quando o Pereira descrevia tropegamente
a sua rbita consuetudinria entre a mesa do jantar e a
preguiosa, Coqueiro, entrepondo-se-lhe no caminho, meteu-lhe
na mo uma folha de papel dobrada sobre o comprido, e disse-lhe
em tom seguro e repassado de urgncias:
-  uma nova continha de suas despesas. O amigo desculpe, mas,
se me pudesse pagar isto at amanh, no seria nada mau,
porque tenho de satisfazer os fornecedores.
- Havemos de ver... balbuciou o hspede, correndo pelo papel os
olhos meio fechados.
O credor advertiu-o em voz baixa de que havia j esperado muito
e que o Se. Pereira, pelos modos, no se lembrara dele.
- Tem toda a razo... concordou o dorminhoco. - Juro-lhe, porm,
que me no esqueci do senhor. Ainda no recebi dinheiro, sabe?
Sim , retorquiu o outro - mas o senhor tambm sabe que eu
preciso fazer face aos gastos da casa e ...
- Tenha pacincia ... bocejou o Pereira. - Tenha um pouco de
pacincia. Hei de cuidar disso.
- Mas  que no posso esperar mais, Sr. Pereira!
- No h novidade ! Pode ficar descansado, que no h novidade,
respondeu aquele espreguiando-se, j importunado com o
transtorno de no se poder estirar na cadeira. E entregou a conta
a Lcia, que se aproximava em ar de curiosidade. Feiro isto,
deixou-se cair na preguiosa, inalteravelmente, com nos outros
dias. Da a pouco ressonava.
A mulher leu a conta de princpio a fim, sem um gesto, nem uma
palavra; depois, ainda em silncio, dobrou-a de novo e meteu-a no
seio.

No dia seguinte pela manh o copeiro, apresentava-se-lhe no
quarto, exigindo, em nome do patro, a resposta do pedido que
este na vspera fizera ao Sr. Pereira.
Lcia, molestada com semelhante pressa, respondeu de mau
humor que - mais tarde daria uma resposta... O marido ia sair para
buscar dinheiro!
O criado retirou-se, e ela foi logo, muito zangada, despertar o
Pereira com um violento empuxo.
- Voc  uma lesma! Exclamou. - Pe-se a dormir desse modo, e
c fico eu para me haver com as contas!
- Que contas?... perguntou o homem, esfregando os olhos
pachorrentamente e escancarando a boca.
- Que contas! Voc sempre  um traste muito intil!
- Deixa disso, nhanh...
- Que contas! A conta da casa! A conta do que voc e eu
comemos!
- Havemos de ver isso...
- Havemos de ver, no! que  preciso resolver qualquer coisa! O
homem quer dinheiro; no me larga a porta!
E, puxando-o por um brao: - Ande! Mexa-se!
Pereira no fez caso e tornou aninhar-se na cama, encolhendo as
pernas e os braos.
- Voc no ouve?! Berrou a mulher, desfechando-lhe um murro
nas costas. -  preciso que lhe d com os ps para o acordar, seu
burro?!
- No me amole! Tartamudeou ele, sem voltar o rosto. Lcia, que
j se no podia conter, saltou-lhe ao gasganete e encheu-lhe a
cara de bofetes.
- Pereira ergueu-se num pulo, e, muito estremunhado, olhou srio
para a mulher:
- Ora , vamos l!... disse, e comeou a espreguiar-se, retesando
os braos.
- Diabo do sem-prstimo! Resmungou a outra com desprezo,
enviesando a boca e cuspindo o olhar por cima do ombro. - No
tm um vislumbre de brio naquela cara !
- J trouxeram o caf?... perguntou o sem-prstimo, cuidando de
lavar o rosto e os dentes.
Lcia respondeu-lhe com uma injria e saiu do quarto
arremessando a porta; mas reveio logo e gritou em tom de ordem:
- Vista-se j e ponha-se em caminho, que  preciso arranjar
dinheiro!
Pereira vestiu-se demoradamente, sempre abrir a boca, depois
seguiu para o primeiro andar no seu passo mido, os braos a
jogarem-lhe num movimento pendular, como se os tivesse seguros
 omoplata apenas por um atilho. Tomou o seu caf com leite e o
seu po com manteiga e foi espaar para a chcara,  espera do
almoo.
A mulher segui-o e, logo que o alcanou, bateu-lhe no ombro:
- Ento voc no se avia, criatura?! Voc no v que o homem
quer dinheiro e que estamos ameaados de ir para o olho da rua,
seu Pereira?!
- Mas, que hei de eu fazer, nhanh?...
- Ponha-se em movimento! V aos seus parentes, v aos seus
amigos, v ao inferno! Contanto que arranje alguma coisa para
tapar a boca daquele judeu! No me volte de mos abanando,
porque no lhe abro a porta do quarto, percebe?! Voc bem sabe
que, se bem o digo, melhor o fao!
E, vendo que Pereira no se mexia:
- Ento!
- Mas eu hei de sair sem almoar, nhanh?...
- Pois v l! Almoce. Mas  engolir e pr-se a andar!
- E dinheiro para o bonde?
- Que? Voc j gastou os cinco mil-ris que lhe dei anteontem?!
Pereira explicou que os havia gasto contra a vontade, porque uns
sujeitos o obrigaram a pagar cerveja e doces numa confeitaria.
- Voc  um palerma! Disse a mulher. - Tome l mil e quinhentos.
Mas veja agora se tambm os vais comer de doce!

                               ***

Desde a vspera, entretanto, que Amelinha no se despregava do
lado de Amncio, seno quando este dormia ou quando precisava
ficar s; levou a costura para o segundo andar, e ps-se a coser
no corredor, assentada  porta do quarto do seu doente.

Uma esposa no se mostraria mais afetuosa; ao menor gemido do
enfermo, corria logo para ele, sempre meiga, sempre desvelada.
Procurava ajud-lo a suportar a monotonia da molstia; procurava
anim-lo, distra-lo, fazendo por Ter graa, recorrendo, para o
entreter, ao que sabia de mais esprito. Seu pzinho, leve e
calado de duraque, parecia no tocar no cho; seu rostinho,
mimoso e fresco como um jambo, no se contraa ao fartum
insalubre das variolides.
E dir-se-ia que tudo aquilo no visava ouro interesse que no fora
a mesma caridade e a mesma dedicao. Nem uma queixa, nem
um suspiro, nem um olhar, nem um gesto, que trassem a
esperana de recompensas futuras, era o bem pelo bem.
O provinciano, muito desvigorizado com a molstia, sentia
perfeitamente que os lbricos impulsos, que dantes lhe inspirava a
graciosa rapariga, iam-se agora destecendo e dissipando  luz de
um novo sentimento de gratido e respeito. A primitiva Amlia
desaparecia aos poucos, para dar lugar quela extremosa criana,
quela irmzinha venervel, que lhe enchia o quarto com o frescor
balsmico de sua virgindade e rociava-lhe o corao com a trfega
mimalhice de sua ternura.
Nos momentos da comida  que se podia ver. Amncio tinha
grande inapetncia e torcia o nariz aos alimentos; mas a pequena
metia-o em brios, chamando-lhe piegas , fracalho, dizendo que
ele "parecia um nenm e que precisava levar uns petelecos para
tomar juzo".
E atava-lhe ao pescoo o guardanapo, esfriava-lhe a canja,
soprando amorosamente as colheradas, e, para lhe provar o
apetite, paparicava tambm o que vinha e, com estalinhos de
lngua, dizia e repetia que estava tudo muito bom e muito gostoso.
Ele, s vezes, j se fazia mais doente e mais carecido de
cuidados, s para desfrutar os mimos da enfermeira.

                               XII
Dias depois, o mdico declarou que Amncio estava livre do maior
perigo. - As bexigas foram boas e secariam prontamente, sem
quase deixar sinal na pele.
Dentre em pouco abria-se a janela do n.o 6 , recolhia-se a ultima
roupa que servira  molstia, defumava-se o quarto pela ltima
vez, e o mimalho entrava afinal na convalescena.
Logo porm, que deixou a cama , apareceram-lhe dores
reumticas na caixa do peito e nas articulaes de uma das
pernas. Era o sangue de sua ama - de- leite de leite que
principiava a rabear. Bem dizia outrora o mdico a seu pai, quando
este a encarregou de amamentar o filho.
E, pois, vieram os remdios para a nova enfermidade, e Amncio,
a despeito de sua impacincia para ganhar a rua, continuou
encurralado na casa de penso e submetido a uma dieta rigorosa.
Sabino, que o Campos lhe remetera na vspera, tomou conta do
lugar que o copeiro exercia durante a noite.
Nesses dias , Lcia muito pouco se chegou para o estudante,
receava com isso provocar. da parte do Coqueiro alguma violncia
contra si.- Ah! ela bem sabia que era guardada  vista; toda
aquela famlia j nem ao menos disfarava a vigilncia em que a
trazia; andavam todos eles, desde a velha at ao pequeno, a lhe
fariscar os passos, descaradamente empenhados em afast-la o
mais possvel de Amncio. - Scia de bandidos!
Com efeito, nunca mais lhe foi possvel at a fazer ao rapaz uma
ou outra visita noturna. Mas, justamente no dia em que se arejou o
quarto, estava Amncio estendido na cama, a reler um esfacelado
volume do Alencar, quando de repente se abriu a porta e Lcia
surgiu , aflita e apressada, correndo para ele num formidvel
alvoroo.
Seriam mais de onze horas da noite e a famlia do Coqueiro
estava j recolhida.
Amncio assustou-se com a visita, mas nem por isso a estimou
menos.
Quis, antes de tudo, saber que terrores eram aqueles.
- Que diabo havia acontecido? - Mas se alguma coisas ruim
acabava de suceder a Lcia, era, com certeza, por castigo, que
ela estava uma ingrata muito grande; j no aparecia aos pobres;
naturalmente tinha medo das bexigas!...
- Oh! no! no! vozeou a ilustrada senhora, agarrando-lhe ambas
a mos com transporte. - No! Tudo que vier de ti, Amncio, tudo
que te pertence e diz respeito  bom e sublime para mim!
E correu de novo  porta, certificou-se de que a casa estava bem
sossegada, e tornou para junto do estudante, apalpando dos lados
e circunvagando olhares inquietos.
Sabino j se havia esgueirado discretamente pelo corredor;
enquanto o senhor-moo,, ainda meio aturdido com a agresso
melodramtica de que fora vtima, apanhava, uma por uma, as
folhas do Alencar, que se tinham espalhado aos ps da cama.
- Pois olhe, ningum o acreditaria!... disse ele voltando afinal, do
seu espanto e pousando o livro sobre o velador.
- Porqu? Interrogou Lcia muito sria e muito dura defronte do
rapaz.
- Ora, Porqu!...Porque j no h quem a veja! Porque a senhora
arribou deste quarto, como se aqui algum lhe quisesse fazer mal!
Ela respondeu com um sorriso de tristeza e um resignado
sacudimento da cabea.
- Os fatos, pelo menos, assim o acrescentou o doente.
- Mas, valha-me Deus! Tornou a outra. - Pois no vs a
perseguio que sofro aqui por tua causa? No vs que sou
espiada, seguida e vigiada a todos os instantes?! No vs o cime
que Mme. Brizard, o Coqueiro, a tal Amlia, Nini, o diabo! Afetam
por ti?!
- O cime?...perguntou Amncio , deveras espantado. - Mas o
cime, como? Por qu?
- Criana!...disse ela. E passou a mo na testa.- Ests na aldeia e
no vs as casas!
- Eu?!
- Sim, tu!
E, assentando-se  beira da cama, para lhe ficar mais perto,
continuou, diminuindo o tom da voz:
- Pois no percebes, filho, que toda esta gente quer fazer de ti
uma propriedade sua; que esta gente te considera um tesouro
precioso e teme que lho furtem? No percebes, meu Amncio, que
h aqui um plano velho, tramado para te fazer casar com
Amelinha, isso porque s rico e, na tua qualidade de homem de
espirito, pouca importncia ligas ao dinheiro?!...
- No! Dou-te a minha palavra em como, at aqui nada percebia
de tudo isto!...
- Pois fica, ento sabendo que h uma grande conspirao contra
ti ou, por outra, contra os teus bens!
- Ora essa! disse ele em voz baixa.
- Todos esses carinhos que eles ostentam, todos esses cuidados
e desvelos artsticos, so laos armados  tua ingenuidade!
- Esto bem arranjados!...respondeu Amncio, - se esperam que
eu case com Amelinha!
- No sejas hipcrita!...acudiu a outra. - Tu gostas dela; no
negues.
- Ah! gosto, no nego. Mas gosto, sem inteno de espcie
alguma; gosto, coitada, porque ela nunca me fez mal, porque at
lhe sou grato aos seus obsquios! Mas da para casar!...
E, depois de um assovio de grande esperteza:
- No  o meu tipo, o meu ideal! Demais, ainda no penso em
casamento, nem sei se algum dia pensarei nisso!
- Por qu?
- Ora, respondeu ele - no vale a pena a gente se casar! H por a
tanta desgraa, tanta decepo que, para falar com franqueza,
no tenho nimo...
- Julgas assim to mal as mulheres?...
- Com franqueza  exato, filha! No digo que no haja mulheres
virtuosas; isto, porm,  raro!...Prefiro no arriscar!...
- Desconfio de tanto ceticismo na tua idade!
Ele agitou os ombros.
- Um homem com esses princpios  incapaz de amar...ajuntou
ela.
- Tens em mim a prova do contrrio...retorquiu Amncio sorrindo.
- Em ti?...
- Sim, e sabes disso perfeitamente!
- Disso, o qu?
- Que te amo...
- No creio...
- Nesse caso, o ctico no sou eu!
- Se me amasses, j mo terias provado...
- Provado?
- Est claro. No acredito nesse amor cauteloso e metdico, que
de tudo se arreceia, que se no quer expor, que tem calma para
medir todas as convenincias, que teme os olhares, os ditos, as
consideraes de todo o mundo, quer vem finalmente muito mais
da cabea que do corao!
- No acreditas, ento , que eu te ame?...

- No, decerto! Nem te crimino por isso!...s ainda muito criana,
para sentires o verdadeiro amor, a verdadeira paixo. Essa que
no conhece obstculos; que tudo pode e tudo vence; que  capaz
de todos os sacrifcios, sejam do bem ou sejam do mal; essa que
levanta os grandes crimes ou os grandes herosmos! Amar, tu! E
porventura sabers ao menos o que  o amor?! Algum dia
experimentaste, por acaso, o cime, o desespero, a loucura, a que
nos conduz o objeto amado? No! No queiras amesquinhar o
nico sentimento que at hoje se tem conservado puro! No
queiras amesquinhar a coisa nica respeitvel que resta sobre a
terra! Para que possas falar a esse respeito, primeiro  necessrio
que ames!  preciso que ds alma, vida , futuro, esperanas, tudo
, a uma mulher!  preciso primeiro que te esqueas de teus
sonhos mais queridos, de tuas melhores aspiraes, para s
cuidares nelas, viveres delas e para ela! Ento, sim! eu acreditaria
em ti!
E Lcia apoderou-se novamente das mos de Amncio, e as
palavras borbulharam-lhe com mais febre:
- Amor  o que sinto por ti, entendes?! Amor  o que me faz
esquecer a minha responsabilidade, o meu destino, o meu dever,
para estar aqui a teus ps, alheia a tudo, esquecida do passado,
descuidosa do futuro; s para te ver , s para te ouvir, s para me
saturar toda de tua presena!..
Entretanto... disse Amncio, procurando afinar a voz pelo tom
enftico com que falava a outra, - entretanto, nunca me permitiste
fruir contigo os verdadeiros e mais saborosos proveitos do amor!
Tiveste a cruel habilidade de transformar um manancial de gozos
em fonte perene de tormentos e dissabores! Se me amas, digo-te
eu agora, por que evitas a todo transe que eu v alm dos nossos
beijos?... Se me amas, por que impes o suplcio do teu rigor? Ah!
eu s acreditaria na sinceridade de tais protestos se fosses
generosa comigo....
- No! no! contraps ela abraando-o_ Nunca faltarei aos meus
deveres! Nunca trairei meu marido! Serei capaz de uma loucura;
no, porm de uma infmia! Seria capaz de fugir contigo,
abandonar tudo por tua causa; mas introduzir-te covardemente na
minha alcova, nunca! Aceitaria um crime, sim! mas havia de
aceit-lo sob todas as responsabilidades, com todas as
conseqncias que ele viesse a produzir! Seria tua, mas no
enganando a um outro; seria tua, mas toda, inteira, lealmente!
Abandonaria por tua causa meu marido; antes, porm de o fazer,
dir-lhe-ia com franqueza: "Fulano! Amo um outro No posso
continuar ao teu lado, sem que te engane todo os dias e a todos
os instantes! Por isso- vou! Amaldioa-me , se quiseres, mas no
te perturbes a minha felicidade" Deixaria de ser esposa, para ser
concubina! Trocaria meu nome, minha posio, por algumas horas
de delrio, por algumas horas de sonho; mas, em todo o caso, a
conscincia nunca me acusaria, o corao jamais se teria de
maldizer!
- Vs?! Disse ela, esfolegando cansada de falar. -  por isso que
at hoje me tenho portado deste modo contigo;  por isso que
domo os meus impulsos e os meus arrebatamentos! - Sou de
outro, no me possuo, no posso dispor disto!
E sacudia todo o corpo, com uma obstinao provocadora e
canalha.
Amncio olhava para ela , mordendo os beios.
- Se  verdade que me queres possuir...disse a intransigente,
depois de uma pausa em que se ouvia a respirao dos dois. -
Arranca-me das mos de meu marido e leva-me para onde bem
quiseres, faze de mim o que entenderes! Serei tua amante, tua
companheira, tua escrava; serei tudo que ordenares, contanto que
eu j no pertena a nenhum outro, contanto que eu tenha
comprado com o risco de minha vida a felicidade de ns ambos!
E Lcia, agitando romanticamente os cabelos, que ela por clculo
trazia soltos essa noite, perguntou com mpeto:
- Compreendes agora a minha reserva?! Compreendes que ,
apesar de minhas recusas, eu te adoro, meu Amncio, meu amor,
minha vida?!
Entretanto, acrescentou ela, quando se convenceu de que
Amncio no queria cair no lao - tenho fatalmente de abafar
todos os meus sentimentos, tenho de calcar todos os meus
desejos, porque amanh nos separamos.
Amncio ergueu-se, pasmado.
- Como nos separamos?...interrogou.
- Eu amanh me retiro desta casa...esclareceu Lcia, sem erguer
os olhos. - Vou, e ainda nem sei para onde! Mas, no poso deixa
de ir: manda-me a dignidade que aqui no fique nem mais um
instante!
- Como assim? Explica-te!
- Oh! no me perguntes nada! No me perguntes nada, porque, s
o que te posso afirmar  que esta scia...E indicava o andar de
baixo com um gesto trgico. - Esta scia, receosa de que eu te
dispute a Amelinha, obriga-me a sair, obriga-me a separa-me de ti!
Ah! os miserveis sabem o quanto eu te amo, meu Amncio!
Temem que eu seja um estorvo ao teu casamento com ela.
- Mas, filha, como te podem eles constranger a sair?...
- No me obrigues a falar, por amor de Deus! Eu no quero, no
devo dizer mais nada!

- Ora1 Isso no  generoso de tua parte! Se no podes usar de
franqueza, para que ento me excitas deste modo a curiosidade?
- No! No te poso dizer mais nada! Repele-me, se assim
entendes, manda-me embora, mas, por piedade, no me obrigues
a corar em tua presena!..
- Corar em minha presena?...No te entendo , filha! Fala por uma
vez. Abre o corao!
- Nunca! Nunca!
- Mas  que tu me torturas Lcia!
E acariciando-a:
- Vamos! No sejas criana, fala com franqueza...Dize o que te
fizeram! No acreditas ento que sou teu amigo? teu amiguinho?
No crs que representas em minha vida uma preocupao
constante, um sonho, uma esperana?...
- Sim, sim, acredito, meu amor, mas no me obrigues a tratar de
coisas, nas quais ainda no tenho o direito de falar!...
- Ora! Que segredo pode ser esse, to negro, to repugnante, que
no mo queiras dizer?... preciso que eu merea muito pouco a
tua confiana!..
- No, no  isso, mas  eu me falta o nimo para confess-
lo...Mudemos de conversa....
- No queres dizer? Bem! Acabou-se!
- Oh! no me fales desse modo, meu querido!
- Ento dize o que .
- E prometes que no me achars ridcula?...prometes que a
revelao do que te vou dizer no me amesquinhar aos teus
olhos?...
- Juro!
Lcia tirou uma carta do seio e entregou-a ao estudante
Logo que este principiou a leitura, ela cobriu o rosto com as mos,
como para esconder a vergonha.
Amncio leu o seguinte em voz baixa:
" Sr. D. Lcia Pereira.. H quatro dia que entreguei a seu marido
uma Segunda conta do ms passado e deste ms, e, visto que at
agora no tenho recebido seno desculpas e promessas, tomo a
liberdade de participa-lhes que, de hoje em diante, no posso
continuar a lhes fornecer comida e que preciso urgentemente do
cmodo ocupado pela senhora e seu marido. Espero, pois, que
at amanh esteja o quarto n. 8 desembaraado e a minha conta
selada e assinada pelo Sr. Pereira; sem o que, pesa-me diz-lo,
no consinto que V.S.as levem consigo a sua mulata, que  o
nico bem de que posso lanar mo para garantir a dvida "
Estava assinado por extenso o nome de Joo Coqueiro.
Amncio dobrou a carta silenciosamente, ao passo que Lcia
continuava a esconder o rosto.
- Em quanto importa?...perguntou ele depois.
Ela, conservando uma das mos nos olhos, tirou com a outra a
conta do seio, e passou-lha, sem dizer nada.
- "Quatrocentos e sessenta mil-ris", leu o moo para si. E fez um
trejeito com os olhos.
Lcia, ao lado, soluava, sempre com o rosto coberto.
Amncio pensou um instante, e disse:
- No te aflijas...Eu poso, se quiseres, arranjar o dinheiro para
amanh...
Ela, ento , descobriu a cara e, sem uma palavra, abraou-se ao
rapaz e comeou a chorar.
- E hoje, perguntou ele, quando Lcia j se dispunha a sair - hoje
mereo um beijo?...
Ela correu para Amncio, sorrindo, e com os olhos fechados,
estendeu-lhe os lbios.
O estudante, com as duas mos abertas, segurou-lhe a nuca e
principiou a sorver o "seu beijo", demoradamente,
voluptuosamente, como se estivesse bebendo por um canjiro.
Lcia, porm, ao perceber que a coisa se demorava muito,
arrancou a cabea das mos do rapaz e fugiu.

                               ***

As nove horas da manh subseqente, voltava o Sabino da casa
do Campos com a resposta de uma carta em que o senhor-moo
pedia o dinheiro necessrio para satisfazer as dvidas de Lcia.
Joo Coqueiro ficou assombrado quando recebeu a quantia;
correu logo em busca da mulher.

- Sabes? Disse assim que a viu. - Pagaram ?
- Hein?! Fez Mme. Brizard, com espanto. - Pagaram?! Tudo ?!...
- Integralmente! C est o cobre!
E, depois do silncio da admirao:
- E que te parece, a ti, hein, Lol?!..
- Parece-me bom... a metade est feito; agora j no se trata de
receber-lhe a conta,  s de os pr fora de casa?
- Sim ... mastigou o marido.- mas agora tambm  mais difcil faz-
lo desarvorar! J no temos um pretexto para isso!...
- Pretextos no faltaro... respondeu a francesa, e acrescentou: -
O que me faz cismar  este dinheiro arranjado assim  ltima
hora... porque eles, ainda ontem, estavam bem apertados e o
Pereira no arredou o p de casa durante o dia!
O marido refletiu um instante, e depois exclamou, com vislumbres
de quem se sente roubado:
- Ora, querem ver que aquela raposa arrancou estes cobres ao
Amncio?!...
Mme Brizard confirmou alvitre com um gesto de cabea.
- E olha que no  outra coisa! Repetiu o Coqueiro. - Que hoje o
Sabino, desde muito cedo, tinha j que fazer  rua!
- Ora essa!... resmungou a Brizard, indignada e ressentida, como
se aquele desfalque na carteira do estudante lhe trouxesse um
prejuzo imediato.- Ora essa!... sempre se vem coisas neste
mundo !...
- Mas deixa estar que hei de saber de tudo!... Prometeu o
locandeiro.
E , com efeito, da a pouco o prprio Sabino lhe confessava que
fora pela manh  casa do Campos levar uma carta e que voltara
com outra, recheadinha de dinheiro em papel.
O locandeiro revoltou-se, mas a usa indignao subiu
verdadeiramente ao cmulo, foi quando lhe constou que o bom do
Amncio para ter ocasio de estar mais tempo com Lcia recorria
a todos os meio e modos de afastar Amlia do quarto.
- Diz que no quer ser importuno ,contou a rapariga, - Que j
basta os incmodos que me tem dado, que no se acha com o
direito de fazer de mim uma irm de caridade, e de obrigar-me a
suportar as suas amolaes! E que eu viesse aqui para baixo rir e
conversar com os outro, que ele teria nisso muito mais prazer.
- E tu, que lhe disseste? Perguntou o irmo.
- Eu disse que sentia o maior gosto em prestar ao Sr. Amncio
aquelas insignificncias de servios; que, se os fazia, era por motu
prprio!
- E ele?
- Ele disse que no, que no admitia, e que ficava at muito
contrariado, se eu no viesse embora!
- Vs?! Perguntou Joo Coqueiro  esposa, apontando para a
irm.- Vs?! Tudo isso  obra da Sra. Lcia!.
E, depois de uma pausa aflita:
- Aquela mulher no nos pode ficar em casa! Haja o que houver 
preciso que ela se v daqui quanto antes!
E deu a sua palavra de honra em como havia de pr cobro a
semelhante patifaria.
No sossegou essa noite. Enquanto os mais dormiam, andava ele
l por cima, a farejar nas trevas, grudando-se contra as paredes e
escondendo-se pelos cantos.
Passou assim algumas horas; mas afinal, viu Lcia sair do quarto,
p ante p, atravessar a medo o corredor e sumir-se s
apalpadelas, na porta do n. 6 .
A sua primeira idia foi a de chamar o Pereira e mostrar-lhe a
mulher no latbulo do amante, mas considerou que o homem seria
capaz de romper com ela e, nesse caso, a ligao de Lcia com o
provinciano tornar-se-ia inevitvel. - Nada! pensou ele .Deixemo-
nos disso.
Mas, tambm, no convinha esperdiar uma ocasio to boa para
desmascarar a tal sujeira.
Encaminhou-se, pois , na direo do quarto do estudante. Lcia,
ao sentir que algum se aproximava, correu a fechar a porta por
dentro, e fez sinal de silncio ao enfermo.
Coqueiro parou defronte do n. 6 e bateu.
- Quem ? Perguntou Amncio, no fim de pequena pausa, com a
voz levemente alterada.
- Sou eu, disse o outro. Precisava dar-te duas palavras... como vi
luz no quarto...
- Desculpa ! respondeu o doente. - Mas agora no me posso
levantar. At logo!
- Boa noite! Resmungou o dono da casa, e afastou-se.
Lcia fingiu-se muito assustada com aquilo: - O Coqueiro, se veio
ali, foi para mostrar que sabia de tudo! Naturalmente espiara pela
fechadura!

E pendurou logo uma toalha na chave.
-  o que se chama ter fama sem proveito!... Observou Amncio, a
quem as negaas da mulher do Pereira j impacientavam.
- Est em tuas mos!... Volveu ela. - J expus com franqueza as
circunstncias...
- Tirar-te do marido...
- Est claro!
- Isso por ora  impossvel!... Mais tarde, no digo que no, mas
por enquanto...
-  porque no me amas, disse a ilustrada senhora, abaixando os
olhos.
- Se te amo, minha vida! Se te amo!...
E ameigava-a, procurando beij-la.
Ela fugia com o rosto, dizendo aflitivamente que preferia nunca o
ter visto. "Antes de conhec-lo, ainda conseguia suportar o marido
abominvel a que a prendera o destino, mas, depois que
fantasiara a possibilidade de viver com Amncio, de possu-lo,
todo, sem que outra o disputasse, no mais podia entestar com a
miservel existncia que levava e com os dilacerantes sacrifcios
que lhe cumpriam!"
Dito este fraseado, foi-se do quarto , como das outras vezes, a
fazer-se rogada, a medir os beijos que dava, a prometer que no
voltaria mais, se Amncio persistisse nas costumadas exigncias.
- Ora bolas!... praguejou este, quando se achou s. - Desta forma
 melhor mesmo que no venha! Pe-me neste estado e afinal
musca-se, ainda por cima emburrada! Gaitas!
Mas a idia de que aquela resistncia talvez no durasse mais do
que o tempo da molstia o consolava em parte.- Sim, porque, em
ficando bom, as coisas seriam de outro feitio! Tinha graa que ele
estivesse a pagar contas de quatrocentos e tantos mil-ris, s para
desfrutar a certeza de que a Sra. D. Lcia o amava com todo ardor
de que  capaz uma alma pura e apaixonada! Qual! Por
semelhante preo preferia no ser amado!
E adormeceu, impaciente por sair da molstia, e entrar no gozo da
felicidade que ele acabava de pagar adiantado, como se abrisse
para todo o ano uma assinatura de amor.
A ilustrada senhora conseguira o que esperava: as suas negaas
faziam-na mais desejada pelo rapaz e davam-lhe, aos olhos deste
irresistveis fascinaes de coisas proibida.
Certas mulheres, quando se negam, esto recuando para melhor
armar o salto sobre a presa.

                               ***

Logo pela manh do dia seguinte, j o Coqueiro se apresentava
no quarto do provinciano, mas com o aspecto muito ressentido, os
gestos duros, o olhar cheio de recriminaes.
- Ento, ontem  noite, tinhas aqui a Lcia?...inquiriu de chofre,
depois de cumprimentar Amncio secamente.
O interrogado fez uma cara de espanto.
- No podes negar! Eu a vi sair!...
-  exato, respondeu o doente, franzindo as sobrancelhas.
- Hs , porm de permitir que eu te diga que andaste muito
mal!...repontou o Coqueiro. - Tens de concordar que eu no
posso, nem devo consentir em casa semelhante coisa!
E foi at a janela, olhou a rua pelas vidraas. Amncio no dava
uma palavra
O outro voltou, muito comprometido.:
- Isto aqui  uma casa de famlia! Sabes perfeitamente que temos
conosco uma menina solteira, - uma virgem! No  por mim, nem
por ti, nem tampouco pela Lcia; mas  por ela, sebo! por - minha
irm! - a quem sirvo de pai!  por minha mulher,  por minha
enteada e pelo menino,  pelos hspedes, enfim!...
- Pois acredita que no houve nada demais!...balbuciou Amncio.
- No, filho, tem pacincia! L fora o que quiseres, mas daquela
porta para dentro, no admito, nem posso admitir!...E passeando
pelo quarto com as mos nas algibeiras: - Que diabo! Eu te
preveni!...
- Ora o qu! Resmungou Amncio , indignado com a hipocrisia do
colega, mas sem coragem para dizer o que sabia a respeito dele e
dos costumes da casa. - No abro o exemplo!...acrescentou.
- O que queres dizer com isso?
- Quero dizer que sei, to bem como tu, que aqui nem todos so
santos!...
- No te percebo...-
- E  melhor mesmo justamente que no percebas

Mas , como o outro ainda se quisesse fazer de desentendido, ele
declarou, frisando as palavras, que nem sempre ficava a dormir no
quarto durante a noite e que ento enxergava, s vezes...,melhor
do que mesmo de dia...E falou indiretamente nas entrevistas do
mdico do n. 11 e no que sabia do prprio Coqueiro com
referncia  mucama.
- Olha! Concluiu: - O que te posso afianar  que a mulher do
Pereira s vem aqui ao quarto depois que me acho doente, e,
longe de ser com mau fim, coitada,  at com muito boa inteno!
- Entra, cavaqueia um pouco, d-me a tomar o remdio e assim
como veio se vai embora, entendes tu?!
- No h dvida...gaguejou o hoteleiro, cuja fria se esvaziara de
repente s bicadas do outro, que nem um balozinho de borracha.
- No h dvida que tu s incapaz de cometer qualquer leviandade
dentro de uma casa de famlia; mas, a questo so as aparncias,
so as ms lnguas, so os outros hspedes! No os conheces,
filho! Nenhum deles acreditar que Lcia venha ao teu quarto s
para te dar o remdio e meio dedo da palestra!...Sei perfeitamente
que isso  exato, basta que o digas; eles , porm, no tero a
mesma boa - f! Muito mais sabendo, como sabem, de quanto 
capaz aquela sujeita! Logo quem!...
- Oh! interjeicionou Amncio. - Uma senhora casada!...
- Casada o qu!...Da missa no sabes nem a metade!
- Ento ela no  casada com o pereira?...
- Nunca o foi! Com ele, nem com pessoa alguma! Conheo at a
mulher do Pereira, a legtima, - uma velhusca, de culos, gorda,
com um olho agachado, cheio d 'gua. Mora na Rua da Pedreira.
Amncio estava to pasmo quanto indignado; aquela denncia do
colega produzia-lhe o mau efeito que experimentamos ao dar por
falta do relgio. - Pois o demnio da mulher nem ao menos era
casada?!...Ele, ento, que diabo de papel representara?!...
- Cnica! Disse em voz alta.
- Ora! Fez o outro. - No trates de abrir os olhos e dir-me-s
depois as conseqncias!...
No Rio de Janeiro, prossegui- havia muito artista daquela fora!
Amncio precisava acautelar-se, se no queria ser esfolado
completamente. Lcia o que desejava era agarr-lo para amante:
farejava-lhe os cobres! Ele, porm, que no fosse tolo! Que se no
deixasse visgar por uma tipa de to baixa espcie!
O provinciano jurava que , at ali, jamais conseguira coisa alguma
das mos dela.
- Isso sei eu!...Tornou o Coqueiro, com um riso de velha
experincia, - isso no  necessrio que me digas, porque j
conheo a ttica das Lcias! Negam-se, fingem-se difceis, para
valer mais! Quer obrigar-te a cair, toleiro!
- Est bem aviada! Exclamou Amncio, justamente como ainda na
vspera havia respondido  Lcia, quando esta lhe falou a respeito
de Amlia.
Ainda nesse dia o Coqueiro aproveitou a ocasio em que o Pereira
fazia a sesta e foi se entender com a Lcia.
Disse-lhe o que sabia a respeito das visitas noturnas ao quarto de
Amncio e declarou terminantemente que no estava disposto a
consentir em casa semelhantes escndalos. Ela que tivesse
pacincia, mas fosse tratando de fazer as malas e cuidando de
pr-se ao fresco, se no queria sofrer alguma decepo maior!
A ilustrada senhora ficou lvida, e disparou sobre o locandeiro o
mais terrvel dos seus olhares. Uma clera massuda principiou a
entupir-lhe a garganta. - No queria acreditar em tamanho
atrevimento!
- , gritou por fim, trincando as palavras. - Voc pe-me fora de
casa, porque tem medo que eu lhe tome o amante da irm!
- Insolente! Bradou o Coqueiro, avanando um passo.
- No te tenho medo, ordinrio! Retrucou Lcia empinando o peito
contra ele. - Sairei daqui se bem quiser! No te devo nada,
entendes tu?! Nada!
- Ah! No deve porque ele pagou!
- E que tem voc com isso?! Que tem voc com o dinheiro dos
outros?! Ou, quem sabe se a donzela da irm passou-lhe
procurao!...
Seja l pelo que for! Eu  que no a quero aqui, nem mais um
instante.  fazer a trouxa e - rua!
- Tambm no preciso ficar nesse bordel! Exclamou ela, e
rabanou com direo ao segundo andar.
- Que diz voc, sua aquela?! Assistiu Mme. Brizard, cortando-lhe o
caminho.
-  isso mesmo! Respondeu Lcia, escarrando no cho com
desdm. E as duas mulheres ficaram alguns segundos a olhar em
silncio uma para a outra, de mos nas cadeiras.
Coqueiro e Dr. Tavares meteram-se entre elas.
Lcia subiu ao n. 8, aprontou as malas num abrir e fechar de
olhos, em seguida vestiu-se para sair, e j de chapu, a sombrinha
na mo, o indispensvel enfiado no brao, correu ao quarto de
Amncio.

- Sabes? Bradou logo ao entrar, empurrando a porta com fria. -
Aquela bbada e o marido acabam de me enxotar daqui por tua
causa! Tm medo que eu te coma! No posso ficar nem mais um
instante! Desejo que me emprestes o Sabino!
- O Sabino estava s ordens, mas para onde se atirava ela com
tanta precipitao?
- No sabia! Havia, porm , de encontrar um canto, onde se
metesse! Havia de descobrir um buraco, ainda que fosse no
cemitrio!
E Lcia levantou os punhos at s fontes como para se esmurrar,
mas cobriu o rosto com as mos e abriu num pranto muito
nervoso. Era a reao que chegava.
Amncio saltou da cama e correu para ela. Desembaraou-a do
chapu, da bolsa e da sombrinha e puxou-a depois sobre si.
- No te consumas...disse - no te mortifiques desse modo.
- Sou uma desgraada! respondeu a mulher, assoando as
lgrimas . - Nada se cumpre do que eu desejo! Nada! O melhor 
dar cabo desta vida miservel!
E soluava com o rosto escondido no peito do rapaz.
Na febre daquele choro agitado, os seus movimentos
transformavam-se em carcias. Amncio sentia-lhe as lgrimas
quentes e o contacto carnal dos lbios, que elas ensopavam. Os
desejos assanhavam-se-lhe de novo pelo corpo, como insetos que
voltam com o calor.
- E tornava a cobia-la com os mesmos ardores primitivos.
No me queria separar de ti...queixou-se ela, afinal, virgulando as
sua frases com soluos suspirados. - Em ti havia firmado todas as
minhas esperanas de ventura, todos os sonhos de minha vida!
Amava agora a existncia, s porque alguma coisa me fazia
acreditar que ainda um dia seramos felizes!
- E porque no havemos de ser?...perguntou Amncio
condolentemente.
- Ora!...prosseguiu ela, - tudo me persegue, tudo me sai
contrrio...Foi bastante que eu te amasse, foi bastante pensar que
poderamos ser um do outro, para que aqui se levantassem todos
contra mim e ferissem a guerra que tens visto!
E, desagarrando-se de Amncio, para segurar de novo a cabea,
num movimento de embarao doloroso:
Mas, imagina tu, que estou inteiramente sem recursos!...Tenho
que fazer a mudana e ainda no sei como pagar o carreto das
malas!...V tu que situao!
Amncio beijou-a na boca e perguntou se ela no lhe dava uma
esperanazinha para depois que se mudasse.
Lcia respondeu que dava, no uma esperana, mas uma
certeza". E sem desprender os lbios dos lbios do rapaz,
afianou - que lhe mandaria dizer por escrito o lugar onde seria
encontrada; e que ele fosse por l as vezes que entendesse. - A
ao menos estariam livres do Coqueiro e das outras pestes!
- prometes ento?...insistiu ele , procurando garantir o
compromisso.
- Prometo, prometo o que quiseres, tudo! Disse ela, ainda chorosa.
Amncio foi  algibeira do fraque, abriu a carteira. Havia trezentos
mil-ris, tomou uma nota de cem e entregou-a a Lcia, dizendo
com pesar que era o nico dinheiro que possua na ocasio.
- Talvez te faam falta...considerou ela escrupulosamente, sem
querer tocar na cdula.
- No! no! apressou-se a declarar o rapaz. - Desculpa no te
poder ser mais agradvel.
Lcia beijou-o de novo, e desceu enfim ao primeiro andar,
acompanhada pelo Sabino que j estava  sua disposio.
Ordenou ao moleque de buscar, num pulo, uma carrocinha, e logo
que esta chegou fez embarcar as malas e mandou chamar uma
carruagem.
Enquanto esperava, reclamou a sua conta, atirou com o dinheiro
sem olhar para quem o recebia, embolsou o troco e, em seguida,
foi acordar o Pereira.
- Onde vamos? Perguntou este entre dois bocejos, assim que a
viu em trajes de sair.
- Venha da, homem! E deixe-se de perguntas!
Pereira levantou-se espreguiando-se e acompanhou a mulher.
Esta o fez entrar na carruagem que j havia chegado, assentou-se
junto dele e disse ao cocheiro que tocasse par a Tijuca. Deu-lhe o
nmero.
Era o nmero de uma outra hospedaria nas mesmas condies da
que deixavam. Lcia, que j pressupunha aquelas rpidas
mudanas, tinha, por cautela, uma lista das principais casa de
penso da Corte e,  medida que se servia de cada uma, riscava-
a da coleo. A do Coqueiro era no rol a Sexta inutilizada com o
trao enrgico de seu lpis.
Entretanto, ia o Pereira silenciosamente se atufando nas
almofadas e, aos balanos montonos do carro, procurava reatar
o sono interrompido

                               XIII

A casa de penso de Mme. Brizard sofreu muito com as
variolides de Amncio. Desmanavam-se hspedes que era uma
coisa por demais.
O gentleman, o Piloto e a prola do n. 9, "o estimvel Melinho",
desde a fatal noite das cataporas, no davam notcias suas;
Fontes e a mulher sumiram-se logo no dia imediato, e, por
conseguinte, no metendo o tal mdico do n. 11, que j no
aparecia h bastante tempo, apenas seis hspedes restavam dos
quatorze primitivos.
E ainda mesmo destes seis nem todos eram aproveitveis; porque
o Paula Mendes e mais a mulher levantariam o vo, assim que
lhes chegasse uma aragenzinha de dinheiro, e o estafermo do n.
7 tambm estava a se despedir por um daqueles dias, no da
casa, mas do mundo.
Certos, s Amncio, o guarda-livros, e o esquisito do Campelo
que, fugindo ao pigarro do tsico, mudara-se para o andar de
baixo, mal pilhara um cmodo desocupado.
Mme. Brizard estava, pois, inconsolvel. - Em sua vida de
hospedeira jamais tivera um ms to ruim!
E azoinada por essas contrariedades e j de natureza um tanto
supersticiosa, agora em tudo descobria sinais de agouro e motivos
para desconfiana. - Pois se at o ilustre Sr. Lambertosa, "o
respeitvel gentleman, a flor dos homens finos, uma criatura to
cheia de circunspeo", quem diria?...aproveitar ao ensejo das
bexigas para lhe passar a perna!
E o Melinho? "estimvel Melinho! A prola do n. 9, o homem das
frutas cristalizadas!" tambm no deixara as suas contas em
aberto?...
S o Piloto, o estrdio, aquele de quem menos se esperava,
aparecera trs dias depois da fugas, perguntando, ainda muito
escabreado, de quanto era a sua dvida.
-  mesmo caiporismo! Gemia a francesa.
O marido, porm, soprava-lhe a coragem: _Ela que no
desanimasse por to pouco! Nem tudo se perdera! Enquanto
tivessem o Amncio no se podiam queixar da sorte; este valia por
todos os outros!
Mas o precioso Amncio no estava tambm muito satisfeito com
a casa, talvez desconfiado que a esta coubesse em parte a
responsabilidade daquele maldito reumatismo que, ora parecia
extinto e ora o obrigava a guardara cama, tolhido de dores.
A noite, quando lho permitiam as pernas, descia a cavaquear na
varanda com os senhorios. Agora os seres tinham um carter
mais ntimo e eram freqentemente animados com a presena de
uma famlia, que voltara s relaes de Mme. Brizard depois de
seis meses de inimizade.
Tocava-se de piano, jogava-se a vspora quase todos os dias e, s
vezes, se danava
A casa de penso nunca ofereceu aos seus hspedes um aspecto
to divertido; menos para o rabequista, o Paula Mendes, que
parecia cada vez mais triste e apoquentado da vida. A
circunstncia de j no comer  mesa do Coqueiro obrigava-o a
desperdiar muito tempo com o restaurante e dificultava-lhe a
subsistncia da mulher, cujo mau humor ia azedando ao peso da
tanta necessidade e de tanta humilhao. O infeliz marido
conseguiu afinal que ela fosse passar alguns meses na companhia
dos parentes em Niteri.
Mme. Brizard, ao v-la partir, receou a premeditao de uma fuga
e exigiu logo que o Mendes, para garantir a dvida, hipotecasse o
piano que tinha no quarto
O pobre homem consentiu, sem dizer palavra, mas, de
envergonhado, deixou de aparecer nos seres da sala de jantar.
E desde ento, por alta noite, quando toda a casa era silncio,
Amncio ouvia no corredor o som de passos trpegos e um vozear
confuso de algum quer monologava..

                                ***

A casa de penso, definitivamente, ia se tornando insuportvel ao
estudante.
No podia sair  rua; o mdico, havia quase um ms, jurara p-lo
pronto em quatro dias, se Amncio no fizesse alguma
extravagncia; as conversa de toda a famlia Coqueiro,  exceo
de Amelinha, o enfastiava; a leitura muito pouco o distraa, e, para
complemento do enjo, o maldito tossegoso do n. 7, o qual por
caridade entregara ele ultimamente ao seu mdico, parecia morrer
de cinco em cinco minutos e no lhe dava um momento de
sossego.

Mas a causa principal desse tdio era, sem dvida, a ausncia de
Lcia. Desde que ela se foi, o corao do rapaz turgia de saudade;
longe de esquec-la, cada vez a desejava com mais sofreguido.
AS trevas da ausncia faziam-na destacar melhor e mais linda,
como um fundo negro a uma esttua de mrmore.
Sentiu sobressaltos deliciosos quando recebeu a primeira carta
das mos dela. Era extensa, cheia de imagens poticas e figuras
de grande alcance amoroso; terminava dizendo que" Amncio,
logo que pusesse os ps na rua, a fosse procurar". O endereo
vinha  parte, num pedacinho de papel.
E no poder ir quanto antes!...Que espiga!, considerou ele,
sinceramente penalizado.
E cresciam-lhe os enjos.
S Amlia, com os estiletes da sua perceptibilidade feminina,
consegui penetrar no mago daquelas tristezas, mas no se deu
por achada e redobrou de desvelos e meiguices para com ele.
Amncio, por mais de uma vez, beijou-lhe as mos suspirando
que ela era o seu bom anjo, a sua consolao nica no meio de
"tantos dissabores"!
Assim se passaram quinze dias. O apaixonado j a tratava por tu,
por voc e raras vezes por senhora.
Era a piedosas Amelinha quem lhe arrumava o quarto, quem lhe
cuidava da roupa, e, j por fim,. Era at quem lhe levava o
cafezinho pela manh. Mas no entrava, apenas metia o brao
pela abertura da porta que ficava sempre encostada, depunha
cautelosamente a xcara sobre soalho, e, se Amncio ainda
dormia, gritava-lhe no seu falsete aprazvel:
- Preguioso, acorde! So horas!
Depois, apanhava novamente as saias e descia a escada, ligeira e
sem rumor.
Outras vezes, ao anoitecer, subia para lhe pedir um livro
emprestado, para saber se ele queria ch no quarto ou se preferia
descer  sala de jantar. Sempre havia um pretexto para l ir e,
depois de l estar, sempre arranjava um motivo de demora.
Entretinha-se a ver o que se achava sobre a mesas; examinava
tudo; lia a lombada dos livros, e brincava com um esqueleto que
jazia pendurado a um canto do quarto.
Amncio, de uma feita, no pde deixar de rir, quando a encontrou
muito espantada a examinar as gravuras de um tratado fisiolgico
de Vernier.
Estava ,porm , mais e mais convencido de que toda aquela
familiaridade e toda aquela confiana da rapariga procediam do
modo e das maneiras respeitosas e fraternais com que ele, at ali,
a tratara. E ento fazia por domar os seus impulsos luxuriosos,
receoso de cair-lhe em desagrado.
Verdade  que , em grande parte, contribua para esse estranho
herosmo do garanho, no s a molstia, como a ilimitada
confiana que, muito propositalmente depositavam nele o
Coqueiro e a mulher.
Se Amlia e Lcia trocassem os papis, isto , se aquela se
negasse e esta se oferecesse,  de supor que Amncio
desdenhasse a ltima e ambicionasse a primeira.
Mas o Sr. Joo Coqueiro, apesar de to fino, no calculou que, em
naturezas viciadas como a de Amncio, o mais forte estmulo para
o amor  a proibio.
Embalde deixavam o rapaz horas e horas no salo, s voltas com
a menina; embalde Mme. Brizard lhe dava a perceber o quanto era
ele amado pela cunhada; embalde lhe chamava "corao de gelo";
embalde lhe preparava todos os laos. - Nada produzia o efeito
desejado; Amncio tornava-se cada vez mais respeitoso e mais
frio em presena de Amlia.
Era para desesperar!
Uma ocasio, todavia, estava ele no quarto, de costas para a porta
e muito entretido a ler defronte o gs, quando Amlia, p ante p,
entrou sem ser sentida e, encaminhando-se contra o moo,
tomou-lhe a cabea nas mos e cobriu-lhe o rosto de beijos.
Amncio quis prend-la, mas a rapariga no se deixou enlear, e
fugiu, como um pssaro assustado.

                               ***

O rapaz, ento, nunca mais receou lhe cair em desagrado. Mas o
demnio do reumatismo l estava erguido entre ele e a
provocadora menina. A despeito do tratamento, as dores
recrudesciam-lhe de vez em quando e assanhavam-lhe a blis.
Amncio principiou a emagrecer, tomado de uma estranha
prostrao, muito assustadora. O mdico aconselhou-o, logo a
que se mudasse para um arrabalde de bons ares, como Santa
Tereza, por exemplo, e esta notcia produziu enormes
sobressaltos na famlia dos locandeiros.
Mme. Brizard parecia ter um filho em risco de vida; Coqueiro
declarou, cheio de dedicao, que no deixaria o "pobre amigo " ir
assim desamparado para uma casa de sade ou para um hotel;
Amelinha choramingava ao lado da cama do enfermo, e, quando
se achava a com este, beijava-lhe as mos, afagava-lhe os
cabelos e soluava palavras de ternura.

Nesses dias Amncio era o assunto obrigado das conversas da
casa.  mesa e durante os seres no se falava noutra coisa.
Lembravam-se todos os expedientes: - uma mudana geral da
famlia; alugar fora uma casinha e lev-lo de passeio at que se
restabelecesse; abandonar a casa de penso ou entreg-la aos
cuidados de alguma pessoa de confiana.
Nada, porm, ficava resolvido. A conversa turbinava em volta do
mesmo assunto, sem descobrir uma sada.
Nini era a nica que parecia no se importar com tudo aquilo; de
olhos muito abertos, sonmbula, ouvia em silncio as conversas
da famlia, apenas suspirando de espao a espao.
No obstante, j uma noite estava a casa recolhida, quando
despertaram alarmados com o baque de um corpo que, entre
medonhos gritos , rolava pela escada do segundo andar.
Acudiram todos, num levante.
- _Que acontecera?! Que acontecera?!
Nini, coberta de sangue, jazia estendida sem sentidos ao sop da
escada. Rolara vinte degraus e partira a cabea em dois lugares.
Ia fazer uma visita ao seu esquivoso enfermo, mas no patamar da
maldita escada, perdera o equilbrio e baqueara desastradamente.
Tomaram-lhe as feridas a pontos falsos, friccionaram-lhe o corpo
inteiro com aguardente canforada e deram-lhe a beber cerveja
preta.
Supunham, todavia, que amanhecesse morta. Foi o contrrio: Nini
melhorou muito de seus antigos padecimentos e apresentou uma
inesperada lucidez de idias, como h muito no possua. - O
choque fizera-lhe bem e no menos o sangue que derramou da
cabea, afianou o mdico.
Aquele trambolho era uma providncia!
 noite, conversou-se bastante a esse respeito; vieram as amigas
de Mme. Brizard; choveram os comentrios sobre Nini; citaram-se
as anedotas correlativas ao fato, e Amncio, que se achava ento
mais desembaraado das pernas, entendeu de sua obrigao
fazer uma visita  pobre criatura.
Nini estava melhor que nunca, tranqila; havia comido
regularmente e mostrava-se at mais satisfeita e mais
comunicativa; ao dar, porm, com Amncio, que entrara no quarto
com o seu risinho de boa amizade, abriu de repente a estrebuchar
na cama, bramindo improprios e atassalhando as roupas.
Para sossegar um pouco foi preciso que o rapaz fugisse o mais
depressa de sua presena. E, desde ento, a desgraada no o
podia ver, que lhe no voltassem logo as insnias e os frenesis
Estabeleceu-se um cuidado enorme para evitar que os dois se
encontrassem. J no era permitido a Amncio dar um passo fora
do quarto, sem se precaver e indagar se Nini estava por ali perto.
O mdico declarou que um novo encontro exacerbaria os
padecimentos da enferma e talvez lhe produzisse a loucura
absoluta.
Mme. Brizard pranteava-se toda, quando lhe falavam na filha. -
Era uma desgraada, dizia, com os olhos epispados pelo esforo
que faziam - era uma grande desgraa! Antes Deus a levasse logo
para si, coitada!
Um encontro, que Amncio no pudera evitar, a despeito de suas
precaues, deixou Nini em tal excitao nervosa, que o doutor
proibiu que a consentissem fora do quarto. Ficou presa desde
esse dia.
Malgrado a felicidade prevista ao lado de Amlia, o provinciano
sentia j bastante desejo de se tirar dali. - Assim estivesse bom!
Campos, em uma visita que lhe fez por essa ocasio, falou muito
na generosidade com que se portara a famlia do Coqueiro
durante a molstia do rapaz. - Que aquilo era uma fortuna que
nem todos abichavam! Citou principalmente as canseiras de
Amelinha e concluiu declarando que, segundo o seu fraco modo
de pensar, Amncio tinha obrigao de fazer  menina um
qualquer presente de valor.
Sim! porque, no fim de contas. Era muito difcil encontrar daquilo
nas casa de penso
! Outros foram eles, que Amncio teria de Pr os quartos na rua! -
No. Inquestionavelmente, era preciso dar o presente!
E, depois de se concentrar numa pausa:
- A uma jia de uns cem mil-ris...Que diabo! Esse dinheiro no o
faria pobre...
Mas o estudante, em voz discreta e abafada, confessou ao
Campos que a brincadeira no lhe havia sado to de graa, como
parecia  primeira vista: S no ms passado gastara perto de
seiscentos mil-ris, sem contar que o Sabino vivia numa
dobadoura, de casa para a botica e da botica para a casa, e eram
remdios para Nini, remdios para o tsico do n. 7, gua de flor de
laranja para Mme. Brizard, xaropes para o Coqueiro; um
inferno!...E que toda essa droga caa na sua conta! - E os
dinheiros emprestados?...E as fitas, os botes, as linha, as tiras
bordadas, que Amelinha estava sempre a lhe pedir que mandasse
buscar nos armarinhos sem nunca dar dinheiro para isso?...No!
O Sr. Lus Campos no lhe podia calcular o que havia! - Hoje
cinco mil-ris, amanh vinte! E, no tirar

das contas, parecia que tudo isso, em vez de ser descontado, era
aumentado nas suas despesas!...Que tal?!- Recebera obsquios,
sim senhor! mas tambm puxara muito pela bolsa!
Campos ignorava aquelas particularidades!...Mas entendia que
Amncio, nem menos por isso devia menos obrigaes  famlia
do Coqueiro.
E ofereceu a "sua modesta choupana", caso o estudante no
quisesse continuar ali.
Amncio rejeitou, um tanto por se lembrar das esperanas que
embalava a respeito de Amlia, um tanto por se no querer
sujeitar ao regime do negociante e um tanto por mera cerimnia.
- Enfim, disse o marido de Hortnsia, despedindo-se- acho que o
senhor deve fazer o presente e tratar logo de sair daqui; j no
digo pela questo da despesa, mas porque lhe convm  sade.
Escolha um arrabalde de bons ares ou ento d um passeio a
Petrpolis; o mdico afianou-me que o senhor tem ameaos de
uma febre paludosa, e isso  o diabo na poca que atravessamos:
a febre amarela grassa por a que no  brinquedo!

                                ***

Logo que constaram as novas disposies de Amncio a respeito
de mudana, houve uma grande consternao por toda a casa.
- Deixar-nos?! Exclamou Mme. Brizard em sobressalto. - No
consentimos! Se para o seu completo restabelecimento 
necessrio um arrabalde, vamos todos para o arrabalde! S - isso
 que no! Seria at uma falta de humanidade, coitado!
E formou-se um zunzum de opinies. Cochichava-se pelos cantos,
em magotes, discreteando-se projetos em voz de mistrio, como
se se tratasse de um moribundo. O Coqueiro andava de um para
outro lado, coando desesperadamente a cabea, gesticulando, 
procura de um meio de conciliar os seus interesses.
Amlia, afinal, subiu ao quarto do doente, e, com uma aflio a
quebrar-lhe a voz, toda a tremer, os olhos midos, perguntou se
ele tencionava deixar a casa.
Amncio, ignorando o que ia por baixo a seu respeito, trejeitou uns
momos de indiferena e respondeu: "que no sabia ainda ao
certo...havia de ver!...mas o mdico lhe ordenara que fosse..."
Como se s esperasse por aquelas palavras, o pranto da menina
irrompeu violentamente.
Ele, meio surpreso, a tomou nos braos, indagando com ternura "o
que significava aquilo?..."
Amlia no respondeu logo, mas depois, levantando a cabea,
que lhe havia pousado no colo, exclamou entre soluos
angustiados: - No! no! no hs de ir ! peo-te que no vs!
O provinciano quis saber por qu.
- Eu te amo! disse ela, escondendo de novo o rosto. - Eu te amo e
no posso me separar de ti! Vejo a sua indiferena ! percebo que
me detesta, mas que hei de eu fazer?! Adoro-te, meu amor!
- Ah! se eu no estivesse to doente!...suspirou Amncio.

                               XIV

O tsico do n. 7 h dias esperava o seu momento de morrer,
estendido na cama, os olhos cravados no ar, a boca muito aberta ,
porque j lhe ia faltando o flego.
No tossia; apenas, de quando em quando, o esforo convulsivo
para atravessar os pulmes desfeitos sacudia-lhe todo o corpo e
arrancava-lhe da garganta um a ronqueira lgubre, que lembrava
o arrulhar ominoso dos pombos.
Contavam que expirasse a todo o instante. Amncio cedera o seu
moleque para lhe fazer companhia, e dos brancos da casa era o
nico que lhe aparecia l uma vez por outra.
No  que o espetculo daquele aniquilamento lhe tocasse o
corao, mas porque lhe mordiscava a curiosidade com esse
frvolo interesse de pavor, que nos espritos romnticos provocam
os loucos e os defuntos.
Uma noite, seriam duas horas da madrugada, o tsico gemeu com
tal insistncia que acordou o estudante. Amncio levantou-se,
tomou uma vela e foi at o quarto dele.
Ficou impressionado. O homem estava muito aflito, debatendo-se
contra os lenis, no desespero da sua ortopnia A cabea
vergada para trs, o magro pescoo estirado em curva, a barba
tesa, piramidal, apontando para o teto; sentiam-se-lhe por detrs
da pele empobrecida do rosto os ngulos da caveira; acusavam-
se-lhe os ossos por todo o corpo; os olhos, extremamente vivos e
esbugalhados, de uma fixidez inconsciente, pareciam saltar das
rbitas, e, pelo esvazamento da boca toda aberta, via-se-lhe a
lngua dura e seca, de papagaio, e divisavam-se-lhe as duas filas
de dentadura.

No podia sossegar. O seu corpo, chupado lentamente pela tsica,
nu e esqueltico, virava-se de uma para outra banda, entre
manchas excrementcias, a porejar um suor gorduroso e frio, que
umedecia as roupas da cama e dava-lhe  pele, cor de osso velho,
um brilho repugnante.
Faltava-lhe o ar e, todavia, pela janela aberta para o nascente, os
ventos frescos da noite entravam impregnados da msica de um
baile distante, e punham no triste abandono daquele quarto uma
melancolia dura, um spero sentimento de egosmo; alguma coisa
da indiferena dos que vivem pelos que se vo meter
silenciosamente dentro da terra.
O mdico recomendara que lhe dessem todo o ar possvel e lhe
fizessem beber de espao a espao uma poro do calmante que
lhe receitara. Uma lamparina de azeite fazia tremer a sua
miservel chama e cuspia o leo quente. Havia um cheiro
enjoativo de molstia e desasseio.
Sabino dormia a sono solto no corredor. Amncio acordou-o com o
p.
-  dessa forma que velas pelo homem? perguntou.
O moleque ergueu-se estremunhado e deu alguns passos,
esbarrando pelas paredes, sem cair em si.
- Vamos! Desperta por uma vez e d-lhe o remdio! Ele parece
que tem sede!
O tsico, ao ouvir a voz de Amncio, principiou a agitar os braos,
como se o chamasse, grugulejando sons roucos e ininteligveis.
O estudante no quis atender, mas o doente insistia com tamanho
desespero, que ele, afinal, vencendo a repugnncia, se
aproximou, a conchear a mo contra a lngua trmula da vela.
Apesar de seus fracos estudos de medicina, fazia-lhe mal aos
nervos aquela figura descarnada, que se exinania na impudncia
aterradora da morte; faziam-lhe mal aqueles membros despojados
em vida, aquele esqueleto animado, que, na sua distanasia,
parecia convid-lo para um passeio no cemitrio.
E o tsico rouquejava sempre, agitando os braos.
O moleque, ao lado, derramava-lhe colheradas de remdio na
boca; mas o lquido voltava em fios pelo canto dos lbios do
moribundo e escorria-lhe ao comprido do pescoo e pela aridez
escalavrada do peito.
Amncio tomou-lhe um dos pulsos. O contacto pegajoso e mido
fez-lhe retirar-lhe logo a mo com um arrepio.
- Creio que no deita esta noite! Disse ao moleque, afetando
tranqilidade, mas com a voz sumida e alterada.
- Qual, nh, ele est assim a um ror de dias! Leva nisto e no
decide!...
- No! Creio que agora est morrendo...
E olhou para o doente.
Este espichou a cabea e respondeu que no, com um movimento
demorado.
- Ele ouviu?...Perguntou Amncio, impressionado com a
interveno inesperada do moribundo.
A caveira tornou a agitar-se nos travesseiros para dizer que sim.
- Olha!...fez o estudante arregalando os olhos. E aproximou-se da
porta, recomendando ao Sabino que se no descuidasse da pobre
criatura; que se no pusesse a dormir como ainda h pouco!
O tsico, que havia serenado alguma coisa com a presena do
rapaz, principiou de novo a espolinhar-se, rilhando os dentes e
agitando os braos e as pernas.
Amncio, porm, no atendeu desta vez e saiu. O tsico rosnou
com mais nsia, procurando lanar-se fora do leito, numa aflio
crescente.
- Fica quieto! Gritou Sabino, obrigando-o a deitar-se.

                               ***

Logo que o estudante se afastou com a vela, o quarto recaiu na
sua dbia claridade modorrenta. Os ventos frios da madrugada
continuavam a soprar. O moleque foi at a janela, olhou a rua em
silncio, acendeu um cigarro e, quando viu que o seu homem
parecia serenado, tratou de reassumir o sono.
O senhor  que no podia sossegar, com a idia naquele pobre
rapaz, que ali morria aos poucos, sem famlia, nem carinhos de
espcie alguma; sem Ter ao menos quem o tratasse, nem dispor
de um amigo que se compadecesse dele.
- Infeliz criatura! Pensava .- Alm do mais, longe da ptria, longe
de tudo que lhe podia ser caro!
E, sacudido de estanhas condolncias, imaginava o pobre
desterrado saindo de sua aldeia em Portugal, atravessando os
mares, atirado no convs de um navio, afinal no Brasil, neste pas-
sonho, a trabalhar dia a dia

durante uma mocidade, e economizar, e sofrer privaes; depois -
falir, perder tudo de repente, achar-se em plena misria e com a
ladra da tsica a comer-lhe os pulmes! Oh! cortava a alma!
No se podia esquecer do desespero com que o desgraado o
chamava, como se lhe quisesse pedir alguma coisa, fazer alguma
revelao: - Talvez, quem sabe? At o tomasse, no seu delrio, por
algum amigo: porque Amncio se se no enganava, chegara a
distinguir-lhe balbuciar o nome de algum. - No podia ser outra
coisa, o msero chama v apor um amigo!
- Mas, tambm, que idia, a sua, de andar por aquelas horas a
visitar moribundos! Que diabo tinhas ele, no fim de contas, com o
tal tsico?...Ora essa!
O vulto esqueltico no lhe saa. porm, de defronte dos olhos,
com a sua ronqueira lgubre, sempre a lhe estender os longos
braos sem msculos e a rolar nas rbitas, convulsivamente,
aqueles dois bugalhos luminosos.
Fechou a porta do quarto, despiu o sobretudo que havia enfiado,
apagou a vela e recolheu-se  cama.

                               ***

Era intil; o sono no vinha; o quarto s escuras fazia-lhe mal aos
nervos. No fim de meia hora, ergueu-se novamente, tentou
acender um bico de gs, haviam fechado no registro; recorreu 
vela e assentou-se  mesinha diante de um livro.
O tsico gemia.
- Que maada! resmungou Amncio, sem se poder safar da
impresso que trouxera do quarto "daquele diabo"! E cansava os
olhos contra as pginas do livro, lendo sem compreender.
Vinham-lhe bocejos repetidos, ardiam-lhe os olhos.- Agora talvez
dormisse. O importuno parecia sossegado, pelo menos no se lhe
ouvia gemer.
Amncio voltou  cama, sem nimo de apagar a vela.
Quando estava quase adormecido, passos agitados no corredor o
despertaram em sobressalto e uma pancada em cheio na porta f-
lo erguer-se de pulo e precipitar-se para ela.
Sabino e o tsico vieram-lhe  memria. Ouriaram-se-lhe os
cabelos, enlixou-se-lhe a pele, e o corao bateu-lhe com mais
fora.
- Que teria sucedido? A mo tremia-lhe ao forar o trinco.
A porta afinal cedeu, e Amncio sentiu cair desamparadamente no
cho o corpo comprido e nu do hctico.
Estava horrvel. Queria erguer-se, e em vo agitava as pernas e
os braos. Amncio tentou ajud-lo, gritando ao mesmo tempo
pelo Sabino. Os membros do tsico pareciam quebrar-se-lhe nas
mos, que escorregavam com a gordura fria do suor, e no soalho
manchas de umidade desenhavam-lhe j o feitio do corpo.
O estudante desejava chamar por algum. - O Sabino dormia com
certeza! - Peste! Fez um movimento para sair; mas o esqueleto
agarrou-lhe violentamente os pulsos e pediu-lhe com uns vagidos
dolorosos que ficasse.
De seus olhos corriam duas lgrimas compridas.
Depois de um esforo terrvel, conseguiu falar. Eram sons apenas
murmurados, fracos, quase imperceptveis
Amncio tinha razo: O desgraado, no delrio de sua fraqueza, o
tomara por algum bom amigo. Suas palavras vinham-lhe aos
lbios roxos impregnadas de confiana e de amor. Falava de
coisas estranhas ao outro; perguntava-lhe por indivduos
desconhecidos para Amncio e reprochava-lhe a culpa de no ter
vindo mais cedo.
Depois referiu-se dolentemente  sua terra; tratou da infncia,
rindo, com os olhos cheios d'gua. Pediu que Amncio, logo que
l voltasse, fosse  procura do senhor padre, e encomendasse-lhe
trs missas.
Em seguida, fez um esforo para chegar ao ouvido do rapaz e
comeou, em ar de mistrio, a ensinar-lhe um caminho longo,
muito longo... Explicava-lhe ruas, as voltas que era necessrio
fazer para chegar l; afinal, dava-se com uma choupana. Uma
velhinha entrevada fazia meia a um canto da casa. Amncio que
se aproximasse dela e lhe dissesse em segredo que o Joo, o seu
querido filho...
Uma agonia violenta tolheu-lhe a fala. Ele ainda tentou dizer
alguma coisa, mas o sangue purulento j lhe golfeava da boca e
caa-lhe um jorro pelo corpo. Estirou-se todo, dobrou a cabea
para trs e, depois de entesar num estremecimento os membros
rechupados, foi pouco a pouco cerrando os lbios e empenando o
corpo com um gemido longo e sentidssimo.
L fora, a msica duvidosa continuava, ao longe, entristecendo.
Amncio teve um assomo de clera; seu temperamento nervoso e
egosta revolucionava-se com o choque daquele incidente
desagradvel, que lhe no dizia respeito e vinha-lhe todavia
roubar despoticamente o sossego.

Logo que o tsico expirou, correu a acordar Sabino com um murro.
O moleque levantou-se, como da primeira vez, e correu  cama do
tsico. A lamparina bruxuleava sobre o velador, projetando em
volta, pelas paredes, sombras que se iam dobrar no teto.
Sabino abismou-se ao dar com o leito vazio, olhou em torno, muito
pasmo, chegou a levantar a colcha e a espiar para debaixo da
cama; depois correu  janela e interrogou a solido fria da rua.
- U! disse .
- s uma peste! Gritou-lhe Amncio. - Por tua causa o tsico foi
morrer no meu quarto! Ande! V chamar o Dr. Coqueiro ou algum
que trate do corpo! Aqui em cima, creio que no h ningum, nem
sequer o Paula Mendes.
O rabequista, com efeito, havia ficado essa noite em companhia
da mulher em Niteri .
A notcia levantou embaixo um rebulio.  exceo do Campelo e
do guarda-livros, ningum mais se conservou na cama.
Mme. Brizard arrepelava-se, praguejando contra o maldito
caiporismo que a perseguia ultimamente. - At j lhe vinham os
tsicos morrer em casa! Era demais!
Causou grande impresso a narrativa de Amncio sobre os
ltimos momentos do homem. O Dr. Tavares desfez-se em altas
consideraes a esse respeito. Coqueiro proibiu  irm que
subisse ao segundo andar, enquanto o cadver no estivesse
convenientemente amortalhado e deposto no sof que s pressas
se carregou para cima. Por toda a casa distriburam-se fogareiros
de incenso e alfazema. Sabino fora, de um pulo, buscar  botica
uma garrafa de labarraque , e o copeiro sara para lanar 
primeira praia o colcho, os lenis e os travesseiros que serviam
ao defunto.
Descarregou-se o quarto. A francesa quis abrir um velho ba de
folha, que jazia a um canto e que era o nico objeto deixado pelo
morto; mas o Dr. Tavares ops-se-lhe energicamente, citando
artigos do cdigo criminal e dizendo em tom de autoridade que o
falecido era um sdito portugus e, por conseguinte, s ao cnsul
de sua nao competia fazer-lhe o esplio dos bens!
- E o que nos ficou ele a dever?! E mais a despesa dos lenis, do
colcho e do diabo?! Perguntou Mme. Brizard.
- Recebe-se do consulado portugus ou no se recebe de pessoa
alguma, apressou-se a explicar o Coqueiro, que j sabia
perfeitamente no haver dentro do tal ba coisa alguma de valor.

                               ***

O corpo saiu no dia seguinte, em um carro da misericrdia. E
Amncio declarou positivamente que no estava disposto a ficar
na casa de penso em mais um dia.
- Pois ento vamos todos para um arrabalde! - deliberou Mme.
Brizard , em conseqncia dos repetidos conchavos que fizera
com o marido.
Diabo era o estado de Nini, a pobrezita achava-se agora
completamente desarranjada. Comia encostando a boca ao prato,
como um bicho; no trocava palavra com pessoa alguma e nem
mais podia ficar em liberdade , porque de vez em quando lhe
acometiam frenesis, que lhe davam para morder os outros e
espatifar as roupas, at ficar nua.
O mdico entendia, porm, que, com um bom regime
hidroterpico, ela ainda podia se restabelecer. Citou exemplos
animadores, "bonitos casos", disse os belos resultados que
ultimamente se obtinham por meio das duchas de gua fria no
tratamento das enfermidades nervosas, e terminou declarando
que, s por esse meio, havia esperana de uma cura radical.
E o doutor, logo que esteve a ss com Amncio, confidenciou-lhe,
rindo:
- J toquei  velha sobre aquilo que falamos; creio que desta vez
fica o senhor livre da histrica!
Venceram-se, com efeito, os escrpulos de Mme. Brizard, e Nini
foi para a casa de sade do Dr. Eiras. A me teria notcias dela
todos os dias e havia de lhe aparecer em pessoa duas vezes por
semana.
- Aquela rapariga era o tormento de sua vida! Antes Deus a
tivesse chamado para si! Agora, o que no seria necessrio gastar
com a tal casa de sade?... talvez uns vinte mil-ris dirios, se no
foram mais! Onde iria tudo aquilo parar? Era caiporismo,
definitivamente!
Como desejavam, descobrir-se uma casa em Santa Teresa. O Dr.
Tavares e o guarda-livros acompanhariam a famlia; Campelo, o
esquisito,  que no estava pela mudana. Logo que lhe falaram
nisso, pediu secamente a nota de suas despesas, pagou-a, e
retirou-se muito calmo, assoviando, de mo no bolso, cabea
erguida, na mesma fleuma inaltervel com que costumava sair
todas as manhs para o trabalho.

Todo ele ia como a dizer no seu silncio indiferente e egosta: "A
mim tanto se me d seis como meia dzia ...morar com Pedro ou
morar com Paulo, tudo para mim  a mesma coisa, desde que, em
troca do - meu dinheiro - , me apresentem um quarto limpo e a
comida a horas certas. Se dez anos continuasse aqui Mme.
Brizard, dez anos ficaria eu na Rua do Resende; mas, uma vez
que se muda para Santa Teresa - Adeus! vou bater a outra
freguesia... o que por a no faltam so casas de penso."
O Paula Mendes, ao entra pouco depois, recebeu em cheio a
notcia de a famlia Coqueiro ia deixar a casa e que por
conseguinte era preciso que ele saldasse as suas contas.
Mas o rabequista no tinha dinheiro na ocasio. - Logo que o
tivesse havia de pagar integralmente.
Os locandeiros no estavam por isso, j lhes bastavam os calos
do gentleman e do Melinho! E , depois de uma troca agitada de
palavras, Mendes props deixar o piano, ficando-lhe o direito de
resgat-lo mais tarde com a devida importncia.
Mme. Brizard queria do dinheiro e no instrumentos de msica! O
Sr. Paula Mendes que vendesse o piano e liquidasse depois as
suas contas!
Assim foi. O rabequista saiu, e, quando  tarde voltou  casa de
penso, trazia consigo um homenzinho de barbas compridas, que
fechou o negcio por quatrocentos mil ris. Mendes pagou o que
devia, fez tristemente as suas malas, e afinal se retirou de cabea
baixa e mos cruzadas par trs.
Csar, que o fora espreitar ao corredor, voltou  varanda, dizendo
espantado que ele chorava ao descer as escadas.
- Deixa-o l, menino! Resmungou a locandeira, e tocou a sineta,
chamando para a mesa.

                                ***

O jantar j no tinha o carter de uma refeio de hotel, em mesa-
redonda. Agora compareciam apenas cinco pessoas: Amncio,
Amelinha, Mme. Brizard, Coqueiro, Csar e o Dr. Tavares. O
guarda-livros, esse continuava a no comer em casa.
Mme. Brizard suspirava  vista dos lugares vazios. - Oh! que
aperto de corao lhe fazia aquilo! No podia resistir a tanta
contrariedade ao mesmo tempo!...
Pelo corredor do jantar, falou a respeito de Nini, queixou-se de
saudades. J  sobremesa, recrudesceram-lhe as ternuras
maternais, vieram-lhe nostalgias, uma lgrima saltou-lhe do olho
esquerdo.
Chamou Csar para junto de si, abraou-o e beijou-o repetidas
vezes e ficou a passar-lhe a mo pela cabea. Um silencioso
constrangimento se apoderou das pessoas presentes; depois,
ainda com a voz quebrada de comoo, ela pediu ao Coqueiro
que se no descuidasse de cobrar o que o Lambertosa e o
Melinho ficaram a dever. - Agora precisavam muito e muito de
dinheiro!...
Mudaram-se no dia seguinte. Amncio ia muito incomodado,
amanhecera pior, quase que no podia mexer com as pernas;
todos lhe profetizavam, entretanto, rpidas melhoras em Santa
Teresa. O cmodo que lhe destinaram era da casa o mais
espaoso e arejado.
Amelinha no o desamparava, j no escondia at os seus
carinhos, chegava-se abertamente para o rapaz, como se fora
casada com ele. s vezes dizia-lhe segredos na presena do
irmo ou da francesa; prestava-lhe pequeninos servios
amorosos: levantar-lhe, por exemplo, a gola do fraque, se fazia
frio; abotoar-lhe o colarinho, se estava desabotoado; atar-lhe a
gravata, se o lao se desmanchava; chegar-lhe para junto a
escarradeira se Amncio queria fumar.
Em Santa Teresa esses desvelos multiplicaram-se . a j era a
menina quem lhe metia os botes na camisa e as fivelas no colete,
quem lhe escovava a roupa e o chapu, quem lhe punha o
perfume no leno e lhe dava corda ao relgio, e, quando fazia bom
tempo e o rapaz tentava um passeio pelo morro, era ela quem
corria a lhe trazer a bengala ou o chapu-de-sol, perguntando
muito solcita se ele no se esquecera dos charutos e dos
fsforos, sem j tinha leno, se levava dinheiro.
Mas, s vezes, rezingava, quase que ralhava com o estudante.
Fazia-lhe censuras, tomava-lhe contas de umas muitas coisas: se
Amncio passara por tal rua, se estivera durante a ausncia a
passear sempre ou se encontrara algum porventura em alguma
parte; quando lhe sentia cheiro de lcool queria saber o que o
rapaz bebera.
Amlia, enfim, se derramava por todo ele, sem Amncio dar por
isso; invadia-o sutilmente, como um bicho que entra na carne.
A nova residncia punha-os muito mais juntos, muito mais unidos
do que a da Rua do Resende. Os quartos eram pequenos,
chegados uns dos outros; havia um sto com escadaria para a
sala de jantar. Amncio morava a, sozinho.

Tinha de seu uma alcova e um pequeno gabinete de trabalho;
janelas para o nascente e para o ocaso, despejando sobre o
jardim.
Embaixo, ento, era a sala de visitas, a de jantar e mais quatro
cmodos, sem meter os quartos da criadagem, a cozinha, a
despensa e o banheiro. Num daqueles cmodos ficou o Joo
Coqueiro com a mulher; noutro Amelinha; noutro o guarda-livros, e
o Dr. Tavares no ltimo.
A respeito de moblia, s se carregou da Rua do Resende a que
era de todo indispensvel. No se vendeu sequer um objeto; o
casaro renderia muito mais com os trastes e, alm disso, Mme.
Brizard contava, mais dia, menos dia, reabilitar a sua antiga e
afamada casa de penso. - Porque, dizia ela - era impossvel que
as coisas no voltassem ao estado primitivo!...
Coqueiro  que parecia, como nunca, satisfeito de sua vida.
Cuidava da nova casa com muito interesse; falava em
melhoramentos e aconselhava a Amncio a que comprasse uma
mobiliazinha catita para ver como "ficava ento naquele sto
melhor que um prncipe no seu castelo".
A casa, de fato, convidava s fantasias do gosto, porque era
perfeitamente nova e bem feita; o papel das paredes estava
imaculado, o cho limpo e os tetos virgens ainda de moscaria
Amncio experimentou rpidas melhoras; quis logo descer 
cidade, mas o Coqueiro no lhe permitiu ir s.
Aproveitaram o passeio par comprar a moblia. O provinciano
recebera nesse ms dinheiro do Norte e retirara mais algum da
casa do Campos; Joo Coqueiro levou-o a uma loja de trastes e
escolheu ele prprio o que podia convir ao outro; isto , uma
cmoda, um lavatrio, uma boa cama de casados, uma secretria,
duas estantes, um velador, e seis cadeiras; tudo de mogno e
trabalhado a gosto moderno.
Estes arranjos pediam outras coisas; escolheram-se tambm dois
quadros para o intervalo das portas, um belo espelho de parede,
um relgio de pndulo, tapetes, capachos e escarradeiras.

                               ***

O Coqueiro, muito empenhado na conduo dos trastes, havia-se
afastado alguns passos de Amncio, quando este sentiu baterem-
lhe no ombro.
Era o Paiva Rocha.
- Oh! exclamou, satisfeito com o encontro.- Como vais tu? H
quanto tempo no nos vemos!... Que  feito de ti?
- Ai, filho apoquentado! Respondeu o Paiva. Ultimamente tem sido
uma enfiada de coisas ms!...H dois meses que no recebo
dinheiro do correspondente; tinha a um lugar de revisor numa
folha e os ladres passaram-me a perna em mais de duzentos mil-
ris; alm de que, a besta do diretor l da escola lembrou-se agora
do exigir uma infinidade de maadas e obrigar-nos a despesas
impossveis! O diabo!
E, mudando de tom, perguntou como ia Amncio; onde se metera,
que ningum o via?
O outro prestou contas de sua vida, exps os pormenores de sua
molstia, falou nos incmodos que dera  famlia do Coqueiro,
principalmente a D. Amlia, que, por sinal, era uma excelente
menina.
- Magano!... disse o comprovinciano, esbarrando-lhe
intencionalmente no brao.
Amncio repeliu com febre aquela insinuao. O colega fazia uma
tremenda injustia, tanto a ele, Amncio, como  pobre rapariga!
- Ora, filho! Queres tu agora dizer a mim o que  a gente do
Coqueiro!...
Amncio abriu grandes olhos.
- Morde aqui! Acrescentou o outro, apresentando-lhe o dedo.
E em troca de um gesto negativo do amigo:
- No queres falar por ora, e fazes tu muito bem! Mas  impossvel
que a tua ingenuidade chegue ao ponto de tomares a srio a
irmo do Coqueiro, - a Amlia dos camares!...
- Juro-te que, at aqui, s a tenho tratado com todo o respeito!
O outro soltou uma risada.
-  fato! Insistiu Amncio, aborrecido j com aquela troa do
companheiro, mas ao mesmo tempo feliz por imaginar que as
suas esperanas sobre a rapariga eram perfeitamente justificveis.
- Pois, se  fato, acredita que tens representado um papel de tolo!
Fazem-te a barba, filho!
Amncio, ento, para provar a pureza de sua conduta, pintou o
estado em que se achara ultimamente, - entrevecido de
reumatismo, sem prstimo para nada. E contou o que sofrera com
as bexigas.
- Ora, dize-me c...volveu o outro em tom de segredo. - O
Coqueiro j te no tem dado algumas facadinhas...Confessa...

Amncio, nem s confessou, como disse at o dinheiro que por
vrias vezes emprestara ao senhorio.
- Hein?! Bradou o Paiva, fazendo-se muito fino. - Queres mais
claro?...E ainda tens escrpulos, criana! Pois olha que te no
fazem nenhum favor - tu pagas, filho, e pagas bem!
E lembrou que no seria mau tomarem alguma coisa num
botequim prximo.
O outro declarou que estava ali  espera do Coqueiro.
- Deixa l o Coqueiro, homem! Tens medo de ir s para casa ?...
- Mas  que no sei se me far mal beber alguma coisa. Ainda
estou em uso de remdios.
- No sejas idiota! Exclamou o Paiva, puxando-o pelo brao.
Amncio deixou-se levar, no tanto pelo prazer da companhia,
como pela circunstncia de se livrar do Coqueiro, o que lhe dava
esperanas de ver Lcia ainda essa tarde.
No caf, defronte dos copos, a conversa voltou de novo  gente de
Mme. Brizard.
- Gentinha! qualificou o Paiva, atirando a palavra com o desprezo
de quem lana fora o sobejo de um copo.
E, depois, entornando os lbios, numa obstinao torpe:
- A questo est no pagamento! Amncio riu. Sentia-se feliz;
aquele dia de liberdade, depois de tamanho recolhimento, os
clices de xerez, as palavras degotadas do Rocha; tudo isso lhe
picava o esprito com uma pontinha de alegria devassa. Seus
gostos, suas tendncias luxuriosas, volviam-lhe em revoada, como
pssaro de arribao. Ficou expansivo, disposto aos
desabafamentos da vaidade. Em breve, contava tudo o que se
passara com ele na casa de Mme. Brizard, descrevia as maneiras
de Amelinha com sua pessoa, os pequenos cuidados amorosos,
as pequeninas frases significativas; narrou minuciosamente as
cenas com Lcia e disse que, ao sair do caf, iria visit-la  Tijuca.
- Est claro! Trejeitou o outro, cuspilhando a areia branca do cho
de pedra e batendo com a ponta da bengala sobre os ps
cruzados. - Eu, no teu caso, j teria desforrado melhor os cobres!
- Achas ento que eu devo?...
- Ora, filho,  o que se leva deste mundo! A respeito de virtudes
temos conversado! Eu c s acredito numa castidade - a da
velhice!... tirando da...
e concluiu a sua idia com um gesto feio.
Amncio j recorria  molstia para justificar aos olhos do amigo a
atitude respeitosa que ocupara ao lado de Amlia - o colega que
no o julgasse um tolo!... Mas que diabo havia ele de fazer, tolhido
de dores, como estava, numa cama?...
Quando se despediram, o Paiva deu a entender que precisava de
dinheiro; mas Amncio negou-o, apesar de bem provido, dizendo
com voz triste que "sentia muito no poder servir naquela
ocasio".
O outro, sem mais querer ouvir coisa alguma, retirou-se logo.

                                ***

Amncio, assim que se viu livre, correu a tomar um tlburi e bateu
para a casa de penso, onde estava Lcia.
Era um palacete, com magnfica aparncia. Janelas de sacada,
grande corredor ladrilhado de mrmore e velhas escadarias
encentradas de tapete de oleado, preso a cada degrau por um fio
de metal amarelo.
Foi recebido cerimoniosamente no salo por uma mulheraa muito
gorda, de luneta, extremamente degotada, mostrando entre as
almofadas do peito ramificaes de veiazinhas escarlates, que
pareciam miniaturas de rvores secas desenhadas a bico de pena.
Em um dos braos luzia-lhe uma jia e, por debaixo do vestido de
cambraia, aparecia-lhe o p quase redondo e empantufado de
veludo azul.
Tinha a voz grossa, cheia de uu, e o lbulo do queixo coberto de
penugem negra.
Ai saber que Amncio no ia com a inteno de tomar algum
cmodo, mas sim para falar com Lcia, retirou-se sacudindo os
rins; e da sala o estudante lhe ouviu gritar ao criado "que fosse
prevenir  senhora do Sr. Pereira de que a estava um cavalheiro
que lhe desejava falar".
Lcia mostrou-se no fim de meia hora, a pedir mil perdes por se
haver demorado mais um pouco. Fizera toilette especial para
receb-lo e parecia muito lisonjeada com a visita.
Declarou, logo, que o achava mais gordo, de melhor fisionomia. -
Abenoada molstia, a dele!
E, em resposta ao que o rapaz lhe perguntava sobre aquela nova
residncia , elogiou muito a casa, o servio. "Sempre era outra
coisa! Nem havia termo de comparao entre esta e a de Mme.
Brizard!"
Amncio voltou-se todo na cadeira, considerando a sala. Uma rica
sala, apesar de velha, - grande , espelhada, cortinas de ramagem,
consolos cobertos de jarras com flores artificiais de pena. A um
dos cantos um

piano antigo e no centro do teto de estuque, no lugar donde
espipava o lustre, um grande escudo de cores, rebentando em
cabecinhas de anjos.
Falaram logo sobre as novidades da casa de penso do Coqueiro:
a sada dos hspedes, a morte do tsico, a mudana para Santa
Teresa.
- Voc ali est seguro!... disse Lcia.
O estudante protestou com um gesto, em que j havia alguma
coisa das revelaes que pouco antes lhe fizera o Paiva Rocha.
E, discutindo os amores de Amelinha, foram pouco e pouco
empurrando a conversa para o verdadeiro motivo da visita, at que
Amncio conseguiu tratar de si, das suas saudades do quanto
desejava Lcia, do quanto sofria por causa daquela ingrata que ali
estava!
- Mais baixo! Olha que te podem ouvir!...
ele ento chegou-se mais para a ilustrada senhora, tomando-lhe
as mos que cobria de beijos, e, no seu ardor, com a voz abafada,
os olhos acendidos, procurava arrancar-lhe uma resposta
definitiva, uma palavra qualquer que o restitusse por uma vez 
tranqilidade.
- Est quieto! Respondeu a tirana. - Est quieto!
E, vendo que o demnio no a escutava, em risco de
compromet-la aos olhos de quem por acaso entrasse na sala,
props mostrar-lhe a chcara enquanto esperavam pelo jantar. -
Que ela j o no deixava sair sem ter jantado!...
Havia duas descidas; uma pelo corredor e outra pela varanda.
Tomaram por resta.
Lcia, muito disfarada, ia-lhe apontando os cmodos e as
benfeitorias da casa, com tanto empenho e gosto como se fora
mesma a proprietria; mostrou-lhe o banheiro, os tanques para a
lavagem de roupa, o coradouro, o cercado das galinhas e por
ltimo o jardim.
Colheu logo uma rosa e, por suas prprias mos enfiou-a na gola
do fraque de Amncio.
Em seguida atravessaram a hora.
Canteiros grandes, cobertos de verdura, saturavam o ar de um
cheiro de hortalias. As alfaces brilhavam ao sol dourado de julho.
Mais para adiante havia um sombrejar melanclico e deliciosos de
rvores grandes; era a chcara; viam-se no ar as folhas largas e
recortadas da fruta-po faiscarem, como lminas de metal brunido;
ao passo que as bojudas mangueiras se debruavam sobre a terra
numa concentrao pesada de sono.
Os dois prosseguiram de brao dado por entre o murmurejar
tristonho daquelas sombras. E lentamente, e sem trocarem uma
palavra, se deixaram ir at a espalda de um morro, que servia de
limite  chcara.
Havia um grosseiro banco de pau meio escondido entre bambus e
trepadeira. Assentaram-se. Um fio de gua corria da montanha e
os passarinhos remigiavam trilando na mole embalsamada das
estevas.
Amncio passou um brao na cintura de Lcia e chamou-lhe o
corpo para junto do seu. Ela deixou-se arrebatar, bambeando a
cabea, num encontro apaixonado de lbios.
O rapaz parecia louco no seu desejo.
- No! Isso no! dizia a outra. - Mostra que  um homem de
esprito! No se queira confundir com esses materiales que h
por a!
Ele opunha as razes que lhe vinham  cabea para justificar os
seus rogos: "Lcia que no quisesse desvirtuar o amor, o
verdadeiro amor, fazendo de um sentimento real e fecundo uma
pieguice romntica e desenxabida". Lembrou-lhe o que ela prpria
dissera, quando pela primeira vez estiveram juntos.
E, num esfolegar febril e ruidoso, suplicava-lhe um pouco de
compaixo, ao menos; que no o torturasse daquele modo; que
no o obrigasse a sucumbir ao desespero de sua paixo!
Lcia no entendeu. - Ele que deixasse a casa de Mme. Brizard e
viesse tomar um cmodo ali na Tijuca. Assim ... bem! Mas,
naquele momento e naquelas circunstncias... No! no! e no!
Apesar de enrgica recusa, Amncio insistia sempre.
- No seja teimoso, repreendeu ela, arrancando-lhe as saias da
mo. - Oh!
ele, porem, no se desenganava e at j recorria  violncia.
- Pior! Disse a mulher, notando que o estudante lhe desgrenhava
os cabelos e machucava-lhe as roupas. - J no vou gostando
muito da brincadeira!
E, a um movimento desabrido do rapaz:
- Ora plulas! Isso agora tambm j  estupidez!
Amncio ao lado bufava, imvel, emitindo sobre ela olhares de
clera.
- O senhor faz-se desentendido! Exclamou Lcia, afinal,
endireitando o penteado e armando as lunetas. - H muito devia
compreender que nada alcanar de mim, enquanto eu estiver
com meu marido!
- Marido o qu! Desmentiu o provinciano, com a voz sufocada. -
To marido como eu!
Lcia olhou para ele, apertando os olhos.

-  isso! Sustentou aquele. - Sei de tudo! A senhora quer fazer de
mim um tolo, pois fique sabendo que no faz! Trate de arranjar
outro, porque comigo perde o seu tempo!
Ela o mediu de alto a baixo, levantou desdenhosamente o lbio
superior, e afastou-se com um grande ar emproado e senhoril,
murmurando entredentes.
- Ordinrio!
Amncio calcou o chapu sobre os olhos, e, de cabea baixa e
passos lentos, retomou pelo caminho andando, a fustigar com a
bengala as ervnculas da estrada. Saiu pelo porto da chcara.
J na rua, sacudia os ombros e disse a meia voz:
- Que a leve o diabo!

                                XV

O rapaz acordou muito bem disposto no outro dia, estava, ou pelo
menos parecia, restabelecido completamente. Os ares tonificantes
da Santa Teresa produziram-lhe efeitos miraculosos.
- At que enfim podia mandar ao diabo os xaropes e as tisanas
que, de tempos a essa parte, lhe melancolizavam a vida e
relaxavam o estmago. E, ainda, metido entre os lenis, na
matinal preguia das sete e meia, dispunha-se a filosofar sobre o
ridculo episdio da vspera, quando um leve rumor na porta do
quarto lhe desviou o curso das idias. Era a menina que trazia o
caf.
Viu-lhe a plida mozinha medrosamente surdir por entre a fisga
da porta mal cerrada, para depor no cho, como era de costume, a
chvena de porcelana. Amncio. porm, desta vez saltou da cama
e, correndo da gatinhas, a empolgou nas suas.
A mozinha quis fugir, ele no consentiu, e com ela veio um brao
que as folhas da porta arremangavam.
Comeou a beij-lo sofregamente, desde a ponta dos dedos at
os bceps; enquanto Amlia, sempre escondida ia consentindo,
toda ela arrepiada em ccegas.
- Um beijinho...pediu ele mostrando o rosto.
- Logo!
- Com certeza?...
- Com certeza!
E a pequena desapareceu muito ligeira, - tique, tique, tique, pela
escada.
Pouco depois combinaram a primeira entrevista. Ela subiria ao
sto, logo que a casa estivesse completamente recolhida.
Amncio que a esperasse no escuro e com a porta do quarto
apenas cerrada.
O rapaz no pde ficar tranqilo mais um instante.
As horas nunca lhe pareceram to longas e as conversas to
interminveis. Um sobressalto feliz perturbava-o todo, tirava-lhe o
apetite e no lhe permitia um pensamento que no fosse cair aos
ps de Amlia.
Por maior caiporismo, o Dr. Tavares tinha essa noite uma visita
que parecia disposta a no larg-lo. Era um velho de sua
provncia, muito falador de poltica, apaixonado pelas eleies,
pelos conservadores, mas que, nem  mo de Deus Padre,
pronunciava os rr e os ss e dizia: "Os partido liber, os senad", e
outras barbaridades.
- Quando se ir este cacete?...pensava Amncio, trmulo de
impacincia.
E o Tavares a puxar pelo demnio do homem, a fazer-lhe
perguntas sobre perguntas e a despejar contra ele a sua retrica
inexaurvel.
At o guarda-livros que s vezes passava dias e dias sem dar uma
palavra, estava essa noite disposto a falar pelos cotovelos. Ainda
pilhara o ch e, repimpando na cadeira, com um brilhante a luzir
num dedo, o ar satisfeito, os punhos bem engomados, taramelava
a respeito dos seus projetos de casamento. "Sim, que ele, havia
coisas de ano e meio, estava para desposar uma linda menina e
de educao esmeradssima. J h tempos a pedira!... S
esperava que a casa, onde trabalhava desde os seus quinze anos,
lhe desse sociedade, como alis, havia j prometido. - Ah! Toda a
sua ambio era fazer famlia! Que vidinha melhor que a do
casado?...o matrimnio era um complemento do homem...A gente
enquanto moa no sentia a falta da esposa, mas
depois?...quando chegasse a velhice?...A  que seriam elas! No!
no podia admitir um eterno celibato!...A vida do solteiro tinha
seus encantos, tinha, para que negar?...os espinhos, porm, eram
em maior nmero; se eram!...
E citava os casos.
Amncio retirou-se da varanda, sufocado de raiva. Preferia
esperar no quarto.
Deram onze horas. Amelinha pediu licena e tambm se recolheu.
Mme. Brizard,  cabeceira da mesa, j bocejava, entretendo os
dedos, a fazer plulas das migalhas de po que ficaram do ch; o
marido, ao lado dela, estudava mecnica racional.

Veio finalmente o copeiro levantar a mesa e buscar o Csar para a
cama. O guarda-livros apertou as mos de todos e sumiu-se; o
sujeito dos partido liber , a despeito das insistncias do amigo,
despediu-se igualmente e, quando o advogado, que o fora
acompanhar at o porto da chcara voltou  varanda, j no
encontrou ningum.
Em pouco a casa era todo silncio e trevas. Ento, Amelinha,
deixou o quarto sorrateiramente, tirou as botinas, apanhou as
saias e galgou a escada do sto.
Amncio, que a esperava na porta, logo que a teve ao alcance da
mo, puxou-a para dentro, e deu uma volta  fechadura.

                               ***

Desde esse momento, a vida em casa de Mme Brizard tornou-se
para ele uma coisa muito agradvel. Ningum mostrava
desconfiar, ao menos, de suas intimidades com Amlia, que pelo
seu lado parecia satisfeita com o estado de coisas.
S uma ligeira circunstncias covardemente o arreceava:  que a
pequena no lhe exibira em quarta ou quinta edio, como dizia o
Paiva, mas em comprometedoras primcias, com todos os
cruentos requisitos de uma estria.
Fugiu o primeiro ms de lua-de-mel, sem o menor eclipse.
Contudo, ele agora puxava um pouco mais pela bolsa: a famlia
estava em crise; a penso de Nini absorvia os proventos que se
obtinham do Tavares e do guarda-livros; o casaro da Rua do
Resende apenas se conseguira alugar em parte; os gneros de
primeira necessidade eram mais caros em Santa Teresa.
Mas que valia tudo isso posto em confronto aos gozos que lhe
proporcionava a deliciosa rapariga?
Ela parecia viver exclusivamente para lhe dar carinhos e afagos.
Era como se fora sua esposa; deixava tudo de mo para s cuidar
do amante. - Ele estava em primeiro lugar! Agora a pequena lhe
fazia a cama; levava-lhe ao quarto o moringue d'gua, penteava-
lhe os cabelos, e exigia que o rapaz lhe dissesse os passos que
dava, por onde estivera, com quem falara e o dinheiro que
gastara. Revistava-lhe conjugalmente as algibeiras, lia-lhe as
cartas e, sempre desconfiada, cheirava-lhe as roupas.
Amncio sorria de tais cimes, com o ar seguro de quem desfruta
em paz uma felicidade legtima e abenoada por todos. J no
furtava beijinhos assustados por detrs das portas; no roavam
os joelhos por debaixo da mesa, e no se serviam das mos como
instrumentos de amor; guardavam-se para as liberdades da noite,
para a independncia do quarto. Na ocasio, porm, em que ele
saia para as aulas ou  noite para o passeio, beijocavam-se,
sempre, como dois bons casados.
Entretanto, as pocas de exame batiam  porta. Amncio vivia em
desassossego com os seus estudos to mal apercebidos; mas o
Coqueiro dava-lhe coragem, ensinando-lhe como devia proceder,
dizendo-lhe o que devia estudar de preferencia, aconselhando-o a
que no tivesse medo. "Amncio que se apresentasse de cabea
erguida: o bom xito nos exames dependia quase sempre do
desembarao mais ou menos atrevido do concorrente!" E citava
exemplos: "Fulano que apenas conhecia dois pontos de tal
matria, chimpara distino, s porque era de um descaramento
imperturbvel; ao passo que sicrano, apesar de muito bem
preparado, no conseguira passar com a sua vozinha trmula e o
seu todo raqutico e assustado!"
Um novo acontecimento veio, porm, desviar Amncio daquela
preocupao: por telegrama de sua provncia, constou-lhe que o
velho Vasconcelos morrera de beribri fulminante.
Os pormenores chegaram no primeiro vapor: "Vasconcelos fora
atacado como hoje e morrera como depois de amanh. Ia pela
rua, muito senhor de si, quando, de repente, sentiu afrouxarem-se-
lhe as pernas e teria desabado no cho, se dois homens que
passavam no o socorressem prontamente.
"Foi recolhido  primeira casa, que era felizmente de um amigo.
Meia hora depois j lhe principiava a faltar a respirao: a molstia
subia, ameaando-lhe o estmago. Fez-se uma junta de mdicos;
ficou resolvido que o doente devia seguir, sem perda de tempo,
para qualquer parte, - Caxias, Rosrio, mesmo Alcntara, a Vila do
Pao, que fosse; contanto que sasse da cidade, quanto antes, at
aparecer um vapor que o levasse para mais longe.
"Partiu nesse mesmo dia, dentro de uma rede, com direo  Vila
do Pao. Mas o terrvel beribri subia sempre; os membros por
onde ele atravessava iam ficando paralisado e frios como
membros de defunto. A onda maldita galgara finalmente a caixa
torcica, Vasconcelos no pde respirar de todo e morreu".
Amlia, ao receber a inesperada notcia, rebentou num berreiro e
tratou de cobrir-se de luto fechado.
O irmo tambm se vestiu de preto, fez cerrar as portas e as
janelas da casa por sete dias e, durante esse tempo, andou
tristonho e anojado.

                                ***

Amncio perturbou-se deveras com a morte do pai. H bastante
tempo mentalizava projetos de , em voltando  provncia, trat-lo
de modo to carinhoso e to amigo, que sua conscincia ficasse,
por uma vez, tranqila a esse respeito. Havia no segredo de tal
inteno o sabor inefvel de um voto religioso. E seus planos,
assim malogrado de repente, enchiam-lhe agora o corao de
tristeza e as noites de sonhos tormentosos.
Mas Amelinha l estava para o consolar, para lhe reprimir os
gemidos com a polpa vermelha de seus lbios, e espantar-lhe os
negrumes do desgosto com a luz voluptuosa de seus olhos e com
a doura cristalina de suas palavras.
Veio o Campos. Trataram longamente do "triste acontecimento":
Amncio queria dar um pulo ao Norte: a me com certeza
precisava dele as seu lado, quando mais no fosse para tratar do
inventrio.
O negociante j no compreendia assim: " Estavam a chegar os
exames; Amncio, ase sasse da Corte naquele momento,
perderia o ano; o melhor, por conseguinte, seria esperar pelas
frias. Pois ento! eram mais alguns dias de demora que no
prejudicavam a ningum!..."
Coqueiro pensava do mesmo modo. "Nem o colega encontraria
algum com um bocadinho de juzo que lhe aconselhasse uma
semelhante viagem antes do ato. Era at loucura pensar nisso!"
Cruzaram-se cartas entre o Rio de Janeiro e Maranho. Amncio
foi considerado maior pelo Juiz de rfos, podia receber o que lhe
tocavas na herana. Mas a firma liquidante ofereceu-lhe sociedade
em comandita; ele aceitou, a conselho de Campos, e insti5tuiu na
provncia um advogado de confiana para lhe curar os bens.
Escolheu-se o Dr.Silveira, o dos cabelos pintados, aquele mesmo
que, no dia do exame de portugus, se mostrara to entusiasmado
pelo rapaz.
At que enfim estava Amncio livre e senhor de sua bolsa; podia
gastar  farta, sem sofrer da em diante as peias da mesada. E
no o amedrontava igualmente o risco de cair na penria, porque
ainda havia para reserva o que tinha a herdar da me e da av.
Os carinhos e as solicitudes da famlia Coqueiro inflamaram-se, j
se v, com os ltimos acontecimentos. O estudante era cada vez
mais adulado e em compensao mais explorado. Agora, o irmo
de Amlia no punha o menor escrpulo lhe aceitar os obsquios
e a casa ia ficando a pouco e pouco s costas do provinciano.
Era sempre por intermdio de Amlia que ele sofria a cardadura.
Hoje tratava-se do aluguel da casa, amanh seria a conta do
Eiras, depois a dos fornecedores; se entrava um barril de vinho
para a despensa, ou um saco de feijo; se aparecia um novo
aparelho de porcelana  mesa do almoo ou do jantar, Amncio
ficava  espera da fatura que,  noite, impreterivelmente, passava
as mos da rapariga para as suas.
Amelinha, essa ento, j no procurava rodeios para lhe arranjar
as coisas. Quando precisava de um vestido, de uma jia, de um
chapu, dizia-lhe secamente:" Deixe-me tanto, que amanh tenho
de fazer compras".
E as despesas das casa recrudesciam,  proporo que
minguavam os lucros. O guarda-livros despedira-se, porque afinal
chegara a poca do seu casamento, e ningum o substituiu; s
ficou advogado que deixaria por ms, quando muito, uns duzentos
mil-ris.
Amncio ia suportando a carga silenciosamente, certo de que no
encontraria dificuldade em despej-la, assim que a coisa lhe
cheirasse mal.
Todavia, o dinheiro era j o nico recurso de que dispunha para
fazer calar a amante, quando esta lhe falava em casamento. Em
tais ocasies, a rapariga chorava quase sempre; dizia-se infeliz;
queixava-se da sorte. "Que Amncio fora a sua perdio! Que ela
cedera aos rogos dele na persuaso de que era amada e de que
mais tarde seria sua esposa!"
- Ora, filha! Ns, antes de cairmos na asneira em que camos, no
tocamos uma s vez em casamento! E , se queres que te diga
com franqueza, eu at nem supunha ser o primeiro com quem
tivesses relaes!...
Ela irritava-se ao ponto de amea-lo com um escndalo. Amncio
que se no enganasse, pois que havia um Joo Coqueiro sobre a
terra! Ele que no casse no descoco de querer desampar-la,
porque ento as coisas lhe sairiam mais atravessadas!
Estas rezingas terminavam sempre por uma nova exigncia de
Amlia. E j no se contentava com um chapu ou com um par de
botinas, queria vestidos de seda, jias de valor e dinheiro para
gastar.
Uma noite, Amncio ficou abismado por lhe ouvir falar na compra
de um chal nas Laranjeiras.
- Sim! reforou ela, ao perceber que o rapaz no tomava a srio
suas palavras. - Despedia-se o Tavares e ficaramos  vontade
por uma vez! Eu no estou satisfeita aqui!...
Ele tornou a sorrir. - Amlia com certeza estava gracejando...

Mas a rapariga jurou que no, recorrendo a todos os segredos de
sua ternura. Afinal, vendo que o amante no cedia, zangou-se
como de costume.
- Tu assim o queres; disse arrancando-se dos braos dele,- pois
bem, tu assim o ters! Amanh hs de ver o que sai nesta casa!
Amncio encolheu os ombros.
- No te importas?! Pois veremos quem tem razo!!
E limpando os olhos:
- Ingrato! Por que sabe que a gente o estima, abusa deste modo!
Tola fui eu em me deixar seduzir!...
- Eu no a seduzi! Ora essa!
- At fez mais, replicou ela - Desonrou-me!
- Pois desonrada ou seduzida, no tenho dinheiro para comprar
casas!
Amlia saiu essas noite do quarto do estudante ameaando fazer
estourar a bomba no dia seguinte.
E, pela manh, quando Amncio , ao seguir para as aulas, lhe foi
dar o beijo favorito, .
ela muito amuada, voltou o rosto, resmungando "que a deixasse".
O rapaz prometeu que "ia pensar" e  noite daria uma resposta.
Mas nessa noite, Amlia, pela primeira vez, depois do seu novo
estado, no se apresentou s horas habituais no quarto do
estudante.
Amncio, sem perder as esperanas de a ver surgir de um
momento para outro e precipitar-se-lhe nos braos, no
conseguira ficar tranqilo. Aquele procedimento, vindo de quem
vinha, o revoltava como a mais infame das ingratides!
Ouviu dar trs horas, quatro, cinco. No se conteve, levantou-se,
pisando forte, desceu  varanda e foi bater  porta de Amlia.
Nada.
Bateu mais rijo.
- Que ?! Perguntou ela asperamente.
- Preciso falar-lhe.
- No so horas para isso!
- Oua! Quero dizer-lhe uma coisa...
- No tenho negcios! Entenda-se com meu irmo!
Amncio voltou ao quarto, desesperado. No que o acovardassem
as ameaas da rapariga, bem percebia que as suas relaes com
ela no eram em casa nenhum segredo e, alm disso, desde que
aceitavam o pagamento, - ora adeus! nada podiam dizer! Mas
apoquentava-se com a falta que j fazia o diabrete da pequena.
Habituara-se a dormir ao calor perfumado daquele corpinho
branco, ajeitara-se ao cmodo amor daquela mulherzinha nova e
palpitante e, agora, no podia voltar, assim sem mais nem menos,
s suas tristes noites desacompanhadas do outro tempo.
Acordou muito tarde no dia seguinte. Amlia , quando ele saiu do
quarto, no lhe deu palavra; estava arrumando uma caixa de
retalhos, e arrumando ficou. Mme. Brizard havia sado para ver
Nini. - O Coqueiro e os hspedes se achavam tambm na rua.
- Ento o senhora no me quer falar? Perguntou Amncio, fitando-
lhe as costas.
Ela interrompeu o que cantarolava e, sem se voltar, disse
friamente:
- A culpa  sua ...
E continuou a cantarejar, muito embebida nos seus retalhos de
fazenda.
Aquele desdm, namorado e artstico, a tornava ainda mis
desejvel aos olhos do rapaz.
Parecia-lhe at mais vela esse dia; como se os seus encantos,
intervindo na perrice, florejassem caprichosamente durante aquela
noite de soledade.
Amncio nunca lhe achou a pele to fina, os dentes to brancos,
os olhos to vivos e to formosos. O plido e ondulante pescoo
da menina jamais lhe pareceu to misterioso: a sua garganta,
macia e doce, jamais o cativara to despoticamente. Ele, enfim,
nunca a sentira to necessria, to indispensvel.
E as cenas venturosas dos seus primeiros dias de amor lhe
perpassaram vertiginosamente diante dos olhos, derramando-lhe
por todo o corpo um apetite brutal de readquirir, no mesmo
instante, aquela riqueza, que lhe fugia por entre os dedos, como
um vinho precioso que se derrama.
- Ento a culpa  minha?...disse ele, afinal, apalpando com a vista
a carne esperta dos quadris e dos braos da amante.
- Pois voc no v, respondeu ela, voltando-se espevitada - que
as coisas no podem continuar como at aqui?!  uma canseira
insuportvel! Quase que j no durmo! Preciso esperar de olho
aberto que toda a casa ser recolha e recolher-me ao quarto antes
que os mais se levantem! O resultado  que no descanso; ando
tresnoitada;

estou enfraquecendo! J tenho at uma dor do lado. Quem pode
com esta vida?! Ah! voc no sente, bem certo! Porque muita vez
o encontro a dormir, e dormindo o deixo quando saio! Mas eu?! Se
quero que no acontea como outro dia (que nem sei como no
deram pela coisa !) o remdio que tenho  ficar alerta e no deixar
que o dia me surpreenda a dormir no seu quarto! V voc?!
- Mas da?...perguntou Amncio, no fundo compenetrado de que
"a pobre menina" no deixava de ter o seu bocadinho de razo.
- Da...esclareceu Amlia, -  que nessa tal casa de que lhe falei, e
que est para se vender muito em conta, h, alm dos cmodos
necessrios para Lol e Janjo, dois quartos magnficos, com
entradas independentes e comunicveis entre si por uma pequena
alcova. Ora, um dos quartos d para a sala de visitas e o outro
para a sala de jantar; no caso de que arranjssemos o negcio,
voc ficaria com um e eu ficaria com o outro, e dessa forma
acabavam-se os sustos e as canseiras; porque durante o dia
abriam-se as portas do lado de fora e fecham-se as de dentro,
mas  noite praticava-se justamente o contrrio, e ficvamos nos
em completa liberdade! Compreende voc agora?...
- Sim, Amncio compreendia e at achava o plano muito bem
lembrado, mas a questo  que no via necessidade d comprar a
casa, era bastante alug-la...
- Sim, sim! mas  que o dono no a aluga, quer vend-la. E onde
ia voc encontrar outra casa nessas condies?...
- Hei de passar por l...
- No. Vamos hoje mesmo,  tarde. Lol j prometeu que nos
acompanha.
- Pois sim.
E Amncio puxou Amlia pelo brao, para lhe dar um beijo.
- Deixe-me...rezingou ela, ainda com um restinho do arrufo. Voc
s cuida de si e das suas comodidades...Egosta!
- No digas isso, meu bem!
- Pois no  assim?! Qual foi a vontade sria que voc j me fez?
 bastante que eu mostre gosto numa coisa, para voc fazer
justamente o contrrio...Entretanto, eu, por sua causa, sacrifiquei
tudo que possua!
E comeou a chorar, muito infeliz, a dizer que Amncio tinha
razo! - Ningum lhe mandara ser tola! Ela nunca deveria ter-se
entregado seno depois do casamento!
E as suas lgrimas enxugavam-se nos lbios dele.
E assim ficaram alguns minutos, at que Amlia, de repente, se
lhe tirou dos braos e, abrindo distancias, declarou de longe, em
plena atrao de seus encantos, que "no faria nenhum caso de
Amncio enquanto no possusse o chal".
Nessa mesma noite ficou assentado que o rapaz, em nome da
amante, compraria a casa das Laranjeiras.

                                ***

Com efeito, umas semana depois, tratava-se da escritura de
compra. O negcio correu a galope, visto que a propriedade era
de um pndego sequioso por dinheiro.
Podiam cuidar logo da nova mudana; Amlia, porm, no
consentiu em tal, sem que se realizassem umas tantas
benfeitorias que a "sua" casa reclamava; substituir, por exemplo, o
papel da sala de visitas, que era de mau gosto; meter-lhe gua,
que no havia, e fazer esteirar os aposentos destinados para si
junto com seu homem.
Mas Amncio no podia distrais tempo com essas coisas: andava
muito absorvido pela idia dos exames que se aproximavam.
Ultimamente viera-lhe uma febre de formatura, queria a todo o
custo "passar "no primeiro ano. - Tambm era s do que fazia
questo, "passar no primeiro", porque, quanto aos outros, tinha
certeza de se preparar melhor e com mais antecedncia. agora,
lamentava o tempo perdido na preguia e na molstia; dava ao
diabo os seus amores, e vivia numa dobadoura a arranjar
empenhos e cartas de proteo. Agarrou-se ao Campos; agarrou-
se quele Dr. Freitinhas (do baile do Melo
) que era unha com carne de um dos examinadores. E furou, e
virou, e percorreu amigos e desconhecidos, at se julgar
"garantido'" . Ento, pagou a Segunda matrcula e entregou-se de
olhos fechados a destino. "Seria o que Deus quisesse!"
Era ,pois, o Coqueiro quem dirigia as obras da casa da irm. O
metdico rapaz sempre tivera paixo por esse gnero de trabalho.
- Se fosse rico, afirmava ele, - muito prdio havia de fazer, s pelo
gostinho de acompanhar as obras!

                                XVI

Chegou, finalmente a vspera do amaldioado exame.
Que ansiedade! Que de angstias para o pobre Amncio! que
noite, a sua! - No descansou um segundo; apenas, j quase ao
amanhecer, conseguiu passar pelo sono; antes, porm, no
dormisse, tais eram os pesadelos e brbaros sonhos que o
perseguiam.
Via-se entalado num enorme rosrio de vrtebras que se
enroscava por ele, como uma cobra de ossos; grandes tbias
danavam-lhe em derredor, atirando-lhe pancadas nas pernas; as
frmulas mais difceis da qumica e da fsicas individualizavam-se
para o torturar com a sua presena; os examinadores surgiam-lhe
terrveis, rspidos, armados de palmatria, todos com aquela feia
catadura do seu ex-professor de portugus no Maranho.
Pelo incoerente prisma do sonho, o concurso acadmico
amesquinhava-se s ridculas propores do exame de primeiras
letras. Era a mesma salinha do mestre-escola, a mesma banca de
paparaba manchada de tinta, o mesmo fanhoso Sotero dos Reis
presidindo a mesa, Joo Coqueiro, o Paiva e o Simes, vestidos
de menino, fitavam o examinando com um petulante riso de
escrnio. Amncio sentia corre-lhe o suor por todo o corpo e
agulhas invisveis penetrarem-no at  medula. O professor,
transformado em juiz e ostentando as feies do falecido
Vasconcelos, inquiria-o com asperezas de senhor; mas as suas
perguntas, em vez de concernirem s matrias do ato, s se
referiam a Amlia.
- Por que matou voc a pobre menina?! Bramia o pai cravando-lhe
olhares de fogo: - Responda, seu canalha! Responda! Ah! Pensa
que ainda no sei de que voc, para melhor a seduzir, lhe havia
prometido casamento e jurado olhar sempre para ela, seu
cachorro?!
O Coqueiro ,l do canto, sacudia a cabea afirmativamente e
enviava a Amncio caretas de vingana. Ao lado deste, o cadver
de Amlia fazia-se todo vermelho com o sangue que lhe gotejava
golpeava de golpejava de um dos seios rasgados de alto a baixo
O ru queria responder, justificar-se, expor a verdade; eram,
porm, baldados os seus esforos: no consegui articular uma
palavra; gelatinava-se-lhe a voz. na garganta ,empacando-lhe a
fala.
- Bem! Gritou o velho Vasconcelos  meia dzia de soldados que
escoltavam Amncio. - Conduzam esse miservel ao cepo e
cortem-lhe a cabea!
O estudante atirou-se de joelhos, com as mos postas, chorando,
suplicando que o no matassem. mas os soldados apoderaram-se
dele com violncia e ataram-lhe os braos. O Juiz, Coqueiro,
Simes, o Paiva, sumiram-se de repente, soltando gargalhadas.
Amncio foi conduzido por um corredor muito escuro e apertado;
os soldados, quando o percebiam vacilar, batiam-lhe no ombro
com a coronha das espingardas. Chegou a um ptio lajeado e
mido, onde milhares de homens armados formavam alas; no
centro, sobre um toro de madeira conspurcada de sangue, reluzia
um machado  sua espera; e, de joelhos, abraado a um crucifixo,
um padre velho, de longos cabelos brancos, engrolava latins
Fizeram silncio.
No meio das respiraes abafadas, s se ouviam os passos
trpegos e o aflitivo resfolegar do condenado que,  ponta de
baioneta, subia os degraus do cadafalso.
Veio o carrasco, despiu-lhe a camisa, tosou-lhe os cabelos, e
empunhou o ferro.
Amncio no se resolvia a entregar o pescoo, mas o velho
Vasconcelos, que surgira por detrs dele, atirou-lhe um murro 
nuca e f-lo cair de bruos contra o cepo.
Ento, para lhe abafar os gemidos, romperam todos os soldados
num rufo estridente de tambores.
Amncio sentiu o ao frio entrar-lhe na carne do toutio, espipar o
sangue, e o corpo, de um salto, arrojar-se s lajes.

                               ***

Havia saltado, com efeito, mas da cama. E o despertador , que
ficara de vspera com toda a corda para as seis da manh,
continuava o rufo penetrante dos tambores.
O estudante abriu os olhos e passou em sobressalto a mo pela
testa; os dedos voltaram ensopados de suor.
Com a perceptibilidade das coisas foi aos poucos saindo daquele
estado de excitao, mas voltando lentamente  taciturna agonia
da vspera.
Vestiu-se quase sem conscincia do que fazia; esqueceu-se at
de escovar os dentes, porque, mal voltou a si, correu aos livros,
sem alis, conseguir firmar a ateno sobre coisa alguma.

E Amncio tremia todo s com a idia de sua inabilidade. 
medida que as horas se esgotavam e o momento fatal se lhe
antepunha, um langor covarde e mulheril crescia dentro dele,
produzindo-lhe arrepios que principiavam na ponta dos ps e iam-
se estendendo pela espinha dorsal, at lhe interessar a cabea,
depois de percorrer as regies abdominais.
Mas embaixo, na varanda, em presena de Amlia e Mme.
Brizard, fazia-se forte, a despeito da palidez que lhe alterava as
feies. Nem de leve falou nos sonhos dessa noite, e o Coqueiro,
a ttulo de met-lo em brios, contou vrias anedotas de
examinandos ridculos.
Os dois tomaram caf e por fim saram. O trajeto de casa  escola
foi um martrio para Amncio, afigurava-se-lhe, como no sonho,
que se dirigia ao patbulo.
Chegou s dez horas. Alguns companheiros de ato j l
estacionavam em magotes de quatro e cinco pelos corredores ou
 porta da secretaria; fumavam-se cigarros consecutivos,
discreteavam-se os assuntos da ocasio. Amncio cumprimentou
os conhecidos, parando aqui e ali falando sobre os pontos do
exame; - qual preferia que sasse, em qual se presumia menos
fraco e capaz de fazer figura.
Agora, sim, estava mais animado; a presena dos colegas o
robustecia com um vago esprito de coletividade. Sentia-se maios
forte e resoluto ao lado dos companheiros de perigo, como se a
vitria dependesse do nmero de combatentes.
Entretanto, faziam-se horas. Os examinadores estavam j
reunidos na sala de exames, em torno da sua mesa forrada de
pano verde. Amncio lobrigava-os pela frincha da porta
entreaberta e ouvia-lhes o murmurar descuidoso da conversa,
intercaladas de risotas e baforadas de charuto
 vista daqueles homens resfriaram-lhe de novo as mos e
voltaram-lhe os calafrios do terror, algum resto de confiana, que
ainda teria em si, evaporou-se de todo.
E, para no sucumbir, procurava acreditar na eficcia dos
empenhos que arranjara; seu esprito, como o nufrago que
braceja nas agonias da morte, j no escolhia os pontos a que se
agarrava; tudo ser ia naqueles apuros, tudo era pretexto de
esperana; mas a conscincia da verdadeira situao vinha meter-
se-lhe de permeio, arrancando, uma por uma, todas as tbuas de
salvao.
E Amncio arquejava, desorientado, perdido.
- Que diabo viera fazer ali?! Para que se apresentara? por que no
se guardou para o ano seguinte ou, quando menos para maro?
Antes no tivesse pago a Segunda matrcula! Oh! se o
arrependimento salvasse!...
E, `proporo que se avizinhava o momento supremo, mais e mais
imprudente lhe parecia a sua temeridade.
- Naquela ocasio, pensava ele, - bem podia estar na provncia, 
testa dos seus negcios, ao lado de sua querida me, passeando,
rindo, gozando, como nos outros tempos!...Era rico, era j to
estimado antes da academia, para que ento sofrer semelhantes
torturas, passar por aqueles maus quartos de hora, que ali estava
curtindo?...
E vinham-lhe venetas de fugir, abandonar tudo aquilo, sem dar
satisfaes a ningum, correr  casa do Campos, encher-se de
dinheiro e arribar para a Europa, para o inferno! Contanto que se
livrasse da obrigao de expor uma cincia que no tinha,
escrever idias de que no dispunha!
Mas o bedel havia surgido e principiava a "chamada", e, a cada
nome, recitado pausadamente, o seu olhar mrbido, de funcionrio
pblico no cumprimento de um velho dever enfadonho, consultava
a multido de estudantes, que em sussurros se apinhava pelo
esvazamento das portas, empurrando-se uns aos outros,
impacientes, curiosos, o pescoo espichado, a boca aberta, o
calcanhar suspenso.
- Amncio da Silva Bastos e Vasconcelos, disse aquele arrastando
a voz.
Amncio sentiu uma pontada no corao e tartamudeou:
- Presente.
Os companheiros, que lhe ficavam por diante, arredaram-se logo,
dando-lhe passagem, e ele foi ocupar uma das banquinhas que
havia na sala.
A chamada ainda durou algum tempo, porque Amncio era dos
primeiros; afinal, o bedel mastigou o ltimo nome; fecho-se a porta
da sala; e um silncio formalista espalhou-se entre a turma dos
estudantes e o grupo dos examinadores.
O presidente da mesa tomou a lista dos examinandos, arranjou os
culos, tossicou e, com um bocejo, chamou pelo que estava em
primeiro lugar.
Um rapazote louro, de buo, ergueu-se e foi ter com ele. O
presidente, com um segundo bocejo e um gesto de cabea,
ordenou-lhe que tomasse um dos pontos da urna.
Amncio ofegava. - Ia decretar-se o ponto!
- Qual seria?... E se, por caiporismo, fosse justamente um dos
mais crus?
E o sangue trepava-lhe  cabeas, pondo-lhe latejos nas fontes.
O rapazote louro meteu enfim a mo na urna e tirou com a ponta
dos dedos trmulos uma pequena torcida de papel, que passou ao
presidente
Este desenrolou-a e leu: "Hidrognio".
Amncio respirou: o ponto no podia ser melhor para ele do que
era! Talvez fosse at entre todos o menos mal sabido; ainda essa
manh lhe passara uma vista de olhos. Contudo, uma vez imposto
o Hidrognio, quis lhe parecer vagamente que havia outros pontos
preferveis..
Estava mais tranqilo, que era o principal; j quase nada lhe
tremia a mo ao receber das do bedel uma folhas de papel
almao, rubricada pelos lentes, das que ia aquele distribuindo por
todas banquinhas dos examinandos.
- Ali, naqueles miserveis dois vintns der papel, tinha ele de
determinar o seu futuro, a sua posio na sociedade, talvez a
prpria vida de sua me, dizendo o que sabia a respeito do tal
Hidrognio!...
Experimentou a pena, endireitou-se na cadeira, e escreveu,
caprichando na letra e procurando obter estilo.
A areia da ampulheta esgotava-se defronte da calva e dos bocejos
do senhor presidente. Correu meia hora; Amncio ergueu-se
afinal, entregou a sua prova e saiu das sala, a esfregar, muito
preocupado, os dedos das mo direita contra a palma da
esquerda.
 porta, mal acendera sofregamente o cigarro, contava j aos
seus amigos o que havia exposto pouco mais ou menos. - Ah! com
certeza pilhava uma - nota boa! - No era por querer falar, mas a
sua prova sara limpa. "Assim no fosse o ponto to ingrato!..."
E ficaria a prosar sobre o caso, se o Coqueiro, aguilhoado pela
ausncia do almoo, no o arrancasse dali.

                               ***

A nota foi boa, efetivamente.
Soube-o Amncio no dia seguinte, logo que correu  secretaria.
No contava, porm ficar tranqilo, seno depois do resultado de
sua provas oral.
Novos sobressaltos foram se agravando durante os dias que era
preciso esperar. Votavam-lhe as aflies; no fim de algum tempo
j no podia comer, no podia ligar duas idias sobre qualquer
coisa e no conseguia repousar duas horas seguidas. Ficou ainda
mais desnorteado que da primeira vez.
Amelinha, ento, o estimulava com as suas garrulices e pomba
que j fez ninho. Puxava por ele, tentando arranc-lo daquele
estado, mas no conseguia lhe despertar um s dos antigos
momentos de bom humor, nem lhe merecer uma de suas
primitivas caricias
O rapaz andava tonto, cheio de pressentimentos e de sustos.
Tornou-se at supersticioso. - No podia ver entrar no quarto uma
borboleta de cor mais escura; no podia suportar o grunhir dos
ces, nem queria que a amante prognosticasse "um bom resultado
nos exames"
-  melhor no falar!...dizia ele, muito esmalmado.
Mas que prazer o seu ao voltar pronto da escola! Jamais tivera um
contentamento to agudo. Ria sem motivo, sentia mpetos de
abraar a toda gente, pulava, cantava, parecia doido..
Soubera do resultado no mesmo dia da prova oral, por intermdio
de um dos professores. - Sara aprovado plenamente.
Vencera!
Colegas o acompanharam at a casa. L ia o Paiva, sempre com
o seu olhinho irrequieto e mexeriqueiro, o seu todo enfrenesiado e
farto "desta porcaria de mundo". L ia o triste Salustiano Simes,
encasmurrado no seu ar incrdulo e bamba, a mascar o cigarro, a
aba do chapu encostada  gola sebosa do fraque
Abriram-se garrafas de champanha; fizeram-se brindes. Joo
Coqueiro desmanchava-se em sorrisos, como se partilhasse
diretamente de todas aquelas manifestaes.
Foi muito elogiado o exame de Amncio, tocaram-se os copos,
entre fervorosas palavras de animao; falou-se em "filhos diletos
da cincia", em "liberdade". Em "gerao nova", em "mineiros do
progresso".
Todavia, Amncio, em ar feliz e pretensioso, confessava o pouco
que estudara e gabava-se de sua fortuna. - Podia dar a palavra de
honra em como mal havia tocado nos livros durante o ano. - O
Coqueiro e a famlia estavam ali, que dissessem!...
E basofiava a respeito de sua presena de esprito
particularizando circunstncias comprobativas de uma sagacidade
a toda prova.
- C o menino no se aperta! Dizia ele, muito satisfeito consigo.

Expediu-se um telegrama para o Maranho, dando noticia do
grande "acontecimento". O Simes e o Paiva ficaram para jantar.
J estavam todos  mesa, quando apareceu o copeiro com uma
carta que um portuguesito acabava de trazer.
Era do Campos. O bom negociante queria festejar o xito feliz do -
jovem acadmico - com "uma pequena reunio familiar. Pena era
que o Dr. Amncio estivesse de luto".
"No h festa", explanava a carta, "apenas se renem alguns
amigos para lhe beber  sade; e o doutor bem pode trazer em
sua companhia mais alguns".
Amncio declarou logo que no dispensava o Simes e o Paiva
Rocha e exigiu que o Coqueiro levasse consigo a famlia.
Pois iriam, iriam todos, at o Csar. Mas o festejado teve de
franquear o seu guarda-roupa queles dois colegas que no
queriam apresentar-se mal amanhados em uma casa, onde
entravam pela primeira vez.
O Coqueiro, em particular, exprobrou-lhe essa franqueza:
- Foge da bomia!... disse-lhe, no seu diapaso de homem srio. -
Foge da bomia, rapaz! Esses tipos no merecem que se lhes
faa a menor coisa!... metem os ps - sempre! J os conheo; no
seria eu quem os convidara para a casa de ningum!  gentinha
que s est habituada a cafs e botequins, no respeitam famlia!
Para eles as mulheres so todas iguais!...
Amncio sorriu.
- Ora Deus queira que no tenhamos de nos arrepender!...
acrescentou o outro.- E, quela roupa, podes rezar-lhe por alma...
o ali cai, fica!
O provinciano afastou-se sem responder e lamentando
interiormente que, logo nessa tarde, no estivesse em casa o
eloqente Dr. Tavares, que seria uma excelente perna dos brindes
da sobremesa.
Mandaram-se vir dois carros. Num iria o Coqueiro mais a famlia e
no outro Amncio com os dois amigos.
Partiram s oito horas, alegremente, num alvoroo grrulo de
festa. Mme Brizard dera toda fora  sua elegncia: atirou-se ao
decote, ps a pedraria ainda do tempo do primeiro marido, e exibiu
aquele rico pescoo, "que ela no trocava pelo de ningum"!
Amelinha estreou um belo vestido de escumilha azul que lhe dera
o amante. No seu colo, cor de camlia fanada, assentavam muito
bem as prolas e os rubis; seus braos, levemente dourados de
penugem, sabiam, no meio da confuso caprichosa das rendas
valencianas, fazer tilintar com graa os braceletes que se
enroscavam nas compridas e transparentes luvas de retrs.
A cunhada, ao v-la sair do quarto, dissera:
- No parece uma brasileira!... To linda est!

                               ***

Foram recebidos com transportes de jbilo por toda a famlia do
negociante. Campos entregou a casa ao festejado, "que a este
competia, naquela noite, obsequiar s pessoas presentes; fazer as
honras da copa e da mesa; promover quadrilhas e prender as
moas at pela manh. Era o dono da festa, que se arranjasse!"
Amncio tomou posse do cargo, sem caber em si de contente.
Muito o sensibilizava tudo aquilo que, de qualquer modo, lhe
pudesse afagar o amor-prprio.
E em suas mos a festa tomou um carter assustador: o pianista
no tinha tempo para fumar um cigarro; os convidados eram
constrangidos a beber nos intervalos da dana e a danar nos
intervalos das libaes. Paiva Rocha e o Salustiano, a despeito de
todas as suas garantias de filsofos, intransigentes e pssimos
danadores, tiveram de entrar, por mais de uma vez, nas
interminveis contradanas.
Ao inverso do que pressagiara o Coqueiro a respeito destes dois,
tanto um como o outro se houveram admiravelmente. Ningum
melhor que eles para respeitar senhoras; um espesso
acanhamento os encascava e tolhia, que nem a concha ao
molusco. Salustiano, principalmente, estava mais tenro e
inofensivo que uma criana; na quadrilha, mal ousava erguer os
olhos para sua dama e, querendo ser muito delicado, apenas
lograva, com os exageros da cortesia, trair a sua nenhuma
freqncia nas salas.
Para os intimidar bastava as cerimoniosa presena de senhoras
de boa sociedade. Aqueles dois pndegos, to cticos em teoria a
respeito da mulher, ali, governados pelo meio, eram os homens
mais tolerantes deste mundo; seriam capazes de defender a
existncia de Deus ou do diabo, se elas o entendessem. Fato 
que o dono da casa gostou deles em extremo e pediu-lhes que
aparecessem aos domingos, uma vez por outra, para jantar.
A festa correu sempre animada at as trs horas da manh,
quando Amncio convidou as senhoras a tomar lugar na mesa. Ao
desrolhar do champanha, ergueu-se este resolutamente e exigiu
que o acompanhassem num brinde.

Abstiveram-se da bulha, e o estudante grupou em torno do nome
inteiro do Campos todo o velho arsenal de retrica aplicvel 
situao. Em substncia nada afirmou, mas a sua palavra sonora
e cheia; as frases gorgolhavam-lhe dos lbios com essa
verbosidade oca e retumbante que se observa nos filhos do Norte
do Brasil, e que, alis, tem valido a muitos posio eminente na
poltica. Aquela voz, estalada e aberta, ferindo as vogais, tinha um
sabor muito picante de ironia, vibrava no ar como uma flecha
selvagem e feria os tmpanos como um insulto inverso.
As damas interessaram-se pelo discurso e alguns homens o
ouviram sem pestanejar. E todos eram de acordo que Amncio
estava talhado para o Direito e que havia de fazer "uma brilhante
figura", quer na advocacia, quer na poltica, se por acaso
abraasse uma dessas carreiras.
-  rapaz de talento!... diziam j as senhoras cochichando.
- A mim comoveu tanto o demnio do moo, que chorei!...
segredou uma quarentona de chin, que passava entre os
conhecidos por mulher de maus bofes.
E principiaram a olhar com uma certa submisso para o
esperanoso Amncio.
E, com efeito o seu tipo nervoso e moreno de nortista, o seu modo
sem-cerimnia de abrir muito a boca, mostrando num gesto de
pasmo a dentadura, o desembarao de sua gesticulao, sempre
que entornava para dentro um pouco mais de vinho, e
principalmente o metal daquela voz enftica e encrespada pelo tal
sotaque da provncia; tudo isso, sem dvida alguma agradava
depois de uma boa ceia, quando cada um no exige de ningum
seno que lhe deixem tomar me paz o seu caf e lhe permita
acender o seu charuto.
O caso  que Amncio se converteu numa espcie de presidente
da mesa. Era a ele que se dirigiam os que propunham novos
brindes; era para ele que mais se voltavam durante o discurso, e,
tal e qual no jantar de seu pai por ocasio do clebre exame de
primeiras letras, ainda era ele o alvo das melhores felicitaes;
com a diferena de que, neste agora, em vez de consultar de
instante a instante o famoso relgio alcanado naquele dia, o que
Amncio consultava eram os olhos de Hortnsia, nele igualmente
presos mas por uma cadeia doutra espcie.
E, ainda como na primeira festa, o estudante abusou um pouco
dos licores; mas, agora, em vez de pegar no sono, deu-lhe a
bebedeira para abrir s francas com a dona da casa, logo que a
pilhou sozinha no terrao, ao fundo do segundo andar.
Hortnsia no se indignou com isso, mas tambm no se mostrou
satisfeita; no repeliu com energia as palavras do sedutor, mas
no se pode dizer que as acolhesse de boa cara; no lhe deu
enfim, os beijos que ele pedia, mas por outro lado no retirou a
mo que o rapaz agarrara entre as suas.
- Eu te adoro, meu amor, minha vida! dizia-lhe o velhaco,
cheirando-lhe os grossos braos revestidos de fil. - No to disse
h mais tempo por falta de coragem, juro-te, porm, que 
verdade! Amo-te, minha Hortnsia, amo-te com todo o
entusiasmo, com toda a paixo de que sou capaz!
Ela o ouvia em silncio, a pensar, os olhos ferrados a um ponto, o
ar todo cado e acabrunhado como por uma espcie de desgosto;
no se mexia, apenas, quando Amncio teimava muito em querer
beij-la, desviava o corpo, sem voltar a cabea.
- Mas, ento?...perguntou ele.
- Ento, o qu?...fez a outra como interrompendo um longo
pensamento.
- No aceita o meu amor?..
- No, decerto, no posso aceitar semelhante coisa!
- Por que, minha santa?...
- No tenho esse direito; conheo os meus deveres e a minha
responsabilidade .O mais que lhe posso dar  uma afeio de
irm, de amiga, uma afeio sagrada e pura !
Amncio declarou que pensava desse modo justamente, mas
agora queria um beijo, um s! O primeiro e ltimo! - nada mais
sagrado e puro do que um beijo!...
- Nunca! Disse ela, fugindo com o rosto.
Ele a tomou  fora e a senhora ficou ressentida, chegou a ter um
gesto de impacincia e teria fugido, se o estudante no a
segurasse pela cintura.
- Solte-me!
- Perdoa, perdoa, meu amor! Segredava ele, quase ajoelhado .-
Bem quisera ser para contigo o mais respeitoso dos homens, mas
no me pude dominar...Perdoa!
- E jura que , de hoje em diante, no cair noutra?...
- Juro! Juro! Mas no te revoltes contra mim!
- E que nunca mais me faltar ao respeito?...
Amncio fez um gesto afirmativo, em o qual seus olhos , agora
mais estrbicos sob a influncia do vinho e do desejo, luziam
suplicantes, como os olhos de um co que tem fome.

- Pois bem, murmurou ela, meio compadecida. - v l por esta vez!
Est perdoado, mas fique prevenido de que, se repetir a graa
no, respondo pelas conseqncias
Amncio ia fazer novos protestos , quando sentiu que algum se
aproximava; ergueram-se ambos, instintivamente, e ,fugindo ao
rumor, seguiram de brao dado para a sala.
Tocava-se uma valsa. Ele , sem consultar Hortnsia, enlaou-lhe a
cintura, e puseram-se os dois a rodar, a rodar, to certos e to
leves, que prendiam a ateno de quantos l s achavam. E o
Coqueiro, encostado  ombreiras de uma porta, acompanhava-os
com um sorriso de felicidade, no qual havia alguma coisa de
orgulho de pai que se rev num filho prodigioso.
Mas o querido estudante, para o fim da festa, j no pareci o
mesmo: as bebidas e o cansao davam-lhe um ar grosseiro e
desalinhado; j se lhe no via o colarinho, nem os punhos; a roupa
empastava-se-lhe com o suor e a cabeleira desguedelhava-se
sobre a testa. E vinham-lhe ento pilhrias de mau gosto; tratava
Amelinha quase licenciosamente e regamboleava as pernas e os
braos no meio da quadrilha, como se estivesse num baile pblico.
J no dava excelncia a ningum e queria, por fora ,que o
Simes e o Paiva, depois da festa, o acompanhassem a um
passeio ao alto da Tijuca.
- Que diabo! Rosnava ele, cuspilhando para os lados. - Ou bem
que a gente se mete na pndega ou bem que se no mete!
S se retiraram ao despontar da aurora. Csar, que adormecera
desde as onze horas da noite, ficou para passar o dia com a
famlia do Campos. Amncio ps um carro  disposio do Paiva e
do Simes e seguiu no outro com as duas senhoras e o Coqueiro.
Este toscanejava durante a viagem, ao lado da mulher que se
sumia na abundncia de uma formidvel capa de l; enquanto que
Amncio, a charutar derreado para um canto da carruagem,
adormecia com a mo direita esquecida entre as de Amlia

                               XVII

Recebeu no dia seguinte uma carta de ngela; era a segunda que
ela escrevia ao filho depois da morte do marido.
J na primeira lhe suplicava que a fosse ver, logo ao entrar das
frias, pois agora estava muito s e acabrunhada de desgostos;
alm disso, os seus padecimentos se agravavam. Amncio que se
no demorasse; a infeliz tinha para si que a presena do filho
substituiria com vantagem todos os remdios da botica.
Na segunda carta ainda se mostrava mais impaciente e mais aflita
pelo rapaz. Falava at no receio de morrer sem abra-lo, caso
Amncio no se apressasse a ir em seu socorro.- A presena dele
tornava-se precisa , mesmo com referncias aos interesses do
inventrio; por quanto D. Angela comeava a desconfiar do
Silveira, que no fazia outra coisa seno lhe pedir dinheiro e mais
dinheiro para as tais custas. - Enfim, por todos os motivos, era
urgente que Amncio desse, quanto antes, um pulo ao Maranho.
Amelinha, que j no ficara muito tranqila com a primeira carta,
assustou-se deveras quando o amante lhe mostrou a segunda .
- Eu no consinto nesta viagem! Disse-lhe terminantemente.
- Mas no vs que se trata de um caso urgente, que se trata de
defender meus interesses, que se trata de salvar a vida de minha
me?...Ou queres tu que eu a mate, hein?...
- Amlia no tinha nada quer ver com isso!...A sua questo
resumia-se no seguinte: "Dera-se a um homem, porque o amava e
porque se supunha amada por ele; esse homem a possuiu como
bem quis, gozou-a como muito bem entendeu, e, um belo dia,
talvez por j estar farto, resolvia meter-lhe os ps e pr-se ao
fresco!..." Boas! No havia de ser com ela! Amncio que no
casse em semelhante asneira, porque ento veria o bom e o
bonito! Quem o afianava era "a Amelinha dos camares"!
- Mas , filha, que queres tu que eu faa?...Bem vs que esta
viagem ao Norte  inevitvel!
- Pois ento vamos juntos...Casa-te primeiro comigo!
A idia foi to intempestiva que o estudante respondeu com uma
gargalhada. Mas o demnio da rapariga, tornando s boas de
repente, saltou-lhe ao pescoo e disse-lhe, entre beijos:
- E por que no ?...Por que no te casa logo comigo, meu amor?...
- Porque era impossvel!...explicava ele. "Casar no  casaca" Era
muito cedo para cuidar nisso!...Primeiro tinha de formar-se,
praticar algum tempo em Paris, e depois ento...sim senhor, no
dizia o contrrio e havia de ser o mais empenhado em que a coisa
se realizasse! Mas por ora..."Deus nos acuda!" era at loucura
pensar em semelhante histria!...

Amlia fez-se logo de mau humor; vieram os remoques e o s
reviretes do costume, houve palavras duras de parte a parte e,
afinal, como estabelecido imposto de reconciliao, ficou
assentado que Amncio arranjaria moblia nova para o chalezinho
das Laranjeiras.
E o rapaz l foi comprar os trastes.
Dois dias depois, realizava-se a terceira mudana. O Dr. Tavares,
o ltimo hspede da famigerada Mme. Brizard, pagou a sua ltima
conta e recebeu da francesa um abrao de despedida.
- Ah! suspirou elas. - At que enfim se podia descansar um pouco!
J no era sem tempo!
O chalezinho de Amlia ficou muito catita; parecia um ninho de
noivos. Estava a pedir lua-de-mel!
A cachorra da pequena tinha gosto. Exigiu tapetes, espelhos,
cortinas de chita indiana para a sala de jantar, cortinas de renda
para a salas d visitas; quis moldura dourada nos quadros,
estatuetas pelas paredes; no dispensou nos aparadores e nos
consolos jarras de porcelana das mais  moda; jardineiras aqui e
ali, vasos caprichosos com begnias e tinhores sobre a mesa de
jantar; cestinhas artsticas, com para sitas, para dependurar nas
janelas; e ainda fez substituir na cozinha, nos arranjos da comida
e no arranjo dos quartos, tudo aquilo que lhe parecia em
condies de reformas.
E s com essas coisas e s com a satisfao de tanta exigncia 
que Amncio conseguia paliar as revoltas da amante. O
desgraado j no tinha nimo de contrari-la, porque bem
conhecia o preo das rezingas e, sem achar meio de reagir, via
claramente que as reconciliaes se tornavam mais caras de dia
para dia.

                               ***

Entretanto, depois da mudana, o amor dos dois tomou um carter
mais digno e decente. J no era necessrio que a rapariga
andasse  noite em ponta de ps pela casa, tateando a escurido
para ir ter com o seu homem. agora dormiam  vontade, com as
portas bem fechadas por dentro.
E s se despregavam do lado um do outro, quando tinham que
abandonar o quarto. Ento, cada um se servia da porta
competente: Amlia tomava a da varanda e Amncio a da sala de
visitas!
No podiam desejar melhor!
Melhor, bem certo para o descanso do corpo e repouso do
esprito; no, porm, para garantia do amor, essa estranha funo
psicolgica que s alimenta asa suas razes nos sobressaltos e no
perigo. Tamanha segurana e tamanha liberdade de ao deviam
fatalmente levantar a pontas do tdio, cujo novelo existe, mais ou
menos escondido, no fundo de todas as coisas.
No vinha longe a saciedade; Amncio j lhe ouvia o bocejar. Iam-
se-lhe pouco a pouco amornecendo os primitivos arrebatamentos
do desejo; os dois tinham-se j frouxamente, sem lumes de
entusiasmo, sem os esforadores auxlios da imaginao.
Assuntos prticos, positivos, agora se lhes intercalavam nas
carcias, puxando-os grosseiramente  calma realidade da vida.
Amelinha j lhe no surgia no quarto com aquele trfego ruar-se
de pomba assustada, o que lhe enchia as feies e os
movimentos de uma graa to maliciosa e provocadora; agora se
apresentava com um ar muito tranqilo, de casada, a arrastar os
chinelos, o roupo desabotoado e solto, num farto abandono de
alcova.
Despia-se defronte de Amncio, coando negligentemente as
partes do corpo que estiveram comprimidas durante o dia, como a
cinta, o lugar das ligas e dos canos das botinas. Despenteava-se
ali mesmo, alado da cama do rapaz, sacudindo o cabelo com
ambas as mos, num movimento de braos erguidos que lhe
mostrava a grenha das axilas; ele, tambm, parecia no dar por
isso, eras todo do livro que lia  luz de uma vela pousada no
criado-mudo.
E os assuntos de suas conversas materializavam-se
completamente. J s discutiam interesses prticos, arranjos de
vida e convenincias domsticas: "Era preciso arranjar um
jardineiro, que viesse uma vez por semana cuidar das plantas e
limpar os tanques. - Era preciso chamar o homem do gs para
consertar tal candeeiro que no dava boa luz. - Era conveniente
alugar uma criada que soubesse lavar; porque a ladra da lavadeira
trocava as camisas e encardia a roupa, que fazia lstima!"
E,  vezes, na intimidade dessas conversas, criticavam os atos de
Mme. Brizard e do Coqueiro; censuravam-lhes umas tantas
coisas, como, por exemplo: a negligncia destes para com o
Csar. "O pequeno ia por um tal caminho, que, se no abrissem
os olhos, havia de amargar mais tarde! - Que diabo custava ao
Janjo arranj-lo a em qualquer casa de comrcio ou, pelo
menos, faz-lo aprender um ofcio?...Em casa mesmo j lhe
podiam ter metido nas unhas a carta do ABC e j lhe podiam ter
ensinado alguma coisa...Mas Lol no se queria incomodar! E
seno, vissem o que se passava a respeito de Nini; outra fosse a
boa da me, que as pobre rapariga no levaria semanas e
semanas l na casa de sade, sem ter uma pessoa que olhasse
por ela."
Eram sempre deste teor os motivos de sua conversa. Amlia, no
obstante, fazia-se muito ligada aos menores interesses do amigo:
queria saber o que ele gastava por fora, com quem estivera;
reprovava-lhe certas relaes, certas companhias "que no
punham ningum pra diante", e aconselhava-o a que se no
descuidasse de

outras que lhe podiam ainda vir a servir; pregava-lhe sermes a
respeito de economias. "O mundo estava cheio de espertos: ele
que desconfiasse de todos; cada um s procurava chamar a brasa
para a sua sardinha!" Queria estar a par de como iam os negcios
do amante na provncia. "Se o dinheiro ficara em boas mos; se
no havia risco de uma quebra ou de alguma ladroeira". E muito
egosta, muito mulher, muito agarrada ao que lhe pertencia, desde
Amncio at ao p de suas gavetas, fazia justamente como fazem
os scios comerciais que parecendo tratar dos interesses
abstratos de uma firma, esto mas  tratando dos prprios
interesses.
Outras vezes boquejavam sobre os conhecidos, sobre as pessoas
de amizade. Uma noite, em que , durante o sero da varanda, se
conversou muito a respeito de Hortnsia, Amlia, j no quarto, em
fralda, com um joelho dobrado em cima da cama, enquanto tirava
grampos da cabea e os arremessava para o velador, disse, como
se continuasse um pensamento:
- Ela, fim de contas, no passa de uma mulher como as
outras!...Lol e Janjo.  que, quando gostam de uma pessoa
tiram tudo dos outros para enfeit-la!
- Quem? D. Maria Hortnsia? Perguntou Amncio, procurando
num livro o lugar em que na vspera deixara a leitura. E, depois de
um movimento afirmativo da rapariga:
- No, o Coqueiro tem razo - a mulher do Campos  uma
excelente senhora. Muito honesta!
- Ora!  uma mulher como as outras...sustentou Amlia, galgando
a cama por cima do amante, para se aninhar ao lado da parede.
- Como as outras, como? Em que sentido?
- No  l essas purezas que a querem fazer! No  nenhuma
santa!
- Ests enganada, filha! A Hortnsia  uma mulher muito sria!...
- Quando no se ri...
- Pelo menos at aqui, que me conste, ningum ainda se animou a
dizer nada de sua conduta!
Amlia, ento, possuda de um rancor instintivo de classe, de uma
surda antipatia de mulher suspeita por mulher honesta,
desencadeou os seus argumentos e as suas razes. Trouxe a
lume conversas inteiras, que bispara na tal noite do exame.
"Amncio via caras e no via coraes!...Aquele - meu bem pra
c, meu bem pra l, - que todos notavam entre o Campos e a
mulher, era s dos dentes para fora! No ntimo, Hortnsia
detestava o marido! Achava-o muito bom homem,  verdade,
muito generoso, no podia se queixar de que lhe faltasse nada, -
boa mesa, boa casa, criados pra servir, teatros, bailes, seu bom
carro, seu vestido de preo, - sim senhor! Mas s ! Quanto a
carinhos - nicles! A respeito de certos confortos de que uma
mulher precisas, - era uma misria! s vezes, passavam-se meses
e meses sem que o marido a procurasse! O pobre homem andava
l com os seus negcios, coitado! E a doida, em lugar de
conformar-se com a sorte, punha a boca no mundo e eram
queixas e mais queixas pra frente! Que ela, Amlia, no soubera
de tudo isso, por parte deste ou daquele - escutara com seus
prprios ouvidos!"
- Pois bem, ainda me ajudas!...volveu Amncio, tomando extremo
interesse pela conversa, - ainda me ajudas, porque, se  como
dizes, o bom comportamento de D. Hortnsia torna-se muito mais
digno de admirao!...
- Sim!...Retrucou a rapariga ironicamente. - Tambm acho bom,
mas moro longe! - De um, quando mais no seja, sei eu, por quem
o tal "anjo de pureza" seria capaz de dar uma perna ao diabo! E
olha que, se ainda no a deu, foi porque ainda no teve ocasio
para isso! Vontade no lhe falta! Ele que se apresentasse e
veramos!
Amncio quis logo saber quem era o sujeito.
- Um tipo! No o conheces.
- Mas como se chama?
Amlia, depois de alguma hesitao, confessou. - Era o Sousa
Antunes...A tinha!
- Que Antunes? Interrogou Amncio, j mordido.
- O Antunes, homem! Aquele sujeito da Cmara. Alto, de
cavanhaque, aquele de castor branco, que uma vez encontramos
nas regatas, em Botafogo.
- Ah!...J sei, j sei...
E Amncio procurou disfarar a sua contrariedade, fingindo que se
abismava na leitura. E parecia muito preso  pgina, enquanto
alis o seu pensamento buscava descobrir no tipo de Sousa
Antunes os atrativos que cativaram a mulher do Campos. -
Impossvel! O tal Antunes era um vivo talvez de quarenta anos,
pai de filhos, e vulgar, sem talento de espcie alguma, vivendo de
um ordenado oficial de secretaria, nem tendo, ao menos,
qualidades fsicas que inspirassem paixo a qualquer mulher,
quanto mais quela! aquela que no ps dvida em lhe atirar com
uma recusa pelas ventas!...
- No! Isso deve ser histria!...considerou ele em voz alta.

- Qual histria, o qu! Retorquiu logo Amlia. -  louca por ele!
Quando o avista, fica tonta! Eu vi! ( e arregalou um dos olhos com
o dedo. ) Ainda outro dia, no So Pedro- que escndalo! No lhe
tirava o binculo de cima! O que a cegou, sei eu...
- Mas como viste tu a saber disto?...
- Ora! Lol  toda das Fonsecas, que esto agora de cama e mesa
com a Hortnsia!...
- Fonsecas?...
- Aquelas moas esquisitas, aquelas que foram  soire!...
Lembras-te?... homem! as Fonsecas...as de Catumbi!...
A Amncio pouco lhe importavam as Fonsecas, o quer ele
desejava eram mais algumas informaes a respeito do
escndalo. No podia suportar a idia de que Hortnsia, a mesma
Hortnsia que lhe repelira os beijos, tivesse um fraco pelo
Antunes, o Antunes do cavanhaque! - Que horror!

                               ***

E, depois dessa conversa, principiou a freqentar a casa do
Campos com mais assiduidade. Aparecia regularmente duas
vezes por semana e quase sempre se demorava at as horas do
ch.
- Mas Hortnsia - qual! No atava, nem desatava. Era sempre a
mesma criatura incompreensvel; sempre aquela mesma
ambigidade, a mesma dvida, o mesmo querer e no querer!
Hoje - Um sorriso de esperanas; amanh - uma frieza
esmagadora; depois - ora muito coloridos de ternura, ora lulados
de orgulho; to depressa altiva e sobranceira, como suplicante e
humilde; to depressa risonha como triste, generosa como sovina,
dando com uma das mos para tomar logo com a outra.
O rapaz impacientava-se: - Fossem l compreender semelhante
mulher! Um dia - toda condescendncia, toda interesse por ele, no
outro - gestos desabridos, ameaas, palavras duras . - Sebo! - J
passava a debique! No fim de contas no valia a pena!
Mas o ladro da mulher tinha uns olhos to doces, uns decentes
to brancos, uma pele to viosa!..."No senhor! Era preciso
acabar com aquilo! Ele estava fazendo um papel ridculo!..."
E deliberava no pensar mais na mulher do Campos. "Que diabo!
Se se queria divertir, comprasse um boneco de engonos!..."
Quando , porm , dava por si no dia imediato, j os passos o
tinham conduzido para a casa do negociante.
Entraria, mas l dentro havia de ser forte, inabalvel! E trepava
pelas escadas, imaginando o improvisar um namoro com a
Carlotinha, estudando os assuntos de que teria de usar na
conversa, calculando os efeitos que a sua afetada indiferena
devia produzir no esprito da caprichosa. Bastava, porm, um
sorriso de Hortnsia,, uma palavra mais terna, um gesto mais
amoroso, para o fazer ficar cado, desarmado, seguro como
nunca.
- Era o diabo!
Voltava para casa furioso, atirando com as portas, respondendo
de m vontade s perguntas que lhe dirigiam.
Amlia o estranhava, sem dar contudo, a perceber coisa alguma.
Apenas lhe perguntava, alis como sempre, onde estivera e,
quando o rapaz dizia secamente "Com o Campos", ela fazia:
- Ah!...
E no tocava mais em semelhante coisa.
Uma noite ele entrou ainda pior que das outras. No quis ir 
varanda, meteu-se no quarto, abriu um livro e a ficou, junto 
secretria, com a fisionomia fechada sobre a pgina.
Todavia, seu pensamento trabalhava: "Era preciso acabar com
aquilo, custasse o que custasse! Era preciso definir as posies! -
Ou a mulher do Campos se explicava, ou ele no poria l mais os
ps!"
E resolveu que o melhor seria escrever-lhe uma carta enrgica,
decisiva, exigindo um "sim" ou um "no". Fosse a resposta qual
fosse, contanto que viesse, contanto quer Hortnsia
desembuchasse por uma vez!
Mas no queria escrever enquanto Amlia no pegasse no sono. -
Ele bem sabia o quanto era a rapariga desconfiada e fina. S
quando a pilhou quieta e presumiu que j estivesse dormindo, foi
que se animou a minutar a carta.
Frases e frases desesperadas e cheias de fogo acavalavam-se
umas pelas outras, falando em martrios infernais, em suplcios
dantescos e terrveis aniquilamentos. E Amncio, no seu
epicurismo estrepitoso e brutal, declarava que "j no podia
suportar as meias promessas, os dbios sorrisos e as lentas
torturas que ao sangue recalcado lhe impunham as atitudes
perplexas de Hortnsia. Preferia a dor por inteiro, completa, de um
s golpe. Ela que tomasse uma resoluo, que despachasse! Se
lhe no convinha o amor que ele propunha, declarasse-o com
franqueza: - ficaria o dito por no dito! E, assim, escusavam de
prosseguir naquele encarniamento desabrido, de

cujo oscilante resultado as dvidas e incertezas o acabrunhavam e
consumiam, mais dolorosamente do que tudo que pudesse haver
de terrvel e cruel em uma soluo desfavorvel!"
Quando deu por coreto e limado o que escrevera, tirou a limpo
uma cpia, sobrescritou-a e, para que Amlia no descobrisse
nada, escondeu todos os corpos de delito no fundo de uma das
gavetas da secretria. Depois, como se tivesse alijado um novelo
da garganta, respirou desafrontadamente, amorteceu o bico da
gs e, abafando os passos e desfazendo-se em cautelas, foi
meter-se nos lenis, muito empenhado em no acordar a
amante.
No levou dez minutos a cair no sono.
Ento, Amlia, ergueu-se, ainda com mais cuidado do que ele se
recolhera, foi p ante p  secretria, tirou a carta e, depois de
guard-la em lugar seguro, tornou de novo  cama, e desta vez
adormeceu deveras.

                               ***

Leu-a precatadamente no banho, s oito horas da manh,
enquanto esperava que o tanque de mrmore se enchesse.
Amncio ainda ficara no quarto.
Ela, j despida, encostada ao rebordo da banheira, os ombros
curvos, uma perna sobre a outra, a cabea descada molemente
para os combros polposos do seio, tinha em uma das mos a
pequena folha de papel e, de tal modo a fitava, que parecia
disposta a consumi-la com o brilho de seu olhos.
Aquela carta a revoltava muito; no por ele, mas por si mesma;
no pelo afeto que teria ao estudante, mas pelo ressentimento de
seu amor-prprio ofendido. No lhe podia sofrer a vaidade que um
homem, a quem, por merecer, ele fizera tudo que estava em suas
mos; um homem por quem lanar em juzo jogo todos os
recursos de sua feminilidade; um homem por quem barateara todo
o valimento do seu corpo, tivesse nimo de desprez-la por outra
mulher!
E, com o olhar imvel sobre a nudez oriental de seus membros, a
boca entreaberta, o colo palpitante, Amlia se concentrava toda na
idia de uma vingana completa, to completa, to grande que lhe
atulhasse o rombo cavado no seu orgulho e mulher trada.
A gua, que escorria da torneira com um trapejar montono,
punha no ambiente desagasalhado do banheiro uma impresso
ainda mais fria de umidade e desconforto; e aquele nu destacava-
se ali como uma bela esttua desprezada. Sua carne tersa e
macia contraa-se, empinando os lbulos do peito e enrijando a
vermicular protuberncia dos quadris.
Nisto, uma abelha voejou  roda da cabea de Amlia, tentando
pousar-lhe nos cabelos; ela agachou-se toda, fugindo logo num
movimento medroso de caa que se assusta. Em seguida, puxou
a toalha do cabide e ps-se a dardej-la contra o dourado
importuno.
Foi uma luta. O inseto fugia; ela trepava-se  borda do tanque,
equilibrando-se, ora num p , ora no outro, segurando-se 
parede, vindo, recuando, a despedir para todos os lados golpes
perdidos da toalha.
Mas a abelha no se deixava prender. Ia e revinha no ar,
zumbindo, a sacudir as sua trmulas asas de escumilha; at que o
sol, por uma frincha do telhado, veio busc-la numa aresta de luz,
ainda mais dourada do que ela.

                               ***

Nessa ocasio, Amncio, no quarto, perdia a cabea,  procura da
carta.
- Pois se eu a guardei aqui, com estas minutas!...resmungava ele
sozinho, depois de ter j desarrumado toda a gaveta.
Imaginar que Amlia desse com ela, no ! no era possvel! No
descobriria o lugar, onde Amncio, to previdentemente, sepultara
a maldita carta; alm disso, quando ele se meteu na cama, j a
pequena dormia a bom dormir e, pela manh bem a viu acordar e
escafeder-se para banho...Que diabo teria ento mexido ali?...As
portas ficavam sempre fechadas por dentro!...Supor que tivesse
guardado o demnio da carta em outra parte...mas como? Se a
deixara justamente dentro das minutas, e as minutas l
estavam?...
Mas Amlia vinha de entrar no quarto ao p.
-  Amelinha! Viste por acaso por a alguma carta?...perguntou o
rapaz indo ao seu encontro.
- Que carta? Fez ela com o ar mais calmo e mais natural deste
mundo.
- Uma carta que nem  minha!...Guardei-a naquela gaveta, -
desapareceu!...agora no sei que contas preste ao dono!  uma
entalao! Uma verdadeira entalao! Queixava-se o rapaz
convictamente.
- Mas , onde a puseste?
- Na gaveta da secretria; estou-te a dizer!

- Ento deve estar l. Procura bem.
- J vi. No est!
- Pois aqui no entra mais ningum...Eu c por mim, no mexo
nunca nos teus papis, e ainda nem abri, uma vez sequer,
qualquer dessas gavetas...Se puseste a carta a, a deve estar por
fora!
- Qual est o qu! J despejei a gaveta! J remexi tudo.
E a desordem em que se achava o quarto dizia isso mesmo.
- Ento no sei...concluiu Amlia, sacudindo os ombros. E
continuou tranqilamente a enxugar os cabelos, cujo servio havia
interrompido para atender s perguntas do amante.
- Mas a carta tambm no podia voar! Declarou este em tom
spero.
- Sei l! Replicou a outra. - Comigo que no a tenho...isso afiano!
Diabo! Praguejou Amncio, sem se poder dominar. Pois, nem uma
miservel carta posso ter nessa casa?! Arre! Que inferno!
- Inferno so esses modos que tens ultimamente! De certo tempo
para c  esta boniteza ! Parece que falas ao Sabino! Outra que
sabe!...quem sabe se tenho aqui algum senhor?!...
- Est bom! Basta!
- Basta v ele! Seu atrevido! Quero saber que culpa tm os mais
com os sumios que levam as cartas, para ouvir improprios
destra ordem!
- Eu no me dirigi a ningum! Sebo! Falo c comigo! Creio que ao
menos tenho o direito de zangar-me quando entender!
- Sim, mas  que os outros tambm no esto dispostos a aturar
esses repeles a todo o instante!
- Pois que no aturem!
- Malcriado! Agora, por qualquer coisinha  isso que se v!
- Qualquer coisinha, no! berrou Amncio. -  que ontem pus aqui
uma carta (soltou um murro na secretria) 3 e a carta
desapareceu! Irra!
- Mas quem  que te podia vir aqui tirara a carta, criatura de
Deus?! Perguntou Amlia mais branda, encaminhado-se para o
amante, a modos de querer cham-lo  razo.
- No sei! O fato  que a pus aqui, e ela c no est!
- H de estar, homem! No a encontras agora porque j no tens
cabea, mas, logo que te acalmes, hs de descobri-la...
- Mas onde?! J corri tudo!
- Deixas estar; eu me encarrego de procur-la assim que sares.
- Mas  quer eu precisava lev-la comigo!  negcio urgente!
Amlia, como em resposta  ltima frase do rapaz, abaixou-se
sobre os papis espalhados no cho e comeou a examin-los,
um por um.
- No est a! Observou Amncio zangado, a passear de um lado
para outro. - J revistei tudo isso mais de cem vezes! Furtaram a
carta, no tem que ver!
Amlia j no respondia e continuava, muito afoita, a esquadrinhar
o que havia pelo quarto.
- Se me lembro perfeitamente que a meti naquela gaveta, ao
fundo, dentro destas minutas!...Acrescentou Amncio, depois de
um silncio colrico.
- Mas quando a trouxeste?...disse Amlia, sem tirara os olhos do
que rebuscava.
- Ontem  noite.
- Mas eu no te vi com ela...
- J estavas dormindo, quando a pus na gaveta.
- Quem sabe se ficou naquela algibeira?...
E a manhosa, com um vislumbre, largou tudo de mo para correr a
examinar a roupa do cabide.
-  filha! Eu no estrava bbado quando me recolhi! observou
Amncio.
E saiu para se lavar, traando furioso lenol em volta do corpo,
num gesto melodramtico.
Quando tornou ao quarto, Amlia j havia arrumado as gavetas e
dispunha sobre a cama a roupa que o rapaz devia vestir  volta do
banho.
- Ento?...perguntou ele , ao entrar.
- Nada! volveu elas, com admirao na voz.
- Com efeito! Isto contado no se acredita!...Rosnou Amncio,
enfiando as meias.
E gritou para fora:
-  Sabino! Olha essas botas, moleque!
Amlia, ao lado, metia-lhe os botes numa camisa engomada.
E depois , a escovar-lhe o palet no corpo, quando o estudante j
estava pronto:

- E a carta, de quem era?...
- Do Campos, respondeu ele, sem hesitar.
E saiu. Amlia acompanhou-o pelas costas com um riso de asco.

                                ***

E logo que se viu s, tirou do seio o seu furto e releu-o mais uma
vez.
- Que devia fazer daquela carta?...como se devia servir daquela
arma?...Denunciar o infame? - atirar-lhe  cara a prova de sua
vilania e nunca mais o procurar para nada, ou devia simplesmente
fingir que no sabia de coisa alguma, e, em segredo, tomar a
vingana que lhe parecesse melhor?
Despedi-lo por uma vez - no convinha! Isso nem por sonhos!
Ficar, porm, eternamente resignada e submissa, tambm seria
asneira!
Seu amor-prprio estava mordido e sangrava. O procedimento
desleal de Amncio assumia no tribunal egostico de seu esprito
ignorante e mal-educado as propores jurdicas de um crime, de
um monstruoso abuso de confiana, um estelionato. No podia
conformar com a idia daquela tremenda injria, lanada contra os
seus direitos de mulher nova e bonita.
- Canalha! Murmurava consigo, a esmoer o fato. - Bem me dizia o
corao!...Agora, o que precisavas que te fizesse, sei eu! Ah! Mas
descansa que hs de pagar com lngua de palmo! Para no seres
co, meu safardana!
Foi-se porm, todo o dia, sem que Amlia deliberasse o destino
que deveria dar  carta. S na manh seguinte apareceu-lhe uma
resoluo.
Foi ter com o mano, chamou-o de parte e entregou-lha.
- V isto, disse.
Coqueiro abismou-se logo desde as primeiras palavras: "Minha
adorada e incompreensvel Hortnsia".
- Que vem a ser isto?...Perguntou ele intrigado.
- L! Respondeu ela.
E, enquanto o irmo devorava o que vinha escrito:
- V tu s a hipocrisia daquele sonso!...
- Ele j sabe que esta carta est em teu poder? Interrogou
Coqueiro depois da leitura.
- Qual! Nem pode descobrir!
- Ainda no deu pela falta?
- J. Zangou-se um bocado, arrepelou-se, mas afinal creio que se
convenceu de que a tinha perdido.
- E agora o que tencionas fazer disto?
- No sei...Que achas tu?...
- Acho que por ora no convm fazer nada!
- Calar-me?!
- Por ora, decerto! Esta carta pode vir a servir-te de muito , mas 
preciso que, em primeiro lugar, aparea a ocasio. Se quiseres,
deixa-a comigo, que eu sei o destino que lhe devo dar.
E guardou-a no bolso, depois de um gesto aprobativo da irm:
- Ele a teria escrito de novo e feito chegar s mos de Hortnsia,
sabes?...
- No sei, mas posso ver.
- Bem. Em todo o caso, no te ds por achada! Nem uma palavra
a este respeito! Precisamos dar tempo ao tempo...podes, todavia,
ficar desde j tranqila, que o que tem de ser - traz fora! A justia
no se fez para os ces!...
-  por isso mesmo que eu no confio muito na tal justia!
Observou a rapariga.

                                XVIII

Mas, no fundo, Joo Coqueiro principiava a "cismar com o
negcio". Segundo os seus clculos, a irm, por aquela poca, j
deveria estar pejada: circunstncia esta que daria oportunidade a
um escndalo, de antemo, preparado, forando Amncio a
"reparar sua falta".
E, no entanto, Amelinha "nada de aviar"! O bom irmo sentia at
como um peso na conscincia por haver contribudo diretamente
para aquela situao.
- Era sempre assim!...pensava ele enraivecido. - Se no
precisssemos de um filho,  que os pestinhas haviam de
aparecer a de enfiada!

E o receio amargo de ter sacrificado a menina, talvez sem os
belos resultados que esperava para si e para ela, invadia-lhe o
corao e punha-lhe momentos maus na vida.
Mme. Brizard j no pensava do mesmo modo. Aquela existncia
pronta, inteiramente desocupada, lhe viera muito a propsito. "Ela,
coitada de si! Bem precisava de um bocado de descanso!"
As coisas, de fato, iam-lhe agora admiravelmente: Tinha a sua
mesa boa e farta, um bom quarto de dormir, a mucama para lavar-
lhe e engomar-lhe a roupa, um camarote no teatro de quando em
quando, aos domingos um passeio  cidade, e l uma vez por
outra uma soire em casa de alguma amiga. "Ah! No se podia
comparar a existncia que levava agora com a peste de vida que
curtira na Rua do Resende!"
'E que ento no havia a menor folga; no se podia arredar p do
servio! E todo o dia reclamaes! E todo o dia - o banho morno
de fulano! O chocolate de beltrano! Este queria ir sem pagar a
conta ; o outro se entendia no direito de dizer desaforos porque
pagava! Apre! Assim tambm no era viver! Seu corpo h muito
tempo pedia aquele repouso! Se continuasse a labutar como
dantes, - credo! - estourava por a um dia, esfalfada!
E, com medo de perder a "pepineira" cercava Amncio de
adulaes. Tinha-o na conta de um patro, de uma amo; com
direito a todos os carinhos e desvelos. Assim, jamais o
contrariava, nunca lhe opunha censuras. - Aquilo que o rapaz
fizesse estava sempre muito bem feito!
No seu entendimento mercantil de locandeira, Amncio no
aparecia 'como isto ou com aquilo" representava pura e
simplesmente "um bom arranjo" . Ali no havia favores, havia
negcio, ningum ficava a dever obrigaes. - Ele despendia tanto
em dinheiro, mas recebia em carcias e bom trato um valor
correspondente. - Estavam quites!
Apenas, como o negcio era rendoso e agradava a boa mulher,
esta fazia o que estava ao seu alcance por agent-lo o maior
tempo possvel, como de resto, qualquer um procederia com
referncia a um bom emprego. Quanto  posio de Amlia, Mme.
Brizard a dava por natural e coerente. No via na cunhada uma
vtima ou coisa que o valha, mas to-somente um membro
solidrio naquela empresa, enviando os esforos de sua
competncia para o comum interesse da associao.
Isto, j de deixa ver, era o que pensava a francesa, mas no o que
ela expunha; de sorte que o marido ficou muito espantado,
quando, falando sobre a necessidade de tratar do casamento de
Amlia com o hspede, lhe ouviu dizer:
- Homem...para falar com franqueza...acho que o melhor  deixar
seguir o barco como vai!...
- Como vai!...
E o Coqueiro engoliu a frase indignado:
- Ora essa! Tu, com certeza, no ests falando srio!
- s vezes, quem tudo quer, tudo perde!...sentenciou a mulher.
- Mas que diabo quero eu?! Retrucou aquele. - Eu no quero
seno o que  de justia! Quero apenas que eles se casem!
A outra, para quem o casamento de Amlia no trazia vantagens
imediatas e podia, alis, comprometer o estado feliz das coisas,
saltou logo com uma bateria de opinies contrrias:" Coqueiro
faria muito mal em precipitar os acontecimentos! Naquela situao
o mais razovel e o mais prudente era sem dvida esperar! A
natureza no dava saltos! As coisas haviam de atingir a um bom
resultado, sem ser preciso lanar mo de meios violentos!...
- Mas  que ele nos pode escapar!...argumentou Coqueiro.
- No creias! Retorquiu a velha com um gesto arraigado na
experincia.
- Mas filha, vem c! - No vs como o Amncio est ultimamente?
J no  o mesmo! Amelinha j no tem sobre ele domnio de
espcie alguma! O maroto j no pensa nela,  todo da Hortnsia!
- E que tem isso! O que tem que ele farisque a Hortnsia?! Est no
seu direito! -  moo, tem dinheiro!
- Ora essa!...exclamou de novo o Coqueiro, ainda mais indignado
que da outra vez. - O que em isso?!...
E cruzando os braos:
-  muito boa!...
Mas tornou logo :
- Tem, que ele deve uma reparao  minha irm! Tem , que ele,
apaixonado pela Hortnsia, pode virar as costas  pobre menina e
abandon-la no estado em que a ps! - Desonrada, perdida! "Que
tem isso?! "Ora faa-me o favor!
- Tolo! Disse a francesa com um riso cheio de filosofia, cuja
tranqilidade contrastava com as irritaes do marido. - Tolo! Bem
se v que no conheces os homens!...pois acreditas l que o
Amncio despreze a rapariga por ter agora um capricho pela
outra?...No sabes que a nicas mulher capaz de prender o
homem  aquela com quem ele convive dia e noite; aquela com
quem ele se habituou; aquela que j lhe conhece as fraquezas, os
ridculos, as pequeninas misrias da intimidade?! Abandon-
la!...Digo-te mais: - Hortnsia  at necessria! Deixa

que ele a persiga, que ele a conquiste  fora de mil sacrifcios e
de mil sofrimentos; deixa que ele a possua, que a tenha inteira na
mo! Deixa, porque ele h de voltar, e voltar farto!...Meu amigo,
paixo  fogo de palha! - no dura! Nas ocasies de fadiga e
abatimento  com o amorzinho de casa que a gente se acha! E
fica ento sabendo que, para um homem amar deveras uma
mulher,  preciso que ele se tenha j desiludido com muitas
outras! Tristes de ns, se assim, no fosse! H maridos que, ao
voltar de suas correrias, apaixonam-se pelas mesmas esposas, a
quem dantes s chegavam por obrigao!
E a francesa velha, saboreando o silncio que cava ra no
adversrio, concluiu depois de tomar flego:
- O rapaz quer, por graa, dar cabeadas?...pois deixe-as dar!
Que ele, quando partir a cabea, h de fazer justia  tua irm.
Este fato da mulher do Campos, cr tu, foi uma providncia, foi um
atalho que se abriu nos teus planos!

                               ***

E o fato  que o Coqueiro acabou por concordar com a mulher.
"Amlia, desde que se convertesse numa necessidade para a vida
de Amncio, este, com certeza, seria o mais interessado em fazer
dela sua esposa; por conseguinte, agora o que convinha era que a
rapariga tambm ajudasse de sua parte, empregando todo o jeito
e boa vontade de que pudesse dispor; devia mostrar-se cordata,
simples nos seus gostos, bem arranjadinha, amiga do asseio,
honesta, digna, enfim, de um marido!"
E dominado por esta idia, aconselhou logo  irm que se fizesse
meiga com o "noivo", dcil, boa companheira e fiel principalmente,
fiel quanto possvel, que todo o futuro dela, bom ou mau, s disso
dependia!
Mas a rapariga, com um a pontinha de desnimo, contrapunha-lhe
o feio procedimento de Amncio para com ela naqueles ltimos
tempos. Apontou as cenas de altercao que mais a humilharam;
disse as frases grosseiras que ouvira do amante, as ameaas que
recebera, as palavras que lhe escaparam, a ele, na febre das
contendas; palavras, onde se enxergavam claramente o fastio e a
m vontade!
- No faas caso! Discreteou o irmo. - Isto no vale nada!...Fecha
por enquanto os olhos a todas essas coisas! No convm o menor
espalhafato antes que o tenhas seguro de ps e mos! Nada de
espantar a caa!... Lembra-te, minha rica, de que, no estado em
que te achas, s ele te poder proporcionar uma posio legtima
e definida !
Depois desta conferncia, o Coqueiro ficou mais tranqilo. Agora,
a sua maior preocupao era o sobrado da Rua do Resende . - J
l se iam meses, sem que o conseguisse alugar; o diabo do prdio
era grande demais para a famlia e, na disposio em que
estavam os quartos, s mesmo podia servir para casa de penso.
Nesta conjuntura, resolveu alug-lo a varias pessoas; mas, para
isso, tinha de fazer obras e faltava-lhe um homem de confiana,
que estivesse disposto a ir para l e tomar conta de tudo. - Ah! Se
no fora a famlia!...ningum mais se encarregava disso seno o
prprio Coqueiro! E f-lo-ia at por gosto!
Encontrou , porm, o seu homem num velho conhecido,
empregado no correio e que, j em algum tempo, tomara a seu
cargo, nas mesmas condies, a casa de um outro amigo.
Chamava-se Damio - bom rapaz, ativo e zeloso. Estava talhado
para a coisa.
O Damio, mediante a faculdade de no pagar a parte que
ocupasse na casa, comprometia-se a cobrar o aluguel dos outros
inquilinos e entreg-lo pontualmente ao senhorio; ite, obrigava-se
a fiscalizar a conservao do prdio a pregar escritos quando
houvesse cmodos desabitados e administraria enfim o servio da
pessoa que se encarregasse de fazer a limpeza dos quartos, de
varrer os corredores, encher os jarros e moringues, tomar conta da
chavaria e ter olho sobre quem entrasse e que sasse.
Para estes ltimos cuidados arranjou-se um homenzinho meio
corcunda, portugus, esperto e rafeiro como um rato um pouco
falador, mas muito experimentado naqueles servios. Coqueiro
dar-lhe-ia alguma coisa por ms e um canto da casa para dormir.
"Uma pechincha!"
Fechado o negcio, tratou o proprietrio de dividir a sala de visitas
e a varanda do sobrado em pequenos repartimentos de tabique,
forrados de papel nacional.  intil dizer que neste ponto foi
indispensvel a interveno pecuniria de Amncio, que ficou por
conseguinte com direito sobre uma parte dos rendimentos do
prdio.
E tambm no  menos intil declarar que o provinciano, nem de
longe, sentiu jamais o cheiro da tais rendimentos.

                                ***

Mas o certo  que as obras se fizeram, e a clebre casa de
penso de Mme. Brizard, outrora to animada e concorrida,
transformou-se num desses melanclicos sobrades de alugar
quartos, que se observam a cada canto do Rio de Janeiro e onde,
promiscuamente, se aninha toda a sorte de indivduos, mas de
indivduos que j foram alguma coisa ou de indivduos que ainda
no so nada.
A, as mais belas e atrevidas iluses vivem paredes-meias com o
mais denso a absoluto ceticismo. Velhos bomios, curtidos nos
venenos e todos os vcios e no segredo de todas as misrias,
encontram-se diariamente , ombro a ombro, com os visionrios
estudantes de preparatrios.
 nessas praias desamparadas  ventania da sorte que a
sociedade costuma arrevessar o destroo dos que naufragaram
nas suas sua guas, mas  da tambm que ela pesca s vezes
novas prolas para p o seu diadema. H de tu - homens de todas
as nacionalidades, sujeitos devida misteriosa, solteires libertinos
e neutralizados pelo venreo, artistas completamente
desconhecidos que se imaginam vtimas do meio, e supostos
talentos que vivem para amaldioar a fortuna dos que
conseguiram v3encer na vida.
Quase todos eles tm na sua vida um fato, uma poca, uma coisa
extraordinria, para contar: um, apresenta a honra de lhe haver
morrido nos braos tal homem clebre; outro, diz que foi amante
da senhora condessa de tal; outro afiana e jura ser o verdadeiro ,
se bem que obscuro, promotor e tal acontecimento histrico; outro,
revela um romance de amor que lhe cortou a carreira, mas que o
imortalizar em vendo a luz da publicidade; outro, confia numa
inveno, " o seu segredo", um projeto mecnico, ou industrial ou
econmico -poltico ; outro, no aceita emprego nenhum do atual
governo, e espera a ocasio de "pegar numa espingarda e fuzilar
as velhas instituies de seu miserando pas"; outro, enfim, ( e so
os menos raros) tm apenas para exibir em honra prpria a
circunstncia de algum parentesco ilustre.
Ah! No se encontram a notabilidades de nenhuma espcie, mas
sim parentes. Este ,  sobrinho de tal poeta ilustre; aquele , irmo
do ministro tal, que deu o nome a tal rua; estoutro, cunhado ou
primo em terneiro grau do glorioso artista Fulano dos anzis.
E os tipos, quando lhe tocam nisso, enchem-se de orgulho, como
se participassem das glrias do festejado parente; pelo menos,
ningum os apresenta a qualquer pessoa, sem acrescentar logo,
com assombro: " senhor! Por quem ...no me confunda!..."
 tambm desses viveiros sombrios e malcheirosos que surgem
certas figuras que, s vezes, nos espantam na rua, - tossicar
dentro de um sobretudo enorme, um xale - _manta em volta do
pescoo, um bengalo entre os dedos e na fisionomia um ar
melanclico e ao mesmo tempo irritado.
 da, desses quartos silenciosos, midos e tristonhos, como
sepulturas vazias, que surgem com o seu passo inaltervel e
pousado os sinistros aranhes, que vemos passear
estranhamente pelos jardinas pblicos, ao sol das boas manhs
de inverno.
Coitados! So em geral homens sem meios de vida, protegidos
por algum figuro qualquer, de quem, ou foram colegas na
academia, ou ainda continuam a ser parentes com a mais cruel
pertincia. Quando falam desse protetor feliz e rico no se animam
a dizer mal, mas  sua fisionomia acode invencvel sorriso cheio
de velha blis acumulada e sfrega por transbordar. Uns vo
regularmente comer a certas casas comerciais, outros se arranjam
pelas impossveis casas de pasto da Cidade - Nova, os "freges",
onde as refeies no passam de duzentos ris. Alguns tm o
almoo seguro  mesa de um velho amigo de melhores tempos, o
jantar em casa doutro;s sextas - feiras so infalveis nas
comezainas gratuitas dos frades de So Bento. Uns, passam a
noite na jogatina, percorrendo espeluncas, tomando caf nos
quiosques s quatro e meia da manh e ento, durante o dia
seguinte, dormem a fartar; outros, recebem donativos de alguma
irmandade religiosa,  qual se filiaram em pocas de
prosperidade.
So sempre vistos, em horas determinadas, no jardim do Rocio, n
Passeio Pblico, assentados nos bancos de pedra, lendo jornais 
sombra das amendoeiras, s vezes tm ao lado a botina que
descalaram por amor dos calos; so vistos igualmente nos
edifcios pblicos em construo, acompanhando as obras com
interesse, como se estivessem encarregados disso, fazendo
perguntas, ralhando com os operrios, numa necessidade
irresistvel de aplicar, seja como for, a sua atividade desocupada e
vadia. No h motim, no h incinere de rua, por mais ligeiro, em
que eles no intervenham, tomando logo a parte principal na
coisa, repreendendo o agressor, conciliando o agredido, fazendo
enfim acreditar que ali est uma autoridade civil em pleno
exerccio de suas funes.
So violentos quando lhes falam de poltica e s se referem aos
homens do poder com palavres brutais e desabridos; a alguns
nomeiam sempre com alcunhas determinadas e todos os outros,
que ainda no recegbveram o batismo de sua clera invejosa, so
indistintamente "os ladres, os patoteiros, os vis, os traidores, os
capachos do rei"! Atravs dos cerrados negrumes daquela misria
e daquele ressentimento, nada enxergam de bom e de legtimo
O Coqueiro, no obstante, se mostrava satisfeito com os seus
inquilinos e dizia ter encontrado no Damio o "homem que lhe
convinha".

Aparecia por l constantemente; gostava de ver como ia o prdio,
gostava de dar uma vista de olhos pelos cantos da casa, em
silncio, de mos no bolso, e sentia um verdadeiro prazer sempre
que encontrava alguma coisinha par consertar , - algum pedao de
papel solto da parede, alguma rgua despregada, alguma tbua
fora do lugar.
A existncia nunca lhe parecera to corredia e to fcil; s faltava,
para complemento das ventura, que o maante do colega
desembuchasse por uma vez com aquele maldito casamento.
- Ah! ento  que seriam elas!...

                                ***

Mas o "maante do colega" estava bem longe de pensar em
casamento; todo ele era pouco para sofrer a custica
impassibilidade de Hortnsia.
A caprichosa continuava no seu terrvel sistema de no aviar nem
desaviar. Amncio fizera-lhe ir ter s mos uma segunda cpia da
carta subtrada, e ela em resposta aconselhou-o a que no
escrevesse outra, sob pena de entreg-la ao marido.
- Pois que v para o diabo que a carregue! Pensou o estudante,
furioso, e resolveu dar o negcio por acabado.
Com efeito, durante um ms inteiro, nas poucas vezes em que
teve de falar ao Campos sobre questes de interesses materiais,
no passou do escritrio.
- Homem! dizia-lhe o negociante. - Voc s aparece aqui por fruta,
e faz visitinhas de mdico! No h meios de apanh-lo l em cima!
Nenm at j se queixou!
Amncio defendia-se com os seus estudos e com os sobressaltos
em que andava depois das ltimas cartas do Norte.
- Por qu? H alguma novidade?!... perguntou o amigo cheio de
solicitude.
- A velha no est boa!... explicou o rapaz. - Desde que morreu
meu pai, a pobre de Cristo ainda no levantou a cabea!
Confesso-lhe que tenho meus receios, tenho!...
E quedava-se abstrato, a fitar o cho, com a fisionomia paralisada
por uma tristeza vidente e ao mesmo tempo irresoluta.
O outro no sem animava a interromper aquele silncio doloroso e
respeitvel, mas, por fim, lembrou discretamente, com delicadeza,
que no seria m uma viagem  provncia; talvez com isso se
evitasse um desgosto maior... Amncio era a menina dos olhos de
D. ngela...bem podia ser que, s com a presena dele, a pobre
senhora melhorasse!...
O estudante mostrou-lhe a ltima carta da me; e os dois, tendo
ainda conversado com o mesmo recolhimento, vieram a concordar
em que era indispensvel um passeio ao Maranho; Amncio
retirou-se, fazendo j os planos da viagem.
- Oh! exclamava ele por dentro. - Vou! No tem que ver! Vou
definitivamente! E provo quela mulher que no ligo a menor
importncia ao que ela me fez! Hei de provar-lhe que o seu
procedimento em nada me alterou. Que at sigo muito satisfeito e
muito satisfeito e muito senhor de mim.
E via-se j na ocasio da despedidas - frio, indiferente, sorrindo s
lgrimas de Hortnsia . e sua fantasia, gozando do efeito desses
devaneios, armava-lhe, ao sabor da vaidade, cenas muito
espetaculosas, nas quais representava ele sempre o papel mais
brilhante e mais elevado.
Via Hortnsia a seus ps, lacrimosa e msera, suplicando-lhe por
piedade que no se fosse, que a perdoasse, que se
compadecesse de tamanho desespero. "Ela ali estava submissa e
arrependida, pronta a cumpri de olhos fechados as ordens de seu
querido Amncio, do seu senhor, do seu Deus, do seu tudo!"
Ele, ento, com um riso cruel, voltando-lhe o rosto e acendendo
um charuto: "No , filha, tem pacincia! E se insistes, vai tudo s
mos do Campos!..."
Hortnsia, ao ouvir estas palavras, estorcia-se numa aflio
teatral, e logo que Amncio se dispunha a partir, desabava de
costa, quase morta, justamente como as heronas dos romances
que ele devorara aos quinze anos.
Mas a terrvel concupiscncia do nortista, sobrepujando logo a
fantasia do vaidoso, no resistia  tentao de possuir, ao menos
em sonho, aquele belo corpo desfalecido e, como dantes,
comeava mentalmente a despi-lo, pea por pea, at deix-lo em
pleno escndalo da carne.
                               ***

Entrou em casa resolvido a levantar o vo, custasse o que
custasse.
- Sim, era preciso ir! Por Hortnsia, por sua me, por Amlia, por
mera distrao, por tudo! Precisava afastar-se daquele inferno,
onde duas mulheres, como duas sombras, o torturavam; uma
fugindo e a outra o perseguindo. Desde que recebeu a tremenda
resposta de Hortnsia, sentia-se muito nervoso e irascvel; Amlia
suportava-o, sabe Deus como, fazendo milagres de pacincia para
no se afastar dos conselhos que lhe dera o irmo. Quase que j
se no podiam sofrer um ao outro. Alm disso, as cartas de
ngela repetiam-se agora desesperadamente. "Estaria a pobre
me com efeito em risco de vida?..."pensava Amncio.
"Dependeria dele o salv-la? ... E os seus interesses que havia
tanto tempo o reclamavam?... E as saudades da ptria? E os
prazeres que encontraria  volta do primeiro ano acadmico?"
Os prazeres, sim, que Amncio, pelo derradeiro paquete, recebera
em uma das principais folhas dirias de sua provncia a seguinte
notcia:
"MARANHENSE DISTINTO. Acaba de fazer brilhantemente o
primeiro ano de seu curso na Escola de Medicina na Corte o
nosso talentoso comprovinciano Amncio da Silva Bastos e
Vasconcelos, filho de h pouco falecido e sempre chorado
Comendador Manoel Pedro de Vasconcelos, um dos mais
estimados negociantes que foi desta praa, enquanto no
podemos pessoalmente abraar o digno jovem e esperanoso
discpulo de Hipcrates, apressamo-nos a enviar-lhe daqui os
nossos sinceros parabns, futurando em S. S.a mais uma glria
legtima para a nossa Atenas, j to rica, alis, em talentos
privilegiados!"
Ningum poder imaginar o efeito que produziram tais palavras no
esprito presunoso de Amncio. era a primeira vez que ele via o
seu nome em letra redonda, seguido de alguns adjetivos
laudatrios.
Por detrs daquela notcia pressentia o rapaz um paraso de
novas consideraes que o esperava na provncia; antevia o
sorriso das damas, a reverncia dos pais de famlia e a inveja dos
ex-colegas do Liceu.
- No! no podia deixar de ir. O Maranho, naquele momento, e
por todos os motivos, representava para ele uma necessidade
urgente. - Havia de meter a cabea e varar por quantos obstculos
se lhe antepusessem.

                               ***
Amlia ficou estonteada quando o amante lhe deu parte dos seus
projetos de viagem, to calmo e resoluto foi o tom em que o fez;
mas, voltando do primeiro choque, rompeu num grande pranto e
atirou-se de bruos na cama, soluando muito aflita. "Que era uma
desgraada! Que Amncio a queria abandonar, depois de a ter
desonrado e perdido!"
- Eu volto, filha! Disse ele, procurando fazer-se meigo. - Vou tratar
de meus interesses, ver minha me, e volto para o teu lado! No
tenhas receio de que te engane! Eu ainda se quisesse, no podia
ficar por l, j no digo por ti, mas, que diabo! Pelos meus
estudos. Pois acreditas que eu cairia na asneira de abandon-los,
agora que estou to bem encaminhado?...
- No sei! Respondeu a rapariga, erguendo-se rapidamente, com
as feies sumidas na vermelhido do choro. - Voc,  impossvel
que no tenha no Maranho algum  sua espera!... E essa com
certeza no h de ser pobre como eu, no ter a boa-f que eu
tive!...com essa voc no por dvidas nenhuma para casar!...
E voltaram-lhe os soluos, como um temporal que recresce.
- Ests a dizer tolices, filha! Dou-te a minha palavra de honra em
como nunca me esquecerei de ti! Que mais queres?!
- Pois ento casemo-nos e partirs depois!...
- Isso  impossvel! J te disse um milho de vezes! Oh! - Minha
me espera-me h quatro vapores seguidos! Imagina tu como no
estar ela, coitada, com a morte do velho! no hei de agora, em
vez de minha pessoa, lhe apresentar uma carta pedindo licena
para casar!... Que espcie de filho seria eu nesse caso?!
Enquanto a pobre viva se desfaz em lgrimas; enquanto na
famlia tudo  luto e desgosto, o bom do filho pensa em casamento
e, sem dvida, prepara as festas do noivado!" No! gritou ele
energicamente. - Isso no faria eu, nem se me cosessem a
facadas! Pelo menos, enquanto estiver com esta roupa sobre o
corpo...
E sacudiu com fora a aba de seu fraque de lustrina.
- Enquanto estiver com esta roupa, no penso em mulher! nada!
antes de tudo, sou filho! Percebes?! Antes de tudo, tenho de olhar
por minha pobre me, que  muito capaz de morrer se no me ver
ao seu lado!
E foi, cheio de excitao, debruar-se no peitoril da janela, fitando
as plantas do jardim, a roer as unhas.
Houve um silncio. Amlia j no chorava; imvel, apoiando-se ao
espaldar da cama, entontecia a vista contra as ramagens cruas do
tapete.
- Nesse caso, ele que venha ter contigo... disse, afinal, sem erguer
os olhos.
- Ora! Resmungou Amncio, voltando-se vivamente na janela.
- Ou ento iremos ns... acrescentou a rapariga, fazendo um
biquinho de enfado. E depois, com pieguice: - Tenho muito medo
das maranhenses!...
O estudante no respondeu, foi ter com ela, tomou-lhe
meigamente a cabea entre as mos.
- Esta cabecinha!... - disse - esta cabecinha no sei quando ter
juzo!...
E, passando a falar em tom srio, protestou que era at injustia
sup-lo capaz de cometer uma perfdia daquela ordem! Amlia j
devia estar perfeitamente convencida de que ele a amava
deveras; de que ele no seria to mau que a abandonasse, depois
de receber tantos carinhos. Ela que no estivesse a descobrir
perigos, onde nem sombras disso havia!... A tal viagem ao Norte,
no fim de contas, era uma questo de dois ou trs meses, e ele
deixaria uma mesada regular e escreveria por todos os vapores!...
- No acreditas ainda que te estou falando com sinceridade?...
concluiu, a beij-la nos olhos. - Que preciso tinha eu de te
enganar?...
- Sim, creio, creio que por ora assim seja, no h dvida! Mas
tambm estou persuadida de que, logo que passes a barra, tudo
muda de figura!... Nos primeiros dias ainda te lembrars da infeliz
que aqui deixaste, mas depois... com a presena de outras, com
os novos passatempos que te esperam... at hs de perguntar aos
teus botes "como foi que em algum dia chegaste a pensar a srio
neste casamento?..."
- Bem se v que no me conheces!... retorquiu o rapaz.
- No! no! no irs! Sustentou Amlia. - Adoro-te, s meu, no te
quero perder! Ora essa!
- Mas, filha, observou Amncio impacientando-se, - lembra-te de
que  mais decente fazermos a coisa por bons modos... afinal, tu
no me podes constranger a ficar, e, eu, em vez de ir, deixando
um compromisso de cavalheiro, sou capaz de ir, sem deixar coisa
alguma! Ora a tens!
- Hein?! Bradou ela, transformando-se a contragosto. - Cai nessa!
Experimenta s, para veres o gosto que lhe achas!
Amncio respondeu com um gesto desabrido, enterrou o chapu
na cabea, e saiu  toa, sem destino, com uma fria surda a
espezinhar-lhe o corao.

                               ***

Mas, ao voltar, encontrou Amlia no mesmo estado. E a questo
reapareceu  noite, reapareceu na manh seguinte, e todos os
dias, tomando um carter de rezinga permanente.
Amncio perdeu de todo a pacincia.
- Era demais! Sebo! Ele, no fim de contas, no tinha obrigao
nenhuma de aturar semelhante gaita nos ouvidos! Que
mastigao! Arre! Amlia que fosse atenazar o pai!
Ela respondeu possessa, deixando escapar palavres, "Supunha
ter encontrado um homem, mas encontrara um quidam, um
canalha, um desfrutador!"
- Desfrutadores so vocs todos! Percebes tu?! Berrou ele,
colrico. - Desfrutadores -  teu irmo, -  tua madrasta e s tu!
Que s faltam me arrancar a pele! Scia de filantes!
E lembrou o que at a gastara com eles, o que lhes dera, o que
comprara e o que lhe desaparecia dos algibeiras.
- No me ests de graa, no! exclamou, saindo afinal do quarto
como da outra vez.
Desta, porm, quando voltou  casa, vinha com o ar mais
despreocupado que se pode desejar. E, logo que Amlia lhe falou
na questo da viagem, ele respondeu tranqilamente que j no
havia nada a esse respeito. "Resolvera ficar."
A rapariga compreendeu o disfarce e, no dia seguinte, tratou de
prevenir o irmo de que abrisse os olhos, se no queria ver o Sr.
Amncio escapar-lhe por entre os dedos.
Joo Coqueiro ficou de orelha em p.

                               XIX

A pequena tinha toda a razo; Amncio, se parecia resolvido a
desistir da viagem, era porque nessa mesma tarde encontrara o
Paiva e, na sua necessidade de expanso, levou-o para o fundo
de um caf e abriu-se com ele. Contou-lhe as dificuldades que o
afligiam, e pediu-lhe conselhos.
- No h que saber!...disse o consultado. - No h que saber!...A
s vejo dois partidos a tomar: - Ser tolo - ou - no ser tolo!
E, como o outro fizesse um trejeito de m compreenso:
- Tolo, se ficares e - no tolo - se te puseres ao fresco!
- Mas, Paiva, voc ento que devo ir?...perguntou Amncio,
hesitando , a morder as unhas.
- Homem! volveu aquele, - se precisas ir ao Norte, prepara-te
caladinho e vai! Que necessidade tens tu de que a gente do
Coqueiro saiba disso?...Deves-lhe satisfao de teus atos?...Se
no deves,  aprontar as malas

e...por aqui  o caminho! Olha! Deixa-lhe uma carta, muito
delicada, j se v, muito cheia de promessas. "Que voltas, que hs
de fazer, que hs de acontecer!" E, no entanto, vai-te
raspando...Porque estas coisas, filho, assim  que se decidem. E,
quanto aos arranjos da viagem...c estou eu para te ajudar!...
Calaram-se por alguns instantes. Paiva Rocha pediu um novo
cherry - cobler e prosseguiu enquanto o amigo, muito pensativo,
fitava o mrmore da mesa:
- Agora, se ests to embeiado pela sujeita, que no tenhas
nimo de a deixar, isso  outra coisa!...Neste caso, o melhor 
escrever  velha, dizendo-lhe que venha, arranjar um novo
advogado de confiana que se encarregue de teus negcios no
Maranho, - e faze a vontade  pequena - casa-te!
Amncio torceu o nariz com enfado: -
- Qual!
- Ento, filho, que esperas?... perder o amor aos objetos que l
tens, e fazer o que j te disse!
- Mas o Coqueiro no poder toma r alguma vingana?...
- No sejas parvo! Resmungou o outro, bebendo de um trago o
que ainda tinha no copo; e ergueu-se disposto a sair. - Amanh,
s mesmas horas, c estou! Traze o cobre e deixa o resto por
minha conta!
Separaram-se concordes de que no dia seguinte ficariam
depositados na repblica do Paiva os apetrechos da fuga.
Em casa do Coqueiro. Todos,  semelhana de Amelinha, nem de
leve mostravam suspeitar de coisa alguma; pareciam at mais
tranqilos e satisfeitos. Nem um gesto de ressentimento, nem uma
palavra indiscreta que os denunciasse. Tudo era paz e bem-
aventurana.
Reapareceram as primitivas noites de amor, como boa estao
que volta carregada de flores. Os dois amantes nunca se
possuram to satisfeitos um do outro e nunca se patentearam to
convictos da mesma felicidade. No empenho comum de se
enganarem, cada qual redobrava de carinhos e meiguices;
enquanto por dentro os coraes lhes bocejavam, aborrecidos e
fatigados.
O dia da viagem chegou sem novidade alguma. Amncio levantou-
se como das outras vezes, apenas um pouco mais cedo. Olhou
por um momento Amlia que ainda dormia, toda sumida nos
lenis, vestiu-se cautelosamente para no a acordar; depois foi
`varanda, bebeu caf e saiu em ar de passeio.
No Largo do Machado tomou um carro e bateu para a repblica do
Paiva.
No encontrou o colega, havia j sado. - Devia estar  sua espera
com a bagagem, no cais Pharoux.
Amncio mandou tocar o carro para l. E,  proporo que se
aproximava do mar, crescia-lhe por dentro um vago sobressalto de
impacincia e de medo
- Anda! Gritou ao cocheiro, espiando repetidas vezes pela
portinhola e apalpando de instante a instante o bilhete da
passagem que tinha no bolso.
Estava comovido, principiava a sentir pena de deixar a Corte;
apareciam-lhe saudades das boas noites com Amlia, das
patuscadas com os amigos. E um mundo de recordaes formava-
se e transformava-se atrs dele, fugindo, desaparecendo como
sombras que se esbatem.
Para disfarar a impresso desagradvel de tais mgoas,
procurava embriagar-se com a idia das aventuras que o
esperavam na provncia, grupando na fantasia tudo aquilo que o
pudesse interessar de qualquer modo; e compunha, e construa,
inventava episdios, cenas, dramas inteiros, nos quais lhe cabia
sempre a principal figura. E, depois de bem mergulhado nos seus
devaneios, depois de bem envolvido na alacridade de seus sonhos
de glria, o Maranho aparecia-lhe risonho e brilhante como a
ltima expresso do que h de melhor sobre a terra
Mas, na ocasio em que se apeava, um tipo mal - encarado,
olhando por cima dos culos, a barba grisalha, um tom geral de
porcaria no seu velho fato de pano preto, nas sua botas
alcacanhadas, no seu chapu de plo cheio de manchas
amarelas, aproximou-se dele e, com voz enxuta e morfanha,
intimou-o "a comparecer imediatamente em presena do delegado
de semana na secretaria de polcia". Era um oficial de justia.
- Mas que desejam de mim?...perguntou o estudante,
empalidecendo e procurando o Paiva com os olhos.
- Eu no tenho nada com a polcia!
E recuou dois passos.
- O senhor est intimado! Repetiu secamente o outro, e, em voz
baixa, disse a dois sujeitos que se haviam adiantado: - Cerca!
Cerca o homem!
Ento aqueles avanaram logo, jogando o corpo num p s, o
chapu para trs, um grosso porrete na mo.
- Comigo  onze! Exclamou um deles, muito canalha, a cuspilhar
para os lados.
- Mas por que me prendem?!...perguntou o estudante, sentindo-se
tolhido.
- So coisas!... responderam-lhe, fazendo-o entrar no carro.
Amncio ainda procurou descobrir o Paiva ; depois, azoinado pela
gentalha que se reunia em torno dele, saltou para a almofada,
perseguido sempre pelos trs sujeitos.
O oficial segredou alguma coisa ao cocheiro, e o carro deu volta e
rodou em sentido contrrio aso cais.

Amncio cobriu o rosto com o leno e principiou a soluar.
                              ***

Coqueiro, desde a preveno que lhe fez a irm, no se descuidou
mais um instante de vigiar a sua presa: segui-lhe os passos,
farejando, at o momento em que Amncio tomou o bilhete de
passagem para o Norte.
Ento, correu para  casa do Dr. Teles de Moura.
O Teles era um advogado velho, muito respeitado no foro; no
pelo carter, que o no mostrava nunca, nem pela sua cincia,
que a no tinha; nem tampouco pelos seus cabelos brancos, que a
estes nem ele prprio respeitava, invertendo-lhes a cor; mas sim
pela sua proverbial sagacidade, pelas suas manhas de chicanista,
pela sua terrvel figura de raposa velha, pelos sues olhinhos
irrequietos e matreiros, pelo seu nariz  bico de pssaro e pela
sua boca sem lbios, donde a palavra saa seca e penetrante
como uma bala.
O passado do Teles era toda uma legenda de vitrias judiciais;
atribuam-lhe anedotas mais antigas de que ele; muito processo se
anulou naquelas unhas aduncas e tamandu; muito criminoso
escapou s penas da lei por entre as malhas das sua astcia;
muito inocente foi parar  cadeia ensarilhado nas pontas de seus
sofismas.
Para ele no havia causas ms; em suas mos qualquer processo
se enformava ao capricho dos dedos como uma bola de miolo de
po.
E o irmo de Amlia sabia de tudo isso perfeitamente quando lhe
foi bater  porta.
Seriam ento nove horas da manh, a raposas almoava.
Coqueiro esperou um instante e, s terminado o barulho dos
pratos, animou-se a tocar a campainha.
Apareceu um moleque, tomou o recado no corredor e pouco
depois trouxe a resposta. "O amo estava muito cheio de
ocupaes naquele dia, no falava com pessoa alguma. Coqueiro
que voltasse noutra ocasio."
Mas Coqueiro recalcitrou. "Esperaria...Tinha que falar ao Dr.
Teles, custasse o que custasse. Tratava-se de uma causa
importantssima!"
Veio afinal o doutor, palitando os dentes, o ar muito ocupado, os
movimentos de quem tem pressa.
- Que era ? O que desejavam?
Coqueiro, com a voz alterada, os gestos dramaticamente
desesperados, disse que ia ali buscar proteo e justia. "Era
pobre, sim, mas estudioso e trabalhador. Sua vida a estava, -
limpa! Podia at servir de modelo! - Casara-se na idade em que os
rapazes em geral s pensam nos prazeres e nas
loucuras!...Adorava a famlia; sim! adorava, porque a famlia era o
bem nico de que ele dispunha na terra! Tinha uma irm, inocente
e indefesa, a quem at a servira de pai e de tutor..."
O advogado deixou escapar uma tossezinha de impacincia.
- Pois bem, senhor doutor! Exclamou o outro, puxando com ambas
as mos, contra o peito, o seu chapu de feltro. - Pois bem! Essa
menina, que era todo o meu orgulho, que era como o documento
vivo do bom cumprimento de meu dever...essa menina, que
eduquei sob os maiores sacrifcios...essa pobre menina...
- Que fez? Perguntou o velho muito calmo. - Arribou de casa?...
No senho, acaba de ser vtima da maior traio, da mais
degradante maldade, que...
- Mas, afinal, o que houve?...interrogou o doutor, fugindo s
preliminares.
- Foi desvirtuada por um rapaz, um colega meu, que , h coisa de
um ano, hospedei, por amizade, debaixo de minhas telhas!...
- E ele? Perguntou o advogado, sem se comover.
- Ele j est de passagem comprada para o Maranho e foge
amanh mesmo, se no houver uma alma reta e caridosa que lhe
embargue a viagem.
- Ela ficou pejada?
- No senhor.
-  menor?
- Tem vinte e trs anos, respondeu o queixoso, triste porque sua
irm no tinha menor idade.
- Est o diabo!...Resmungou a raposa; espetando os dentes com o
palito. - E ele?
- Ele tem vinte e um.
- Feitos?
- Feitos, sim senhor.
- Bem.
E acendeu um cigarro que levara a preparar lentamente.
-  o diabo!...repisava. - No se pode fazer nada, sem a
verificao do fato... o diabo!!
E calaram-se ambos. O velho a pensar; o outro, de cabea baixa,
o aspecto infeliz, a choramingar baixinho.

- Ele tem recurso? Perguntou aquele afinal.
-  rico, bastante rico, respondeu o Coqueiro, sem tirara os olhos
do cho.
- Emancipado?...
- Totalmente. rfo de pai!  at scio comanditrio de uma
importante casa comercial. Tem para mais de quatrocentos contos
de ris.
- Bem. Arranja-se a queixa - crime. Olhe! Deixe-me a o seu nome,
o dele, o da vtima, o dos competentes pais, se os tiverem, as
respectivas moradas, profisses, etc., etc. Enfim a substncia da
queixa...
- O senhor doutor acha ento que...
- Veremos! Veremos o que se pode fazer!...No perca tempo -
escreva.
Coqueiro escreveu prontamente, interrompendo-se de vez em
quando o para pedir informaes.
- 'St direito! Sussurrou o advogado, correndo os olhinhos pelas
folha de papel que o outro lhe acabava de passar. - Pode ir
descansado. V.
E seu todo impaciente estava a despedir a visita. Esta, porm,
fazia no dar por isso e desejava mais esclarecimentos; queria
saber ao certo o tempo que deitaria aquela questo. "Se era de
esperar que Amncio cassasse com a vtima; se havia recursos na
lei para o perseguir, etc., etc. "
O velho palitou os dentes mais vivamente. "Que diabo! Um
processo era um processo! Tinha de percorrer todos os
competentes sacramentos! No se chegava ao fim, sem passar
pelos meios!...Amncio podia furtar-se  citao, esconder-se; os
oficiais de justia eram to fceis de ser comprados!...to
ordinrios!...vendiam-se por qualquer lambujem, por um relgio,
por um pouco de dinheiro!...
E principiou a encarecer a causa, grupando termos jurdicos,
apontando dificuldades. Sua voz transformava-se ao sabor
daquela terminologia especial. "Em primeiro lugar tinham de
apresentar uma queixa perante o Juiz de Direito do distrito
criminal. Deferida a petio, intimar-se-ia o indiciado para a
audincia que se designasse. - E os interrogatrios? E a
pronncia? E os recursos?...Enfim havia de se fazer o que fosse
possvel!...
- E por enquanto...acrescentou o chicanista, consultando
apressado o relgio- no tenho de meu nem mais um segundo!
E despedindo o outro com um aperto de mo:
- Olhe! Procure-me logo mais na polcia, ao meio-dia. Estou l 
sua espera. Pode ir descansado. Adeus!
E empurrando-o brandamente:
- No deixe de ir, hein?...Meio-dia em ponto! Adeus! Desculpe!
Coqueiro saiu, mastigando agradecimentos.
Estava agora mais tranqilo; - a fama do Dr. Teles de Moura
enchia-o de esperanas radiosas. "Sua causa no podia cair em
melhores mos!"

                              ***
E a verdade  que ele, industriado pela raposa velha, obteve um
mandado de notificao, obrigando Amncio a comparecer na
polcia, imediatamente, para investigaes policiais, e peitou o
oficial de justia e arranjou dois secretas e, afinal, o amante da
irm foi conduzido  presena do delegado de semana e da
levado  deteno, donde s sairia para responder ao primeiro
interrogatrio..
O advogado requereu corpo de delito na ofendida e, para a
seguinte audincia, o comparecimento dos outros dois inquilinos
que, por ocasio do crime, moravam na casa de penso, - O Dr.
Tavares e o guarda-livros.
No inqurito, duas testemunhas fizeram-se ouvir contra Amncio;
um taverneiro das Laranjeiras - bicho gordo, cabeludo, a pele cor
de telha e dono de uma venda que encostava os fundos com os
da casa de Amlia, e um alferesinho de polcia, noutro tempo
vizinho do queixoso em Santa Teresa e agora morador do casaro
da Rua do Resende, - Homenzinho magro, pobre de sangue,
olhos fundos e a boca devastada por uma anodontia horrorosa.
Amncio , que ainda no conhecia de perto o que vinhas a ser "um
processo" e estava longe de imaginar as tricas e os ardis de que
costumam lanar mo os litigantes para defender ou acusar um
pobre - diabo que a justia lhe atira s unhas, ficou pasmo,
quando, na ocasio de assinar os atos e termos, leu a matria do
fato criminoso que lhe argam.
O alferes declarou em substncia que: "na noite de 16 de julho do
ano tal, pela uma hora da madrugada, estando em Santa Teresa,
no sto que ento ocupava, ( o qual era mstico ao sto de uma
outra casa onde, viera a saber mais tarde, residira Amncio ) ,
ouviu da partirem gemidos angustiados e uma voz fraca, de
mulher, a dizer: Solte-me! Solte-me! No me force! E que tomado
de curiosidade, trepara-se ao muro do quintal e pusera-se a

espreitar para a casa do vizinho, e, ento, percebera distintamente
que um homem violentava uma rapariga; e que depois cessaram
as vozes e s se ouviram suspiros e soluos abafados".
O taverneiro depunha que: "naquela mesma noite, estando
casualmente de passeio em Santa Teresa, ouvira, ao passar pela
casa onde ento residia Joo Coqueiro com a famlia, uma
altercao de duas vozes, na qual se destacava uma de mulher
que chorava, implorando piedade e suplicando, por amor de Deus,
que a no desonrassem" .
E tudo isso estava perfeitamente de acordo com que j havia
declarado o Coqueiro. Dissera este que: "nessa mesma noite se
recolhera s trs horas da madrugada, pois estivera at ento em
Botafogo, na companhia de seu colega Firmino de Azevedo, e
que, ao entrar em casa, ouvira leves gemidos no quarto da irm e,
chamando por esta da varanda e perguntando-lhe o que tinha, ela
respondera que - no era nada, apenas havia acordado s voltas
com um pesadelo; mas que ele, Coqueiro, apesar dessa
explicao, ficou muito sobressaltado e ainda mais, quando,
depois de acordar a esposa, que dormia profundamente, e
perguntar-lhe se houvera em casa alguma novidade durante a sua
ausncia, lhe ouvira dizer que - at s nove horas da noite podia
afianar que nada acontecera, mas que, da em diante, no sabia,
visto que, sentindo-se quela hora muito incomodada, se havia
recolhido ao quarto com seu filho
Csar e, como usava gua de flor de laranja para os
padecimentos nervosos, supunha ter essa noite medido mal a
dose e tomado demais o remdio, em virtude do estranho e
profundo sono que se apoderou dela at o momento em que o
marido a chamara. - Por conseguinte, das nove horas da noite s
trs da madrugada, Amncio e Amlia haviam ficado em plena
liberdade".
E mais: "que , no dia seguinte quela noite fatal, Amlia no quis
sair do quarto e que ele, indo ter com a irm e perguntando-lhe se
sofria de alguma coisa e se precisava de mdico, notou-lhe certa
perturbao, certo constrangimento e um grande embarao na
resposta negativa que deu; e que ela, todas as vezes que era
interrogada, fugia com o rosto para o lado contrrio e abaixava os
olhos, como tolhida de vergonha; e que, examinando-a melhor, lhe
descobrira sinais roxos nos lbios, nas faces, e pequenas
escoriaes no pescoo, nas mos e nos braos; e que , ento
fulminado por uma suspeita terrvel, exigiu energicamente a
revelao de tudo que ase passara na vspera durante a sua
ausncia, e que ela, empalidecendo, abrira a chorar e, s depois
de muito resistir, confessou que fora violentada por Amncio , mas
que este prometera, sob palavra de honra, em breve reparar com
o casamento a falta cometida".
Mme. Brizard confirmou o que disse o marido a seu respeito.
Amncio, porm, logo que foi novamente interrogado, negou: 1. -
Que conhecesse as duas testemunhas deponentes contra ele;2. -
Que em tempo algum houvesse sucedido o que elas afirmavam;
3. - Que tivesse empregado violncia contra Amlia; 4. - _Que
fizesse promessa de casamento a quem quer que fosse e debaixo
de quaisquer condies. E confirmou: 1._Que em a noite, no de
16, mas de 2o de julho daquele ano, estabelecera relaes carnais
com a queixosa; 2. - Que nessa noite, permanecendo de p o
conchavo de uma entrevista combinada entre eles, Amlia, logo
que a casa se achou de todo recolhida, apresentara-se-lhe no
quarto e a ficara at s cinco horas da manh, sem mostrar
durante esse tempo o menor indcio de contrariedade, e
parecendo, alis, muito satisfeita e feliz com o que se dera, como
se alcanara a realizao do seu melhor desejo; 3.- Que de tudo
isso nada absolutamente terias sucedido, se Amlia no o
perseguisse com os seus repetidos protestos amorosos, com as
suas provocaes de todo o instante, chegando um dia a
surpreend-lo  banca do trabalho com uma aluvio de beijos!
Que no teria sucedido, se todos os de casa, todos!- o irmo, a
cunhada, ela, o Csar, os fmulos, no concorressem direta ou
indiretamente para aquilo, armando situaes, preparando
conjunturas arriscadas para ambos, explanando ocasies
escorregadias, nas quais fora inevitvel uma queda!
E Amncio acrescentou, arrebatado pela correnteza de suas
palavras:
- Nada disso teria acontecido, senhor Juiz, se me no
desafiassem, se me no sobressaltassem os instintos, atirando-a
a todo momento contra mim; se nos no empurrassem um para o
outro, com insistncia, com tenacidade, deixando-nos a ss horas
e horas consecutivas, fazendo-a enfermeira ao lado de minha
cama; pespegando-a todos os dias, todas as noites, diante de
meus olhos, ao alcance de minhas mos, - enfeitada, perfumada,
preparada, como uma armadilha, com uma tentao viva e
constante!
O delegado observou discretamente que Amncio se excedia nas
suas declaraes; mas o auditrio, na maior parte formado de
estudantes, protestava, atrado por aquela setentrional
verbosidade que enchia toda a sala.
Rebentavam j daqui e dali, algumas exclamaes de aplauso. E
a voz do nortista, irnica e crespa no seu sotaque provinciano,
ainda se fez ouvir por alguns instantes, em meio do quente rumor
que se alevantava.
- Ah! Por Deus! Por Deus, que bem longe estava ele de imaginar
um fim to dramtico quela comdia! Bem longe estava de
imaginar que, depois de o escodearem por tantas maneiras; j o
fazendo chefe de uma famlia que no era a sua; j lhe exigindo a
compra de uma casa, exigindo vestidos, jias, carros, dinheiro
para despesas

dirias, dinheiro para a botica, dinheiro para o aougue, para o
mdico, para tudo! - ainda se lembrassem de extorquir-lhe a coisa
nica que at a no haviam cobiado - seu nome! - o nome que
herdara de seus pais!
- Bravo! Bravo! Muito bem!
E a matinadas dos estudantes rebentou com entusiasmo,
sufocando os novos protestos que apareciam. O delegado
reclamava silncio, e Amncio, muito plido, a resta luzente de
suor, tinha os braos cruzados, a cabea baixa, numa atitude
dramtica de altiva resignao.
Findo o inqurito e dada a queixa, o sumrio caminhou sem mais
incidente. Todavia, o provinciano, sempre que era interrogado,
deixava-se arrebatar como da primeira vez.
As testemunhas, com mais ou menos tergiversao, reproduziam
as suas patranhas; concederam-se os dias da lei ao indiciado,
para que juntasse a sua defesa escrita e os seus documentos; e,
afinal, subiram os autos  Relao, onde foi sustentada a
pronncia, e o processo esperou que designassem a sesso em
que Amncio teria de entrar em julgamento.

                               XX

O acidente de Amncio causou enorme impresso nos seus
conhecidos. Campos, ao receber a notcia, ficou fulminado e
atirou-se no mesmo instante para a casa de correo, sem mais
se lembrar de que nesse dia estava cheio de servio at os olhos.
Seu primeiro mpeto foi de repreender severamente o culpado,
verberar-lhe com energia a "ao indigna" que acabava de
praticar; mas pouco depois, veio-lhe uma grande comiserao.
"Porque , enfim, coitado, o pobre moo era ainda uma
criana...naturalmente fraco...e da...Quem sabia l o que teriam
feito para o precipitar naquele crime?...
"Sem saber por que, afigurava-se-lhe que o papel de vtima cabia
mais a Amncio do que ao Coqueiro. Este surgia-lhe agora 
imaginao, como um Satans de mgica que deixou fugir de
repente, pelo alapo do teatro, a sua tnica de bom velho
peregrino.
Seria at capaz de jurar que, a despeito do disfarce, j de muito
lhe havia bispado a salincia dos cornos diablicos por debaixo do
religioso capuz. E pequeninos fastos, que at a jaziam dispersos
e abandonados no seu esprito , vinham, acordando de repente,
justificar semelhante transformao.
- Sim! J em certa poca descobrira no Coqueiro tais e tais
sintomas de hipocrisia; ouvira-lhe tais e tais frase que o fizeram
desconfiar de seu carter!... no tina que ver! - J l estavam as
tais pontas diablicas a espetar o capuz!
E arrependia-se de no haver em tempo desviado o pobre
Amncio daquele perigo: - Andara mal! Devia preveni-lo!...devia
ter dado qualquer providncia a esse respeito!...
E voltando-se contra si:
- Mas, onde diabo tinha eu esta cabea, para no ver logo que um
homem, - que se casa especulativamente com uma velha do feitio
de Mme. Brizard; um homem que consentir  irm receber
presentes e mais presentes de um estranho; um homem que
especula com tudo e com todos, um maroto! - No se mostraria
to agarrado ao rapaz, seno com o propsito firme de lhe pregar
alguma?!...Oh! andei mal! Andei mal, como um pedao de asno!...
E apressou-se a socorrer a 'Pobre vtima"
- Ainda se houvesse a hiptese de uma fiana...reconsiderava ele,
j em caminho das deteno. - Mas qual! O Dr. Tavares, que lhe
levara ao escritrio a notcia do escndalo, dissera-lhe que ""o
crime era inafianvel e que por conseguinte no se podia evitar a
priso!" Infeliz moo! Infeliz moo! Resmungava o Campos , quase
chorando. - Antes nunca ele viesse ao Rio de
janeiro! - Que demnio hei de eu agora escrever  famlia?...E a
pobre D.ngela?! Coitada, como ficar, quando, em vez do filho,
receber a notcia de tanta desgraa?!...Valha-me Deus!
E foi nesse estado que o Campos chegou  Rua do Conde.
Hortnsia no ficou menos impressionada; ao saber do caso
empalideceu extraordinariamente e comeou a tremer toda. Desde
ento se tornou apreensiva e nervosa de um modo lastimvel;
tinha pesadelos, ataques de choro, ameaas de febre e um fastio
enorme.
Carlotinha, que se achava nessa ocasio de passeio em casa das
Fonsecas de Catumbi, foi logo reclamada a lhe fazer companhia.
Em casa do negociante quase que se no falava de outra coisa
que no fosse o processo de Amncio; pareciam todos
empenhados com o mesmo ardor na sorte do "pobre rapaz" Os
caixeiros murmuravam pelos cantos

do armazm e os criados, sempre desejosos de merecer a
ateno dos amos, traziam da rua os cometrrios que ouviam ou
que inventavam sobre o fato.
E o escndalo, como um lquido derramado, ia escorrendo pelas
ruas, pelos becos, penetrando por aqui e por ali, invadindo as
reparties pblicas, os escritrios comerciais, as redaes das
folhas e as casa particulares.
Os jornais comeavam a explor-lo.
Na Academia de Medicina e na Escola Politcnica levantavam-se
partidos. Joo Coqueiro bem poucos colegas tinha se seu lado;
nem s porque lhe cabia na questo o papel , sempre mais
antiptico, de agressor, com em virtude de seu gnio insocivel e
seco. Antigos ressentimentos, que pareciam esquecidos,
ressurgiam agora, aproveitando a ocasio para tirar vinganas;
da,- opinies mal - intencionadas; comentrios atrevidos sobre a
conduta de Amlia, sobre o carter mercantil de Mme. Brizard,
sobre as velhas brejeirices da Ruas do Resende. Uns se
contentavam em fazer conjeturas, outros, porm, tiravam
concluses, e alguns iam ainda mais longe, contando fatos: "Em
tal baile do Mozart", dizia um quartanista de medicina, "estivera
com a irm do Coqueiro, danara com ela duas valsas e desde
ento ficara sabendo de quer fora era a tal bichinha!..."E
seguiam-se pormenores degradantes e revelaes descaradas.
Este, sustentava que o Joo Coqueiro sabia perfeitamente de tudo
que lhe ia por casa e que era at o primeiro a mercadejar com a
irm, como seria capaz de fazer com a prpria mulher, se
houvesse um homem de bastante coragem para afrontar aquele
drago! Estouro, afirmava que lhe no se lamberia com a proteo
do carola Teles de Moura, se no foram as legendria relaes de
Mme. Brizard com o falecido cnego Muniz, ex - redator de um
jornal catlico.
E choviam as insimulaes, as denncias "Coqueiro era um
hipcrita, um jesuta! - Fingia-se muito devoto na escola para
agradar ao professor fulano; defendia a escravido e a monarquia
para lisonjear Beltrano; - Se entrava numa pndega com os
companheiros, no outro dia punha-se a dizer que s ele no se
embebedara e no fizera papel triste! _ se lhe tocavam mulheres,
o velhaco abaixava os olhos e ficava todo estomagado, e debaixo
da capa de santarro, ia fazendo das suas! - Era um co! Um
tartufo!
Toda essa m vontade contra o Joo o coqueiro redundava em
benefcio de Amncio, por quem alguns estudantes pareciam
sentir verdadeiro entusiasmo. Na faculdade de Medicina no se
encontrava um s rapaz em favor daquele; ao passo que este
tinha por si quase toda a Politcnica. Nas duas escolas falava-se
muito em "explorao, em roubo, em piratagem".A cifra dos bens
de Amncio,  medida que passava de boca em boca, ia tomando
propores fabulosas, faziam-na de mil, quatro mil, dez mil contos
de ris. O Paiva era agora requestado pelos colegas, como um
boletim sanitrio que traz os ltimos telegramas da guerra. Por
saberem de sua intimidade com o ru e das visitas cotidianas que
ele fazia  casa de correo, no o largavam um s instante;
cercavam-no, cobriam-no de perguntas "Como estava Amncio, se
triste, abatido, desesperanado, ou se alegre, indiferente,
risonho?!...E a tal Amelinha dos camares?...que fazia/ como se
portava no negcio? - ia visitar o amante? Escrevia-lhe? aparecia
a algum! Comprazia-se com desdita do preso ou era solidria nos
sofrimentos dele?"
Paiva respondia para todos os lados, no tina mos a medir; os
esprito s, porm, longe de se acalmarem com isso, mais se
sofregavam e acendiam. A impacincia tomava o lugar da
curiosidade; um sobressalto febril, de jogo, preava o corao dos
estudantes; os nimos palpitavam na expectativa de um, desfecho
escandaloso. Previam-se, com arrepios de gozo antecipado, o
impudico espetculo dos depoimentos , as brutais declaraes dos
mdicos e todo o cortejo descomposto de um, jri de
desfloramento.
O artigo 222 do Cdigo Criminal l estava pairando nos ares,
cnico e espetaculoso como o flammeum de Nero no banquete de
Tigelino.

                              ***

O Campos, entretanto, no podia descansar com a idia daquela
desgraa. Abandonava tudo, esquecia os prprios interesses para
correr s bancas dos advogados, consultando, propondo defesas;
mais tonto, mais aflito do que se tratasse de salvar um filho.
A situao relacionara com o Dr. Tavares. O qual, um pouco em
represlia ao Coqueiro por hav-lo despedido de casa, sem as
explicaes devidas ao seu alto merecimento, e um, pouco talvez
na esperana de lucros pecunirios, mostrava-se ferozmente
empenhado na questo. Nunca esteve to verboso, to cheio de
entusiasmo e to fecundo em citaes latinas. Viam-no, a cada
passo, em todos os grupos da Rua do Ouvidor, berrando.,
gesticulando sobre o assunto, como se tudo aquilo lhe trocasse
diretamente.
-  incontestvel, exclamava ele a quem lhe caa nas garras, - 
incontestvel que Amncio foi vtima de uma arbitrariedade esse
delegado das dzias que, sem mais nem menos, o mandou
recolher  priso, - prevaricopui! Prevaricou, principalmente
porque Amncio nada mais fez do que desflorar mulher virgem
maior de

dezessete anos, o que, perante a nossa lei, no constitui crime!
Por cons3efguinte, a priso preventiva no devia ser efetuada!
E a sua voz, aguda e sistemtica, repetindo a palavra friamente
obscena da lei, causavas no auditrio o efeito vexativo que nos
produz um cadver nu.
Hortnsia j se escondia no quarto, quando o maante se lhe
pespegava em casa.
- Ah! Ele havia de mostrar a esses advogadozinhos de meia-
tigela, os quais, mal surge um processo andam se oferecendo
como protetores de qualquer uma das partes e comprometendo a
causa!- Ele havia de mostrar o que  dignidade e retido na
justia! E, se no tivesse outro meio, escreveria uma srie de
artigos, que os poria a todos na rua da amargura! Campos havia
de ver!
E, chegando-se para este, em atitude misteriosa:
- Mas o senho, justamente,  que me podia ajudar se quisesse!...
- Ajud-lo?
- Sim! Ns dois, brincando, dvamos cabo da panelinha do
Coqueiro! Que julga? Sei de tudo! Vi - com estes olhos! Sei,
melhor que ningum, como se arrumou a cilada ao pobre moo!
Campos declarou que , em benefcio de Amncio, estava pronto a
fazer o que fosse preciso.
- Encarrega-se da publicao dos artigos?! Exclamou o advogado.
- Pago-os at quem os fizer...disse o Campos - contanto que isso
aproveitar ao rapaz! Todo o meu desejo  livr-lo o mais depressa
possvel!  uma questo de conscincia!
- Pois ento, meu caro amigo, pode escrever que, ou o seu
protegido no sofrer menor desgosto ou leva o diabo a
caranguejola desta justia de borra! Sou eu quem o afirma!
amanh mesmo trago-lhe o primeiro artigo! Ver!
- Est dito!
Mas , nesse mesmo dia, quando o Campos se dispunha a sair de
casa, para se entender com o Saldanha Marinho, que parecia
resolvido a tomar a causa de Amncio, entregaram-lhe uma carta.
Era o Coqueiro e dizia simplesmente: "Para que V. S.  no
continue iludido e no se sacrifique por quem no lhe merece mais
do que o desprezo, junto remeto-lhe um documento que nos torna
quase companheiros de infortnio e que lhe dar uma idia justa
do carter desse moo perverso, cuja inteno aso lado de sua
famlia era desonr-la como desonrou a minha!"
O negociante desdobrou, a tremer, o papel que vinha incluso, e
leu aquela clebre carta subtrada por Amlia, alguns tempos
antes.
No quis logo acreditar no que via escrito. Uma nuvem passara-
lhe diante dos olhos. "Mas no havia dvida! Era a letra de
Amncio , era a letra daquele miservel, por quem ele ultimamente
passara dias to penoso!
- Que ingratido! E o Campos que o tinha na conta de um rapaz
honesto!...Como vivera iludido!...Agora, dava toda a razo ao
Coqueiro! Calculava j o que no teria feito o biltre na casa de
penso!
As tais pontas de Mefistfeles iam desaparecendo da cabea do
irmo de Amlia para se revelarem na cabea de Amncio.
- E Hortnsia?! Gritou-lhe de surpresa o corao.
- Ah! por esse lado estava tranqilo!...Por ela meteria a mo no
fogo! - Demais, o teor da carta bem claro mostrava que o infame
no conseguira seus lbricos desgnios! - no desespero brutal
daquelas palavras via-se indubitavelmente que a "virtuosa
senhora" fechara ouvidos ao malvado!
Mas, como se podia conceber tanta perversidade e tanta hipocrisia
em uma criatura de vinte anos?!...E lembrar-se o Campos de que,
ainda naquela manh, nem conseguira almoar direito, de to
preocupado que estava com o destino de semelhante cachorro!...
Agora, nem de longe queria ouvir falar de Amncio ou do que a
estie se referisse. As sua boas intenes sobre o rapaz fugiram de
um s vo e o corao esvaziou-se-lhe de repente, como um
pombal abandonado.
Mas ainda l ficou uma idia branda e compassiva que respeitava
ao ingrato; ainda l ficou uma mesquinha pomba esquecida, que j
no tinha foras para acompanhar as revoada das companheiras,
- era a comiserao inspirada pela me do criminoso. Essa ficou.
- Que desgraa da infeliz senhora! Possuir um filho daquela
espcie!
E o Campos, com as mo cruzadas atrs, encaminhou-se
lentamente para o segundo andar, em busca da mulher.
No a acusou; no lhe fez de leve ima pergunta de desconfiana;
apenas disse, pondo-lhe a carta defronte dos olhos:
- Mira-te neste espelho.
Hortnsia ficou lvida.

- V tu em que eu me metia!...acrescentou ele. - Defender aquele
miservel! Calculo quanto no te incomodaste, minha santa!
E beijou-a na testa.
Ela sacudiu os ombros numa expresso de confiana na prpria
virtude: - O marido a conhecia bem, para que pudesse recear uma
deslealdade de sua parte!
Logo, porm, que lhe escapou da presena, sentiu uma grande
vontade de chorar. Correu ao quarto, fechou-se por dentro, e
atirou-se  cama, abafando os soluos com os travesseiros que se
inundavam.

                               ***

Era um desespero nervoso, uma estranha mgoa por alguma
coisa que ela no podia determinar o que fosse, mas que s se
abrandava com aquela orgia de lgrimas. Sentia gosto em vert-
las, abundantes, fartas, como se as derramasse no fogo que a
devorava.
No obstante, ao receber aquela carta, ainda lhe sobejara
coragem para responder, sem afrouxar nos seus princpios de
honestidade; mas, agora, uma sbita transformao ganhava-lhe
os sentidos e parecia chamar-lhe  cabea as ondas quentes de
seu sangue revolucionado.
- E quem no se revoltaria, pensava Hortnsia, - defronte da sorte
to contrria do lastimvel moo, cujo grande crime consistia
apenas no muito amor que ela lhe inspirara?...Ah! Era isso decerto
o que a enchia de aflio e desalento! - era a desgraa dessa
pobre criatura, contra a qual tudo parecia conspirar, como se um
gnio fantstico e mau a perseguisse! Que seria agora do msero,
sem a proteo do Campos?...Que seria do desgraado, sem esse
ltimo companheiro que lhe restava no meio de tamanhas lutas?...
Violou uma donzela,  verdade! Mas deveriam responsabiliz-lo
por isso?...Seria ele o verdadeiro culpado ou simplesmente uma
vtima?...Falava-se tanto nos costumes de toda aquela gente do
Coqueiro!...rosnavam com tanta insistncia sobre os planos, os
clculos, as armadilhas tramadas ao dinheiro do rapaz!...De que
lado estaria a razo?...E, quando se revoltassem toso contra o
infeliz, teria ela, Hortnsia, o direito de fazer o mesmo?...No lhe
caberia grande parte na culpa de que o acusavam? No poderias
ela, s ela, ter evitado aquilo tudo com um simples palavra de
amor?...Por que , afinal o que lanou Amncio nos braos da tal
rapariga?...Foi a paixo? foi a beleza? Foi o talento? - no! foi
unicamente o despeito! Foi o delrio, o desespero de um corao
repudiado! - Sim! sim! Tudo aquilo sucedera, porque ela o repelira;
porque ela, a imprudente, fechara-lhe os braos, quando o
desgraado, louco de paixo, lhe suplicava por um bocado de
amor, um pouco de caridade!...
Antes tivesse cedido!...
E embravecia-lhe o pranto. - Antes tivesse, porque, se assim
fosse, o pobre moo, com certeza, no pensaria na outra! - Mas o
infeliz, coitado! viu-se aflito, enraivecido, sofrendo , saber Deus o
qu! E sucumbiu, ora essa! Sucumbiu como aconteceria a
qualquer nas mesmas condies! Sucumbiu por desalento, talvez
por vingana, talvez por no ter outro remdio - No!
definitivamente sentia muita pena daquele desditoso rapaz!
Amava-o agora. Seu espirito atrasado e muito brasileiro descobria
nele uma vtima da fatalidades amorosas, e esse prisma romntico
emprestava ao estudante uma irresistvel simpatia de tristeza, uma
deliciosa atrao de desgraa.
Hortnsia sonhava-o "plido, melanclico, desprezado no fundo de
umas priso, tendo por leito - um catre abominvel, por nica luz -
uma trmula aresta do sol que se filtrava pelas grades negras do
crcere",.
E aquela encantadora figura de prisioneiro, com a cabea
languidamente apoiada nas mos, os olhos midos de pranto, os
cabelos em desalinho sobre a fronte, - a penetrava toda, enchia-
lhe o corao ,num aflitivo trasbordamento de lgrimas.
- Oh! Aquela adorvel figura de vinte anos sofria tudo aquilo
porque a amava! - porque uma paixo insensata lhe entrara no
peito; sofria porque Hortnsia recusaras os beijos que o
desventurado lhe pedira com tanta ansiedade.
Pobre moo! Pobres vinte anos! Dizia ela quase com as mesma
frases do marido. - Mas por que se haviam de ter visto?...por que
se haviam de amar?...
E a mulher do Campos, que at a no sentira dificuldade em
resistir s sedues do estudante, agora, fascinada pela
dramatizao daquela catstrofe que o heroificava, via-o belo,
indispensvel, grande na sua situao especial, conhecido das
mulheres, temido e odiado dos homens, vivendo na curiosidade do
pblico, percorrendo todas as fantasias, sobressaltando todos os
coraes.
E o contraste da sofredora condio em que o vias presentemente
com as atitudes brilhantes que ele outrora estadeara naquela
prpria casa, quando, de taa em punho, espargia a sua bela
palavra quente e sonora, prendendo a ateno de velhos e moos,
dominando, conquistando, - esse contraste ainda mais a
arrebatava para ele com toda a violncia de uma alucinao.

No mais se possuiu, - um desgosto mofino apoderou-se dela;
ficou insocivel e muito triste; entregou-se a longas leituras
msticas, acompanhando com interesse amores infelizes, lentos
martrios da alma, que s terminavam no esquecimento da morte
ou do claustro. Decorou entre lgrimas a carta do ru.
- Como ele me amava! Dizia soluando, - como ele sofrias,
quando arrancou do corao estas palavras , ainda quentes do
seu sangue!
De sorte que, ao lhe comunicar o marido a resoluo de escrever
a Amncio , remetendo-lhe a terrvel carta denunciador
prevenindo-o de que lhe retirava a sua amizade, ela, com uma
agonia a sufoc-la, resolveu tambm escrever ao moo uma carta
que servisse, ao menos, para suavizar o golpe da outra.

                               ***

O estudante, no dia seguinte, recebia na priso as duas cartas.
No se pode determinar qual delas o surpreendeu mais; notando-
se , porm, que a do Campos produziu completo o efeito a que se
propunha; ao passo que a outra, em vez de o consolar,
enraiveceu-o
- Pois aquela mulher ainda no estava satisfeita e queria insistir
nas provocaes?...Ela talvez fosse a culpada nica de tudo que
de mau lhe acontecera! - As coisas no tomariam decerto o
mesmo caminho, se a maldita no lhe fizesse as negaas que fez
e no lhe acordasse desejos que se no podiam saciar! - E
agora?...alm de perder a amizade do Campos, justamente
quando mais precisava dela, havia de suportar a prosa lrica da
Sr.a D. Hortnsia!..."Que estava arrependida, que o adorava, que
seria capaz de tudo por lhe dar um momento de ventura e que o
esperava de braos abertos, logo eu ele se achasse em
liberdade."
Fosse para o inferno com as suas adoraes! Diabo da pamonha!
"Que o esperava de braos abertos!" Era quanto podia ser! Aquilo
at lhe cheirava a debique! Aquilo parecia um insulto  sua
desgarra,  sua terrvel posio!
E chorava, o infeliz chorava como se quisesse vingar nas
lgrimas.
Depois da carta de Hortnsia, a vida se lhe fazia mais escura e
mais apertada entre as paredes da sua priso. Quase que j no
podia agentar a presena do Paiva, do Simes e de alguns
outros colegas que l iam. No meio das sombras,
progressivamente acentuadas em torno dele, s a imagem
tranqila e doce de sua me permanecia com a mesma
consoladora suavidade; sempre aquela mesma carinhosa figura
de cabelos brancos. Aquele corpo fraco, vergado e to mesquinho
que parecia pequeno demais para sustentar tamanho amor.
- Minha me! Minha santa me! Exclamava o preso, quando seu
esprito , esfalfado pelas desiluses, precisava remansear ao
abrigo morno e quieto de um bom pensamento.
- Minha santa me!

                              XXI

Trs meses depois, a Escola Politcnica e a Escola de Medicina
apresentavam o quente aspecto de uma sedio. - Amncio fora
absolvido.
Os estudantes formigavam assanhados como se acabassem de
ganhar uma vitria. O nome do nortista era repetido com
transporte; um grupo enorme de rapazes, capitaneado pelo Paiva
Rocha e pelo Simes, aguardava o colega  sada do jri, para o
conduzir em triunfo ao Hotel Paris , onde havia  sua espera um
almoo e a banda de msicos alemes.
Fora muito extenso o ltimo jri, quarenta horas seguidas; a
defesa de Amncio principiou  meia - noite e acabou s seis da
manh. O advogado, que "estava feliz como nunca", ainda
aproveitou engenhosamente essa circunstncia para afestoar o
remate de seu pomposo discurso ;"No queria que o rei dos astros
se envergonhasse com aquele nojento espetculo de pequenas
misrias! No queria que o sol tivesse de corar defronte de
semelhante tolina! Pedia que se varressem de pronto as
conscincias; que se descarregassem os espritos, para que
limpamente recebessem a esplndida visita da aurora! - A
chegava o dia! A chegava a luz, enxotando os fantasmas
tenebrosos da noite e precipitando-os em debandada pelo
espao!"
" Pois bem! Pois bem, meus senhores! Se ainda permanece nos
vossos espritos alguma sombra, alguma dvida, alguma opinio
vacilante sobre a inocncia daquele pobre mancebo...( e mostrava
Amncio com um gesto supremo) - que essa dvida se apague!
Que essa opinio vacilante se resolva na luz que nos assalta! Que
essa ltima sombra se retire espavorida de envolta com as ltimas
sombras da noite que foge!"
- Bravo! Bravo! Apoiado! Muito bem!
E, no conflito da luz fresca, que entrava pelas janelas do edifcio,
com a luz vermelha do gs que amortecia, as palavras
retumbantes do orador tomavam uma expresso de trgica
solenidade. E os rostos lvidos e tresnoitados iam se esbatendo
nas sombras da sala, como plidas manchas brancas que se
dissolvem.

Ningum sara antes de terminar a defesa; um empenho nervoso
os prendia ali; as palavras do advogado eram aplaudidas com
febre; - todos queriam a absolvio de Amncio.
s nove horas da manh a cidade parecia ter enlouquecido.
Interrompeu-se o trabalho; os empregados pblicos demoravam-
se na rua; os cafs enchiam-se com a gente que vinhas do jri. 
porta das redaes dos jornais no se podia passar com o povo
que se aglomerava para ler as derradeiras notcias do processo,
pregadas na parede  ltima hora.
Por toda a parte discutia-se a brilhante defesa de Amncio de
Vasconcelos: "Estivera magnfica! - Surpreendente! - Uma
verdadeira obra- prima! Uma glria para o advogado Fulano!
"Repetiam-se frases inteiras do imenso discurso; faziam-se
comparaes "Matre Lachaud no e sairia melhor!"
A Rua dos Ourives estava quase intransitvel com a multido que
se precipitava freneticamente para ver sair o absolvido.  porta do
jri, o tal grupo de estudantes capitaneado pelo Paiva, esperava-0
formando alas ruidosas. Tudo era impacincia e sofreguido.
Afinal, apareceu o homem. Vinha muito plido e um pouco mais
magro.
Ouviu-se ento um rugido formidvel que se prolongava por toda a
rua. Os chapus agitaram-se no ar.
- Viva Amncio de Vasconcelos!
- Viv! repetiram os colegas.
- Morram os locandeiros
- Morram os piratas!
Amncio passava de brao a brao, afagado. Beijado, querido,
como uma mulher formosa.
Mas o Paiva e Simes apoderaram-se dele, e, seguidos pelo
enorme grupo de estudantes, puseram-se a caminho para o hotel,
entre as contnuas exclamaes de entusuasmo, que rompiam de
todos os pontos.
Entraram na Rua do Ouvidor. {Por onde passava o bando alegre
dos rapazes, um rumor ardente, ancho de vida, enchia a rua num
delrio de vozes confundidas.
As portas das casa comerciais atulhavam-se de gente; pelas
janelas os dentistas, das costureiras e dos hotis, surgiam com o
mesmo alvoroo, cabeas femininas de todas as graduaes: -
senhoras que andavam em compras, raparigas que estavam no
trabalho, professoras de piano, atrizes, cocotes; e, em todas igual
sorriso de pasmo, olhares incendiados, bocas entreabertas a
balbuciar o nome de Amncio. Baraos de carne branca
apontavam para ele num tilintar nervoso de braceletes.
-  aquele! Diziam. - Aquele moreno, de cabelo crespo, que ali vai!
- Mame! mame! Gritavam doutro lado, - venha ver o moo rico
que saiu hoje da priso!
E flores desfolhadas choviam-lhe sobre a cabea, e os lenos de
renda borboleteavam e iam cair-lhe aos ps, como uma
provocao, e olhares de amor entornavam-se das janelas entre o
ruidoso e pitoresco catassol das mulheres em grupo.
E Amncio, tonto de prazer, caminhava no meio dos amigos,
abraado a um grande ramo de flores naturais, que um preto lhe
acabava de entregar e em cuja larga fita pendente via-se o nome
dele em letras de ouro. Era uma lembrana de Hortnsia.
E o bando crescia sempre. O Largo de So Francisco j estava
cheio e ainda a Rua do Ouvidor no se tinha esvaziado.
Ao passar pela Escola Politcnica, ouviram-se estalar foguetes e
os vivas a Amncio e  Liberdade reproduziram-se com mais
veemncia. Os msicos alemes responderam da porta do hotel
com a Marselhesa. - A vertigem chegou ento ao seu cmulo,
inflamada pela vibrao corajosa dos instrumentos de metal. A
Rua do Teatro, o Rocio e todos os becos e travessas
circunvizinhas j se achavam tolhidas de povo; as janelas do Hotel
Paris destacavam-se embandeiradas e cheias de gente, como nos
dias de carnaval.
E aquela festa, ali, no corao da cidade, tomava um largo carter
de manifestao pblica.
J ningum se entendia com o estardalhao das vozes, da msica
e dos foguetes. Amncio, carregado em triunfo nos ombros dos
colegas, entrou no hotel ao som do grande hino, chorando de
emoo e agitando freneticamente o seu velho chapu de feltro,
desabado e bomio.
Francesas de cabelo amarelo desciam com espalhafato ao
primeiro andar do Paris , para ver de perto o "tipo da ordem do
dia", o belo moo de que todo o Rio de Janeiro se ocupava
naquele momento, - o heri daquele romance de amor que havia
meses apressava tantos espritos e sobressaltava tantos
coraes.
Ele, que at ali parecia sufocado e no dera palavra, como que
despertou s primeiras notas da Marselhesa recobrou de sbito a
sua equatorial verbosidade de brasileiro nortista; acenderam-se-
lhe repentinamente as faces;

os olhos luziram-lhe como duas jias, e a sua voz era j segura e
vibrante quando ao teto voaram as primeiras rolhas de
champanha.
E, de p, dominando a extensas mesa coberta de iguarias, - a taa
erguida ao alto, o corpo torcido em uma posio teatral,
desencadeou o seu verbo apaixonado e brilhante.

                              ***

Entretanto, a essas horas, Coqueiro se dirigia tristemente para
casa. As mo cruzadas atrs, a cabea baixa, as sobrancelhas
franzidas, com o ar trgico de um heri vencido.
Vira e ouvira tudo!
Oculto num botequim, vira passar o bando fogoso dos colegas que
festejavam o amante de sua irm; ouvira os "morra ao locandeiro!
Ao pirata!" ouvira as galhofas, os risos de escrnio, que lhe
atiravam como a um inimigo de guerra. E uma raiva negra, um
desespero surdo e profundo entraram-lhe no corpo, que nem um
bando de corvos, para lhe comer a carnia do corao. Um duro
desgosto pela vida o levava a pensar na morte, revoltado contar o
mundo , contra a sociedade, contra sua famlia, contra a hora em
que nascera.
- Maldito fosse tudo isso! Malditos seus pais! Sua ptria! Sua
convices! Malditas as leis todas que regiam aquela miservel
existncia!
Chegou lvido, sombrio, com os lbios a tremer na sua comoo
mortfera. Um silencio fnebre enchia a casa; dir-se-ia que
acabava de sair dali um enterro. Amlia chorava fechada no
quarto e Mme. Brizard, estendida na preguiosa, tinha a cabea
entre as mos e meditava soturnamente. Sobre a mesa o almoo
h que horas esfriava, esquecido e s moscas.
 que j sabiam do terrvel desfecho do jri: - Amncio estava
livre, senhor de si por uma vez! Podendo ir para a provncia
quando bem quisesse, porque, alm de tudo, nem o dinheiro lhe
faltava!...
- E eles que ali ficassem, a roer um chifre! - sem recursos, e
obrigados a ocupar aquela casa, que era o preo de sua desonra
comum.
- Mas , o culpado foste tu e s tu! Berrou de supeto Mme.
Brizard, erguendo-se da cadeira com um movimento de clera. -
Se me tivesses ouvido, no ficarias agora com essa cara de asno.
"Que tudo quer, tudo perde!" Foi bem feito! Foi muito bem feito,
para que, de hoje em diante, prestes mais ateno ao que te digo!
- Agora- pega-lhe com trapos quentes!
O marido deixou cair a cabea sobre o peito e quedou-se a fitar o
cho. Mme. Brizard, depois de voltear agitada pela sala
acrescentou:
- Se fosses o nico a sofrer as conseqncias de tuas cabeadas,
v! Mas  que ns todos temos de as agentar! agora s quero
ver como te arranjas! Onde vais tu descobrir dinheiro para
sustentar a casa!  preciso ser muito cavalo, para ter a fortuna nas
mos e atir-la pela janela fora! Agora  que eu quero ver! Anda!
Vai arranjar hspedes! V se descobres um novo Amncio! ou
quem sabe se contas viver do que der o cortio da Rua do
Resende?! Fizeste-a bonita; os outros que amarguem!..
Calou-se por um instante, arquejando, mas repinchou logo:
- Olha! Por estes trs meses j podes avaliar o que no ser o
resto! - No h mais um punhado de farinha em casa; a
companhia j ontem nos cortou o gs, porque no lhe pagamos o
trimestre vencido; o ltimo criado que nos restava foi-se h mais
de quatro semanas, dizendo a o diabo; s nos fresta a mucamas,
que  aquele estafermo que sabemos; o Eiras reclama todos os
dias o tratamento de Nini! - E tu!...tu! - sem um emprego, sem um
rendimento, sem nada! - Ento?! ( E ps as mos nas cadeiras,
com um riso abominvel de ironia. ) Ento?! Estamos ou no
estamos arranjadinhos?!...O que te afiano  que no me sinto
nada disposta a tornar a inferno da existncia que curti na Rua do
Resende! V l como te arranjas!
Coqueiro fugiu para o quarto, sem responder  mulher. "Tinha
medo de fazer um despropsito.!
"- Que misria de vida, a sua! Refletia ele. - Nem ao menos a
prpria famlia o consolava! Por toda a parte a mesma
perseguio, o mesmo dio, a mesma luta! - Que seria de si?! Que
fim poderia ter tudo aquilo?! Onde iria cavar dinheiro para manter
os seus?! - E as custas do processo, e as despesas que fizera?! -
O alferes e o homem da venda exigiam o pagamento do que
depuseram contra Amncio, a quem mal conheciam de vista;
aquele o ameaava com um escndalo, se Coqueiro no lhe
"cuspisse pr'ali os cobres ";o outro o abocanhava pela vizinhana,
fazendo acreditar que o devedor era, nem s um caloteiro, como
um bbado!
E no havia dinheiro para nenhuma dessas coisas!
- Um inferno! Um verdadeiro inferno! - Os moradores da Rua do
Resende h que tempos que no pingavam vintm; - O Damio
estava j pelos cabelos para arriar a carga: "No podia mais aturar
semelhante corja!" dizia e contava at que um dos inquilinos lhe
tentara chegar a roupa ao plo por questes de aluguis.

E o Coqueiro viu arrastar-se todo aquele mau dia na mesma
inferneira.
 noite, foi preciso acender velas em substituio do gs
suprimido. Amlia no comera desde a vspera e queixava-se
agora de muitas dores de cabea, nuseas, tonturas de febre e
um fastio mortal; apareciam-lhe por todo o corpo0 pequenas
manchas roxas. Mme. Brizard s abria a boca para fazer novas
recriminaes e praguejar; na sua clera chegara alguns tabefes
ao filho, e este rabujava a um canto, embesourado e casmurro.
- Antes morresse! Antes, mil vezes antes! Repisava o Coqueiro,
sentindo-se esmagar debaixo daquele desmoronamento. - Que
faria agora de uma irm prostituda, e de uma mulher
desesperada?!...
E as horas arrastavam-se pesadas como cadeias de ferro. A casa
mal esclarecida tinha uma tristeza lgubre de igreja deserta.
Afinal, Mme. Brizard foi para a cama com o filho, Amlia parecia
mais tranqila; s o Coqueiro velava, s ele, com o seu desespero
a tritur-lo por dentro.
No podia sossegar um minuto - era deixar-se ir consumindo pelo
sofrimento., at que a dor cansasse de doer e os tais bichos
negros do corao lhe comessem o ltimo bocado de carnia.
Sentia, porm, uma espcie de volpia pungente em reler as
cartas annimas que lhe enviaram durante o dia; encolerizava-se
com isso, mas no podia deixar de as ler, como quem no resiste
a tocar numa parte dorida do corpo.
Trs, nada menos do que trs cartas annimas, e cada qual a
mais insultuosa e mais perversa; no lhe poupavam coisa alguma:
- a vergonha real da situao, o ridculo que havia de o
acompanhar para sempre, a ojeriza que o pblico lhe votava
espontaneamente; tudo l estava; tudo vinha descrito com uma
minuciosidade cruel, e com pequeninas consideraes ultrajantes,
com o terrvel cuidado de quem se vinga.
E, para o efeito ser mis completo, falavam intencionalmente, com
entusiasmo, nas conquistas e nas simpatias do outro, do querido,
do "feliz"! No se esqueciam da menor circunstncia lisonjeira
para Amncio: - o modo pelo qual o receberam ao sair da priso -
os vivas, - as flores desfolhadas sobre ele, - os oferecimentos, - as
declaraes de amor, - os ramilhetes que lhe deram, - os brindes;
tudo, tudo fora metido ali, para ferir, para danar, para moer.
Reconheceu logo quer uma das cartas era de Lcia; as outras
deviam ser de seus prprios colegas ou, quem sabe?...de algum
velho inimigo j esquecido por ele!- Tanta gente sara despeitada
da sua casa de penso!...Ser credor  ser algoz!...exigir
pagamento de uma conta a quem no tem dinheiro  exigir a sua
inimizade eterna! Alm disso, com os seu modos secos e
retrados, ele sempre fora to pouco estimado na academia!...no
tinha, como o "prosa" do Amncio, gnio para agradar a todo o
mundo; no tinha as lbias do outro: no sabia fazer" discursatas
e falaes"a propsito de tudo!...Era um infeliz, que todos
evitavam - um leproso! um lazeiro!
E a dor, sem se resolver nas lgrimas que lhe faltavam,
encaroava-se-lhe por dentro, numa grande aflio.
- Agora, como se apresntar nas aulas?!...Com que cara suportar o
riso sarcstico dos colegas?!...Como resistir  curiosidade brutal
do pblico que o esperava impaciente por cuspir-lhe no
rosto?!...Como passar debaixo daquelas mesmas janelas que
despejaram flores  cabea de Amncio?!...- Amncio! o homem
que dormiu com sua irm!...
E, maquinalmente foi  secretria e tirou o velho revlver que fora
do pai.
Que estranhas recordaes  vista daquela arma! Daquela arma
que na sua infncia o fizera chorar tantas e tantas vezes!...Belos
tempos que no voltam!...
E contemplava distrado os bonitos do revlver - os arabescos de
prata e madreprolas com o braso do velho Loureno Coqueiro
em ouro.
Rica pea! Artstica, bem trabalhada; no se lhe enxergava sinal
de ferrugem, nem desarranjo nas molas. - Tambm, que havia
nisso para admirar se o dono tinha por ela uma espcie de
fetichismo e andava sempre a bruni-la e a azeit-la! Q Era o nico
objeto que lhe falava ainda das extintas grandezas do pai:
Quantas vezes ele no ouvira o pobre velho cavaquear sobre as
alegorias daquele rico braso!...E quantas vezes, a tremer de
medo, no o vira descarregar aquela mesma arma contra uma
laranja que um escravo segurava com a mo erguida!
- Ah! bem que se recordava de tudo isso!...Parecia-lhe ouvir ainda
gritar o pai, quando lhe metia  fora o revlver entre os dedos.
"No! Isso agora hs de ter pacincia! Tu, ao menos, ficars
sabendo dar um tiro!"
E todavia, no fiquei sabendo...balbuciou o filho de Loureno, a
experimentar nos lbios o contacto frio do cano de ao. - No
fiquei sabendo dar um tiro, que, se o soubesse, acabaria aqui
mesmo com esta vida estpida e misservel!...
S eu tivesse nimo...pensou ele, estremecido com a idia da
morte - amanh encontravam o meu cadveres e no ficariam
naturalmente fazendo de mim um juzo to triste e to ridculo! -
Talvez at chegassem a amaldioar o outro e erguessem em volta
de meu nome uma legenda respeitosa e compassiva...
Foi  gaveta, havia l algumas balas, carregou a arma.

- No h dvida,  a melhor coisa que eu poderias
fazer...reconsiderava Coqueiro, imvel, a olhar indeciso para o
revlver que tinha na mo.
Mas era bastante cheg-lo contra a boca ou contra um dos
ouvidos, para que os seus dedos logo se paralisassem e para que
um arrepio muito agudo lhe corresse pela espinha dorsal.
Faltava-lhe a coragem.
Duas vezes ergueu-o  altura da cabea, duas vezes o desviou,
com as mos trmulas e o corpo entalado numa agonia
insuportvel.
-  horrvel! Resmungava ele. -  horrvel!
Ia principiar de novo as tentativas, quando da rua uma forte
matinada lhe prendeu a ateno. Um grupo se aproximava, entre
cantarolas e algazarras de risos.
Eram dez ou doze dos ltimos convivas de Amncio; haviam
passado todo o dia e grande parte da noite a folgazar no Paris;
muitos, como o autor da pndega, l ficaram prostrados pela
bebida, mas aqueles tiveram a fantasia de um passeio matinal ao
Jardim Botnico e meteram-se barulhosamente no bonde.
J no Largo do Machado, um deles, um, que de h muito trazia o
Coqueiro atravessado na garganta , lembrou que seria mais
divertido apearem-se ali e seguirem a Rua das Laranjeira. "A casa
do velhaco era a alguns passos - bem lhe podiam cantar uma
serenata debaixo das janelas!"
A idia foi bem acolhida, e a ruidosa farndola despejou-se pelo
caminho das Laranjeiras numa hilaridade pletrica de bbados.
S pararam defronte da porta de Joo Coqueiro. Atravs das
vidraas e das cortinas de uma das janelas, viram transparecer
dubiamente a trmula morte - cor de uma luz avermelhada.
- Ests dormindo,  Joozinho dos camares?! Berrou
cambaleando o que tivera a idia daquela romaria. - Dorme,
dorme!  assim que fazem os sem - vergonhas de tua espcie!-
vendem a irm e pem-se a descansar no colcho que lhe deixou
o amante!
Seguiu-se um estrupido de gritos e risos:
- Fora! Fora!
- Fiau, fiau!
- Larga essa casa que no  tua, gritou aquele. -  da outra!
Ganhou-a com o suor de seu rosto! - Sai, parasita!
- Sai! Sai!
E espocavam gargalhadas no grupo, e os guinchos sibilantes iam
at o fim da rua :- Fora!
- Fora!
- Fiau
- Sai, co!
- Deixa a casa, que no  tua !- Fora!
- Fora o cften!
- Fiau!
Os vizinhos chegavam s janelas, vozeando furiosos contra
semelhante berraria.
-  o que sucede a quem mora perto de um Joo Coqueiro!
Bradou um da turma.
- Quem mora junto ao chiqueiro sente o fedor da lama! Gritou um
segundo.
- Queixe-se  Cmara Municipal! Acudiu outro.
E formidvel mataco foi de encontro  vidraa iluminada do chal
de Amlia.
Um dos vizinhos apitou e outro despediu um jarro de gua sobre
os desordeiros
Ouvi-se logo o estardalhao impetuoso dos gritos, das
descomposturas e do crepitar dos vidros que se partiam sob um
chuveiro de pedras.
- Morra!
- Morra o infame! bramia a malta , j de carreira para o Largo do
Machado. - Morra o cften!

                               ***

Joo Coqueiro presenciara tudo aquilo, grudado a um canto da
janela, mordendo os ns da mo, os olhos injetados, o sangue a
saltar-lhe nas veias.
- Oh! Era demais, pensava ele desesperado. - Era demais tanta
injria! - Se Amncio estivesse ali, naquela ocasio, por Deus que
o estrangulava!
Abriu a janela. O dia repontava j, mas enevoado e triste. No
havia azul; cu e horizontes formavam uma s pasta cor de
prola, onde vultos cinzentos se esfumavam.

O homem da venda abria tambm as sus portas. Coqueiro
cumprimentou-o, ele respondeu com um risinho insolente,
acompanhado de pigarro.
Uma calea rodejava lentamente ao largo da rua, o cocheiro
vergado sobre as rdeas, o seu casquete sumido na gola do
capoto. Coqueiro fez-lhe sinal que esperasse, embrulhou-se no
sobretudo, enterrou o chapu na cabea, meteu o revlver no
bolso e saiu.
- Hotel Paris! Disse ao da bolia, atirando-se no fundo da
carruagem. O cocheiro endireitou-se sobre a almofada, espichou o
pescoo, sacudiu as rdeas e os animais dispararam, assoprando
grossamente contra o ar frio da manh.

                               ***

Coqueiro enfiou pela escadaria do hotel.
Estava tudo deserto e silencioso; apenas, no salo principal, viam-
se um preto velho e um caixeiro desdormido que, entre bocejos,
se dispunha a principiar a limpeza da casa.
Dir-se-ia que ali passara um exrcito de bbados. Por toda a parte
vinho derramado, copos partidos, cacos de garrafa e destroos do
vasilhame que servira  mesa; o oleado do cho escorregava com
uma crusta gordurosa de restos de comida e vmito pezinhado;
um espelho ficara em fanicos e um aqurio desabara, fazendo-se
pedaos e alagando o pavimento, onde peixinhos dourados e
vermelhos jaziam, uns mortos e outros ainda estrebuchando.
O preto, de gatinhas, em manga de camisa e calas
arregambiadas , procurava desencardir o sobrado com um
esfrego de coco, que ia embeber ao canto da sala numa tina
cheia d' gua; enquanto o caixeiro, a jogar o corpo, muito
esbodegado, erguia o que estava pelo cho e empilhava as
cadeiras sobre as mesinhas de mrmore, ao comprido das
paredes.
- Onde  o quarto do Amncio? perguntou-lhe Joo Coqueiro.
- Amncio?...repetiu aquele, emperrando no meio da sala para fitar
o interlocutor com um olhar morto de sono! - Ah! bocejou. - O tal
moo do pagode de ontem?...
Coqueiro sacudiu a cabea perpendicularmente.
-  c, no nmero dois, mas escusa bater, que ele a no est.
Ficou l em cima, no onze, com a Janete.
E, voltando ao servio: - Se no  coisa de pressa, o melhor seria
procur-lo mais logo...Deve de estar agora ferrado no sono, que
levou na pndega at as quatro e meia!...
Coqueiro voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o segundo andar.
Bateu  porta no n. 11.
Ningum respondeu.
Tornou a bater.
Bateu de novo.
- Qui est l!...perguntou na rouquido do estremunhamento uma
voz de mulher.
- Preciso falar a esse rapaz que a est, o Amncio!
Ouviu-se um farfalhar de panos, chinelas arrastaram, e em
seguida a porta abriu-se cautelosamente, mostrando pela fisga um
rosto gordo, de olhos azuis.
- Qui est l...
Mas o Coqueiro, em vez de responder, afastou a porta com um
murro e atirou-se para dentro do quarto; ao passo que a Jeanete,
esfandogada de medo, desgalgava em fralda o escadaro que ia
ter ao primeiro andar.
Amncio, em uma cama muito cortinada e muito larga, dormia
profundamente, de barriga para o ar, pernas abertas e braos
atirados sobre a desordem das colchas e dos lenis. No cho, ao
lado do escarrador, um travesseiro cado, e em torno, por todo o
desarranjo da alcova, roupas espalhadas.
O Coqueiro olhou um instante para ele, sem pestanejar; depois,
sacou tranqilamente o revlver da algibeira e deu-lhe um tiro 
queima - roupa.
Amncio soltou um ai.
A segunda bala j o no pilhou, mas o irmo de Amlia, abstrato,
pateta, continuava a disparar os outros tiros at que a arma lhe
caiu das mos.
Nisto, como se acordasse de uma vertigem, saiu a correr
tropeando em tudo. No primeiro andara um polcia lanou-lhe as
garras aos cs das calas e o foi conduzindo  sua frente, sem lhe
dizer palavra.
Entretanto, Amncio despertou com um novo gemido e levou ao
peito as mos que se ensoparam no sangue da ferida. Olhou em
torno,  procura de algum; mas o quarto estava abandonado.

Ento, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo
- e uma palavra doce esvoaou-lhe nos lbios entreabertos, coimo
um fraco e lamentoso apelo de criana: - Mame!..
E morreu.

                              XXII
Comeou logo a reunir povo na porta do hotel. Faziam-se grupos;
os reprteres andavam num torniquete; via-se o Piloto por toda a
parte, irrequieto, farisqueiro; e o fato ia ganhando circulao, com
uma rapidez eltrica. Pnico sobressalto quebrava violentamente
a plcida monotonia da Corte; mulheres de toda a espcie e de
todas as idades empenhavam-se com a mesma febre na sorte
dramtica do infeliz estudante, e o Coqueiro, alado pela
transcendncia de seu crime, principiava a realar no esprito
pblico, sob a irradiao simptica e brilhante de sua corajosa
desafronta.
s dez horas da manh j se no podia entra facilmente no
necrotrio, para onde fora, sem perda de tempo, conduzido o
cadver de Amncio, entre um cortejo imenso de curiosos.
Choviam as interpretaes, os comentrios sobre o fato; todos
queriam dar esclarecimentos, explicar os pontos mais obscuros do
grande sucesso. "A bala atravessara-lhe as regies torcicas e
fora cravar-se num osso da espinha", afirmava um homem alto,
elegante, de cabelos brancos, cujo ar empantufado prendia a
ateno dos mais.
Esse homem, que alguns tomavam por um mdico, outros por
qualquer autoridade policial; outros por um jornalista, outros por
um dos professores da faculdade, onde estudava o defunto, no
era seno o Lambertosa - o ilustre - gentleman da casa de penso
da Mme. Brizard.
E, sempre distinto, sempre viajado, pronto sempre a explicar as
coisas cientificamente, agitava a bengala afagando a barriga bem
abotoada, e de pernas abertas, pescoo duro, ia estadeando a sua
"grande intimidade" com o clebre morto; citando fatos, contando
magnficas anedotas que se deram entre os dois.
Ah! Era um moo de invejvel talento! - Boa memria,
compreenso fcil e gosto cultivado. Para a retrica ainda no vi
outro...No, minto - em
Londres, em Londres, confesso que encontrei um outro nessas
condies!...
E punha-se a falar de Londres, e passava depois  Frana, 
Itlia,  Europa inteira, e chegaria at aos plos, se algum
quisesse acompanh-lo na viagem.
Muitos outros dos antigos inquilinos de Mme. Brizard tambm
apareceram no necrotrio. L esteve a plida
Lcia, cheia de melancolia, a fitar o cadver, em silncio, com os
seus belos olhos alterados pelo abuso das lunetas. Agora morava
ela com o seu Pereira em Niteri, numa casa de penso de um
italiano, educador de ces e macacos. Era a terceira que percorria
depois da da Rua do Resende.
L esteve, de passagem, o Fontes, com as suas amostras de
renda debaixo do brao; l esteve o triste Paula Mendes, para
fazer a vontade  mulher, que exigira ver a "vtima daquele grande
co!'; l esteve o Dr. Tavares que parecia tomar cada vez mais
interesse no "escandaloso assassnio". E, quem diria? At l
esteve o esquisito do Campelo que muito dificilmente se abalava
com as questes alheias.
Por toda a cidade s se pensava no "crime do Hotel Paris"; os
jornais saam carregados de notcias e artigos sobre ele,
esgotavam-se as edies da defesa e da acusao de Amncio;
vendia-se na rua o retrato deste em todas as posies, feitios e
tamanhos; moribundo, em vida, na escola, no passeio. E tudo ia
direito para os lbuns, para as paredes e para as colees de
raridades.
Hortnsia, quando lhe constou o terrvel desfecho daquele
episdio que, na sua fantasia romntica, tomava as propores de
um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por uma
febre violenta. Durante esse tempo, o marido procurava na priso
o assassino para lhe oferece os seus servios e pr  disposio
dele o dinheiro de que precisasse. "Coqueiro podia ficar tranqilo -
nada lhe havia de faltar  famlia, nem mesmo a penso de Nini."
E foi em pessoa dar as providncias para o enterro do outro.

                                ***

O funeral atingiu dimenses gigantescas; parecia que se tratava
das morte de um grande benemrito das Ptria.

Por influncia do advogado de Amncio, que era poltico e bem
relacionado, compareceram muitos figures e at alguns homens
do poder. Houve senadores, ministros em vigor, titulares de vrios
matizes, altos funcionrios pblicos, artistas de nome, doutores de
toda a espcie, clubes de todas as ordens, ordens de todas as
devoes, jornalistas, negociantes, empresrios, capitalistas e
estudantes; estudantes que era uma coisa por demais.
A cidade inteira abalou-se, demoveu-se, para deixar passar aquela
estranha procisso de um magro cadver de vinte anos.
Veio muita gente dos arrabaldes. De todos os cantos do Rio de
Janeiro acudia povo e mais povo a ver o enterro. As ruas, os
largos, por onde ele ia, ficavam acogulados de gente; os garotos
grimpavam-se aos muros, escalavam as rvores, subiam s
grades das chcaras; as janelas regurgitavam, como num
domingo de festa.
O caixo foi carregado a pulso , coberto de coroas; no cemitrio
ningum se podia mexer com a multido que aflua.
Um delrio!
E no dia seguinte, descries e mais descries jornalsticas;
necrolgios, artigos fnebres, notcias biogrficas e poesias
dedicadas  "triste morte daquelas vinte primaveras".
E, o que  mais raro, o fato no caiu logo no esquecimento ,
porque a estava o novo processo do assassino para lhe entreter o
calor,  feio de um banho-maria.
Continuavam, pois, as notcias jurdicas; Coqueiro ia se
popularizando, ia conquistando opinies e simpatias; ia aos pouco
se instalando no lugar vago pelo desaparecimento do outro. Mitos
colegas se voltavam j a favor dele; at o Simes - at o Paiva!
O Paiva, sim! que agora , completamente restaurado com as
roupas herdadas de Amncio , deixava-se ver a mido nos pontos
mais concorridos da cidade e, entre as palestras dos amigos,
mostrava-se todo propenso a justificar o ato do irmo de Amlia.
- No!, dizia ele, quando lhe tocavam nesse ponto - no! O
Coqueiro andou bem!...Eu, se tivesse uma irm, fosse ela quem
fosse , faria o mesmo naturalmente!...

                              ***

Entretanto, pouco depois do enterro, no meio do burburinho de
passageiros chegando no vapor do Norte, uma senhora j idosa,
coberta de luto, saltava no cais Pharoux.
Vinha acompanhada por uma mulata, que trazia constantemente
os braos cruzados em sinal de respeito, e por um velho gordo e
bem vestido, cujas maneiras faziam adivinhar que ele ali no
passava de um simples companheiro de viagem.
Como se j tivessem resolvido no escaler o que deviam fazer logo
que saltassem, o velho, mal se viu em terra, chamou por um
carroceiro, deu a este a sua bagagem com o competente
endereo, fez sinal  mulata que seguisse a carroa e, depois de
ajudar a senhora a sair do bote, perguntou, solicitamente, se ela
queria tomar um carro.
A senhora, muito inquieta, respondeu que preferia ir a p,, e os
dois, de brao dado, puseram-se a andar na direo da Rua
Direita.
Essa senhora era D. ngela.
O Campos j lhe havia escrito, comunicando a priso do filho. A
princpio, no se achou com nimo de falar nisso  pobre me;
mas seus escrpulos fugiram totalmente, desde que lhe chegou s
mos aquela terrvel denncia do Coqueiro.
ngela no esperava pelo golpe e ficou a ponto de perder a
cabea. "Como?! Seria crvel?...Seu filho, seu querido filho na
priso, com um processo s costas e sem ter quem lhe
valesse!... Santo Deus! Santo Deus! Que isso era demais para
um pobre corao de me! - Que mal teria ela feito para merecer
to grande castigo?!"
E resolveu seguir para a Corte, imediatamente, no mesmo vapor.
Sentia-se corajosa, capaz de todas as lutas, de todas as
violncias, para salvar seu filho. Esqueceu-se s de seus achaques,
do estado melindroso de seu peito, para s cuidar dele; s pensar
nessas criatura idolatrada que valia mais, no fanatismo de seu
afeto, do que todas as grandezas da terra, todos os esplendores
do mundo e todas a potncias do cu.
- Oh! Haviam de restituir-lhe o filho!...Estava resolvida a atirar-se
aos ps dos juizes, das autoridades, do Imperador, se preciso
fosse, para resgat-lo! _No era possvel que s encontrasse
coraes to duros, que resistissem a tanta lgrima, a tamanha dor
e a tamanho desespero!
No primeiro paquete achava-se abordo, apenas seguida de uma
escrava que, entre as suas, lhe merecia mais confiana.

Mas, agora, pelo brao de um estranho que a no desamparava
por mera delicadeza, ou talvez por compaixo; agora, no grosseiro
tumulto do cais, estremunhada no meio daquela gente
desconhecida - a infeliz sentia-se fraquear. No sabia que fazer, -
se ir em busca do Campos ou correr  toa por aquelas ruas, a
gritar pelo filho, a reclam-lo daquele mundo indiferente que
formigava em torno de sua perplexidade.
E, por mais que se quisesse fingir forte, uma aflio crescia-lhe
dentro e tomava-lhe a garganta. Tremiam-lhe as pernas e os olhos
marejavam-se-lhe de lgrimas.
- Mas V. Ex. no disse que seu filho morava nas
Laranjeiras?...perguntou o velho, compreendendo a perturbao
de ngela.
- Sim, foi para a que ele me mandou dirigir as cartas...Tenho at
aqui comigo o nmero da casa, mas, depois disso, j recebi a tal
notcia da priso , e...
- Bem, interrompeu o outro - o mais certo  irmos at l. - Se no
encontrarmos o rapaz, havemos de achar algum que nos d
informaes.  mais um instante! Eu ainda posso acompanh-la
;no tenho pressa; o melhor, porm, seria tomarmos um carro.
- No, no! respondeu a senhora, sempre inquieta, a olhar para
todos os lados, como se esperasse, por um acaso feliz, descobrir
Amncio , de um momento para outro.
Estavam j na Rua Direita. Ela, de repente, estacou e ps-se a
fitar a vidraa de um armarinho.
- Algum conhecido? Perguntou o velho.
- No.  que estes chapus...tenha a bondade de ver se consegue
ler aquele nome...eu, talvez me enganasse...
O velho leu distintamente"` Amncio de Vasconcelos". -  o ttulo!
Disse. - Eles agora batizam as mercadorias com os nomes que
esto na moda. Algum tenor!
-  singular!...balbuciou a senhora.
- Por qu?
-  esse justamente o nome de meu filho.
- Oh! no h s uma Maria no mundo!...
Mas D. ngela fugira-lhe outra vez do brao para correr a uma
nova vidraa. Eram agora bengalas e gravatas " Amncio de
Vasconcelos" que lhe prendiam a ateno.
Acabavam de entrar na Rua do Ouvidor.
- V?...interrogou ela, muito preocupada e procurando esconder a
comoo. - Ainda!
- Ah! fez o companheiro, j impaciente. - V. Ex. vai encontrar o
mesmo nome por toda parte. -  o costume! Olhe! Se me no
engano, l est o retrato do tal Amncio! Tenha a bondade de ver!
D. ngela aproximou-se do retrato, correndo, e soltou logo uma
exclamao:
- Mas  ele! O meu Amncio!
E comeou a rir e a chorar muito perturbada.
O velho, meio comovido e meio vexado com aquela expanso em
plena Rua do Ouvidor, principiava talvez a arrepender-se de ter
sido to cavalheiro ngela, quando esta, que estivera at a a
percorrer, como uma doida, outros mostradores, arrancou do peito
um formidvel grito e caiu de bruos na calada.
Tinha visto seu filho, representado na mesa do necrotrio , com o
tronco nu, o corpo em sangue.
E por debaixo, em, letras garrafais:
Amncio de Vasconcelos, assassinado por Joo Coqueiro no
Hotel Paris, em tantos de tal."
